sábado, 24 de outubro de 2020

O que faz a diferença no jogo das diferenças? Nota sobre o caso “Magazine Luiza”

                                                                                                                                                                                                                     Fonte: DCM (aqui).


O que faz a diferença no jogo das diferenças? Notas sobre o caso “Magazine Luiza”

 

Paulo Sérgio Ribeiro

 

O programa de trainee oferecido a homens e mulheres negros(as) pela Magazine Luiza – uma rede de lojas de departamento que se estende por todo o país – foi o estopim para reações as mais disparatadas. De um lado, há aqueles(as) que veem nela uma ação concreta de reparação histórica no seio do mundo corporativo; de outro, há quem nela confirme um atentado à isonomia nos processos de recrutamento e seleção de profissionais.


Creio ser uma tarefa inglória encontrar um ponto de convergência entre tais posicionamentos diante do antagonismo das visões de mundo aí postas. Não à toa, o rebuliço em torno desse programa de trainee me fez lembrar um livrinho que li nos meus tempos de graduação intitulado “O marxismo”[1], de Henry Lefebvre. Nessa pequena grande ousadia de juventude, Lefebvre revisava os fundamentos do marxismo sem esquecer de que sua gênese e desenvolvimento ocorriam em oposição a outras construções filosóficas de mesma envergadura.


Para Lefebvre, temos à disposição não mais do que três grandes concepções de mundo: o cristianismo, o individualismo e o marxismo. A primeira delas, filha dileta da Idade Média, preconizava uma hierarquia estática entre os seres, formas e atos, tendo em seu topo um Ser Supremo que, por óbvio, comprometeria qualquer postulação sobre a realidade com uma razão transcendental.


A segunda, localizada no alvorecer da era moderna (século XVI), encontra na imagem abstrata de um “indivíduo” uma espécie de prefiguração da realidade. Aqui, vige o pressuposto da razão enquanto uma relação constitutiva entre o particular e o universal que, tendo por referente a consciência individual, leva-nos a crer em acomodações espontâneas entre o interesse privado e o interesse geral, entre direitos e deveres, entre o natural e o humano. No pensamento econômico, a metáfora da “mão invisível” do mercado seria o exemplo mais bem acabado de tais “acomodações”.


A terceira, por fim, tanto nega a metafísica (uma hierarquia exterior aos indivíduos) quanto desmente a premissa de que a realidade seja discernível pelo exame de consciências isoladas, como o quer a visão individualista do mundo. Aqui, realidades que escapam à consciência imediata das pessoas – a natureza, as práticas sociais, o progresso técnico, as ideologias - se entrecruzam em um movimento que se revela contraditório em diferentes níveis: os homens lutam contra a natureza para dominá-la e, ao fazê-lo, dominam-se uns aos outros, reduzindo pessoas a coisas ao aliená-las dos meios e do sentido de sua ação sobre o mundo a partir da esfera do trabalho.


Por que essa “volta toda”, indagaria o(a) leitor(a)? Aonde se quer chegar com esse inventário de visões de mundo? A resposta é bem “scholar”, penso eu: se Lefebvre foi feliz ao associar a visão individualista de mundo ao liberalismo e a visão marxista à crítica do capital enquanto relação de dominação que se imiscui até no último reduto de nossa intimidade, temos aqui uma vereda aberta para analisar as possibilidades de crítica das desigualdades sob um enfoque liberal e, não menos, para apontar suas fragilidades sob o prisma do individualismo burguês.


Comecemos pelas fragilidades. No tocante ao caso “Magazine Luiza”, não haveria melhor mostra delas do que a propiciada pela Defensoria Pública da União (DPU) ao processar a rede varejista pelo programa de trainee voltado a candidatos(as) negros(as). Eis o argumento da DPU: o programa seria “ilegal”, pois a eleição de um público-alvo no programa incorreria em “violação de direitos de milhões de trabalhadores (discriminação por motivos de raça ou cor, inviabilizando o acesso ao mercado de trabalho)”[2]. Na ação civil pública, de autoria do defensor Jovino Bento Júnior, exige-se o pagamento por parte da Magazine Luiza de uma multa de 10 milhões de reais por danos morais coletivos[3]. No processo, há um fragmento que sintetiza a “tese” do defensor:

 

“A destinação exclusiva de todas as vagas do certame a candidatos negros gera tal discriminação no universo de trabalhadores que evidencia a desproporção entre o fim almejado e essa supressão radical de direitos da coletividade de trabalhadores”[4].

 

Tal tese – uma falácia sociológica, como veremos adiante – espelha um princípio de justiça que, na tradição de pensamento liberal, atende pelo nome de liberdade natural: todos(as) são livres para colocar à prova suas habilidades e aptidões em uma ordem social competitiva (economia de mercado) quando se assegura a igualdade formal de oportunidades. O alcance de uma posição social vantajosa é legítimo quando as instituições são capazes de eliminar barreiras legais ao exercício dos próprios talentos baseadas em diferenças orientadas por gênero, raça, etnia, procedência regional etc.


Na ótica do defensor, comprometido até a medula com esse princípio liberal de justiça, o programa de trainee em questão seria reprovável por conferir exclusividade, na preparação de futuros cargos de liderança, a um grupo racial em detrimento dos demais grupos existentes. Não seria exagero dizer que o DPU sugere que a Magazine Luiza pratique, digamos, “racismo reverso”.


Por que a “tese” do ilustre defensor não se sustenta? Ora, porque ela nada diz sobre a “arbitrariedade moral” na distribuição da riqueza. Explico: se a acumulação de capitais é resultante de uma distribuição prévia de capacidades naturais cujo aprimoramento e emprego se viabilizam com facilidade ou obstáculos em decorrência de fatores imprevisíveis (background familiar, o bendito “estar no lugar certo na hora certa”, boa sorte etc.), teríamos uma situação de desigualdade moralmente injustificável, uma vez que ela é derivada de circunstâncias e contingências alheias à vontade humana, negando assim qualquer virtuosismo à loteria genética que faculta a alguns(mas) serem herdeiros(as) e a outros(as) terem a “liberdade” de vender sua força de trabalho a qualquer preço. Se assim o é, a igualdade formal está condenada a ser aquela moeda falsa com a qual pagamos a má-fé de uma discriminação institucionalizada.


Mas não sejamos injustos: o “senso” de justiça social do senhor Jovino Jr. não é imune à crítica nem na própria DPU, que, diante da controvérsia a ganhar o noticiário nacional, emitiu uma nota esclarecendo que o ponto de vista dele não representa necessariamente o pensamento da instituição[5]. Também digno de nota foi o posicionamento da Procuradoria Federal do Cidadão do Ministério Público Federal, que afirma a legalidade da política de recursos humanos adotada pela Magazine Luiza[6], bem como de associações do Movimento Negro, que ajuizaram uma ação na qual se pede averiguação da conduta do defensor público[7]. A esta altura, não surpreende que o protagonista dessa celeuma tenha pedido afastamento do cargo[8].


Contendas jurídicas à parte, importa aqui compreender a pertinência de uma política de ação afirmativa e o porquê dela provocar tamanha reação entre aqueles(as) que têm por viseira o senso comum de classe média. Sendo direto: o que fazer a respeito do racismo?


Primeiramente, delimitar o conceito. De modo preliminar, por racismo se alude a um processo sócio-político em que pessoas são segregadas no espaço social em condições de privilégio ou de subalternidade na medida em que um grupo racial se faz hegemônico nas lutas pelo monopólio do poder social. Neste sentido, podemos lançar mão aqui de um livraço, “Racismo estrutural”[9], obra recente de Silvio Ameida que, atrevo-me a dizer, já nasce clássica. Vem a calhar a maneira como Almeida destrincha a concepção institucional de racismo, para ponderarmos tanto a razoabilidade quanto os limites de políticas de ação afirmativa tais como a desenvolvida pela Magazine Luiza.


Evidenciando as superficialidades de uma concepção individualista do racismo, isto é, daquele conjunto inarticulado de crenças pelas quais o racismo é reduzido a um comportamento “irracional” de indivíduos ou grupos considerados isoladamente – cuja explicação desagua em uma visão psicologizante das práticas racistas cotidianas (o/a racista seria alguém “anormal”) e cuja inibição requereria para alguns(mas) a mera aplicação de sanções penais -, a concepção institucional do racismo, para Almeida, toma o funcionamento das instituições como condição objetiva da reprodução de tais práticas.  


Instituições são constituídas pelos conflitos raciais e as respostas que elas são capazes de oferecer aos(às) envolvidos(as) dependerão de sua capacidade de “absorver” tais conflitos na produção de normas e padrões de comportamento. Para Almeida, a expressão “absorver” é prenhe de consequências, na medida em que as lutas sociais que atravessam as instituições tornam patente que o poder simbólico deriva sua eficácia da produção de consensos sobre a própria dominação que elas operam. No caso do racismo institucional, a hegemonização de interesses de homens (em sua maioria) e mulheres brancos(as) “faz com que a cultura, os padrões estéticos e as práticas de poder”[10] que lhes conferem homogamia de classe se tornem “o horizonte civilizatório do conjunto da sociedade”[11]. As declarações de Cristina Junqueira, uma das fundadoras do banco digital Nubank, em entrevista concedida recentemente ao Roda Viva, são um indício robusto do que venha a ser essa homogamia de classe[12].


Contudo, sugere Almeida, há uma espécie de gradiente de poder entre os grupos raciais no interior das instituições, pois, em determinadas circunstâncias, a manutenção do controle institucional não pode prescindir de certas “concessões” a grupos subalternizados quando se está em jogo um projeto político que mantenha inalteradas as condições socioeconômicas em que interesses privados se dissimulem como universais.


Aqui, há de ser ter cautela quanto a possíveis mal-entendidos.


Políticas de ação afirmativa visam a um objetivo cuja justificativa é autoevidente: ampliar a representatividade de minorias raciais de modo a contrabalançar os mecanismos discriminatórios entremeados ao funcionamento “normal” das instituições. Promover a diversidade nos espaços de poder implica que a imposição de padrões sociais que favoreçam a ascensão de homens e mulheres brancos(as) às posições de prestígio venha a ser posta em xeque pela necessidade dessas instituições se posicionarem diante das inevitáveis tensões que práticas antirracistas acarretem ao incorporá-las em sua política de recursos humanos. Não será este o caso da Magazine Luiza?


Das declarações de intenção vagas sobre o antirracismo à passagem para o terreno da experimentação institucional feita em nome de uma meritocracia equitativa, os ganhos coletivos são inegáveis. Contudo, conflitos distributivos têm uma dinâmica que desafia, a meu ver, os limites que o enfoque liberal nos faculta quanto às ações afirmativas. Retornando àquela tradição de pensamento, as ações afirmativas bem poderiam ser enquadradas sob outro princípio de justiça social: a igualdade liberal de oportunidades.


Por meio deste princípio, lembra Álvaro Vita[13], toma-se por equidade um arranjo institucional que efetive tanto quanto possível um ponto de partida igual para aqueles(as) que tenham as mesmas habilidades e destrezas e estejam com o mesmo grau de comprometimento para empregá-las. A medida do “possível” traduzir-se-ia em minorar os efeitos das vantagens sociais herdadas que condicionem o horizonte de realização pessoal atribuível ao ingresso nas carreiras ou negócios mais valorizados, bem como das discriminações de raça e de gênero praticadas de modo sistemático.


A plataforma civilizatória passível de ser projetada na decantação daquele princípio à realidade de um capitalismo periférico equivaleria a reabrir o debate sobre a excessiva concentração de propriedade e riqueza entre nós, posto sê-lo condição necessária para garantir serviços educacionais e de saúde “iguais para todos” e um recrutamento para os cargos de liderança em condições equitativas. Contudo, sob os auspícios da tradição liberal vista a partir daquele princípio, ressalva Vita[14], estão excluídos como “moralmente arbitrárias” circunstâncias que intervêm diretamente na ideação do futuro que uma pessoa venha a ter, tais como a classe social e o capital familiar e cultural. Desigualdades de classe são inevitáveis e, logo, admissíveis, ainda que resultem em desvantagens sociais cumulativas entre as gerações.


Luiza Helena Trajano, fundadora da Magazine Luiza, não titubeia em aderir à igualdade liberal de oportunidades, sobretudo pelas ambiguidades que tal perspectiva contém, já que se mostra contrária à taxação de grandes fortunas. A seu ver, garantida a “isenção” desse tipo de tributo a megaempresários(as) como ela, a doação voluntária tornar-se-ia compensatória para que mais impostos pudessem ser assumidos pelo 0,01% do qual participa[15]. Assim, a revisão do direito à herança – um fator de desigualdade par excellence – mantém-se interditada no debate brasileiro, evidenciando, no caso em tela, os impasses teóricos na articulação das categorias “raça” e “classe” no que respeita às lutas sociais pensadas sob uma perspectiva emancipatória – tema para um outro texto. 



[1] LEFEBVRE, Henry. O marxismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963 (Coleção “Saber Atual”).

[2] Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região. Ação Civil Pública Cível ACPiv 0000790-37.2020.5.10.0015. Acessível (aqui).

[3] Idem.

[4] Idem, p. 36.

[5] Jornal Correio Braziliense. DPU defende programa de trainee do Magalu após ação de defensor público. Edição de 06/10/2020. Disponível (aqui).

[6] Jornal Estadão. Procuradoria defende trainee só para negros da Magazine Luiza: ‘louvável’”. Edição de 09/10/2020, Disponível (aqui). 

[7] Consultor Jurídico. Entidades do movimento negro ajuízam ação contra Defensor que processou Magalu. Edição de 16/10/2020. Disponível (aqui).

[8] Carta Capital. Defensor que moveu ação contra programa de trainee do Magazine Luiza pede afastamento. Edição de 14/10/2020. Disponível (aqui). 

[9] Nela, Almeida propõe uma teoria social cuja premissa é que sociedades contemporâneas não podem ser explicadas pelo cotejo de tipos específicos de racismo, senão por uma interpretação sociológica que dimensione o racismo como condição estrutural das suas organizações político-econômicas. Cf. ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. (Coleção "Feminismos Plurais") 

[10] Op. cit., p.40.

[11] Idem.

[12] Diário do Centro do Mundo. Cristina Junqueira, co-fundadora do Nubank, diz que é “difícil” contratar líderes negros. Edição de 20/10/2020. Disponível (aqui). 

[13] Cf. Vita, Álvaro de. Uma concepção liberal-igualitária de justiça distributiva. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Fev. 1999, vol. 14, nº 39, p.41-59. ISSN 0102-6909, p.44.

[14] Ibid.,

[15] Diário do Centro do Mundo. No que realmente importa, Luiza Trajano não é diferente do Véio da Havan: não aceita imposto sobre sua fortuna. Edição de 05/10/2020. Disponível (aqui).

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Uma exegese da imagem

                                                                                                                         Fonte: Estado de Minas (aqui).

Uma exegese da imagem*


Fábio Py

 

* Publicado originalmente na Revista IHU on-line (aqui).

 

A foto/montagem é forte. Contrastante até. Tem tanto contraste que não há quem não se espante. Afinal, no imaginário cristão uma pessoa que carrega a figura de “Nossa Senhora” não deveria estar conectada à morte, mas ela carrega uma arma em sua mão direita. A figura de Nossa Senhora está acompanhada do dizer “Dai-nos a benção, oh mãe querida Nossa Senhora”. Pelo ombro direito está a bandeira do Brasil. Ambos, à bandeira e à Santa estão protegidos pela arma. A relação se amplifica quando a estampa da blusa tem um cão altamente armado. Todo esse jogo de figuras se movimenta na cena por Juliana Gaioso Pontes, candidata ao cargo de vereadora no Mato Grosso do Sul, de onde é natural, nascida em 1973.

 

Qual é a política de Juliana Gaioso Pontes e seu terrorismo de direita?

 

A montagem da campanha de Juliana Gaioso é uma síntese. Sumariza a união entre catolicismo conservador, patriotismo, armamentismo e a defesa da família tradicional brasileira. A foto evidencia todos elementos numa montagem política. Não à toa. Afinal, Juliana é uma figura conhecida da política de Mato Grosso do Sul, onde foi assessora parlamentar. Ela surfa na onda midiática de Bolsonaro, a quem define como “homem de deus para nação”. O trabalho meticulosamente montado da foto é para promoção de sua candidatura à vereadora pelo Partido Social Liberal (PSL).

 

Juliana se declara casada e “Dona de Casa”, embora tenha trabalhado como assistente parlamentar intermediária no gabinete da senadora Soraya Thronicke (PSL). Deixou o cargo em junho deste ano para concorrer ao pleito eleitoral, quando tinha um salário bruto de 13 mil reais. De acordo com o TSE, ela teria o Ensino Médio incompleto, não apresentou a lista de bens materiais ou de valores depositados em contas bancárias em seu nome, embora apareça em vídeo falando sobre sua casa num bairro dito ‘periférico’ de Mato Grosso do Sul. Na campanha eleitoral a candidata recebeu R$ 20 mil do PSL e outros R$ 500,00 de uma pessoa física.

 

Ela se define como ‘terrorista de Direita’, uma afirmação tão escancarada que vem impulsionando uma investigação da Procuradoria-Geral da União (PGU) por liderar e promover grupos de ódio e antidemocráticos no estado, além de espalhar pelas redes sociais conteúdos classificados como fake news. A suspeita é que integre o “gabinete do ódio” bolsonarista de Mato Grosso do Sul.

 

Juliana também se diz católica praticamente, devota de Nossa Senhora, tal como destaca a foto. Em vídeo, ela aparece fazendo campanha junto ao grupo de jovens católico de Campo Grande chamado de “Anjos de Maria”. No vídeo da campanha aparece ao lado de Bolsonaro, andando com uma arma na cintura e atirando. Nele, volta a usar o apelido “terrorista de direita”, no qual explicita no verso de sua promoção eleitoral “Ela se diz bolsonarista raiz, faz a esquerda enlouquecer”. Assim, segue a prática comum do autoritarismo bolsonarista de espalhar pautas contra vida, pousando com armas, xingando movimentos LGBTQIA+, promovendo a caça de setores de esquerda ou adversários políticos. Nos quais afirma que “deveriam ser expulsos do país”.

 

Sua foto escancara o cristianismo conservador como colonial-assassino

 

É claro, normalmente, se diz que o apelo às armas e ao cristianismo são contraditórios. Contudo, tal incongruência, não raro, é apenas aparente. Pois, essa história já se esboça desde a formação brasileira quando “os jesuítas carregavam armas nas mãos, terços nos pulsos, e catequeses nas bolsas para o serviço da interiorização brasílica”, segundo escreve Ronaldo Vainfas, no seu clássico “Traição” (Companhia das Letras, 2008). O historiador diz também que os jesuítas andavam armados não para ‘simples’ defesa, mas para atacar e promulgar o projeto colonizador brasileiro, diante das diferentes tribos que aqui habitavam. Por fim, o historiador informa enfaticamente que existiam jesuítas especialistas na caça e morte indígena.

 

Outro projeto colonial que veio ao Brasil, que unia o cristianismo e a violência armada contra setores heterodoxos é mais recente. Ele data de 1870, quando houve migração de americanos do Sul derrotados na Guerra de Secessão, que ocupam a região de Santa Barbara do Oeste. Eles, que em sua maioria eram das denominações evangélicas batistas, presbiterianos e metodistas, formaram a colônia americana do Brasil. A qual ajudou na expansão dessas expressões religiosas pelo país. Os membros da colônia tanto trouxeram escravos para o Brasil, quanto compraram outros mesmo após a abolição da escravatura. O pastor batista Helcio Lessa gravou vídeo em 1984, para o Centro de Memória Batista, descrevendo que nessa colônia de americanos “havia dias de estudo da Bíblia, e infelizmente, dias que sacrificavam escravos a tiros de arma de fogo”. Essa memória do racismo, escravidão, cristianismo e armas teria seguido até 1950 entre os batistas e presbiterianos quando nos seus seminários tinham “negros que viviam nos porões, às vezes até acorrentados, que faziam os serviços domésticos e carregavam as bíblias dos seminaristas”.

 

Assim, voltando à foto/montagem eleitoral. Acredito que o que chama tanto a atenção é que ela deixa claro que o cristianismo conservador é e sempre foi violento. Seus símbolos, liturgias, e fiéis se esforçam em esconder o sangue derramado dos índios e das populações de África que cá vieram habitar. Contudo, a simples foto eleitoral da ‘terrorista de direita’, Juliana, expõe quão tenebrosa é a formação do Brasil cristão. Ela demonstra que esse cristianismo, é filho direto da colonização e está acostumado tanto com a devoção das rezas e liturgias quanto com os ‘tiros nas cabecinhas’ dos demais povos ‘pagãos’.

sábado, 10 de outubro de 2020

Lançamento: "Gozo Estético na Cultura Visual: Fotografia, Memória e Alienação Social" - Sérgio Luiz Pereira da Silva

Prezad@s,


Reafirmando nosso compromisso de divulgação de obras de indubitável relevância para a grande área de Humanidades em língua portuguesa, eis que chamamos a atenção para "Gozo Estético na Cultura Visual: Fotografia, Memória e Alienação Social", o mais novo lançamento de Sérgio Luiz Pereira da Silva.





Sérgio é prof. da grande área de sociologia na UNIRIO. Mas, Sérgio é antes de tudo um inquieto. Artesão e fotógrafo, além de gostar de brincar com técnicas de edição, neste livro ele nos brinda com a fusão de duas de suas facetas: o sociólogo crítico e o fotógrafo sensível. Vamos a uma síntese do trabalho:

"O livro Gozo estético na cultura visual: fotografia, memória e alienação social faz uma reflexão transdisciplinar sobre a contribuição da fotografia para a sociabilidade contemporânea e o quanto isso influi na formação de uma memória social. É analisada a constituição da cultura visual e os seus dispositivos de controle intersubjetivo, dentro do campo da indústria cultural, trazendo este último conceito para o contexto contemporâneo.".


O livro pode ser adquirido no site da Appris, editora que está publicando o trabalho: https://www.editoraappris.com.br/produto/4084-gozo-esttico-na-cultura-visual-fotografia-memria-e-alienao-social




terça-feira, 6 de outubro de 2020

Sobre punks em SP e circulação/recepção de ideias

 
Sobre punks em SP e circulação/recepção de ideias


*


George Gomes Coutinho


Recomendo muito esse papo[1] entre João Gordo e Henry Bugalho. É extremamente interessante. Aborda inúmeras questões da conjuntura. Mas, eu vou me centrar especialmente em um dos tópicos da conversa: um pouco da história do movimento punk paulistano/paulista em seus primeiros passos narrada por João, um dos protagonistas da cena.


Por isso o vídeo pode interessar também para quem busca observar empiricamente as particularidades da produção, circulação e recepção de elementos simbólicos, movimentos culturais, doutrinas, teorias, ideais, expressões artísticas e escolas filosóficas longe de seus contextos originais de criação. Na minha perspectiva o relato de João fornece elementos até mesmo para um estudo de caso.

O movimento punk nasce no contexto anglo-saxão e recruta seus membros majoritariamente entre os jovens do lumpen e da classe trabalhadora e, em menor medida, entre classes médias e alta.  O movimento, até mesmo por sua composição social, tem um potencial contestatório por dar voz a grupos que não estavam necessariamente inseridos integralmente na sociedade de consumo. O punk por esta razão nasce precariamente anti-establishment tanto no momento proto punk (pré-1976) quanto no seu momento de consolidação (de 1976 até os primeiros anos da década de 1980).


O revival dos anos 1990 até o presente misturou bastante as coisas e indicou até mesmo a sua instrumentalização pelo establishment por razões que se explicam também na origem do movimento. O movimento é plástico por sua natureza.

Sendo movimento originalmente juvenil não houve exatamente um discurso/conteúdo programático que unificasse e conferisse sentido ou visão-de-mundo para todos os punks. Não há um manifesto do partido punk internacionalista e tampouco um jargão do tipo “punks de todo mundo uni-vos”.


 O punk é um movimento dotado de caráter estético, urbano, artístico permeado por uma atitude minimalista combinado com intervenção direta (o famoso  lema “do it yourself”). Até mesmo a precariedade de acesso material aos bens culturais e equipamentos dos filhos da classe trabalhadora e do lumpen explica essa vocação do faça você mesmo. Especialmente os músicos em questão não tinham acesso a estúdios caros, instrumentos premium, não frequentavam escolas de arte[2], etc..


Falo, reitero, de um movimento juvenil que combina atitude e expressividade . Disto temos uma enorme plasticidade do movimento. Há punks que gravitam da extrema direita até a extrema esquerda. Há punks existencialistas... Há influências do punk nas artes plásticas, literatura, movimentos da sociedade civil....técnicas de gravação, compreensão de mercado fonográfico, organizações não governamentais... Straight edges, skins, SHARPS, anarcopunks.... São derivações e subderivações.


Se temos também intelectuais reconhecidamente oriundos ou influenciados pelo movimento, estes não conseguiram estruturar valorativamente ou normativamente a íntegra de sua tribo. Daí encontrarmos sob a mesma rubrica a invasão dos punks na pós-graduação dos países anglo-saxões[3] e, ao mesmo tempo, punks que são parte do hooliganismo. Há as derivações White Power nacionalistas ultra-conservadoras. Mas, como descreve de maneira magistral Steven Blush em seu “American Hardcore”[4], a despeito dos supremacistas brancos, os punks das duas costas norte-americanas foram talvez o único grupo coletivo persistente contra o neoliberalismo da era Reagan. Pulverizado e persistente.


Voltando ao Brasil, o papo de João Gordo com Henry Bugalho confirma essa diversidade interpretativa fática sobre o movimento:  os filhos do lumpen e da classe trabalhadora paulistana (João é filho de metalúrgico),  construíram sua própria leitura do que era o movimento. Embora determinados agentes fossem informados culturalmente do contexto original (ele cita desde o produtor Antônio Bivar até Redson, vocalista da banda Cólera), o movimento paulistano importou a estética e criou uma cultura que transitava entre a ação das gangues e a delinquência.


A citação do filme Warriors (no Brasil a tradução do título é “Selvagens da Noite”) ilustra de maneira exemplar o contexto cognitivo que estes jovens punks se inseriram para construir a sua versão particular do movimento. Para além da imitação estética do movimento compartilhada com outros punks de nacionalidades diferentes, justamente eles compreendiam que o comportamento punk envolveria a disputa violenta por território urbano. Isso por um filme, ora vejam, que nos chega pelas mãos da TV Globo e era reprisado exaustivamente nos momentos de exibição cinematográfica da emissora.


Este que vos escreve se recorda de ter assistido ao tal filme citado por João um sem número de vezes durante a infância. Contudo, não deixa de ser irônico que um movimento que se auto-interpreta enquanto anti-establishment tenha se informado justamente por uma TV que é em tudo representante do establishment no imaginário político e social brasileiro.


Prosseguindo, João reconhece que só mudou sua concepção sobre o que era ser punk na segunda metade da década de 1980 no meio das turnês internacionais do Ratos de Porão em algum tipo de intercâmbio onde as informações que lhe chegam quase por acidente. Antes João era um punk que assimilou, junto a outros jovens paulistanos, que ser punk que não seria muito diferente de ser um “fascistinha” como ele mesmo classifica, tendo seus arroubos homofóbicos e redundando até mesmo em um tapa na cara de Cazuza. 


Cabe notar ainda que nas recepções de um movimento plástico como o punk podemos ter derivações em um mesmo país. No caso brasileiro ainda parte dos jovens punks de Brasília eram recrutados entre os filhos de alto escalão das carreiras de Estado. Alguns destes eram filhos de servidores da carreira diplomática que tinham acesso aos lançamentos da produção fonográfica estrangeira quase que simultaneamente ao que os punks consumiam na Inglaterra ou nos EUA.


Para os punks de Brasília talvez mesmo a ditadura civil-militar em vigência não fosse exatamente um problema que os impedisse de consumirem determinados produtos da indústria cultural. Muito provavelmente estes, onde muitos ainda tinham conhecimento da língua inglesa, conseguiam ir além da “filosofia”, digamos assim, das gangues paulistanas. O que não os impediu de terem problemas especialmente com a polícia em seu papel costumeiro de agentes  da repressão moral e uniformização moral/estética da sociedade[5]


Tudo isso para retomar um ponto que assinalei lá acima: é preciso conhecer concretamente os processos de recepção de elementos simbólicos, movimentos culturais, doutrinas, teorias, ideais, expressões artísticas e escolas filosóficas longe dos seus contextos originais de criação. Isso vale para o punk e para outras tribos urbanas. Mas, vale igualmente para movimentos mais complexos do campo doutrinário politico. A reprodução canônica só decorre onde é possível a assimilação em caráter sistemático. De outro modo vemos sim, na realidade social, misturas diferentes de “filhotes de cruz credo” com “Deus me livre”. E estes existem e são explicáveis se refizermos inversamente o caminho que os gerou. Talvez este seja um dos maiores trabalhos que precisaremos fazer em prol da busca por uma opinião pública menos insalubre, menos contaminada por tanto lixo semiótico.

* Disponível em: https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/7312-punk-nos-anos-80, acesso em 06 out. 2020. 



[1] O vídeo intitulado “Por que os reaças saíram do armário” pode ser também acessado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Q1lg8HWcPX0


[2] Em contraposição algo socialmente e esteticamente diferente não era infrequente em outra vertente  mais ou menos contemporânea do rock: o rock progressivo.


[3] Exemplos notáveis destes indivíduos icônicos são Dexter Holland, vocalista do Offspring, Greg Graffin, mentor do Bad Religion e professor/pesquisador e Milo Aukerman, professor adjunto na Universidade de Delaware e fundador do Descendents.

[4] BLUSH, Steven. American hardcore: a tribal history. Los Angeles; New York: Feral House, 2001.


[5] A canção “Veraneio Vascaína” dos brasilienses da banda Capital Inicial ilustra esta relação de tensão e estranhamento entre as forças da segurança pública e os jovens punks daquele momento.