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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado - José Luis Vianna da Cruz

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Preâmbulo curto

Eu e o prof. José Luis conversamos antes dele gentilmente aceitar a republicação do texto aqui no blog. Ele topou a republicação sob uma única condição: que o texto fosse dedicado "(...) a todos e todas que lutaram e continuam lutando para romper as barreiras que impedem o pleno desenvolvimento da cidade."

Assim está feito. Teje dedicado!

 

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado**

José Luis Vianna da Cruz***


Grande parte das nossas elites políticas, econômicas e sociais cultiva um conjunto de práticas predatórias, contra o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de Campos, com influências igualmente negativas sobre o desenvolvimento regional. São práticas herdeiras da tradição colonialista, de senhor de escravos, de uma pretensa aristocracia sucroalcooleira e de donos de latifúndios, patrimonialistas. Exercidas com mandonismo, autoritarismo, clientelismo, racismo, patriarcalismo, discriminação, segregação e violência contra a população trabalhadora, empobrecida e exercendo atividades precarizadas.


Quais as evidências dessas características? Em que elas impedem o desenvolvimento de Campos e da região? Baseio-me nas pesquisas e produções acadêmicas e na militância dos movimentos e coletivos libertários, além do conhecimento como campista militante social. Falo do que está na boca do povo, como na canção de Chico Buarque e Milton Nascimento:


“O que será, que será…
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que andam falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados…”


A existência de inúmeros quilombos e “bairros negros”, em favelas e bairros de baixa renda, segregados em relação à existência e à qualidade da infraestrutura, ao acesso e à mobilidade, à integração na cidade. A segregação de favelas e bairros pobres urbanos, onde a maioria é preta.


A predominância, nos lugarejos, vilas e áreas urbanas rurais, do abandono dos serviços urbanos, particularmente do esgotamento sanitário e do atendimento à saúde e, principalmente, das vias e do transporte coletivo, na frequência, qualidade e acesso. Essas localidades são ilhas de vida saudável, respiram natureza, conservam as relações de vizinhança, amizade, solidariedade e apoio mútuo entre seus moradores, têm história e cultura de modos de vida, que tendem a desaparecer, pela total irresponsabilidade dos poderes públicos.


A precariedade dos vínculos trabalhistas nas atividades tradicionais, desde o trabalho na área rural até o trabalho no comércio. É amplamente sabido que muitas lojas de comércio não assinam carteira, ou mesmo quando assinam, a remuneração vem somente das comissões das vendas. As jornadas de trabalho chegam a mais de 10 horas por dia. É comum comerciantes que sonegam os impostos municipais e se utilizam da proximidade com políticos para terem suas dívidas postergadas, anuladas ou ignoradas. A assinatura da carteira de trabalho e o respeito aos direitos trabalhistas da(o)s trabalhadora(e)s doméstica(o)s são majoritariamente ignorados pelas famílias e o tratamento dado a ela(e)s mantém resquícios da crueldade e violação dos direitos herdados da sociedade escravocrata.


A prática das monoculturas que geram monolitismo nas estruturas de poder, empresariais, nas instituições públicas e privadas; ou seja, no conjunto da vida social, impede a valorização, a reprodução e o fortalecimento da economia popular e da diversificação produtiva, tanto na produção como no comércio e serviços. Isso se expressa na substituição da monocultura da cana pela do petróleo e gás e, agora, pela da infraestrutura de armazenagem, transporte e circulação de mercadorias internas e de commodities do extrativismo, via condomínios logísticos, porto e vias. Também nos oligopólios dos atacarejos e varejos, com os megaempreendimentos sufocando os médios e pequenos de capitais locais, gerando falências, desemprego e aprofundamento da precarização. Isso explica o apartheid urbano expresso numa cidade (re)partida entre condomínios horizontais de renda média e alta, fechados, murados, segregados e o resto da cidade. E ainda querem atrair monoculturas do agronegócio, datacenters, fazendas de energia eólica e outras atividades profundamente predatórias do meio ambiente e da vida social, cujo nível de automação não gera empregos e desemprega, como explicarei adiante. O mesmo acontece com as expressões culturais da periferia, marginalizadas e, muitas vezes, hostilizadas pelos Poderes Públicos.

Fazem isso através de estratégias econômicas, sociais, políticas e militaristas: impedem a agricultura familiar, a agricultura dos pequenos produtores tradicionais e a dos assentados, agroecológica e orgânica, que fortalece a natureza, o ambiente, a saúde, o trabalho, a distribuição de renda, a diversificação e, por consequência, o verdadeiro desenvolvimento, diversificado, democrático, inclusivo, distributivo e saudável. Destroem e inibem as economias tradicionais, de pequeno e médio porte, produzindo desemprego e favorecendo o subemprego e a total informalidade e abandono dos trabalhadores.

O que chamam de desenvolvimento é um balcão de negócios privados, visando beneficiar-se financeiramente da implantação de mega empresas nos segmentos imobiliário, de atacado e varejo, de educação, de hospedagem, dentre outros; tendo o cuidado de bloquear quaisquer iniciativas econômicas, sociais, culturais e políticas que possam ameaçar o monopólio do poder, o controle dos territórios, da força de trabalho; isto é, bloquear as energias e iniciativas que possam “abrir”, romper e superar essa herança perversa.

Nisso consiste o trabalho mais profundo, dramático e leviano, contra o bem-estar social. Por meios coercitivos, repressivos e, muitas vezes, violentos, reprimem e oprimem qualquer possibilidade de reação a esse padrão de condução do poder na sociedade campista: controlam o poder na gestão das escolas e dos equipamentos de assistência social e serviços públicos; controlam a liderança política nas favelas e bairros mais pobres, onde se encontra a maioria do eleitorado, obrigada a conviver com o poder e controle dos traficantes, nessas favelas e bairros pobres. Quando promovem políticas sociais, como a da habitação popular, misturam populações de bairros controlados por facções rivais, aprisionando e submetendo a população às leis dos conflitos entre poderes institucionais, formais e os do crime organizado. Grande parte da população está aprisionada em suas residências, tolhida e controlada no direito de morar, conviver e de ir e vir na cidade. Não encontram abrigo no Poder Público local, omisso, indiferente e verdadeiramente hostil às vozes populares.
Para mim, a expressão mais revoltante dessa prática é o Campo de Concentração chamado Tapera III, à margem da BR-101, no meio do nada, uma das formas mais violentas de confinar a população pobre, expulsa da Favela Margem da Linha e jogada numa área vulnerável ao controle do crime organizado, sem nenhum serviço urbano digno, submetida à total insegurança, ao transporte absolutamente precário e à morte frequente de seus moradores, pelo tráfego da BR-101. Digna de um projeto nazista, que submete os moradores à tortura e privação diárias dos mais elementares direitos humanos. Uma monstruosidade.


O que faz do nosso município – e da região – um território marcado pela predominância do legado da sociabilidade e do poder vigentes na escravatura, no Império e no pior da República, que se instalou nesse país e, muito forte e profundamente, por aqui. A parte dominante dessa elite embrulha tudo isso com o invólucro do conservadorismo direitista, falsamente moralizador, de braços dados com segmentos inimigos da democracia e do desenvolvimento. Porque não ama nossa cidade e nossa região, porque não ama nossa gente.
Como diz o ditado, que muitos atribuem a Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”. As investigações da Polícia Federal parecem confirmar o ditado.

Da nossa parte, continuamos firmes na luta para superar radicalmente essa história nefasta imposta por uma parcela da elite dominante campista e regional, porque amamos essa terra e a nossa gente.


* Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3APaisagens_de_Campos_dos_Goytacazes_RJ_6.jpg?utm_source=chatgpt.com, acesso em 05 de julho de 2026.

*** A primeira versão deste texto/manifesto foi publicada no blog do professor Marcos Pedlowski em 28 de junho de 2026 e pode ser acessada aqui: https://blogdopedlowski.com/2026/06/28/o-desenvolvimento-sequestrado-como-as-elites-mantem-campos-prisioneira-de-seu-passado/ 

*José Luis Vianna da Cruz é professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, possui graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS, 1978), Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 1990), e Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 2003).

sábado, 16 de maio de 2026

JORNADA ÁLVARO VIEIRA PINTO - Filósofo campista, pensador brasileiro

 


JORNADA ÁLVARO VIEIRA PINTO
Filósofo campista, pensador brasileiro

📍 Campos dos Goytacazes – RJ

📅 19/05/2026
🏛️ UFF – Auditório XV de Novembro
🕗 Das 8:30h às 21h

“Três cidades, três momentos, um pensamento em construção.
Filosofia e desenvolvimento nacional.

A Jornada AVP refaz o itinerário que marcou sua vida e obra: da origem à maturidade, da formação à ideia de desenvolvimento.”


PROGRAMAÇÃO

9h – ABERTURA

Apresentação do evento – proposta e expectativas

Participantes: organizadores e convidados/as.


9:30h – MESA 1

A Campos do início do século XX – sua importância da República Velha ao Estado Novo

Palestrante: Márcia Carneiro (UFF)

Mediação: Andréa Paiva (UFF)


INTERVALO DE ALMOÇO


14:00h – MESA 2

Álvaro Vieira Pinto – aspectos de sua filosofia

Palestrantes:

  • André Vinícius Dias Senra (IFRJ)
  • Leonardo Maia Bastos Machado (UFRJ)

Mediação: Giovane do Nascimento (UENF)


16:30h – MESA 3

Campos, Rio de Janeiro, Brasil: a questão do desenvolvimento

Palestrantes:

  • Daniel Kosinski (UERJ)
  • Roberto Cezar Rosendo (UFF)

Mediação: George Coutinho (UFF)


INFORMAÇÕES TÉCNICAS

ORGANIZAÇÃO

  • André Vinícius Dias Senra (IFRJ)
  • Leonardo Maia Bastos Machado (UFRJ)

APOIO

Universidade Federal Fluminense – Campos dos Goytacazes


COMISSÃO CIENTÍFICA

Além dos organizadores e demais palestrantes:

  • Andréa Paiva (UFF – Campos)
  • Douglas Gonçalves (UENF)
  • George Coutinho (UFF – Campos)
  • Giovane do Nascimento (UENF)
  • Zamara Araújo (UESB)

APOIO À ORGANIZAÇÃO (MONITORES)

  • Arllete da Silva Neta (UFF)
  • Beatriz Rodrigues (UFF)
  • Hugo Emerick (UFF/UENF)
  • Inara Ribeiro (UFF)
  • Karen Luiza Carvalho (UFF)
  • Raquel Caldonho (UFF)
  • Victoria Frazão (UFF)

DADOS DOS PALESTRANTES

ANDRÉ VINÍCIUS DIAS SENRA

Professor de Filosofia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Docente associado aos programas de pós-graduação MNPEF e PROF-FILO. Desenvolve pesquisas nas áreas de fenomenologia, filosofia da técnica e pensamento crítico brasileiro.


LEONARDO MAIA BASTOS MACHADO

Professor de Filosofia, Psicanálise e Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Pós-Doutor pela Université Paris VIII. Editor convidado do APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação.


ROBERTO CEZAR ROSENDO

Pós-Doutor em Estudos Estratégicos e Relações Internacionais (INEST/UFF) e Doutor em Economia (UFF). Professor do Departamento de Economia e do Mestrado em Planejamento, Desenvolvimento e Políticas (UFF – Campos).


DANIEL KOSINSKI

Professor na Faculdade de Ciências Econômicas e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (UERJ).


MÁRCIA CARNEIRO

Doutora em História Social. Professora Associada do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional. Docente no PPGADP e no PROFHISTÓRIA (UFF).


“PENSAR O BRASIL É TRANSFORMÁ-LO.”

Serão concedidos certificados às pessoas que estiverem presentes em pelo menos duas mesas.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Wladimir e a direita autoritária - George Gomes Coutinho

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Wladimir e a direita autoritária**

George Gomes Coutinho***

Já apontei que o prefeito Wladimir Garotinho, reeleito neste 2024 com a maior votação nominal da história da cidade, não poderia ser classificado como um “palhaço macabro”, termo utilizado por Caetano Veloso para designar a extrema-direita no Brasil e no mundo. E, de fato, seu diálogo com agentes dos dois lados do espectro político, sua abertura para implementar políticas públicas mirando a efetividade e não identitarismo ideológico, sua performance pública em diversas ocasiões ignorando discursos de ódio a grupos políticos ou a setores da sociedade, tudo isso reitera: Wladimir não é um fascista. Contudo, há contradições que preciso apontar. E no período pós eleitoral o prefeito, enfim, optou por escorregar em cascas de banana que acendem sinal de alerta para quem milita no campo democrático. E, creio, cabe correção de rota enquanto há tempo.

O prefeito, quadro neste momento do PP, o Progressistas, ainda em campanha já havia exibido como sinal de prestígio tanto o apoio de Ciro Nogueira, este no mesmo partido de Wladimir, quanto o de Flávio Bolsonaro do PL. Aos mais ligeiros lembro que o PP tem ministério no Governo Lula. Então, a questão não é propriamente o PP ou o Centrão, instância política brasileira a qual nenhum presidente brasileiro pode abrir mão na atual configuração de nosso sistema. O problema são as companhias específicas que citei. Nogueira e Flávio não são nomes do campo democrático. Mesmo que Wladimir tenha, ao menos em um primeiro momento, se aproximado de ambos de forma acanhada e almejado apenas ampliar seu capital político, o gesto de proximidade já o tornou uma liderança semileal à democracia. A semilealdade democrática, descrita pelo cientista político Juan Linz em seu The Breakdown of Democratic Regimes, lançado em 1978, indica condescendência com lideranças de DNA autoritário. Ao invés de isolar, implementar um cordão sanitário, algo encontrado em lideranças democráticas mundo afora, a opção é por confraternizar com extremistas. Podemos intuir que os supracitados talvez ofertem benefícios que outros agentes ou grupos não ofertaram: portas que se abrem, contatos vantajosos com o primeiro escalão. Tudo isto podemos colocar na conta do cálculo racional frio e pragmático.

Porém a hipótese do mero cálculo anda constrangida lamentavelmente por ações do próprio Wladimir que parece querer arriscar o respeito adquirido dentro do campo democrático. Nunca é tarde para lembrar que parte de seus votos tem por origem os que viram na delegada Madeleine a representante da extrema-direita nas eleições municipais campistas. Sim, Wladimir atraiu votos tímidos ou entusiasmados do campo democrático. Por isso vamos por partes.

Recentemente uma das indiscretas postagens em rede social de Wladimir adulando o patriarca do clã Bolsonaro é motivo suficiente para questionarmos as convicções do prefeito boa praça. Todos os fatos ventilados alhures indicam Jair Bolsonaro como uma liderança francamente radioativa ao regime que deu os mandatos da carreira política de Wladimir. O passado e o presente de Jair Bolsonaro o fazem palatável apenas a assemelhados ideológicos, seja Donald Trump ou Viktor Orbán. Isso a despeito de sua popularidade doméstica. E não, aparecer na foto com um homem que instigou seus liderados com discursos de eliminação de adversários não é o mesmo que ser fotografado ao lado do Mickey em Orlando. Com tudo isso, por crimes contra o Estado de Direito, Wladimir pode ter sido registrado ao lado de um futuro criminoso condenado.

Ainda, o prefeito também achou por bem se meter na Guerra Cultural ao entrar na discussão de gênero e sexualidade nas escolas campistas a pretexto de se considerar “conservador”. O termo “conservador” vale para personagens importantes como Edmund Burke (1729-1797) ou Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofos da conservação política temerosos que eram de mudanças sociais e institucionais bruscas. O ponto é que jamais o conservadorismo destes flertou com o obscurantismo.

Falemos sobre a lei 9.531 sancionada por Wladimir e proposta na Câmara pelo vereador Anderson de Matos (Republicanos).

A discussão de gênero e sexualidade nas nossas escolas funciona analogamente como algo que ouvi há muitos anos em uma palestra proferida por um profissional da área de medicina que jamais consegui lembrar o nome: a escola é uma das maiores promotoras de saúde coletiva que podemos ter em nossa sociedade. Práticas, regras, conteúdos simples ensinados de maneira didática que impactam de maneira significativa cidadãos em toda uma vida. Sim, é na escola, em nossa sociedade, que muitos de nós ouvimos pela primeira vez, além de diversos conteúdos abstratos e formais, sobre saúde reprodutiva, tolerância, práticas esportivas como parte do desenvolvimento humano, como se alimentar bem, etc.. Escola é espaço de formação com força civilizatória. Jamais perfeita, dado que é instituição humana. Mas a contribuição da escola enquanto promotora de qualidade de vida é simplesmente inestimável.

Nestes termos, ter a escola como espaço de promoção ao respeito da diversidade sexual realmente existente e lugar de vivência e ensino da igualdade civil, política e social de gênero deveria contar com o apoio da sociedade e da classe política. Ora, é fato desconhecido a defasagem salarial de mulheres no mercado de trabalho? Igualmente é ficcional que vivemos em uma sociedade que pratica diferentes tipos de violência onde o critério para a escolha de alvos é a orientação sexual? Ainda, que na própria escola o bullying e todo tipo de linchamento tem o potencial de produzir diferentes formas de sofrimento como o cutting e, no limite, o suicídio?

A lei 9.531 sancionada por Wladimir coloca sobre os ombros dos pais a decisão de sonegar ou não os conteúdos de gênero e diversidade sexual a crianças e adolescentes. Se trata disso. É um empoderamento duvidoso das famílias em uma cruzada contra a “ideologia de gênero” (sic), um espantalho criado que segue inexistente na boca de qualquer pessoa que se interesse a estudar o assunto. Torço que o poder municipal reconsidere sua decisão e permita que nossas crianças tenham acesso respeitoso e de qualidade a estes conteúdos.  E, de forma análoga, na torcida que o prefeito se reposicione em algumas ocasiões saindo de condição de democrata semileal.

* Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-brasil-e-o-avanco-da-extrema-direita/, acesso em 14 de dezembro de 2024.

** Texto publicado na página 04 do jornal Folha da Manhã em 14 de dezembro de 2024.

*** Cientista político, sociólogo e professor no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Eleições 2024, a questão democrática e Campos - George Coutinho

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Eleições 2024, a questão democrática e Campos **


George Gomes Coutinho***

 

O ano de 2024 foi aguardado com indisfarçável ansiedade por politólogos de todo mundo. De janeiro até o presente ocorreram inúmeras eleições em diferentes continentes e países, em níveis variados (eleições locais, regionais, nacionais, transnacionais) e tipos (plebiscitos, eleições majoritárias, proporcionais, por vezes tudo ao mesmo tempo).

De maneira geral o que une tantas eleições em diferentes pontos do globo terrestre é o diagnóstico dos riscos para a democracia representativa. Nosso século trouxe a ressurgência dos movimentos de extrema-direita dotados da capacidade de atrair as massas. Além da sedução, também se mostraram bons de voto e vitoriosos, derivando em desastres como o Brexit ou gestões homicidas, vide o caso brasileiro na pandemia que ajudou a produzir o número de 700 mil concidadãos mortos sem direito a luto.

O abalo das instituições se dá, dentre outros vetores, pela imoderação destes líderes e de seus liderados, todos dotados de discursos e práticas que ferem de morte um princípio basilar das sociedades democráticas: o pluralismo, o que envolve o acordo tácito coletivo pela preservação e respeito da diversidade realmente existente de nossas populações. O objetivo dos extremistas é produzir uma homogeneidade artificial, imposta pelo uso de diferentes tipos de violência, onde só é “povo” quem é igual aos seus próprios pares. Uma sociedade das supostas “maiorias”, como vociferou Bolsonaro em dada ocasião. Restaria nesta distopia da extrema-direita uma única forma de professar a fé, amar, se relacionar e imaginar o mundo, tudo isso temperado com um patriotismo fajuto que se prostra diante do primeiro tirano estrangeiro que seja objeto de libido dessa gente.

Portanto, me unindo a outros colegas de continentes diversos, interpreto que estas eleições de 2024 são moduladas pelo antagonismo campo democrático versus extrema-direita. E no campo democrático há, por óbvio, espaço para esquerda e direita, o que explica os diferentes movimentos de frente ampla alhures. O que uniria democratas dos dois lados do espectro político? A defesa das regras do jogo e dos princípios morais, valorativos e civilizatórios de uma sociedade democrática.

As eleições municipais brasileiras, que tem seu primeiro turno hoje, estão imersas, de maneira mais ou menos explícita, nesta disputa entre autoritários de direita e democratas de ambos os lados do espectro político. São eleições fundamentais para antevermos a correlação de forças que irá dar o tom das nossas eleições de 2026.

Indo direto para Campos, é curioso que neste pleito de 2024 parte da esquerda nativa tenha se fixado em outro par de oposição, o velho e conhecido garotismo ou anti-garotismo. É um vício interpretativo que já produziu a aliança de setores politicamente conservadores com quadros partidários do petismo, em um vale tudo contra o “Senhor das Moscas”, tudo temperado com contradições programáticas e ideológicas constrangedoras. Vale dizer que este é um risco genético dos movimentos anti-garotismo. Afinal, o garotismo é filho do embate justamente com as oligarquias que dominaram a cidade por décadas até caírem podres na esteira dos movimentos de redemocratização dos anos 1980. Parte do petismo local, ao eleger como grande e eterno alvo a família Garotinho, só poderia ser arrastado pelas forças gravitacionais mais tradicionais locais.

O meu leitor petista que aposta na aliança de conservadores e “esquerda esclarecida” em uma luta de vida ou morte com os Garotinho, pode estar a pensar sobre qual a saída possível. Por enquanto sugiro que compreenda como os Garotinho se encontraram, mesmo que de forma insuficiente, com as demandas populares concretas locais. Para além de querer regrar os interesses desta camada da população, o caminho seria pelo diálogo franco e respeitoso com estes ofertando mais do que os Garotinho já foram capazes de fazer, algo ainda apenas esboçado nos melhores momentos da campanha do professor Jefferson de Azevedo. Até porque, vale pensar qual lugar era ocupado pelas demandas populares nos tempos de dominância política, administrativa e simbólica das oligarquias latifundiárias, o que ajuda a entendermos a persistência da popularidade da família Garotinho. Um projeto progressista local digno desse nome só pode partir dos Garotinho e ir adiante, superá-lo. Jamais ir ao ponto histórico-político anterior para buscar aliados de ontem ou de hoje.

E Wladimir? Tudo indica que será reeleito hoje, confirmando a tese da vantagem do incumbente cujo governo é bem avaliado. Fez um governo aprovado por amplos setores da população, onde entra aí o mérito político-administrativo individual do prefeito e o contraste com impopular governo Rafael Diniz. O segundo governo provavelmente manterá a configuração plural deste primeiro mandato, incluindo em seu staff nomes de esquerda e da direita, desautorizando classificar Wladimir apressadamente como um “palhaço macabro”, termo utilizado por Caetano Veloso para classificar lideranças de extrema-direita. Contudo, nós democratas podemos sim ressaltar criticamente os sinais de “semilealdade” ao projeto democrático por parte do prefeito reeleito ao confraternizar com lideranças de extrema-direita, mesmo que sem muita convicção e sob desconfiança da direita local organizada. Então prefeito, de qual lado o senhor estará neste segundo mandato? Torço que aproveite a ocasião para reafirmar um compromisso intransigente com a democracia.

* Imagem original publicada em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/02/6801807-crise-da-democracia-no-brasil.html, acesso em 16 de outubro de 2024.

** A primeira versão deste texto foi publicada em 06 de outubro de 2024 na versão impressa do Jornal Folha da Manhã em Campos dos Goytacazes, RJ. Também na mesma data foi publicada a primeira versão digital do ensaio no blog Opiniões, dirigido pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa: https://opinioes.folha1.com.br/2024/10/06/george-coutinho-a-questao-democratica-e-campos-2024/, acesso em 16 de outubro de 2024.

*** Cientista político, sociólogo e professor no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

PT de Campos dos Goytacazes, o partido que virou suco - Douglas Barreto da Mata

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PT de Campos dos Goytacazes, o partido que virou suco

Douglas Barreto da Mata** 

Um breve histórico sobre o Partido dos Trabalhadores, que nasce como uma junção de setores de movimentos políticos que resistiram à ditadura cívico-militar com outros setores mais recentes, no fim da década de 70, início dos anos 80.

 Uma base eclesial, que tinha como orientação a Teoria da Libertação, egressos da resistência armada e exilados que retornavam, integrantes do movimento estudantil, que ressurgia, intelectuais, artistas, e claro, o movimento operário do ABC de São Paulo, que era quase hegemônico no partido (e de certa forma, ainda é, senão como movimento operário, mas pelo domínio paulista).

 Essa mistura pariu várias tendências, que davam um aspecto de cacofonia partidária, que não raro era considerado um ambiente impossível de se fazer política, dada a tradição do caciquismo político nacional.

 Não foi esse o problema do PT, nem no Brasil, nem em Campos dos Goytacazes.

 Na planície goytacá, o partido nasce da iniciativa de servidores públicos (como em boa parte das capitais, exceto SP, ABC paulista e outras regiões industriais), setores da Igreja Católica (como resposta ao enclave ultra tradicionalista local), e algumas lideranças rurais, já que a dinâmica econômica campista não permitia a existência de um movimento operário forte.

 A atividade industrial por aqui sempre foi ligada à agroindústria, no ramo de fabricação e manutenção de insumos para as plantas das usinas, ou para a manutenção de bens de capital, usados na lavoura (material rodante, caminhões, etc).

 Foi assim que o PT de Campos surge, bem no meio do início da transição econômica da economia agroindustrial para o extrativismo de hidrocarbonetos.

 Em 1980, 1981 ainda não se falava de petróleo ou de royalties, mas já eram ouvidos os primeiros ruídos da fratura das oligarquias rurais.

 Data desta época a estranha simbiose entre o PT  comum fenômeno da comunicação de massas local, que usava o rádio, então a plataforma que atingia os mais pobres da cidade e, principalmente, os alcançava onde a TV não ia, no interior.

 Anthony Garotinho é um dos fundadores do PT, e olhando hoje a situação do partido na cidade, isso explica muita coisa.

 Desde então, a vida partidária do PT local se resume a amar odiar ou a odiar amar o ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-prefeito e ex-governador, e duas vezes secretário estadual, uma vez de agricultura, com Brizola, e depois, de segurança, com sua esposa como governadora.

 Mas por que o PT ama odiar a família Garotinho?

 Em 1988, o PT racha, sendo que uma parte sai para a campanha do então candidato a prefeito, Garotinho, que concorria contra o cambaleante Zezé Barbosa (avô de Rafael Diniz), e a outra parte defende e leva adiante um candidato, Luiz Antônio Magalhães.

 Daquele momento até hoje, reduzindo um pouco as coisas, é possível afirmar que o PT se uniu e se separou do clã Garotinho quase sempre sem conquistar nada, nem na entrada, nem na saída.

 Isso se estende aos aliados da família que se transformaram em opositores do clã.

 Ou seja, ainda que buscando alternativa, esse deslocamento sempre se deu com pouco acúmulo, ou como resultado de arranjos “vindos de cima”, em sua maioria, para submeter o interior e a capital do Rio de Janeiro às demandas de Lula e do PT/SP.

 O PT esteve no governo Arnaldo Vianna, esteve junto com Garotinho no seu primeiro governo estadual, até o rompimento, esteve com Carlos Alberto Campista (dissidente do grupo dos Garotinhos), esteve com o desastre Alexandre Mocaiber, e por último, com a catástrofe Rafael Diniz.

 Sempre a reboque, sempre na hora errada, pelos motivos errados, ou pior, sem qualquer motivo que valesse à pena.

 Há episódios de bons resultados eleitorais, como os irmãos Rangel (Antônio Carlos e Zé Maria), e Makhoul Moussalem.

 Mais uma vez, estes projetos pessoais nunca repercutiram na vida do partido, ou se repercutiram, apenas para dar mais dimensão aos personagens, que se encolheram em seus projetos personalíssimos.

 O partido que vira suco.

 Toda essa trajetória e nosso vínculo afetivo com o partido nos levaram ao exercício de tecer algumas análises, todas, sem exceção, publicadas no Blog do Pedlowski.

 Em junho de 2024 fizemos uma análise mais ampla:

https://blogdopedlowski.com/2024/06/20/o-pt-e-sua-singularidade/

 Depois passamos ao escrutínio na cena campista.

 O processo de amadurecimento da campanha eleitoral petista, desse ano de 2024, nos chamou a atenção, já que a conjuntura nos mostrava pouco espaço de manobra para o partido, soterrado por um avanço do conservadorismo, que se não é inédito por essas plagas, assumiu contornos mais agudos desde 2018.

 Talvez a cidade esteja no mesmo nível de ânimo conservador de sempre, mas o ruído produzido por setores mais extremados dão a impressão de um aumento da direita.

 Esta é a primeira noção que passa despercebida ao PT de Campos dos Goytacazes, talvez seduzido, mais uma vez, por acenos e atalhos patrocinados por forças políticas antagônicas aos Garotinhos.

 Encaixotado na disputa entre os Bacellar e os Garotinhos (como já aconteceu com cada um dos clãs que antagonizam os Garotinhos), o PT foi levado a promover um suicídio político-eleitoral, e aguardou uma candidata deputada estadual, que estava impedida, e que agia por ordem do clã Bacellar.

 A ideia era usar o partido como ponta de lança contra os Garotinhos, neste caso personificados no Wladimir Garotinho, para facilitar o caminho da extremista de direita, a delegada Madeleine.

 Falamos disso por aqui:


https://blogdopedlowski.com/2024/07/16/por-onde-anda-wally/

 Sem a candidata deputada, sem os votos dela, sem sequer sua presença, Jefferson Manhães, ex-reitor do IFF, neto do José Alves de Azevedo (que foi prefeito do PTB, e perdeu o cargo para um golpe de Zezé Barbosa, aliado dos militares), o PT de Campos ficou pendurado na brocha.

 Porém, como se tudo isso não fosse suficiente, o PT local insiste nesse papel secundário, de rabo de elefante, no lugar de ser cabeça de mosquito, como sempre falo.

 O caso do IDEB foi um clássico, onde Jefferson se aliou à extrema-direita para passar um vexame digno de Kim Kataguiri, ou de Carla Zambeli.

 Tratamos disso aqui:

 

https://blogdopedlowski.com/2024/08/18/o-ideb-separa-a-california-da-louisiana-mas-aproxima-o-pt-da-extrema-direita-em-campos/

  

Bem como antes falamos das possibilidades do PT em Campos:

 

https://blogdopedlowski.com/2024/08/12/o-pt-de-campos-e-suas-possibilidades-em-2024/

 Como se pode ver, há uma anacronismo tal nas ações do partido, que nem precisamos dar um aspecto cronológico nos textos.

 É como se fosse uma burrice atemporal, quase anti histórica mesmo, que nos leva de volta à questão:

 Por que o PT de Campos ama odiar os Garotinhos, e orienta toda sua trajetória a partir dele como referência, ao contrário do que deveria fazer, já que o PT de Campos diz ser a alternativa a esse modelo dos Garotinhos?

 Historicamente incapaz de adentrar no campo popular campista, segregado no eleitorado de classe média, cujo caráter tem sido mais sensível, ultimamente, às falas da extrema-direita, o PT de Campos ficou sem lugar, como resultado de um processo que não é recente.

 Em verdade, a nível nacional instalou-se certa esquizofrenia no PT quando a pauta “moralista” anticorrupção foi subtraída do partido (que a usava com maestria no fim dos anos 80 até o início dos anos 2000).

 Como teve que governar e fazer alianças, o partido afastou as bases sindicais, movimentos populares do campo e da cidade, e optou por dar ênfase ao institucionalismo e aos reclames da governabilidade, que como um círculo vicioso, ou um saco sem fundo, exigiu cada vez mais concessões, que por sua vez enfraquecia a base popular de mobilização, e cada vez mais fraco, o PT precisa ceder mais, e  por aí foi.

 Uma prova:

 Dilma foi golpeada, Lula preso, sem resistência.

 Nada.

 Em Campos dos Goytacazes esse problema se deu nos moldes das especificidades locais.

 Durante um tempo, os apelos moralistas do PT mantiveram uma parte do eleitorado classe média conservador e anti garotista.

 Com o advento da devassa do lawfare recente, que foi iniciado em 2006 (mensalão), a legenda desidratou.

 Porém, ao invés de optar por demarcar um campo político que afastasse a extrema-direita e seu discurso predileto (moralista), o PT escolheu disputar esse campo com os extremistas, o que parece-nos que vai levar o partido a ser reduzido ainda mais.

 Assim, ao invés de ter a coragem de falar o que tem que ser dito, como rico é que deve pagar imposto, desenvolvimento econômico desigual não nos serve, reforma agrária é urgente, etc, o PT de Campos tenta seguir o caminho da suavização envergonhada, pálida, brigando com IDEB, acendendo a mais horrorosa demonização e criminalização da pobreza e de populações de rua, fazendo coro às histerias da classe média.

 Bem, como não há espaço vazio em política, o PT corre o risco de contribuir para o isolamento do prefeito atual, ou pior, na sua reaproximação com setores mais radicais de direita.

 Não devemos cair na palermice de imaginar que a presença de Flávio Bolsonaro seja um sinal de que Wladimir Garotinho pendeu para aquele espectro da política.

 Só os tolos e os petistas, do tipo “Sou PT, mas voto Feijó”  defendem uma asneira dessas.

 Observar com honestidade o cenário estadual mostra que Wladimir atraiu Flávio, e interditou uma aliança com as facções mais exaltadas aqui no interior, e de certa forma, esse movimento se reflete no afastamento de uma parte dos Bolsonaros de Cláudio Castro e Cia, inclusive porque Carlos Bolsonaro vai disputar vaga para o senado, em detrimento do governador, ou de quem ele indicar.

 A percepção desse racha, com a presença do senador filho do ex-presidente, dão uma demonstração do faro fino do prefeito campista em aproveitar brechas e costurar alianças de todos os lados, fazendo interlocução simultânea com todas as matizes ideológicas.

 Sem um programa, e pior, sem interesse em fazer a diferença entre a extrema-direita representada na delegada e seus aliados do Governo do Estado e o atual prefeito, que ele mesmo reivindica um “centro” político que, se não existe, ao menos o torna mais ameno ao debate, o PT, mais uma vez, renuncia àqueles que seriam bons motivos para conversar com um “centro” (o que, aliás, é o que Lula faz todo o tempo), e embarca na canoa da extrema-direita, reproduzindo conceitos caros à ela, como eco.

 Por fim, o PT de Campos abre mão de renovar seu discurso de esquerda, com o qual poderia sentar à mesa e disputar espaço onde é possível disputar.

 Espremido pelas contingências e por sua própria inabilidade, deixando que a coordenação de campanha afunde o porvir partidário, eis que o PT de Campos virou suco.

* Disponível em: https://brasiliarios.com/images/estreladoPT1.jpg, acesso em 22 de agosto de 2024.

** Douglas Barreto da Mata, inspetor de polícia desde junho de 2003, com passagens por delegacias de São Gonçalo, Maricá, Rio das Ostras, Macaé e Campos dos Goytacazes. Formado em eletrotécnica pela então Escola Técnica Federal de Campos, atual IFF. Autodidata, marxista convicto e fã de Led Zeppelin, Chico Science, Nação Zumbi, e Mundo Livre S/A. Militante do PT desde 1986, onde integrou o diretório municipal de Campos dos Goytacazes e o diretório regional do RJ. Participou dos governos Arnaldo Vianna, na aliança PT/Garotinho em 1999/2000, na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e do governo Benedita da Silva, como chefe de gabinete da FENORTE, em 2001/2002. Editor do blog Planície Lamacenta.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Eleições 2024 e o “efeito Witzel” - George Coutinho

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 Eleições 2024 e o “efeito Witzel” **

 George Gomes Coutinho ***

 

Ando acompanhando com muita atenção as entrevistas de candidatos/pré-candidatos a prefeito(a) de Campos para estas eleições. Eis uma das melhores maneiras de conhecer justamente o que a classe política local anda pensando, sobre eles mesmos e sobre a cidade.

Neste trabalho de audição atenta e respeitosa, um ponto tem se repetido, especialmente entre os nomes mais à direita: a esperança no que estou chamando de “efeito Witzel”. Me explico.

Nas eleições de 2018 tivemos o crescimento espantoso das intenções de voto de Wilson Witzel, ex-governador impichado do RJ e também meu colega no PPGCP/UFF em Niterói. Antes de prosseguir advirto ao leitor que não tenho nenhuma responsabilidade nos dois pontos biográficos que citei. Fiz até mesmo declaração pública de voto em Eduardo Paes para o Governo do Estado naquela ocasião.

De todo modo Witzel, até então um ilustre desconhecido e muitas vezes apelidado de Pretzel entre seus detratores, disparou na reta final nas intenções de voto e ganhou o pleito para governador do RJ no segundo turno. Com consistentes quase 60% dos votos válidos.

Esta disparada na intenção de votos não foi detectada no decorrer de 2018 e causou até perplexidade. Eis o “efeito Witzel”.

Em Campos, até o presente momento, as pesquisas de intenção de voto e de humor do eleitor com a atual administração indicam que Wladimir Garotinho pode, sim, liquidar a fatura já no primeiro turno. A questão é que nas entrevistas os opositores de Wladimir apostam na possibilidade de ocorrer o “efeito Witzel”. Ou, em outros termos, há a esperança declarada de que um ou mais nomes na concorrência eleitoral possam surpreender a todos nós e produzir uma reversão de expectativas na concorrência para a Prefeitura.

O maior problema deste raciocínio é desconsiderar o contexto das eleições de 2018 e até mesmo o pleito de 2016.

A conjuntura foi uma tempestade perfeita. Lavajatismo, antipolítica, prisão de Lula (que liderava as intenções de voto para presidente em 2018), diversos nomes se apresentando com um discurso antissistema e se vendendo como vacina “contra tudo o que está aí”. Foi isso que levou diferentes agentes com discurso, verídico ou não, de outsiders ao poder. Vide Dória em Sampa com seu papo “não sou político, sou empresário”, Kalil em BH e até mesmo Rafael Diniz em 2016, o primeiro eleito para a Prefeitura campista que não era egresso do grupo Garotinho.

Bolsonaro, Witzel, igualmente, ambos em 2018, surfaram uma onda muito específica que os alçou ao poder.

Dois mil e dezesseis e 2018 não foram anos de “eleições normais”. A conjuntura produziu diversos resultados surpreendentes.

Bem, e agora? A conjuntura não é a mesma. Diferentes análises indicam que as eleições de 2022 se movimentaram para alguma normalidade, tendo menos espaço para outsiders nos executivos locais, estaduais e nacional. Ou seja, longe de quebras bruscas e reversões radicais de expectativas, estamos voltando para um comportamento “normal” do eleitor onde este avalia simplesmente seu bem-estar, se o trabalho de policy making (elaboração de políticas) lhe é satisfatório ou não.

Penso que a tendência do processo de alguma desradicalização em curso, iniciado em 2022 e presente nos discursos de diferentes candidatos aos executivos estaduais, pode seguir neste 2024.

Dois mil e vinte e quatro tá com um “jeitão” de eleição normal. O humor (mood) do eleitor, que produziu o “efeito Witzel”, parece não estar presente.

Então, tudo mais constante, parece que a vantagem do incumbente campista segue até termos fatos novos que produzam a reversão de expectativas.

* Disponível em: https://pbs.twimg.com/media/EGmcUONWkAIPOO6.jpg, acesso em 30 de julho de 2024.

** Uma primeira versão desta reflexão foi publicada no perfil de facebook do autor em 22 de julho de 2024 (disponível em: https://www.facebook.com/george.coutinho.35/). A segunda versão foi publicada na página 04 do jornal campista Folha da Manhã em 27 de julho de 2024.

*** Cientista político, sociólogo e professor no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.