segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Divulgando - Money for nothing? Science between Markets and Politics

Open Panel #111
Money for nothing? Science between Markets and Politics
 
Session organizer: Paolo Parra Saiani, University of Genoa, Italy (paolo.parra.saiani@unige.it )
 
Many factors influence a scientist’s choice of research problem: past interests and training, serendipitous yet consequential encounters with new collaborators, expertise, or information, institutional context or disciplinary culture; commercial opportunities, pressures, and commercially related policies can change the composition of scientific research and the choices that guide it. As stated by Agger, “research agendas reflect what gets funded”, so it is no surprise that searching for external funding is having an impact on the research agendas of individual faculty members, as research is being pursued based on donors’ interests. Bourdieu stated that “There is no scientific choice – choice of area of research, choice of methods, choice of a publication outlet, or the choice […] of quick publication of partially verified results (as over later publication of results that are thoroughly checked) – that does not constitute, in one or other of its aspects, a social strategy of investment aimed at maximizing the specific profit, inseparably political and scientific, provided by the field, and that could not be understood as a product of the relation between a position in the field and the dispositions (habitus) of its occupant” (1991: 9-10).
 
This session wants to contribute to the STS discussion on freedom in science, but also to its accountability. In times of “neo-liberal scientism” (Daza: 2012) or ‘academic capitalism’ (Slaughter and Rhoades: 2004), what are the trends in social sciences? Priority will be given to empirical works, based on qualitative or quantitative techniques, that analyze the development of science (in the broad sense: biology, economics, political science, sociology, etc.).
 
Deadline for submission: 29 February 2020
 
Details for submissions and conference website: https://www.easst4s2020prague.org/
 
Feel free to contact me.
 
Best wishes,
 
Paolo Parra Saiani
 
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Paolo Parra Saiani, PhD
Associate Professor in Sociology
PhD in Sociology
Director of the Curriculum in Political Sciences, PhD in Social Sciences
University of Genova - Italy
Department of Political Sciences

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

nota de pesar- falecimento profª Alba Zaluar - Chefia do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos

Universidade Federal Fluminense

Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional

Departamento de Ciências Sociais de Campos dos Goytacazes


Em nome do Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos, venho, por meio desta, manifestar o profundo pesar com o falecimento da Cientista Social Alba Maria Zaluar, professora da UERJ e da UNICAMP. 

A ampla contribuição para as Ciências Sociais brasileiras se traduz em obras como “Desvendando Máscaras Sociais”, “A Máquina e a Revolta”, “Cidadãos não vão ao Paraíso”, “Condomínio do Diabo”, “Da Revolta ao Crime” e “A Integração Perversa” e se estende para a formação de profissionais das Ciências Sociais, ampla interlocução com operadores de políticas públicas.

Seu vigor intelectual caracterizado também em sua tese de Doutorado é responsável por reformar o campo de estudos sobre pobreza e violência no Brasil, tendo se tornado referência obrigatória no âmbito nacional e internacional.

Como seu ex-aluno e membro do Núcleo de Pesquisa das Violências, por ela coordenado, pude testemunhar seu rigor metodológico, sua densidade intelectual, crítica, reflexiva e a densidade da paixão pelas mais variadas tramas que compõem o conjunto das relações sociais.

Campos dos Goytacazes, 20 de dezembro de 2019.

Rodrigo de Araujo Monteiro

Chefe de Departamento de Ciências Sociais de Campos dos Goytacazes

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Exibição gratuita de Bacurau em Campos - Sexta, 20/12




Num futuro não muito distante, moradores de Bacurau descobrem que o pequeno povoado no sertão brasileiro não consta mais no mapa, ao mesmo tempo que passam a ser atacados por inimigos misteriosos. É quando se unem para defender sua terra, honrando a longa tradição de resistências de seus antepassados.
Essa história diz muito sobre o Brasil de ontem e hoje, e não por acaso acabou conquistando público e crítica. Só nos cinemas, o longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles foi assistido por mais de 700 mil brasileiros, tendo ainda recebido Prêmio do Júri na edição de 2019 do Festival de Cannes, além de ter sido escolhido como melhor filme dos festivais de Munique e Lima.
O Cineclube Marighella exibe ‘Bacurau’ (2019) na sexta (20/12), às 19h no Varanda Amarela, promovendo, em seguida, roda de conversa sobre a importância do cinema nacional - principalmente em momento de graves crises sociais como a que o Brasil vem enfrentando – com os professores Elis Miranda, da UFF Campos, e Leo Puglia, autor do livro ‘O Cinema em Pernambuco’.
Agradecemos ao Varanda Amarela e, principalmente, à distribuidora Vitrine Filmes pela parceria nessa exibição que tem entrada gratuita. É só chegar no número 285 da Rua Treze de Maio!  
_Data

Sexta, 20 de dezembro, às 19h
_Local

Varanda Amarela        
Rua Treze de Maio, nº 285

_Evento no Facebook:
PROGRAMAÇÃO
18h – Início do evento

19h – Exibição do filme ‘Bacurau’ (2019) *
21h – Roda de conversa com:

Elis Miranda, Coordenadora do LabCult/UFF. Professora do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento regional, Ambiente e Políticas Públicas - UFF.
Leo Puglia, jornalista, doutorando em Ciências Sociais e autor do livro ‘O Cinema em Pernambuco’.
* Classificação indicativa: 16 anos

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Hoje na Casa de Cultura Vila Maria - Lançamento de "Produção Textual na Universidade" organizado por Jacqueline Deolindo

O livro Produção Textual na Universidade: Práticas Laboratoriais organizado pela professora Jacqueline da Silva Deolindo  foi publicado pela EdUENF  e consiste em textos de três professores destacados – que atuam no Instituto Federal Fluminense (IFF- Campos) e na UFF – Campos -, e de alunos que cursaram a disciplina Oficina de Texto. Os professores convidados compõem com Jacqueline um enredo que vai do significado mais geral do que seja a produção textual à luz da linguística, passando por sua prática específica no ensino superior (graduação e pós-graduação), chegando à culminação desse processo de produção mediante a exposição de como se consolida e realiza a comunicação em revistas científicas.
“O domínio da linguagem escrita, dos gêneros textuais e dos recursos para uma eficiente expressão de ideias, argumentos, sentimentos e experiências diversas através do texto é um desafio para o praticante da língua em qualquer fase da vida e da trajetória escolar. No entanto, é no curso superior e na pós-graduação que as exigências para uma redação de excelência se intensificam, devido às avaliações dissertativas, trabalhos acadêmicos das diversas disciplinas e às produções de culminância dos cursos, no caso artigo científicos, monografias, e, mais tarde, na pós-graduação, dissertações e teses. A produção da redação científica, nos termos de João Bosco Medeiros (2006), visando ou não à publicação, representa um desafio para aqueles que desejam cumprir o curso com excelência e também para aqueles que pretendem fazer carreira no magistério superior e na pesquisa científica.”
Download do e-book aqui

domingo, 15 de dezembro de 2019

Relevem, leitores


Relevem, leitores

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Haverá algo mais batido do que escrever sobre a dificuldade de... escrever? Ou, dito de outro modo, artifício bem surrado esse de testemunhar o vazio existencial que, vez ou outra, assalta todo aquele que empresta sua testa para ofertar mal tracejadas linhas a quem interessar.

Fato é que estive um tempo fora como quem vai ali comprar cigarros. Definitivamente, isso não se faz.

Relevem, caros leitores (provavelmente, dois ou três) por tamanha negligência. Um saudoso e, não menos, cáustico cronista da blogsfera campista certa vez disse que era “bissexto” na periodicidade de minhas publicações. Vá lá, tivesse razão. Ainda assim, desculpas de nada valem sem, digamos, uma renovação de votos com o “trio” leitor que até então dedicava generosa atenção a este aprendiz de publicista.

Apesar do prazer incomunicável de escrever ser um leitmotiv do trabalho intelectual, há neste um estado de compromisso, caso reconheçamos que, antes de ser happening, trata-se de um estar no mundo inerente àquele que (teimosamente?) atribui às ciências sociais um sentido de missão pública.

Sem ilusões: a noção de “público” aqui é prenhe de consequências.

Na acepção “clássica” do termo que a filósofa alemã Hannah Arendt[1] sumariou em referência à pólis grega, domínio público constituía um espaço de relações entre homens que eram livres, na medida em que se associavam para disputar a excelência do melhor argumento sobre seu destino comum e, iguais, uma vez que assumia-se que a comunidade política assim estabelecida teria por fundamento a força da persuasão no lugar da violência pura e simples.

Desnecessário dizer que a persuasão nem sempre paga tributos à lógica interna de um argumento baseado em juízos de fato e, não menos, que não faltam acusações (nem sempre justas, a meu ver) à Arendt por uma suposta idealização da ágora ateniense em face do caráter restrito do status político dos seus partícipes: mulheres, escravos e estrangeiros não tinham voz nem vez na cidade-Estado.

De todo modo, vale reter do seu diagnóstico sobre a modernidade pós-Auschwitz aquilo que nos faculta de modo único uma condição humana: a capacidade de “governar a si mesmo” quando agimos na presença de outros.

Nem a privatividade do espaço doméstico – reino da necessidade, por excelência – nem o espaço público organizado para as trocas comerciais decorrentes daquela necessidade – que confirma o cativeiro que alimentar continuamente um corpo relega aos meros mortais – podem substituir, por completo, a liberdade passível de se viver no seio da esfera pública: não estar sujeito à pressão imediata pela sobrevivência, assim como não ser servo nem senhor de alguém.

Afinal, quem são meus pares? Procurá-los confirma-me que estou “condenado” a ser livre.

Se agir livremente não se realiza sem a companhia de outros, então admitimos que nossas volições tomam forma em um espaço intermediário, isto é, em um mundo que, apesar de comum a todos, tanto nos agrega quanto nos divide. Estimados três leitores, dar de cara com essa obviedade foi, para mim, um mergulhar no escuro que é mudar de cidade/região. Outras paisagens, outros códigos, outro horizonte ou, quiçá, a falta do mesmo, já que em Minas, assim diz um querido colega de trabalho, sempre há um morro a limitar nossa visão.

Sem recair aqui em determinismos geográficos, confesso que uma metáfora me compraz: sou um homem da planície e, como tal, sinto falta de olhar além do horizonte... Reabilitar um senso de realidade leva tempo e toma espaço. Por isso, quem sabe, tenha me retirado para dentro de mim mesmo em reverência à geografia da zona da mata mineira.

O que escrevemos para o público não nos pertence, mesmo que aparente ser uma motivação de foro íntimo.

Se escrever a partir das ciências sociais implica um senso de pertencimento à sua história, havemos de assegurar, através deste blog, uma porta aberta aos(às) interlocutores(as) que creditem à tarefa de pensar sociologicamente outras realidades possíveis que não sacrifiquem o domínio comum de nossas existências aos tantos oportunismos de ocasião que assolam a comunicação na dita “Era da Pós-Verdade”.

Compromisso assumido, tentarei ser mais regular nas publicações, ainda que 2020 seja um ano bissexto...

Saudações aos navegantes.

Obs.: O título inicial deste texto era "Escusas aos leitores", mas eis que mais de um amigo sinalizou que tal expressão é usada habitualmente por um certo juiz de Curitiba que sapateia em cima dos direitos fundamentais e assassina vez sim e outra também o Português. Sendo assim, peço desculpas mais uma vez.

[1] Cf. ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

CHAMAMENTO PÚBLICO PARA PARTICIPAÇÃO NO III FESTIVAL DOCES PALAVRAS


CHAMAMENTO PÚBLICO PARA PARTICIPAÇÃO NO III FESTIVAL DOCES PALAVRAS

Reunidos em 04 de outubro de 2019, no auditório da Casa de Cultura Villa Maria, em Campos dos Goytacazes, produtores culturais da cidade decidiram realizar a terceira edição do Festival Doces Palavras, que seria realizado pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes no próximo mês de novembro.
Em virtude da surpresa do anúncio de cancelamento e do curto tempo para realização ainda em 2019 nas mesmas proporções e formatos das edições realizadas pela Prefeitura nos anos de 2015 e 2017, os produtores culturais da cidade aprovaram a realização do III Festival Doces Palavras, no período de 02 a 30 de Novembro em forma de mutirão, com cada espaço de cultura, ativista, coletivo cultural, manifestando a forma como pode participar do evento e propondo atividades culturais para que a curadoria organize em uma grande agenda.
As atividades a serem propostas precisam atender ao escopo do Festival Doces Palavras, de valorização da produção literária campista ou da região, assim como valorização da cultura da produção do doce tradicional na região.
Dentro deste espírito, toda ação é bem vinda. São sugeridos debates, apresentações musicais, feiras de doces e de livros, lançamentos, apresentações teatrais, intervenções artísticas nas mais diversas linguagens, que tenham sempre os autores e autoras campistas (ou regionais) e os produtores e as produtoras de doces tradicionais como focos.
A curadoria do Festival Doces Palavras também se coloca à disposição para fazer sugestões individualizadas a cada espaço ou agente cultural que queira participar deste grande esforço para manter vivo o sonho do FDP!. Uma série de debates e atividades haviam sido programados que, em virtude do cancelamento pela Prefeitura, tornaram-se pendentes de locais para acontecer. Parte destas mesas e oficinas podem ser sugeridas para os espaços culturais voluntários.
As sugestões sobre formas de participação no Festival podem ser enviadas até o dia 21 de outubro de 2019 para o e-mail mutirao3fdp@gmail.com, indicando a instituição/entidade/ativista proponente, o tipo de atividade a ser realizada e as datas e horários possíveis.
Também são bem vindas manifestações de disponibilidade voluntária para contribuir na organização e na divulgação do festival, com a formação de coletivos de Logística e de Comunicação, para atuarem junto à Comissão Organizadora.
É muito importante a participação de todos e todas neste momento. Vamos fazer um festival lindo para mostrar a força dos agentes culturais de Campos dos Goytacazes e da região.
Somos todos FDP!

Campos dos Goytacazes, 15 de outubro de 2019


3º Festival Doces Palavras
Instituições e entidades organizadoras e adesões confirmadas até 14/10/19

- Academia Campista de Letras – ACL
- Academia de Letras do Brasil – ALB
- Academia Pedralva Letras e Artes
- Associação das Doceiras de Campos dos Goytacazes
- Associação de Imprensa Campista – AIC
- Associação dos Escritores e Escritoras de Campos dos Goytacazes
- Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes
- Centro Cultural Marcelo Sampaio
- Centro Universitário Fluminense – UNIFLU.
- Clube do Vinil de Campos
- Espaço Arte Garimpo
- Espaço Multicultural Kátia Macabu
- Instituto Federal Fluminense – IFF Campos
- Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes – IHGCG
- Núcleo de Arte e Cultura de Campos
- Oráculo Espaço do Saber
- Ordem dos Advogados do Brasil – OAB/Campos
- Santa Paciência - Casa Criativa
- Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense
- União Brasileira de Trovadores – UBT
- Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Eduenf, Casa de Cultura Villa Maria e Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares – ITEP)

domingo, 29 de setembro de 2019

Daqui até 2020 em Campos


Daqui até 2020 em Campos

George Gomes Coutinho

O cenário eleitoral em Campos para 2020, a maior cidade da mesorregião do Norte Fluminense, é neste setembro de 2019, algo ainda bastante indefinido em minha perspectiva.

Seja por particularidades da política local ou por tendências do sistema político que transcendem questões locais, eu diria que a cidade se depara com um cenário prenhe de contingências que podem trazer indefinições diversas até o último minuto. Portanto, estamos falando de um pleito eivado de incertezas e complexidades.

Creio que o primeiro ponto é a interconexão entre sistema político e sistema judiciário, onde o último ainda mantém uma relação de projeção sobre a sociedade brasileira que não parece arrefecer no curtíssimo prazo. Sendo a política muitas vezes uma prática em tudo distanciada da moralidade idealizada, não é improvável que atores políticos possam ser afastados judicialmente do processo de concorrência eleitoral, seja por motivos corretos ou não. O quanto isso afetará a disputa dependerá do timing das ações.

Ainda temos a questão royalties que se encontra na berlinda. Sendo recurso vital para a sobrevivência orçamentária da prefeitura, a possibilidade de sua pulverização, mesmo que hipotética neste momento, é também um ingrediente que pode atrair ou afastar atores políticos em um cenário de terra arrasada indesejável.

Finalizando, embora aparentemente seja disputa com alta complexidade, antevejo a possibilidade de ser um pleito com menos energia e entusiasmo que o anterior. As últimas eleições municipais em Campos foram demarcadas por um alto grau de expectativas onde parte do eleitorado não as viu tornarem-se concretas. Por esta chave de análise, talvez a sociedade campista vá para as urnas vivenciando um misto de melancolia, pragmatismo e resignação.

sábado, 7 de setembro de 2019

Um salve aos nossos "secundas"!


Neste 07 de setembro, fico com a arte de Davison Pereira Alves, estudante do Colégio Estadual Almirante Barroso, com sede em Campos dos Goytacazes-RJ. 

Que a vibração juvenil dos(as) nossos(as) "secundas" inspire-nos um posicionamento corajoso nesta travessia.

Saudações a todxs na planície!

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Lançamento: "Antônio Cândido: Intérprete do Brasil" - 28/08/2019

Prezadxs,

Na próxima quarta-feira, dia 28 de agosto, teremos o lançamento do novo livro do cientista político Márcio Malta, mais conhecido nas quebradas de quadrinhos e cartoons simplesmente como "Nico".

O opúsculo se chama "Antônio Cândido: Intérprete do Brasil". Trata-se, em última instância, de uma introdução ao pensamento do insubstituível Antônio Cândido de Mello e Souza. Contudo, não é uma introdução na direção em que estamos mais acostumados no caso do autor em destaque, onde Cândido usualmente é sintetizado como um dos maiores críticos literários de todos os tempos em terra brasilis (o que não é pouca coisa evidentemente). 

O Cândido de Malta é interpretado por um singular duplo viés: Cândido pensador do Brasil e intérprete maiúsculo da política nativa. Para além disso, os dotes artísticos do cartunista Nico, o alter ego do cientista político, brindam o leitor com uma bela efígie de Cândido e com sutilezas gráficas por todo livro. Trata-se de um produto de artesanato intelectual avant la lettre.

O livro terá seu primeiro lançamento aqui na cidade no auditório da UFF-Campos na próxima quarta-feira, 18 horas.

A mesa de lançamento contará com o próprio autor, Claudio Araújo e este que vos escreve. Todos somos professores de Política do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

Esperamos vocês lá para mais essa balbúrdia. Abaixo segue o convite




sexta-feira, 26 de julho de 2019

Ctrl+C / Ctrl+V n. 5 - The Spatial Education Inequalities website (SEI)

Reproduzo abaixo texto que explica o projeto coordenado por Marcos Delprato  da Universidade de Sussex, Inglaterra, intitulado "Spatial Education Inequalities". Na prática os dados permitem conhecermos o quão profunda é a desigualdade educacional no mundo contemporâneo. Trata-se de ferramenta importantíssima para os que estudam as desigualdades regionais domésticas e no sistema internacional sob a ótica do sistema educacional. Eis link para acesso: https://spatial-education-inequalities.com/. Também é possível clicar em diversos momentos do texto para ser direcionadx e haverá um link permanente em nossa lista de sugestões de sites a conhecer aqui no blog.

Segue texto de apresentação do projeto:

The online site Spatial Educational Inequalities (SEI) allows a more robust monitoring of educational inequality beyond what is provided by current monitoring tools which rely on rural and urban categorisations and regional divisions within a country.


The SEI uses as a unit of analysis the community and its spatial location (XY coordinates) within a given country. This permits the users to carry out a more refined geographic assessment of education inequalities, and a more granular and efficient monitoring and targeting through the use geodata localised indicators (with maps and related dataset). A spatial perspective on educational inequality is important as correlations of education indicators across the life course based on smaller areas definitions depends on what happens in proximal areas through cluster externalities.


The SEI website was launched in July 2019 for engagement with the international education community and those monitoring the Sustainable Development Goal (SDG) 4 for Education, adding to the current educational inequalities’ platforms and efforts on tackling education inequalities on the global south.

Up to now, the SEI website contains the sub-Saharan Africa (SSA) region, for the latest 29 DHS surveys/countries, and for 14 education indicators. Users can compare results across countries, though the main purpose is for country-specific analysis. The SEI website contains maps, spatial statistics, and raw dataset and geographical files for further analysis. The site contains over 10,000 maps and over 2,000 files.

domingo, 21 de julho de 2019

Eduardo, a questão internacional e arranjos domésticos


Eduardo, a questão internacional e arranjos domésticos[1]

George Gomes Coutinho

Eduardo Bolsonaro em Washington se tornou uma das questões consensuais que agrupam tanto críticos de direita quanto na esquerda em seu rechaço. Quem diria. Ao menos indica aí a possibilidade de construir consensos mais amplos que fujam da lógica da polarização e do hooliganismo político. A crítica só não penetrou de maneira receptiva entre os apoiadores mais fiéis e fervorosos do presidente, o que inclui extrema-direita, parte da direita evangélica, grupos que defendem o fechamento das instituições e etc..

Um dos problemas mais sensíveis diante deste imbróglio em particular, há outros, é se a opinião pública, em suas frações de esquerda ou direita, está interpretando de forma correta ou construtiva o fato. Por isso penso que valha problematizar.

Há dúvidas, por exemplo, se a indicação do presidente pode ser interpretada no âmbito jurídico como nepotismo. Contudo, mesmo que o sistema jurídico brasileiro não considere como tal, a opinião pública já assim definiu. Isto é absolutamente preocupante. Indica um vício persistente que não nos retira do ciclo destrutivo em que se encontra o Estado Democrático de Direito, se é que podemos adotar esses termos com dignidade em nossa conjuntura. O “julgamento plebiscitário” não parece que irá nos abandonar tão cedo. Tal como em votações de realities shows, favoritos e preteridos são escrutinados apressadamente pela plateia, o que inclui indivíduos, grupos, leis, instituições, ideias, etc.. As regras do jogo tornam-se descartáveis ou secundárias. O problema é que sem regras do jogo não há sequer democracia.

Prosseguindo, não é incomum ou exatamente inadequada a indicação “política” de embaixadores nem na diplomacia mundial e tampouco na tradição brasileira. Por vezes a nomeação pode ocorrer para indivíduos até mesmo como “prêmio”, vide o caso do ex-presidente Itamar Franco (1930-2011) que foi nomeado embaixador em Portugal. Evidentemente Itamar Franco e Eduardo Bolsonaro não são remotamente semelhantes em seus currículos ou contribuições. Mas, é importante lembrar que nem sempre a indicação do nome para ocupar a função de embaixador segue necessariamente o caminho da carreira do Itamaraty e não há nada de ilegal nisso.

Feitos os reparos e todavias causa espécie na opinião pública a indicação de ninguém menos que o próprio filho para ocupar um dos postos mais importantes da diplomacia brasileira e num país, os EUA, que se apresenta como absolutamente estratégico para o atual projeto de política externa do governo brasileiro. Alguns analistas apresentam que a indicação é coerente onde a política é vista como empreendimento familiar e a indicação do próprio filho representaria “alto apreço” do presidente por aquela embaixada em especial: oras, sendo importante, nada menos significativo que enviar o próprio filho para executar a missão.

A despeito da justificativa acima apresentada, mesmo que Eduardo tenha uma sabatina exitosa no Senado brasileiro, a indicação carece de legitimidade política em termos domésticos. Se paira dúvida sobre a legalidade, restam certezas acerca da imoralidade da proposta.

Para além disso o perfil profissional de Eduardo causa indisfarçável insegurança até mesmo para parte dos entusiastas dos rumos da política externa no governo Bolsonaro. Cabe lembrar que o nome de Nestor Forster, este sim diplomata de carreira e o escolhido de ninguém menos que Olavo de Carvalho, despontava como favorito até bem pouco tempo. A dúvida é se Eduardo seria capaz de lidar com a complexidade das demandas de uma política externa mais alinhada com o governo norte-americano exigiria. Mesmo a justificativa, mais uma vez familiar, de que Eduardo conheceria os “filhos de Trump” se apresenta como atestado de ignorância ou pura ingenuidade. O posto da embaixada de Washington precisará lidar muito mais com governadores dos estados e empresários para construir as tratativas que irão supostamente concretizar as pontes efetivas entre EUA e Brasil. A festejada intimidade com a prole do alaranjado presidente norte-americano pouco ou nada irá colaborar.

O episódio, sem dúvida desconfortável para os que acreditaram em uma “nova política” ou a “refundação do Brasil” e que, em última instância, revela apenas a reiteração de práticas ancestrais da política brasileira, indica um sinal pouco sutil acerca da independência de Jair Bolsonaro em seus processos de tomada de decisão. Como apontei, Olavo de Carvalho tinha sua preferência e tentou demover os Bolsonaro e seus seguidores da indicação de Eduardo para Washington. O presidente, mais uma vez, demonstrou que não pretende mudar de decisão até o presente momento. A perspectiva do ano passado nas eleições de que Bolsonaro seria um presidente manietado deu mais uma prova nestes seis meses de que não decantou na realidade. Isso a despeito do projeto “Eduardo em Washington” não ter grandes chances de ser um sucesso.



[1] Este texto surgiu de um conjunto de questões que me chegaram pelo jornalista Aldir Sales do jornal A Folha da Manhã sobre uma das polêmicas do momento. A matéria, que conta com perspectivas de outros agentes públicos, encontra-se disponível aqui: http://www.folha1.com.br/_conteudo/2019/07/politica/1250340-indicacao-de-filho-causa-polemica.html

quinta-feira, 18 de julho de 2019

chamada - XVIII Seminário de Integração Regional - UCAM - Campos dos Goytacazes, RJ




O mundo atravessa um novo ciclo de crises intermitentes e generalizadas, vinculadas a uma crise profunda de reprodução dos modelos e padrões de relações econômicas e geopolíticas. Na periferia do capitalismo as crises assumem contornos das particularidades históricas e culturais, guardando, no entanto, algumas recorrências em termos das formas de inserção desses países na economia internacional. Assolados pela desindustrialização e pela especialização regressiva, agravadas pelas guinadas conservadoras no plano político, os espaços periféricos assistem à escalada das questões urbana, ambiental, cultural e da eterna questão social, nas suas manifestações de violência, pobreza, exclusão e desigualdades, reforçadas pela profunda crise do emprego e pela precarização do trabalho. Ao mesmo tempo, os grandes projetos que lideram a integração internacional contribuem com empregos e profundas mudanças nas dinâmicas urbanas e regionais. Essas produzem configurações diversificadas nas ações dos agentes sociais, voltadas para a integração, para a resistência, para a mudança e para a inovação. O XVIII SIR visa estimular o diálogo entre pesquisadores, gestores públicos e representantes do setor empresarial, a fim de debater essas questões, tratadas aos níveis local, regional e nacional.

Cronograma:

Data do Evento
9 e 10 outubro de 2019

Prazo para envio dos trabalhos
De 08/07 a 30/08

Divulgação dos trabalhos aprovados
23/09

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Palestra - IFF - Campus Centro - 10 de julho - 10:30 da manhã

Na próxima quarta-feira, dia 10 de julho, estarei no IFF- Campus Centro para fazer algumas reflexões acerca do "Fascismo Eterno", opúsculo deste gigante que foi Umberto Eco.

A palestra ocorrerá no auditório Miguel Ramalho, 10:30 da manhã. 



segunda-feira, 24 de junho de 2019

Agende-se: Restaurante Popular em pauta.


Chamada Festival Varilux de Cinema Francês em Campos - 25/06/2019

Após longos anos, Campos dos Goytacazes volta a fazer parte do Festival Varilux de Cinema Francês, encerrando três dias de programação gratuita com a exibição, nesta terça (25/6), de A Revolução em Paris (2018). A superprodução, que consumiu sete anos na vida do diretor Pierre Schoeller, faz relato realista e grandioso dos acontecimentos que mudaram os rumos da história mundial, destacando o protagonismo das mulheres no processo, comumente negligenciado pelos livros de História.

Não faltam, portanto, temas a serem discutidos pelo público com as professoras Natalia Soares Ribeiro e Marcia Carneiro, que conduzem debate logo após exibição, marcada para às 19h30, no Teatro Municipal Trianon.

Só que antes do encerramento, teremos a exibição gratuita, durante toda a terça-feira (25/6) de três outros sucessos recentes do cinema Francês, incluindo Asterix e o Segredo da Poção Mágica (2018), animação dublada por Gregório Duvivier que contará com a presença de alunos da rede pública na plateia.  

O evento é produzido voluntariamente pelo Cineclube Marighella e pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) numa parceria, sem fins lucrativos, que tem como objetivo contribuir para a democratização do acesso à cultura no interior do estado do Rio.

Por isso, as entradas são gratuitas. Basta retirar os ingressos (máximo 2 por pessoa) nas bilheterias do Trianon uma hora antes de cada projeção.

Estudantes universitários também poderão solicitar certificados de atividades complementares.


_Data
Terça-feira, 25 de Junho de 2019

_Local
Teatro Municipal Trianon            
Rua Marechal Floriano, n◦ 211 – Campos dos Goytacazes

_Evento no Facebook
https://www.facebook.com/events/369426743777374

PROGRAMAÇÃO

19h30 – Exibição do filme ‘A Revolução em Paris’ (2018) *

21h30 – Debate ‘A mulher na Revolução’
Com participação de

Natália Soares Ribeiro, 
professora da Rede Estadual e Assistente Social

Campos Marcia S. R. Carneiro, 
professora de História da UFF Campos  

* Classificação indicativa: 14 anos


terça-feira, 18 de junho de 2019

Ctrl+c/Ctrl+v n.4 - Entrevista Emir Sader


Nesta manhã de 18 de junho fui convidado pela equipe do programa Folha no Ar da Radio Folha FM para compor a bancada de entrevistadores do professor Emir Sader que está em Campos para o lançamento de seu “Lula e a esquerda do século XXI”, livro recém lançado de sua autoria pela Editora da UERJ e pelo Laboratório de Políticas Públicas na mesma instituição. Quem desejar adquirir um exemplar por R$30,00 a unidade basta escrever diretamente para o professor: emirsader@uol.com.br

Por conta de um compromisso com a TVT que requisitou o prof. Emir em sua participação no Jornal Brasil Atual ,  acabou que eu concebi uma breve entrevista abordando questões da conjuntura política nacional e local:







Já a entrevista propriamente do prof. Sader onde conversamos sobre Brasil, América Latina, Lula, neoliberalismo e #vazajato está disponível nos vídeos seguintes:






                                          


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Restaurante Popular: qual política está posta na mesa? (parte 2)



Restaurante Popular: qual política está posta na mesa? (parte 2)

Por Bruna Machel e Paulo Sérgio Ribeiro

1.            Um breve balanço 

Meses se passaram desde que iniciamos este texto (aqui) e, vale dizer, as motivações para concluí-lo incorporam as vozes das mulheres e homens que tornaram possível o Movimento em Defesa do Restaurante Popular.

De lá para cá, quais avanços e resistências constatamos no debate acerca da reabertura do Restaurante Popular?

Um primeiro avanço, sem dúvida, dá-se no controle social e mobilização dos usuários da assistência social, movimentos sociais, intelectuais e segmentos de esquerda na defesa do caráter universal e acessível dessa política de segurança alimentar e nutricional, em contraponto ao modelo original CESAN, apresentado pela Prefeitura Municipal de Campos. Seja em plenárias no Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), seja em atos de protesto tais como o almoço a R$ 1,00 que nós, Movimento em Defesa do Restaurante Popular, promovemos em frente ao Restaurante Popular Romilton Bárbara em 28/03/2019, dentre outras. Consolidamos não somente uma concepção de projeto consonante com a dinâmica real da cidade de Campos, levando em conta os direitos sociais dos trabalhadores e trabalhadoras, como também impulsionamos participação direta desses setores nas decisões de interesse público.

Um segundo avanço concreto foi a reabertura das discussões junto a Prefeitura de Campos, que reconheceu, em plenária extraordinária do dia 05 de Abril no CMAS, haver a necessidade de reduzir os valores estimados no preço das refeições. Reconhecimento este que, no entanto, não garante alteração em pontos do projeto que nos parecem fundamentais.

As resistências, a serem detalhadas adiante, concentram-se nos seguintes aspectos: a) os critérios de focalização no Restaurante Popular; b) a efetividade ou não deste serviço em sua correlação com outras políticas setoriais.

Os referidos aspectos se complementam, haja vista o que está verdadeiramente em jogo: uma cidade que inclua todos(as) os(as) trabalhadores(as) à vida urbana. Noutros termos, tratar das condições de retomada do Restaurante Popular diz respeito, fundamentalmente, às lutas populares contra a lógica da acumulação capitalista que mercantiliza o espaço urbano, bem como perpetua o acesso desigual aos serviços e benfeitorias nele existentes. 

Seguindo a concepção original de Henry Lefebvre (2008) acerca do “direito à cidade”, avaliar em que medida se realiza a gestão pública de um restaurante que faça jus à alcunha de “popular” é pensar a área central de Campos dos Goytacazes não como mero lugar de consumo, mas, sobretudo, como o direito a uma “centralidade renovada, aos locais de encontro e de trocas, aos ritmos de vida e empregos de tempo que permitem o uso pleno e inteiro desses momentos e locais etc.”[1]

Desse modo, apresentamos uma crítica propositiva do serviço público a ser executado no Restaurante Popular, defendendo-o como a concretização de um espaço de encontro e de convívio de diferentes classes e grupos sociais no que tange ao direito universal à alimentação saudável.

2.            O foco da política

Neste blog, já revisamos as mediações analíticas entre duas orientações da política social - focalização e universalização -, demonstrando como elas podem se interpenetrar na realidade a depender da concepção de justiça social adotada em face dos conflitos distributivos (
aqui).

Tomando por referência aquela discussão teórica e, sobretudo, a validação da mesma no diálogo com diferentes segmentos dos(as) trabalhadores(as), esclarecemos aqui nossa divergência quanto aos critérios de focalização para o Restaurante Popular estabelecidos pela gestão Rafael Diniz.

Relembremos: no “projeto” do Centro de Segurança Alimentar e Nutricional (CESAN), nomenclatura com a qual será rebatizado o Restaurante Popular, delimita-se o público-alvo conforme critérios de renda que justifiquem ou não a gratuidade das refeições.

Quais critérios? Pessoas com renda mensal familiar per capita de até R$ 178,00 inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) terão gratuidade nas refeições; também por meio do CadÚnico, pessoas cuja renda mensal familiar per capita seja de até três salários mínimos ou com renda superior a três salários mínimos, desde que vinculadas a programas sociais em quaisquer esferas de governo mediante inscrição no CadÚnico, terão acesso às refeições pagando a metade do valor a ser licitado.

No sítio oficial da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes (aqui), lança-se mão de uma estimativa do preço das refeições conforme o valor licitado no último contrato administrativo concernente ao Restaurante Popular:


Ainda segundo o órgão responsável - a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social (SMDHS) -, demais usuários que não se enquadrem em nenhum dos critérios de renda mencionados, pagarão o valor “normal” das refeições, o que põe em xeque a cobertura do serviço em face de inúmeras situações de vulnerabilidade de pessoas cuja renda é depreciada no mercado informal de trabalho.

Ademais, outra proposição se mostra problemática por derivar de um provável erro do diagnóstico que, em tese, justificaria o discurso oficial em torno do CESAN: a priorização dada a pessoas em situação de vulnerabilidade social e à população em situação de rua a partir de sua inscrição obrigatória no CadÚnico.

Ora, alguém indagaria, por que ser contrário à gratuidade de refeições ofertadas pelo poder público a quem se encontra em estado de pobreza ou de extrema pobreza? Não seria autoevidente a justificativa para tal? Será que apontar possíveis equívocos quanto a isso não é recair numa visão elitista da relação entre Estado e sociedade?

Sem ilusões: há muitos ardis nesta discussão e negá-los nada mais é do que subestimar a complexidade da pobreza estrutural em nosso município.

Não discordamos de que pessoas empobrecidas devam ter acesso facilitado aos serviços públicos. Há relativo consenso quanto àquela premissa. Porém, há objeções factuais ao desenho da política de segurança alimentar e nutricional esboçado pela gestão Rafael Diniz. São elas:

1)      Uma quantidade nada desprezível de pessoas muito pobres e/ou em situação de rua não dispõe de documentos pessoais ou, pior, sequer da própria identidade pessoal (algumas são acometidas de doenças mentais inclusive), tendo em vista a precariedade à qual estão submetidas em suas existências. Assim sendo, a obrigatoriedade de inscrição do CadÚnico, que de automática nada tem, implicaria, na prática, uma barreira de acesso ao pretenso público-alvo do Restaurante Popular.

O Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua - Centro POP, por exemplo, que tem como função social oferecer mínimas condições de dignidade e sociabilização das pessoas que se encontram em situação de rua, ainda não conseguiu solucionar o enorme problema de sub-cadastramento desta população no Cadastro Único de Programas Sociais. Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), apenas 47,1% da população em situação de rua está devidamente cadastradas no Cadastro Único (dados de 2015) [2]

2)      Objetivando a segurança alimentar das pessoas extremamente pobres, os restaurantes públicos não devem servir de substituto de políticas de focalização. Nesse sentido, é indispensável reativar o programa municipal de complementação de renda, possibilitando autonomia às famílias na aquisição dos alimentos necessários à sua subsistência. A focalização da assistência social, nestes casos, ataca o problema da fome considerando a forma espacialmente difusa em que ela se manifesta.

3)          A seleção do público-alvo do Restaurante Popular mediante critérios de renda subjacentes ao CadÚnico, além de acarretar entraves burocráticos, jogaria uma pá de cal na perspectiva da alimentação saudável enquanto direito universal. Não menos, um agravo: a anulação daquela perspectiva ocorreria sob o custo de estigmatizar seus usuários ditos “prioritários”.

Avaliar riscos de estigmatização não é uma perfumaria, se pesarmos o histórico de instrumentalização política da pobreza que empresta uma fisionomia à institucionalidade local, um verdadeiro caldo de cultura no e pelo qual os aprendizes neoliberais de hoje e os carcomidos “garotistas” de ontem têm, digamos, muito a confraternizar no que aparentemente os opõem na arena partidária. 

Em contraponto às vicissitudes daquela arena partidária, o que constatamos no almoço/protesto que realizamos em 28/03/2019? Pessoas socialmente vulneráveis, que na fila se dispuseram para almoçar, compravam uma, duas, três (e, em alguns casos, mais do que três) refeições por nós vendidas a R$ 1,00. Mais do que aproveitar o preço módico que definimos, confirmávamos ali que o ato de alimentar-se é inerente a um bem primário: autorrespeito.

Dito de outro modo: absolutamente ninguém solicitou a gratuidade da refeição. Nós mesmos, organizadores(as) do almoço, revezamo-nos nas tarefas para nos juntarmos aos(às) concidadãos(as) para aguardar a vez de almoçar pagando também R$ 1,00.

Autorrespeito (e autoestima) é um bem primário e, a princípio, impossível de ser distribuído diretamente por uma gestão municipal. Contudo, a percepção de si como a afirmação de sua pertença à uma comunidade de iguais – uma promessa irrecusável da Modernidade –, é um padrão moral de reconhecimento afetado pelo modo como outros bens igualmente primários são distribuídos, tais como renda, riqueza, acesso a oportunidades educacionais e ocupacionais e provisão de serviços.

Sendo assim, adotar um preço único para as refeições seguindo a média nacional dos preços praticados em restaurantes populares (algo entre R$ 2,00 e R$ 3,00) é não só viável, mas necessário para restituir (ou, ao menos, aproximarmo-nos de) um igual status de cidadania das pessoas em nossa urbanidade. Noutros termos, não há como projetar a efetividade do serviço “Restaurante Popular” sem pensá-lo enquanto uma política redistributiva que torne realmente a área central da cidade um patrimônio do povo campista; do contrário, confirmaremos aquilo que ele sempre foi: um escalonamento social em que cada um(a) sabe qual é o “seu” lugar.

No entanto, em uma das “sugestões de operacionalização do CESAN”, chama-nos atenção a notória ausência de uma perspectiva de urbanidade que sedimente a igualdade democrática entre nossos(as) trabalhadores(as):

Considerando as dimensões territoriais do município e a localização do CESAN diante dos custos do transporte, as pessoas em situação de rua e em extrema pobreza e pobreza terão gratuidade em todas as refeições [3]. 

No discurso oficial do CESAN, a crise do transporte coletivo seria facilmente contornável se tomássemos o Restaurante Popular por uma espécie de política “tampão” para serviços de utilidade pública disfuncionais ou, quiçá, inexistentes em certas localidades do município. Ora, segurança alimentar e nutricional mantém uma interface com a política de assistência social sem, contudo, confundir-se com a mesma, uma vez que é fundamentalmente uma ação intersetorial.

Para não recairmos em falácias, indaguemos: o que viria a ser uma ação intersetorial?

3.            Ação intersetorial

A intersetorialidade, antes de ser um conceito, é uma contingência na administração pública dos dias atuais. Atingir graus satisfatórios de eficiência e eficácia nas ações e programas de quaisquer esferas de governo envolve, cada vez mais, incorporá-la na implementação das políticas setoriais.

Conceber e executar uma política pública assumindo de modo consciente a dimensão da intersetorialidade implica, pois, que exista pelo menos algum ensaio de agenda pública em que diferentes setores possam compartilhar objetivos comuns e, consequentemente, articular saberes técnicos na construção de um Estado social em determinado território.

Dito isto, o que vemos no processo de reativação do Restaurante Popular?

Uma sobreposição da Assistência Social (com os discutíveis critérios de focalização já mencionados) às demais políticas públicas sem qualquer arremedo de uma metodologia que lhes proveja articulação tendo por lastro um diagnóstico local sobre a insegurança alimentar e nutricional.

É sintomático a ausência de uma abordagem intersetorial do Restaurante Popular quando observamos a relação espúria que seus gestores estabelecem entre a gratuidade das refeições, a localização daquele serviço e o custo do transporte coletivo.

Ora, a resolução de um problema se insinua na maneira como o formulamos.

Desatemos os nós: desde a promulgação da Lei da Terra (1850), que formalizou a propriedade privado do solo no Brasil, a terra se tornou mercadoria. Não diferente de outras cidade de médio e grande porte, em Campos dos Goytacazes a urbanização se deu de forma desigual, sobretudo e de forma mais acentuada após o processo de falência das usinas de cana-de-açúcar na década de 1980, que promoveria enorme êxodo rural, reservando a essas trabalhadoras e trabalhadores as periferias. A área central de Campos dos Goytacazes confirma, pois, a lógica da segregação socioespacial, que sobrepõe interesses privados ao interesse comum, na medida em que o direito à propriedade passou a ser ditado por uma política liberal, tornando opaca, assim, a substância daquele direito constitucional: a função social da propriedade[4]

Trocando em miúdos: a pouca (nenhuma?) intervenção do Estado no mercado de terras subordina o planejamento urbano à especulação imobiliária, a qual nada mais faz do que reduzir terras e imóveis à sua função econômica, isto é, à sua valorização futura, concentrando-os, desse modo, nas mãos das frações da classe média que tenham inserção privilegiada no mercado de trabalho para adquiri-los segundo seu valor de uso e/ou nas mãos da elite do dinheiro que se volta aos mesmos, sobretudo, pelo seu valor de troca.

O reverso desta moeda chamada urbanização capitalista é o rebaixamento das condições de vida dos(as) trabalhadores(as) com menores rendimentos econômicos, relegando-os(as) às áreas de infraestrutura precária e distantes das melhores localizações quanto a serviços e ocupações devido à sua impossibilidade de participar do mercado formal de habitação e/ou a políticas de remoção arbitrárias e inconsequentes. Um bom exemplo é o programa municipal de habitação Morar Feliz (em Tapera, Eldorado, Aldeia, etc.) que, a fim de oferecer moradia para pessoas que viviam em "áreas de risco", empurrou-as para regiões ainda distantes do centro, desprovidas de serviços públicos mínimos, ou seja, insuficiente transporte público, ausência de creches, escolas, postos de saúde e segurança pública, o que redesenhou a favelização do município [5].

Expostos os parâmetros analíticos, poderíamos devolver os “comos” e porquês” aos seus devidos lugares: não é o custo do transporte coletivo que justificaria a gratuidade de refeições para segmentos mais pobres da população campista[6]. O divórcio entre o direito à moradia dos(as) mais pobres – que só podem usufruí-lo em determinadas áreas urbanas, a saber, as piores sob quaisquer quesitos – e o direito à cidade, enquanto acesso pleno aos serviços e oportunidades, é que os(as) impede de participar da vida social sob os mesmos patamares civilizatórios.

O mínimo social que prenunciasse uma “Cidade para os(as) Trabalhadores(as)” compreenderia aqui a universalidade de cobertura do serviço “Restaurante Popular” mediante o subsídio público de um razoável preço único das refeições. 

Afinal de contas, por que um serviço tão essencial como o pertinente à política de segurança alimentar e nutricional é interrompido e ninguém se escandaliza? Responder a essa pergunta revela o quão ocioso é estabelecer a burocratização do acesso da parcela hipossuficiente da população campista a um serviço público que, em verdade, jamais deveria ter fechado as portas.

As descontinuidades administrativas com a sucessão de governos e seus reflexos em áreas sensíveis como segurança alimentar e nutricional são de tal monta em Campos dos Goytacazes, que chegamos até a suspeitar que nossa “elite do atraso”[7] não precisa mesmo de maiores esforços para legitimar sua vida e visão de mundo.

Ora, o Estado mínimo não é um dado conjuntural na paisagem campista, mas um projeto de poder radicado na pobreza estrutural de uma classe trabalhadora cada vez mais entregue à própria sorte nesta era de regressão dos direitos civis e sociais que, tragédia anunciada, desagua em uma cidade que jamais assumiu o passivo social que a escravidão nos deixou.


[1] Cf. LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2008, p. 139.
[3] Ver o slide nº 13 do documento “Centro de Segurança Alimentar”. Disponível em: https://www.campos.rj.gov.br/newdocs/1545073876projeto-cesan.pdf. Acesso em 28/04/2019, às 18h59min.
[6] Transporte coletivo é uma competência municipal, assim reza a Constituição Federal (art. 30, V). Se a concessão deste serviço público essencial a empresas privadas não supre as reais necessidades dos(as) trabalhadores(as), não cabe à gestão municipal tomar tal regime por um dado da natureza, mas como um ato político passível de revisão com vistas ao interesse local. 
[7] A expressão é uma óbvia alusão ao provocante livro do sociólogo Jessé Souza. Cf. SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.