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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Notas sobre o antifascismo à brasileira – parte I

Fonte: UOL Notícias (aqui).

Notas sobre o antifascismo à brasileira – parte I

 

“Nada mais parecido com um fascista que um pequeno burguês assustado” – Bertold Brecht.

 

Paulo Sérgio Ribeiro

 

Na expressão fascismo, há uma tessitura histórica a recomendar cautela ao observador contemporâneo, pois é grande o risco de se perder em sua labiríntica polissemia. Por sua vez, se o antifascismo se insinua como um front em meio ao descalabro que é o Governo Bolsonaro, é fortuito esboçar sua análise conceitual sem deixar de lado a matéria viva na qual ela se faz possível, a saber, a situação concreta na qual estamos metidos até o pescoço em busca de uma direção consequente.

 

Primeira observação: evocar o antifascismo como forma de opor-se a Jair Bolsonaro e a tudo que sua trajetória pública implica – sobretudo, quando vomita o revisionismo histórico de 1964 – não é algo nascido no calor das últimas horas. Lembremos, para ficar num só exemplo, a proibição, por parte do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), de uma faixa antifascista no pórtico da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em outubro de 2018[1], para não subestimarmos o caráter disruptivo que a denúncia do fascismo mantém após décadas de sua gênese na Itália dos anos 1920, liderada por Benito Mussolini, o Duce, até os estertores da Segunda Guerra Mundial.

 

Mesmo sem pretensão de realizar uma exegese do fascismo italiano, convém indagar como aquela experiência serve de diagnóstico àqueles(as) que vislumbrem no antifascismo um horizonte comum das lutas sociais impulsionadas pela irresponsabilidade do Executivo Federal na gestão da crise econômica e da pandemia da Covid-19. Desde já, livremo-nos de uma exigência tola de formalismo metodológico: provavelmente, a maioria das pessoas que replicam em suas redes virtuais o símbolo antifascista não tem a menor ideia do que foi o fascismo em solo europeu e isso, em si, não chega a ser um problema para quem almeje a revitalização da esfera pública. Se o pensamento político nada mais é do que um movimento de pensamento, não serei eu a exigir duas cópias autenticadas no cartório oficial da cultura erudita para quem queira fazer do antifascismo sua causa.

 

Para tatear as pegadas deste monstro secular, recorro à interlocução de Eric Hobsbawn em seu “Era dos Extremos”[2]. Tal escolha, por certo, não o toma por obra definitiva sobre o fascismo[3], mas tão somente como uma referência oportuna para desatar alguns nós górdios do que venha a ser o seu contraponto entre nós, brasileiros(as), diante da agenda de reformas que se desenrola sob o bolsonarismo sem, todavia, estar reduzida a ele. O monstro a que aludimos releva-se, em chave psicanalítica, como a irracionalidade humana latente que engendra um movimento cíclico de repressão-rebelião-restauração que, em cada época, adquire fisionomia própria.

 

Na época focalizada por Hobsbawn, as três primeiras décadas do século XX, malgrado o mundo já ter testemunhado sua Primeira Grande Guerra, a “civilização liberal” ainda parecia um futuro promissor para um seleto grupo de Estados independentes organizados em torno de valores antitéticos aos regimes de força. Mais do que um arranjo institucional, tratava-se de uma cultura política herdeira do Iluminismo, na medida em que seus principais atributos – governo constitucional com representantes livremente eleitos e submetidos ao domínio da lei; e liberdades civis asseguradas aos cidadãos enquanto um conjunto de direitos sustentado pelo aprendizado coletivo sobre a dignidade da “pessoa humana” – eram tributários de uma noção difusa de melhoria do gênero humano – o reluzente progresso – a ser informada cada vez mais pelo debate público mediado pela educação e pela ciência.  

 

Desnecessário dizer que a antessala desse (frágil) triunfo da civilização burguesa correspondia à existência de domínios coloniais, sem, claro, esquecermos de alguns poucos Estados que consistiam em verdadeiras autocracias. Contudo, no Ocidente, um vendaval autoritário destronaria as crenças coletivas da modernidade oitocentista que mostrava ainda vigor sob aquele verniz civilizatório: se, como aponta Hobsbawn[4], antes da Marcha sobre Roma (1922), contavam-se mais de 60 Estados independentes nos continentes europeu e americano que, com maior ou menor consistência, poder-se-iam chamar de democracias liberais, em 1944, pouco mais de dez Estados persistiriam com tais regimes políticos.

 

O declínio do liberalismo ocorria pari passu com o ensaio geral de uma nova conflagração entre potências imperialistas. Não obstante, salienta Hobsbawn[5], a ameaça às instituições que o espelhavam vinha apenas da direita política. A contar com as teses estapafúrdias (e nem por isso menos eficazes na “guerra híbrida” em que estamos) de uma extrema-direita hiperativa nas redes virtuais, não surpreende que a regressão operada por forças políticas de variado matiz conservador seja atribuída, pasmem, mais uma vez ao espantalho do comunismo. Eleger o último como o álibi da violência estrutural do capitalismo sempre foi um ardil irresistível em um sistema socioeconômico cuja incapacidade de produzir solidariedade social nada mais faz do que devolver àquela violência estrutural sua nudez e crueza nos períodos de agudização das crises de acumulação capitalista.

 

Na presente década (2011-2020), mal passado o crash de 2008, tornou-se um dado sensível para a geopolítica a rearticulação de uma direita internacional com virulência equivalente à sua congênere que flertou com o fascismo no entreguerras. Todavia, tal aggiornamento reacionário não parece, até prova em contrário, uma ameaça imediata aos regimes democráticos. Ao menos, é o que sugere um insuspeito periódico liberal, The Economist[6], ao divulgar (adotando critérios teóricos e metodológicos que não discutiremos aqui) um ranking de países segundo a eficiência ou debilidade do desempenho de suas instituições democráticas. Nele, o Brasil seria classificável como uma “democracia imperfeita”. Sim, eu sei, soa um tanto eufemístico para quem sobreviveu até aqui em solo brasileiro.

 

Perdoem o argumento de autoridade, mas se o maior liberista que o Brasil foi capaz de oferecer ao mundo, José Guilherme Merquior (1941-1991), admite que nem todas as conquistas democráticas no Ocidente podem ser tributadas às forças explicitamente liberais[7], não haveria por que ignorar o que está em jogo na reiteração de falácias sobre aquela que viria o grande rival delas: a revolução social, como máxima expressão da crítica ao capital e, não menos, como veio narrativo das tradições de esquerda em disputa por uma consciência possível.

 

Na longa guerra civil europeia (1914-1945), os comunistas propriamente ditos sempre foram minoria nos movimentos trabalhistas da maioria dos países e, quando se mostravam suficientemente fortes e coesos, foram ou estariam na iminência de serem massacrados. O medo de uma revolução anticapitalista era real, porém seus potenciais agentes não estavam incondicionalmente comprometidos com esse fim: na Rússia soviética, o movimento revolucionário além fronteiras recuaria depois da Primeira Guerra e os movimentos social-democratas (de orientação marxista) aceitavam sem maiores senões a democracia representativa, convertendo-se meramente em partidos da ordem [8].

 

Se houve uma segunda onda revolucionária durante e após a Segunda Guerra, ressalva Hobsbawn, o “perigo vinha exclusivamente da direita”[9] quanto à derrubada de governos constitucionais. Guardados os condicionantes inerentes à “Era da Catástrofe” em face da falência do programa neoliberal no século XXI, é razoável indagar sobre o “perigo” da nova articulação global de uma direita tentada a dobrar a aposta diante da crise de legitimação do capital, pois, tal como no aludido cenário de guerra total, é desaconselhável esquecer que o “rótulo ‘fascismo’ é ao mesmo tempo insuficiente mas não inteiramente irrelevante”[10].


Se tal advertência procede, na sequência, buscarei sumariar como Hobsbawn tipifica as forças que punham abaixo os regimes liberal-democráticos e, por conseguinte, contextualizar tais dinâmicas no que concerne ao antifascismo no Brasil de Bolsonaro.



[1][1] UOL. TRE tira faixa antifascista da UFF e fiscais vão à UERJ; OAB acusa censura, edição de 26/10/2018. Disponível (aqui)

[2] Cf. HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[3] George Gomes Coutinho faz um excelente cotejo de outras referências igualmente relevantes em texto derivado de sua participação, a convite do Cineclube Marighela, como debatedor do filme “A Onda”, intitulado “Reflexões sobre o Fascismo” (aqui).

[4] Op. cit., p.114-115.

[5] Idem.

[6] UOL. Brasil cai em índice que mede democracias no mundo. Edição de 22/01/2020. Disponível (aqui)

[7] Cf. MERQUIOR, José Guilherme. O liberalismo – antigo e moderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991, p.18.

[8] Cf. HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 116.

[9] Ibid. ibidem.

[10] Idem.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Do reacionarismo para a imaginação política interditada

Do reacionarismo para a imaginação política interditada


George Gomes Coutinho

 Carreatas da morte. Pessoas de verde e amarelo nas ruas e praças bradando contra medidas de distanciamento social. Berram contra governadores e prefeitos que consideram corruptos, isso a despeito de ostentarem a insígnia da invariavelmente suspeita CBF no peito. Consideram que a economia deve ser protegida übber alles como diria aquele slogan famoso. As mortes e o sofrimento são fatalidades incontornáveis do destino. “E daí?” não é mesmo?


 Buscam um remédio a todo custo. Pode ser chá de boldo ou cloroquina. Afinal, se há remédio não há razão para que as pessoas fiquem em casa. Em meio a tudo isso discursos de ódio xenofóbicos. Há um “vírus chinês” e tudo o mais que lhe seja correlato, seja o próprio povo ou o Partido Comunista, deve ser encarado com nojo, desprezo ou violência.


 Sem dúvida temos acima fragmentos da atuação da extrema-direita que grassa no Brasil da Pandemia de Covid-19. Concordando com Ribeiro da Silva Jr (aqui) há a indiscutível presença do reacionarismo ou aquilo que Lynch já chamou de “conservadorismo culturalista” com fortes tintas autoritárias e anti-liberais. Há o que podemos definir como uma extrema-direita militante, organizada e dotada de alguma clareza ideológica sobre os seus valores, ideais, elementos simbólicos e normativos que devem constituir um projeto de Brasil para este século XXI.


Mas, vamos tentar supor
 que nem todos e todas que tenham ido para as ruas protestar nestes tempos de distanciamento social estejam organicamente vinculados a um projeto autoritário e reacionário de poder. Nas eleições de 2018 conhecemos o desconcertante voto “BolsoLula” ou “LulaNaro”[1] onde a genuína busca por “melhorar a vida” fez com que parte do eleitorado fosse capaz de votar no 13 e no 17 a despeito dos debates inerentes ao cipoal ideológico. O que mobiliza este eleitorado é a aposta em obter incrementos positivos, mesmo que conjunturais, apostando no rito e consequente sucessão eleitoral como uma via para obtenção destes objetivos.


E se parte do grupo raivoso presente nas ruas simplesmente sofrer do déficit de imaginação política ante o enfrentamento, por um caminho humanista, totalizante e empático, da pandemia? E se uma imaginação política pautada pela solidariedade for interditada, combatida e até mesmo ridicularizada por determinados grupos e setores que compõe a polifonia de nossa opinião pública?


O termo imaginação política foi apresentado por Wanderley Guilherme dos Santos (1935-2019) ainda na década de 1960[2]. Em última instância ele localizava, desde 1822, um conjunto de autores, temáticas e obras onde o Brasil era imaginado em suas instituições, políticas, modelos de governo, processos de auto-compreensão, etc.. Enfim, produção espiritual que não se pode enquadrar propriamente como articulação teórica sistemática, mas, animava e anima os debates e ações políticas concretas. São as articulações de nossa cultura política que segue dos panfletos ao que podemos chamar de “obras fundadoras”[3] do nosso processo de nation state building. Produtos culturais de origem diversa que alimentam nossa opinião pública.


Também é dado no campo da imaginação política o repertório do debate onde o possível se apresenta. E o impossível também.


É importante notar que parte dos grupos que vão para as ruas em plena pandemia protestar contra as medidas de distanciamento recomendadas pela Organização Mundial de Saúde talvez façam desta forma por simplesmente não vislumbrarem outra alternativa. Para ser mais preciso, não lhes foi dada uma alternativa concreta e segura para a manutenção de sua própria sobrevivência. Seja enquanto política pública ou por conta de um debate político interditado.


 A imaginação política acerca das políticas sociais e assistenciais por parte dos setores dos dois lados do espectro político sempre foi crítica. Não seria diferente em nossa conjuntura, por mais chocante que possa soar. Estes do lado destro[4] da política brasileira são os grupos que se encontram atuando no Governo Federal e em outros níveis de governo, em parte do mainstream da imprensa em jornais, revistas e TV. Também encontram representantes em associações empresariais, no setor financeiro, dentre economistas profissionais, etc.. Para estes qualquer ação remotamente dotada de natureza redistributivista é vista em perspectivas diferenciadas que se complementam em termos práticos: desde reduzidas a um mínimo constrangedor sob o argumento da racionalização fiscalista, o tal cobertor curto, até serem combatidas por gerarem um suposto desincentivo ao trabalho. Por vezes políticas sociais e assistenciais são até mesmo satanizadas e seus usuários estigmatizados.


Estas disposições que explicam parte da constelação que forma a nossa opinião pública ajudam a entender o caminho acidentado de nossa Renda Básica Emergencial. Primeiramente sequer era algo concebível. Depois se apresentou em sua faceta esquálida, os famosos R$ 200,00  da equipe de Paulo Guedes. Por fim, após os já tradicionais e persistentes embates entre legislativo e executivo no Governo Bolsonaro, chegamos aos R$ 600,00 em 3 parcelas mensais, algo  que ainda não soluciona a questão.


O design da política pública foi feito para repelir os setores mais vulnerabilizados da sociedade: 1) aqueles que não detém cidadania formal no mercado (não são portadores de cidadania bancária digamos assim); 2) não detém a documentação necessária (não são reconhecidos formalmente pelo Estado); 3) não são “nativos digitais” (apresentam todas as dificuldades formais e concretas para que obtenham uma cidadania digital plena). Por conta dos motivos elencados há o risco de termos 7,4 milhões brasileiros elegíveis para este política pública sem qualquer cobertura[5]. Uma tragédia.


Dificuldades não menos relevantes podem ser indicadas quando falamos de micro e pequenos empresários que não raro constituem a fauna das tais carreatas da morte. Grupos que não tem caixa para aguentarem os meses de distanciamento social sem o auxílio de algum tipo de linha de crédito que lhes permita, sob 0% de juros ou taxas similares, manterem seus negócios e os empregos agregados. Na ausência de uma efetiva política de crédito temos as alternativas que envolvem dilapidar patrimônio, demissões, falências, etc. justamente de fatia do empresariado que emprega trabalhadores formais e informais em grande monta. Mas, Guedes foi enfático na reunião de abril, a tal reunião de horrores, onde afirmou: “Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas[6]. Neste caso temos a demonstração de como funciona a imaginação política de indivíduos e grupos mais próximos ao “andar de cima” da sociedade brasileira.


Em ambos os casos, seja nas expressões de nossa imaginação política que criminalizam políticas sociais ou assistenciais ou na preferência claramente expressa em prol do grande empresariado em detrimento de micros e pequenos, temos a interdição da solidariedade. É uma imaginação política que inviabiliza, até repele, qualquer tipo de medida de Welfare, de Bem-Estar Social. Seja por conta de um repertório supostamente racionalizante ou no campo semântico que considera políticas sociais, assistenciais ou até mesmo políticas econômicas para pequenos empresários simplesmente uma baboseira.


Não é simples. Mas, inserir mecanismos de solidariedade que envolvam práticas concretizadas em politicas públicas é  parte do exercício de imaginação política que diga que tipo de Estado-Nação queremos durante e após pandemia. É tarefa urgente e civilizatória para o Brasil. Talvez seja um dos caminhos possíveis para honrarmos o sofrimento coletivo que estamos vivenciando, incluso milhares de mortes desnecessárias, onde a imaginação política interditada simplesmente se demonstrou insuficiente para lidar com esta conjuntura.



[1] Mais detalhes podem ser obtidos na seguinte matéria da BBC Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45323102

[2] “A imaginação político-social brasileira” de 1967 publicado na revista Dados. O texto encontra-se disponível aqui: https://drive.google.com/file/d/1JZ11NqfUItw-VXAxI_McsROG734QxPcM/edit

[3] Sobre estas oportunamente Lynch nos questiona se não cabe considerarmos as mesmas como produção teórica: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582013000400001

[4] As criticas de parte do campo da extrema esquerda e da esquerda propriamente são de outro teor, o que envolve, dentre outros apontamentos, o esmaecimento da luta de classes. Não irei entrar nos meandros desta crítica neste momento pelo simples fato de que estes grupos não se encontram com instrumentos de tomada de decisão na conjuntura ao ponto de serem óbices ao enfrentamento adequado da pandemia em suas consequências sociais e econômicas.

[5] Dados do Centro de Estudos da Metrópole. É possível acessar as análises visitando o seguinte link: http://agencia.fapesp.br/pesquisa-apresenta-o-perfil-dos-elegiveis-para-receber-a-renda-basica-emergencial/33220/

[6] A transcrição da reunião ministerial de 22/04/2020 pode ser acessada aqui: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/22/leia-integra-da-transcricao-do-video-da-reuniao-ministerial-de-22-de-abril-entre-bolsonaro-e-ministros.ghtml



sexta-feira, 5 de julho de 2019

Palestra - IFF - Campus Centro - 10 de julho - 10:30 da manhã

Na próxima quarta-feira, dia 10 de julho, estarei no IFF- Campus Centro para fazer algumas reflexões acerca do "Fascismo Eterno", opúsculo deste gigante que foi Umberto Eco.

A palestra ocorrerá no auditório Miguel Ramalho, 10:30 da manhã. 



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O 2º TURNO É UMA POLARIZAÇÃO ENTRE DOIS EXTREMOS?

O prof. José Luis Vianna da Cruz* traz importantes alertas sobre as escolhas políticas a serem feitas neste 2º turno.

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Publicado no Facebook:

O 2º TURNO É UMA POLARIZAÇÃO ENTRE DOIS EXTREMOS?

Quais são os extremos? “Extrema direita” contra “extrema esquerda”? Os rótulos impedem que se examine os conteúdos para que cada um possa chegar à sua própria conclusão: estamos em um confronto entre os extremos, ou não? Em primeiro lugar, qual seria a “extrema esquerda” representada pelo HADDAD? 

Fatos concretos para que se possa analisar:

O PT governou por 14 anos. Nesses 14 anos, houve algum sinal das atitudes de extrema esquerda de que o Haddad e o PT são acusados? Pensem em tudo o que faz o PT ser rotulado de extrema esquerda e vejam se existe alguma coisa dos extremos de que o acusam. Na minha opinião, o que esse rótulo esconde é uma não-aceitação da política do PT de distribuição de renda, do aumento real do salário mínimo, da manutenção do controle nacional sobre nossas riquezas principais, da proteção para os aposentados, empregadas domésticas, trabalhadores, negros, mulheres e LGBTs, dentre outros. Isso que seria ser "extrema esquerda", na verdade, no pensamento dos que o criticam. 

Por que afirmo isso? 

Porque a pretexto da luta contra a corrupção, as atitudes mais importantes do Governo Temer e do Programa de Governo do Bolsonaro são as reformas que tiram direitos dos aposentados e dos trabalhadores, que congelam os gastos com saúde, educação e programas sociais, que entregam nosso petróleo e outras riquezas aos estrangeiros, que enfraquecem o banco do brasil e a caixa econômica federal, dentre outros. Em resumo: o PT é social-democrata, extremamente criticado pela extrema esquerda, porque, no seu governo, apesar da melhoria para os mais pobres, os bancos e os mais ricos enriqueceram ainda mais.


Em segundo lugar, qual seria a “extrema direita” representada pelo Bolsonaro?

O Bolsonaro é um capitão e o Vice um general. Já de início, é importante você pensar se você quer ser governado por quem passou a vida inteira em regime de caserna, em que “um manda e todos obedecem”. Pela própria natureza, a hierarquia na carreira militar é autoritária, não é democrática, não há liberdade de organização, opinião e manifestação. Só existe mandar e obedecer e usar a força para manter esse tipo de ordem. Transpor isso para um Governo de um país vai contra as bases da democracia. A noção de ordem de um militar é o oposto do republicanismo, da democracia, que é a de liberdade de opinião, organização e manifestação, de todas as correntes de pensamento. 

Outra questão importante: o Estado democrático é laico por excelência. Ou seja, o Estado e o governo têm que garantir a liberdade religiosa e não podem se posicionar em favor e/contra qualquer religião. E as religiões não podem ser partidárias. Tem que ser Religião Sem Partido. A Igreja Católica já se posicionou contra se definir por um candidato ou partido. As Igrejas Evangélicas se tornaram militantes de um candidato e inimigas declaradas e, em alguns casos, violentas, em outros casos, com argumentos pseudo-religiosos se sobrepondo aos argumentos das políticas públicas. 

Finalmente, em termos de propostas de Governo, o lado do Bolsonaro está comprometido com a privatização total de tudo, o enfraquecimento dos bancos, universidades, escolas e sistemas públicos; está comprometido com o avanço na retirada dos direitos da previdência, da aposentadoria e dos direitos trabalhistas; e com o uso da força contra ativistas dos direitos humanos e sociais. Mas, o principal aspecto do futuro Governo deste candidato é o aval, o empoderamento, o estímulo, a omissão, aos grupos violentos da sociedade contra os homossexuais, os negros, os pobres das favelas e periferias, e contra os direitos feministas; e o aval aos discursos dos grupos favoráveis à violência, à tortura e à Ditadura Militar. Eles já estão se sentindo à vontade para demonstrar como vai ser o dia a dia na nossa sociedade se o Bolsonaro vencer as eleições; eles já estão agredindo e matando. É porrada, violência e morte aos ativistas dos direitos humanos e democráticos. Isso, sim é EXTREMA DIREITA, ISSO É FASCISMO, SIM.

ESTAMOS DIANTE DA ESCOLHA ENTRE UMA SOCIAL-DEMOCRACIA E UMA EXTREMA DIREITA FASCISTA. NÃO SÃO DOIS EXTREMOS. SÓ HÁ UM EXTREMO, A EXTREMA DIREITA ANTI-DEMOCRÁTICA, DITATORIAL. O OUTRO LADO, DO HADDAD, É MODERADO, DEMOCRÁTICO E LIBERAL.

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* Doutor em Planejamento Urbano e Regional (UFRJ) e Professor Colaborador da UFF/Campos dos Goytacazes.

sábado, 2 de dezembro de 2017

As muitas mortes dos comunistas

As muitas mortes dos comunistas*

George Gomes Coutinho **

Em maio de 2016 Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSC de São Paulo, apresentou o projeto de lei 5358/16. A proposta do ilustre deputado, nascido em 1984 e muito jovem para replicar clichês da Guerra Fria, envolve na melhor das hipóteses a reedição do Macartismo entre nós. Uma outra alternativa seria a confissão da mais profunda e orgulhosa ignorância histórica. Ou no pior, como diria meu avô, a proposição do projeto de lei é como colocar uma melancia no pescoço: uma forma um tanto tola de chamar a atenção.

Talvez na imaginação pouco informada do deputado o Partido Comunista Norte-Coreano e o Partido Comunista Britânico, mormente uma entediante reunião de senhores como disse o historiador Eric Hobsbwam (1917-2012) em sua autobiografia, sejam mesmíssima coisa.

Entre nós, olhando os comunistas brasileiros, não seria novidade este tipo de tentativa de eliminação inquisitorial. Afinal, como sempre frisava o cientista político alagoano Gildo Marçal Brandão (1949-2010), o Partidão entre 1922 e 1985 vivenciou pouco menos de 3 anos e meio na legalidade. Nada original, o projeto do jovem Bolsonaro seria só mais uma dentre as muitas mortes dos comunistas em nossa realidade. A ilegalidade mata como diria Brandão.

Não desconsiderando sua dualidade constitutiva no Brasil, entre a via insurrecional e a “civilista” ou institucional de ação, não custa lembrar que a partir do auto-reconhecimento das atrocidades cometidas nos regimes comunistas realmente existentes desde a década de 1950 do século passado, incontáveis e relevantes comunistas brasileiros firmaram postura intransigente em prol da democracia.

Desde a auto-crítica do Partido, que reconsiderou o papel de Vargas no processo de modernização do país e defendeu a normalidade institucional, até a participação dos comunistas na clandestinidade na Frente pela democratização no esfacelamento da ditadura civil-militar, vimos intervenções, militância e ações que incluem a necessidade da defesa sem tréguas das liberdades fundamentais. Postura diametralmente oposta do deputado e sua platéia. Ah! Cabe dizer que o tal projeto de lei anti-comuna continua parado. Deve ser por sua relevância.

* Texto publicado em 02 de dezembro no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

sábado, 11 de novembro de 2017

Butler: a bola da vez

Butler: a bola da vez*

George Gomes Coutinho **

A vinda da filósofa norte-americana Judith Butler (1956) no Brasil provocou reações que causariam perplexidade a qualquer habitante de uma comunidade que se pretenda civilizada. Afinal, a professora de Berkeley veio exercer seu papel de intelectual profissional. Butler não recomendou o estupro ou ameaçou alguém de morte. Não a vi fazendo apologia a torturadores. Não chutou uma imagem católica em rede nacional e tampouco teria ameaçado depredar terreiros de umbanda. Ela veio apresentar e discutir idéias, no formato de palestras, algo que seria tão natural quanto andar para frente nas democracias consolidadas. Mas, aqui a recepção contou com protesto na rua e o rechaço assinado por 360 mil pessoas contra sua presença.

O conceito de gênero, o grande tema da autora, nem penso que teria sido a única motivação da histeria de parte da direita totalitária brasileira. Na verdade, suspeito que Butler foi a bola da vez. Virão outros e outras caso não ocorra uma mudança cognitiva e valorativa em certos grupos. Explicarei minha perspectiva.

Lendo depoimentos em sites de notícias dos que consideram Butler persona non grata, destaco um que li no UOLNotícias em 07 de novembro na matéria assinada por Janaina Garcia: “Pouco importa se é a Judith Butler, porque ela poderia ser qualquer outra coisa". Diante disso me ocorreu imediatamente uma cena do documentário de 2012 “O Guia Pervertido da Ideologia” do também filósofo Slavoj Žižek (1949). Na cena, uma propaganda nazista alertava contra as “idéias degeneradas” propagandeadas por insidiosos judeus que colocariam em risco a família e o modo de vida alemão. Charles Chaplin (1889-1977) e Albert Einstein (1879-1955) aparecem na propaganda como exemplos de judeus igualmente “degenerados” e perigosos.

O que une Chaplin, Einstein e Butler no contexto de intolerância nazista ou no Brasil contemporâneo odiento? Os três personagens, muito diferentes entre si, corporificam representações de mundo que simplesmente não deveriam existir e precisam ser eliminadas na ótica de determinados grupos. São “portadores de idéias”. E idéias são desconfortáveis sempre que revelam algo oculto ou indesejado acerca das justificações que visam manter o status quo.

* Texto publicado em 11 de novembro de 2017 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Fim do Estatuto do Desarmamento?


Por Paulo Sérgio Ribeiro

O Senado Federal lançou a consulta pública sobre o fim do Estatuto do Desarmamento*. Pela relevância da coleta de opiniões para o trabalho legislativo, impressiona a disparidade do seu resultado: 90.026 pessoas declararam “sim” à revogação do estatuto e 5.597, não. Tramitação da consulta encerrada. Topamos num consenso irrefutável? As ciências sociais em geral, e a sociologia da violência em particular, elencam tópicos variados que dialogam com o tema do desarmamento, indo desde a consagrada definição weberiana de Estado como detentor do monopólio legítimo da violência à própria comparação de matrizes do pensamento filosófico acerca da possibilidade de limitação do poder como contrapartida da ideia de autonomia. Ao manejar a literatura especializada, aprendemos que abrir o flanco para simplificações moralistas sobre o fenômeno da violência vai de encontro à fundamentação conceitual de questões que emergem ao sabor do dissenso no debate público, tais como: a) ampliar ou restringir as franquias legais à posse e ao porte de armas de fogo? b) ratificar ou relativizar a liberdade individual em face da proteção à vida?

Em cada cenário de época se produzem respostas provisórias àquelas questões conforme a maturidade ou a incipiência da avaliação do modelo de segurança pública e de justiça criminal em vigor e, não menos, da sua intersetorialidade com as políticas de desenvolvimento, inteligência, direitos humanos, planejamento urbano, entre outras. Sua margem de experimentação institucional é delimitada pelo alcance de correntes de opinião que, não raro, refletem mais as distorções do senso comum sobre violência e criminalidade do que um aprendizado coletivo sobre a gestão de conflitos. Sendo assim, uma leitura apressada daquela consulta pública pode, inadvertidamente, reforçar os nossos autoenganos sobre o drama da violência, embora a tentativa de contextualizar o esmagador “sim” à revogação do Estatuto do Desarmamento possa, também, evidenciar as vicissitudes de nossa cultura política diante de mais um interregno democrático (1989-2016). Dentre elas, uma salta aos olhos nos dias que correm: o avanço das posições autoritárias.

Esse diagnóstico é sinalizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com a recente divulgação da pesquisa “Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil”. Adotando a perspectiva teórica de Theodor Adorno em estudo seminal nos anos 1950 sobre tendências proto-fascistas nos EUA, o FBSP elabora o “Índice de Propensão ao apoio a Posições Autoritárias”. Para os pesquisadores do FBSP, outra referência igualmente relevante é a obra do psicólogo José Leon Crochík, o qual também se valeu daquele enfoque em pesquisa realizada junto a estudantes de Administração de Empresas e de Psicologia no Brasil em início dos anos 2000. Nos seus traços gerais, essa linhagem de pesquisa notabiliza-se pela mensuração de personalidades autoritárias por meio de escalas psicométricas.

A “Escala F” (fascismo) inaugurada por Adorno e seus colaboradores - psicólogos sociais associados à Universidade de Berkeley - tomou corpo através de um formulário que abrangia nove dimensões de análise: submissão à autoridade; agressividade autoritária; convencionalismo; antiintrospecção; superstição e estereotipia; poder e “dureza”; destrutividade e cinismo; projetividade; preocupação com o sexo. Crochík, por sua vez, aclimatou a “Escala F” ao selecionar 28 das suas 40 assertivas originais. Já no referido trabalho do FBSP foram selecionadas 15 daquelas assertivas, com acréscimo de duas novas com o intuito de “mensurar a eventual influência da religiosidade na construção de representações sociais acerca da identidade dos policiais brasileiros” (FBSP, 2017, p.11). Esse conjunto de 17 assertivas contemplou as três principais dimensões do trabalho original de Adorno: submissão à autoridade, agressividade autoritária e convencionalismo.

O Instituto Datafolha, parceiro na pesquisa realizada pelo FBSP, aplicou 2.087 entrevistas, entre os dias 07 e 11 de março de 2017, junto a pessoas de 16 anos de idade ou mais distribuídas em 130 municípios brasileiros. Por meio de técnicas de abordagem pessoal, os entrevistados responderam a um questionário que dispunha de seis níveis de concordância em relação às assertivas: concorda totalmente, concorda, concorda parcialmente; discorda parcialmente, discorda, e discorda totalmente. Colhidos os dados da amostra, os resultados descritivos alicerçaram a criação do índice para o apoio a posições autoritárias conforme um ranking de 1 a 10 pontos. Maior adesão a ideias autoritárias, mais próximo de 10; menor adesão, mais próximo de 1. O apoio a posições autoritárias aferido - 8,10 – indica um grau elevado de adesão ao autoritarismo como modus vivendi do brasileiro médio. Destacam os pesquisadores do FBSP que a dimensão mais acentuada no Brasil é a submissão à autoridade. A seu ver, “a população brasileira necessita de figuras de liderança que podem ser representadas pelo fortalecimento de grupos radicais e de celebridades virtuais presentes em diversas plataformas e redes sociais” (op. cit., p.14).

Em um Estado pós-democrático – para usarmos a feliz terminologia de Rubens Casara – flexibilizar as regras para a posse e o porte de armas de fogo implica uma inflexão na política nacional de desarmamento em detrimento de uma divulgação mais abrangente dos resultados dessa política – mortes efetivamente evitadas pelo maior controle, mesmo que insuficiente, de circulação de armas de fogo no país a partir do Estatuto do Desarmamento (2003)** – para quem dela queira, criticamente, tomar parte no processo legislativo. Pior: em uma ambiência política na qual a aceitação da autoridade está longe de confirmar uma adesão racional a normas, os pânicos morais e ódios inoculados podem ser o dedo no gatilho, literalmente, para aqueles cuja obediência servil ao líder demagogo retroalimenta-se na opressão de quaisquer indivíduos ou grupos que se mostrem divergentes do convencionalismo de classe média que debita a tais pânicos e a ódios a sua autoimagem.

* Acesso: https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=128456

** "Como era o Brasil quando as armas eram vendidas em shoppings e munição nas lojas de ferragem", reportagem do jornal El País.

Acesso: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/25/politica/1508939191_181548.html




Obra consultada:

Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil: índice de propensão ao apoio a posições autoritárias.
Organizador: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2017. 39p.

Acesso:

http://www.forumseguranca.org.br/publicacoes/medo-da-violencia-e-o-apoio-ao-autoritarismo-no-brasil/   

domingo, 29 de janeiro de 2017

Ouvir o fascista

Ouvir o fascista *

George Gomes Coutinho **

No ano de 2015 a filósofa Marcia Tiburi lançou o livro “Como conversar com um fascista”. A abordagem da autora, profundamente influenciada pela teoria crítica alemã de Theodor Adorno e por referências que dialogam com a psicanálise, entrega uma resposta negativa. Sendo o fascismo contemporâneo um fenômeno psicopolítico, termo empregado por Tiburi, o fascista teria por característica o fechamento cognitivo: centrado em si mesmo e nos seus esquemas simplórios de pensamento, sua visão de mundo simplesmente nega o outro. Dotado de um narcisismo ignorante, o fascista acredita piamente que mediante saídas autoritárias e até militaristas seria capaz de moldar o mundo conforme sua imagem e semelhança. Daí seu gozo com chacinas e congêneres onde a eliminação do não-igual se materializa.

Decerto é bastante difícil dialogar com um sujeito desses, algo que me faz concordar integralmente com Tiburi. Afinal, o diálogo enquanto ato necessita de subjetividades desarmadas. Em condições ideais o diálogo não ambiciona reforçar estruturas coercitivas ou de dominação. O exercício dialógico tem por meta atingir alguma “verdade” afinal de contas.

Mas, defendo um desafio para os setores progressistas da sociedade. Ao menos ouvir. Sem dúvida é um duro teste para estômagos e almas mais sensíveis. Há toneladas de preconceitos, frases feitas, lugares comuns e piadas grosseiras de péssimo gosto. Há ainda a irracionalidade. A questão é que estes setores tem suas vozes amplificadas no espaço público por agentes que seqüestram suas demandas, mesmo que de forma tão ou mais distorcida. Sem desconsiderar que capitalizam estas mesmas demandas tornando-se adversários de peso na competição eleitoral.

O fascista apresenta demandas de fundo que precisam ser escutadas. Sim, há problemas na transparência da aplicação de recursos públicos e sensação de ineficiência do Estado. Por outro lado, é fundamental tornar a sociedade mais segura. Também a educação brasileira está aquém dos desafios de uma economia emergente em uma nação continental como a nossa. O pulo do gato está nos setores progressistas mostrarem que podem fazer mais e melhor diante destes desafios. Não se trata de concordar com a arrogância fascista. O desafio é filtrar os discursos.


* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 28 de janeiro de 2017.

** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 21 de agosto de 2016

Reacionários aqui e alhures

Reacionários aqui e alhures *

George Gomes Coutinho **

O diagnóstico contemporâneo de que vivemos em uma sociedade que atravessa uma profunda transição já foi apresentado alhures, em diversas línguas e tradições das humanidades. Porém, em outra e longínqua conjuntura, talvez ninguém como o comunista sardo Antonio Gramsci (1891-1937) tenha obtido uma das formulações mais precisas e dramáticas sobre as épocas de interregno: momentos onde o novo ainda não nasceu e o velho se recusa a morrer.

As sociedades, no Brasil e no mundo, nestes primeiros 16 anos de século XXI lidam com um fluxo de circulação de informações que não encontra paralelo na trajetória humana. Neste âmbito, a circulação livre de capitais, sonho dourado de rentistas e especuladores em geral, convive com a circulação de pessoas, algo menos desejado pelos setores mais conservadores e recalcitrantes. Modos de viver surgem, alguns realmente novos e outros que já não são mais asfixiados nos calabouços dos espaços públicos,  o que implica novas formas de amar, sentir e experimentar a produção cultural e as relações afetivas. A sociedade deste início de século XXI é plural, complexa e necessita da busca por formas de convivência que consigam dar conta, de forma pacífica e democrática, desta rica diversidade humana.

Contudo, o que há de novidade em nossos tempos convive com o que se recusa a morrer.
 
Os agrupamentos que se “recusam a morrer” simbolicamente neste momento buscam na nostalgia, ou na invenção de um passado mítico pouco crível, forças para a reação. Por isso o termo “reacionário” nos auxilia a compreender as tentativas desesperadas e artificiais da aniquilação da diversidade nascente e da plêiade de direitos conquistados por diversos agrupamentos sociais. Sejam os eleitores brancos, cristãos e redneck de Trump, os simpatizantes da extrema-direita européia e as viúvas da ditadura civil-militar brasileira. Todos estes agrupamentos reacionários apresentam em sua pauta a interpretação passadista, vide o “fazer a América grande de novo”, como mote para flertar com soluções totalitárias e autoritárias de maneira geral. O grande problema é que a História, aquela senhora invisível a nos assombrar, sempre lembra que o reacionarismo convive de braços dados com seu co-irmão: o fascismo.


* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 20 de agosto de 2016

** Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

sábado, 4 de junho de 2016

Reflexões sobre o fascismo

Reflexões sobre o fascismo 

Por George Gomes Coutinho

No início do mês de maio deste ano fui convidado pelos organizadores do “Cineclube Marighella”  para assistir com eles e com seus cineclubistas o filme “A Onda”[1]. Até então, motivado pelo encontro em ocasião aprazível, aceitei prontamente. A questão complexa que viria depois seria responder como sociólogo a pergunta que se encontrava em letras garrafais no convite: “Fascismo nunca mais: será?”. Na dinâmica do Cineclube, dentre comes, bebes e a exibição propriamente dita do filme, eu e alguns colegas teríamos um breve espaço, em formato de mesa redonda, para estimular o debate com os presentes.

O problema para mim, desde que aceitei o convite, foi tentar compreender conceitualmente algo tão fugidio quanto o termo “fascismo”.  Esta foi a questão que se tornou objeto de reflexão no meu background profissional e gerou relativa angustia.  Afinal, seria possível delimitar de forma razoavelmente satisfatória o que é o fascismo? Me recordei imediatamente de uma pequena reflexão sobre termos do arcabouço político que se tornam adjetivos no senso comum: “Existem palavras às quais ninguém gosta de ver o próprio nome associado publicamente, tais como ‘racismo’  e ‘imperialismo’. Há outras como ‘mães’ e ‘ambiente’, pelas quais todos correm a manifestar seu entusiasmo.” (Hobsbawm, 2001). Dentre nós, na atual e conturbada conjuntura brasileira, outros termos tem sido utilizados de forma massiva para desqualificar argumentos e posicionamentos políticos ou até mesmo classificar adversários. Sejam os derivados da culinária como “esquerda caviar”, “mortadela” e “coxinha” e outros mais, digamos assim, “clássicos”, como “golpista” e, voltamos a ele, “fascista”.

O problema, como já identificado por Hobsbawm, é que determinados termos, para além do uso impreciso no senso comum, não contam sequer com a adesão animada daquele(s) que recebe(m) a alcunha. Não é tarefa das mais simples encontrar um racista, homofóbico ou alguém assumidamente autoritário, seja na esquerda ou na direita do espectro político, que esteja disposto, de forma espontânea e aberta, a falar sobre suas convicções no espaço público. Ainda, fato curioso é a sazonalidade histórica de alguns termos, o desaparecimento de outros e surgimento de novos. Foi assim com o “neoliberalismo”, utilizado à exaustão nos anos 1990 e início dos 2000 e, neste momento, assistimos o retorno do termo “fascista” em larga escala. Porém, cabe perguntar se este termo é pertinente, se explica os grupos sociais que busca caracterizar e, além disso, sendo o fascismo uma ocorrência real e relevante na história do século XX, há diferenças deste fascismo clássico para o “nosso” no século XXI supondo que o mesmo ainda ganhe corações e mentes entre nós?

As respostas que irei delinear serão de cunho estritamente conceitual e irão nos levar a compreendermos o fascismo como fenômeno perene, sendo uma patologia inerente ao estabelecimento da modernidade. Trata-se da hipótese que irei trabalhar. Meu caminho de reflexão irá propor uma síntese entre autorxs que produzem em momentos históricos diferentes sobre o fascismo, ou em parte específica da bibliografia, sobre o nazismo como aparição particular do fascismo. Não desconsiderando a vasta bibliografia, estudos de caráter mais histórico ou longas reflexões conceituais sobre os pormenores desta visão-de-mundo particular, utilizarei especialmente as propostas de Max Horkheimer (1895-1979), Theodor W. Adorno (1903-1969), Umberto Eco (1932-2016) e Marcia Tiburi (1970 -).

Há um consenso entre estxs autorxs, não obstante todxs escreverem em realidades e tempos históricos diferentes: o fascismo encontra-se na direita do espectro político e este é seu demarcador central. Seja em suas aparições totalitárias ou autoritárias[2] e até mesmo no formato democrático, a adesão ao que Bobbio (1995) considera como a defesa de formas tradicionais de estratificação social, seja por critérios estamentais, de etnia, classe, raça, etc., ou mesmo a compreensão que estes elementos de legitimação das desigualdades sociais sejam “naturais” e/ou legítimas, é um ponto compartilhado pelas variantes da direita em geral e do fascismo em particular. Por outro lado, julgando que a díade esquerda e direita mantenha algum poder explicativo, a esquerda, em suas variantes e em termos ideais, aposta em um projeto emancipatório que justamente venha a abolir uma sociedade estratificada em prol de um modelo civilizatório mais igualitário[3]. Inclusive esta seria uma das formas mais apropriadas para pensarmos as diferenças entre esquerda e direita.

Prosseguindo, apresentada já esta demarcação a priori de que ao falarmos de fascismo estamos abordando manifestações políticas na direita do espectro político, podemos definir que há dois grandes tipos de fascismo que decantam na realidade em formatos concretos dotados de nuances. O primeiro é o fascismo histórico, discutido de forma magistral por Eco (1995) em seu Ur-Fascism. Dentre todxs, é o semiótico que apresenta uma descrição didática em seu curto ensaio elaborado, em um primeiro momento, consultando as lembranças do próprio autor que viveu sua infância e início da adolescência sob o regime fascista de Mussolini. O segundo tipo, que aborda o fascismo potencial ou simplesmente o que podemos chamar de mentalidade fascista, sintetiza os posicionamentos de todxs: Horkheimer, Adorno, Tiburi e Eco compreendem um potencial fascista existente e perene nas sociedades modernas. Destes dois tipos ideais de fascismo, além de apresentarmos brevemente cada um deles, irei responder de maneira frustrante a pergunta do convite do Cineclube: se podemos considerar esta ideologia[4] erradicada. Sim e não. Sim quanto o fascismo histórico. Não quanto ao potencial fascista que assombra as sociedades democráticas.


Referências

ADORNO, Theodor, et all.  The Authoritarian personality. New York: Norton & Company, 1993.

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção. São Paulo: Edunesp, 1995.

______,  MATEUCCI, Nicola & PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política – Volume I. Brasília: Edunb, 1998.

ECO, Umberto. Ur-fascism. In: New York Review of Books. Jun., 1995,  p.12-15. 

HOBSBAWM, Eric. A falência de democracia. In: Caderno Mais. Folha de São Paulo. 9 set. 2001.

MARX, Karl & ENGELS, Friederich. A ideologia alemã : crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.




[1] No original Die Welle. Filme alemão lançado em 2008 dirigido por Dennis Gansel.

[2] Totalitarismo e autoritarismo, embora sejam termos muito próximos, guardam sutis diferenças em sua configuração. Sendo regimes de governo, estes diferem por alguma abertura a forças políticas que não guardam total fidelidade com os detentores do poder, o autoritarismo, ou há simplesmente a supressão de todas as forças políticas do espaço formal de exercício do poder que não coincidam imediatamente com o programa do regime, aqui falamos do totalitarismo.  Maiores detalhes podem ser consultados no verbete autoritarismo, Bobbio et. all.,1998. Por fim, é evidente que totalitarismo e autoritarismo não são privilégios da direita. A esquerda se utilizou destes regimes, especialmente o totalitarismo no caso estalinista.

[3] Não irei aqui discutir os regimes fáticos que se identificam ou se identificaram com a esquerda no espectro político. Estou apenas apresentando aqui o elemento central de fundo do discurso político que podemos identificar com a esquerda, a despeito de suas versões e, neste momento, desconsiderando experiências históricas concretas por estas nada acrescentarem ao tema desta reflexão: o fascismo em suas versões históricas e contemporâneas.

[4] Estou utilizando aqui a concepção de ideologia como visão-de-mundo (Weltanschauung) tal como proposta em Adorno et. all. (1950:02). Todavia, a concepção clássica de Marx e Engels (2007) como “falsa consciência” poderia ser igualmente empregada com grande proveito ao discutirmos o fascismo.