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segunda-feira, 28 de junho de 2021
Divulgação - "Um certo senhor Gabriel"
quarta-feira, 16 de junho de 2021
Feminicídio: até quando seguiremos assistindo essa violência?
Feminicídio: até quando seguiremos assistindo essa violência?*
* Publicado originalmente em Brasil de Fato.
Luciane Silva** & Michely Lazarini**
No mesmo dia de junho de 2021, duas mulheres foram atingidas na cidade de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, por homens com uso de armas brancas. Uma delas, foi atingida e assassinada em uma praça de alimentação de um shopping em seu horário de almoço. Jovem como seu assassino, buscava em um curso de enfermagem o mesmo que outras milhares de mulheres: qualificação.
Ao
longo dos últimos anos temos produzido matérias, lives, textos,
manifestos sobre o feminicídio. E ao revisar este material, era obrigatório
pensar qual contribuição pode ser dada em um novo texto. Já falamos de
socialização de meninas (e como se aprende o que é azul e o que é rosa), já
falamos da violação de mulheres, da rede de pedofilia em Guarus, do levante
feito por mulheres com o "Ele Não!" em 2018.
E
de lá para cá todos os dossiês, institutos de pesquisas, dados de delegacia e
manchetes de jornais, mostram o aumento de casos de morte de mulheres -
tipificado como feminicídio desde 2015, sob a lei 13.104/2015 que altera o
Código Penal.
Servir-se
da ciência em tempos de negacionismo é ir além do que já foi pontuado sobre o
comportamento masculino. E mais, contrariar aquilo que muitas vezes é
apresentado como explicação científica mas em nada coopera para compreender o
fenômeno do aumento e da banalização da morte de mulheres.
Ao
fazermos uma busca pelo termo “facada” na tentativa de compreender sua
ocorrência, encontramos mais de 300 casos recentes espalhados pelo país. Novo
Hamburgo, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Taguatinga, Campos dos Goytacazes, em
pequenas, médias e grandes cidades do Brasil. O discurso de ódio se
intensificou desde 2018 e precisamos ler o pesquisador alemão
Theodor Adorno e sua produção sobre a personalidade fascista para entender
as relações entre capitalismo, psicanálise e frustração.
Vamos
apresentar esta discussão a partir de pontos que podem ser avaliadas pelos
leitores:
-
O uso de armas brancas e outros instrumentos domésticos é feito com
emprego de crueldade contra a vítima. Desfigurar, mutilar após a morte
arrancando pedaços do corpo, violar sexualmente, todos estes atos são parte do
assassinato. Em um caso recente, ocorrido no Distrito Federal, o ex-namorado
confessou à polícia ter permanecido no apartamento “vendo a vítima agonizar,
gemer e gesticular”;
-
É comum a alegação de que “nunca pensamos que isto irá ocorrer conosco”.
Mas em uma pesquisa nas redes sociais de vítimas e analisando reportagens
recentes, é possível encontrar casos que se entrelaçam, mulheres pesquisando ou
militando pelo direito à vida que acabam assassinadas por motivos fúteis em via
pública;
-
Não são raros os casos em que um assalto se transforma em estupro e
feminicídio. Em um caso recente, a servidora pública de 49 anos, Luciana de
Mello, termina seu relacionamento ao saber da morte de Letícia Curado de 26
anos (ela passa a refletir sobre a natureza abusiva de seu relacionamento). O
assassino de Letícia, confessa ter assassinado também Genir Pereira de Souza,
no mesmo ano, na mesma cidade;
-
A presença de filhos pequenos é uma variável importante a ser observada pois
agrava a pena. Em um dos casos, a vítima foi jogada em um poço na frente do
filho de oito anos de idade. Em outro caso, em Ribeirão Preto, ocorreu um
feminicídio triplo. Não só a morte de uma mulher de 41 anos mas de suas duas
filhas;
-
As acusações variam de traição até reclamações na volta de um bar. Recentemente
uma mulher de 40 anos foi morta por discussão no Final da Copa Libertadores.
Ele era corintiano e ela palmeirense. O casal tinha filhos gêmeos.
Em
primeiro lugar, a idade dos envolvidos em casos recentes de feminicídio. Se
estamos discutindo gênero e alguns alegam que estes são comportamentos de outra
geração, o que vimos no caso do shopping de Niterói foi um jovem de 21 anos
assassinar sua colega por recusar uma oferta de paixão. Esse caso aciona um
sinal vermelho para as formas de socialização não apenas nas escolas mas em
família, trabalho e círculo de amigos.
Em
segundo lugar, toda a construção midiática das mulheres segue transformando seu
corpo em objeto de consumo e erotização. Em sites adultos, esta erotização vem
acompanhada de violência e frequentemente de submissão. A centralidade da
propriedade sobre o corpo feminino segue sendo a principal forma de construção
da masculinidade?
Precisamos
discutir a forma de acesso destes adolescentes à pornografia e como eles
imaginam que deva ser uma relação com outra mulher. Tão cedo já vemos um
comportamento padrão: esperar meninas de 15 anos na frente da escola,
afastá-las dos amigos e família, tudo isto, embora conhecido, continua sendo
aceito e justificado.
Os
“surtos” de violência seguidos de pedidos de desculpa que instauram um ciclo
cujo desfecho tem se tornado muito frequente. Bater com a cabeça da namorada
contra a parede, impedir sua saída, trancar portas, forçar relações sexuais,
produzir hematomas, deixar alguma marca permanente como lembrança e ameaça.
Atos presentes em relacionamentos abusivos.
Em
terceiro lugar, temos lido sobre transtornos, bipolaridade, esquizofrenia e
comportamento na área de psicologia. É possível ir além: é um erro
patologizar o assassino como um homem com problemas psíquicos. Não só porque
esta forma de matar mulheres é um fato social (e é objeto da sociologia a
considerar a alteração recente do número de mortes) mas também porque banaliza
a psicologia e o tipo de sofrimento que esta ciência trata em seus conteúdos.
Não
estamos falando de nenhuma doença ou anomalia em 70% dos casos. Estamos falando
de uma relação entre indivíduo e sociedade e não de um desvio biológico ou algo
semelhante às teorias lombrosianas do século XIX.
Para
concluir, até que possamos enfrentar com seriedade o assédio cotidiano nas
escolas, universidades, bancos, casas de família, delegacias, quartéis,
igrejas, bares, enfim. Até que façamos algo que coloque limites as formas de
assédio, não teremos qualquer avanço no combate ao feminicídio.
São
dois fenômenos intensamente conectados. Precisamos de políticas públicas, redes
de assistência, alteração da forma midiática de tratar o feminicídio. O que não
precisamos é da insensibilidade e do ódio que culpam a vítima pela violência
sofrida.
**
Pesquisadoras do Núcleo Cidade, Cultura e Conflito da Universidade Estadual
do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
terça-feira, 15 de junho de 2021
Nota de Pesar - prof. Glaucio Presente!
Nota de Pesar
Campos dos Goytacazes, 15/06/2021
É com imensa tristeza que recebemos ontem a notícia sobre o falecimento do professor Gláucio
Ary Dillon Soares. Ex-professor do IUPERJ e do IESP/UERJ, ex-presidente da ABCP e ex-Secretário Geral da ALACIP, Gláucio desenvolveu várias pesquisas no campo da Ciência Política e da Sociologia. Foi um dos pioneiros nos estudos sobre partidos e eleições no Brasil, em diversas obras desenvolveu aguçadas críticas sobre a Ditadura Militar de 1964, tornando-se referência nessa área, e mais recentemente se destacou em pesquisas sobre violência. Assim, mais do que um farto legado para as futuras gerações de cientistas sociais, Gláucio deixa uma lição de cidadania para a população. Extremamente querido e amado por seus alunos, orientandos e colegas, o professor Gláucio reverteu todo esse carinho em força para lutar bravamente durante anos contra um câncer, mas não resistiu à Covid-19 e lamentavelmente se tornou mais uma vítima dos crimes contra a saúde pública, dos negacionistas e genocidas que hoje ocupam o governo.
Prof.Dr. Claudio Araujo de Souza e Silva (Coordenador Bacharelado-COC/UFF)
Profa.Dra. Raquel Brum Fernandes da Silveira (Coordenadora Licenciatura-COC/UFF)
Prof.Dr. Carlos Abraão Moura Valpassos (Chefe de Departamento-COC/UFF)
Prof.Dr.George Gomes Coutinho (COC/UFF)
Prof.Dr. Frederico Carlos de Sá Costa (COC/UFF)
Profa.Dra. Mariele Troiano (COC/UFF)
Prof.Dr. Ricardo Bruno Ferreira (COC/UFF)
Pof.Dr. Rodrigo de Araujo Monteiro (COC/UFF)
quinta-feira, 10 de junho de 2021
O que pode estar por trás da indicação do ex-prefeito Crivella para embaixada na África do Sul
Tive o prazer
de participar da reportagem da BBC da ótima Juliana Gragnani, “O que pode estar
por trás da indicação do ex-prefeito Marcelo Crivella para a embaixada da
África do Sul”. Quando a gestão Bolsonaro busca agradar a cúpula da IURD, com
quem se desgasta oficialmente desde o fim de 2020, com a nomeação de Crivella
para embaixada da África do Sul, onde teve papel de destaque na década de 1990.
Indico a leitura da reportagem.
Abraços,
Fábio Py.
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O que pode estar por trás da indicação do
ex-prefeito Crivella para embaixada na África do Sul*
* Publicado originalmente em BBC News Brasil.
"A dor de ontem / Não vai vencer / Quem vive aqui / Sabe esquecer / África / África / África", canta o bispo Marcelo Crivella na canção "África", lançada no fim dos anos 1990.
Fazer esquecer "a dor de ontem" talvez
seja a principal missão de Crivella em sua possível volta à África, onde a
Igreja Universal do Reino de Deus que ele ajudou a fincar vive uma gigantesca
crise.
O ex-prefeito do Rio de Janeiro foi preso
preventivamente e afastado do cargo no ano passado acusado de chefiar um
esquema de propina. Agora, foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para a
embaixada do Brasil na África do Sul.
A indicação ainda depende de uma resposta positiva
do país e da aprovação do Senado brasileiro.
A tensão da Universal nos últimos meses se deu em
Angola. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Serviço de
Investigação Criminal do país disseram à BBC News Brasil, há provas fartas e
contundentes contra quatro integrantes da igreja, denunciados sob acusação de
crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e associação criminosa.
A igreja refutou todas as acusações, as classificou
de "fake news" e disse que os quatro membros acusados ainda não
conseguiram acesso à investigação formal. "Nem a Universal, nem seus
bispos e pastores praticaram crimes em Angola", disse à BBC News Brasil.
Crivella, que morou na África do Sul com a família
nos anos 1990, foi fundamental para a ampliação da Universal, ou IURD (Igreja
Universal do Reino de Deus), no país e nos países vizinhos.
Na opinião especialistas entrevistados pela BBC
News Brasil, o movimento de Bolsonaro visa a controlar duas crises: a da
Universal no continente africano e, especialmente, a do presidente com a
Universal.
A indicação do governo tem uma "dupla
função", diz a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora no
Programa de Pós Graduação em Educação da USP e pesquisadora do Cebrap. A
primeira, é ter Crivella para "tentar de alguma maneira apaziguar
possíveis levantes de outros países no continente africano" no contexto da
Universal.
A segunda está relacionada à aliança do próprio
governo com a Universal. "Mantê-la como apoio é fundamental para o governo
Bolsonaro batalhar a sua estabilização e seu crescimento na disputa pelo voto
evangélico nas eleições em 2022", afirma Teixeira.
Crise 1
Alguns anos depois da fundação da Universal em
1977, o bispo Edir Macedo começou um projeto de expansão internacional da
igreja. No continente africano, essa ampliação começou em Angola, por volta de
1991. Na África do Sul, por volta de 1993.
Crivella, sobrinho de Macedo, foi enviado ao país como
missionário para tocar a expansão, que se dava por meio da compra de espaços em
lugares onde há maior movimentação de pessoas, abertura de templos e
investimento em mídia.
"Era super importante ter alguém de confiança
que realmente investisse nesse projeto de transnacionalização. Foi Crivella
quem produziu esse primeiro processo de organização, elaboração e gestão do
crescimento institucional da IURD pelos outros países da África e dentro da
África do Sul", diz Teixeira.
"Em 1994, cheguei com minha esposa e três
filhos na cidade de Durban. Saíamos pelas ruas dando folhetos, convidando as
pessoas para a reunião na igreja", diz Crivella em um vídeo publicado em
seu canal do YouTube em 2009. Ele está ao lado da esposa, mostrando o templo da
Universal na cidade que fica no leste da África do Sul. "E logo ela [a
igreja] começou a encher. Era uma lojinha pequena dentro do mercado indiano.
Deus abençoou e se transformou numa grande catedral."
A data de chegada de Crivella no país coincide com
o fim do Apartheid, o regime de segregação racial na África do Sul. A ideia
inicial da Universal, diz lana van Wyk, professora de antropologia da
Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, era atingir os falantes de
português, pessoas vindas de países lusófonos vizinhos - tanto que os primeiros
cultos em Joanesburgo, maior cidade do país, eram nessa língua. Wyk é autora do
livro The Universal Church of the Kingdom of God in South Africa (A Igreja
Universal do Reino de Deus na África do Sul).
"Mas, de forma inesperada, atraiu um grupo
grande de pessoas negras. A igreja saiu, então, de um bairro predominantemente
branco e se imiscuiu em regiões com população negra", afirma Wyk.
Ela lembra da presença de Crivella no país.
"Grandes multidões de pessoas compareciam a seus sermões. Ele tinha uma
reputação de homem forte de Deus, com histórico de milagres."
Para ela, a Universal se aproveitou do momento
pós-Apartheid, em que havia sentimento de esperança no país, para angariar
membros. Com seu discurso de prosperidade, deslumbrou os sul africanos
desejosos de mobilidade social e integração racial. "O momento em que a
igreja entrou na África do Sul foi bem escolhido. Foi num tempo de muita
esperança de mudança política e econômica", diz Wyk.
"Quando a Universal chegou, as pessoas
pensavam que finalmente poderiam 'usar' o poder de Deus para mudar suas vidas
de maneira prática. O Deus da igreja poderia os tornar ricos e saudáveis."
Hoje, segundo o site da Universal da África do Sul,
há 309 igrejas no país - menos que as 320 contabilizadas por Wyk na época em
que publicou seu livro, em 2014. Segundo ela, a igreja vem perdendo força na região,
com membros migrando para outras denominações pentecostais ligadas à figura de
profetas.
Ao lado das movimentações em Angola, essa
hemorragia de membros forma um cenário preocupante para a Universal no
continente. Bispos e pastores angolanos divulgaram há dois anos um manifesto
com acusações públicas contra os brasileiros da igreja, iniciando um processo
de "reforma" em Angola.
Para Teixeira, a presença de Crivella, "como
toda a experiência que teve na África do Sul, seria uma forma de ajudar na mediação
dos conflitos e pensar na contenção de danos dessa crise gravíssima" no
continente.
Voltar à África também deve cumprir um desejo
antigo de Crivella, segundo ele próprio já expressou. Em junho de 2014, em
entrevista ao jornal da Universal, a Folha Universal (n° 1.160, ano 22),
Crivella disse não ter sido "fácil viver na África em um tempo de guerra
política no fim do apartheid". "Mas agradeço muito a Deus por ter me
dado a honra de ter passado por aquelas dificuldades, que apenas nos fizeram
mais fortes."
Quando questionado se tinha vontade de se tornar
político, Crivella responde: "Confesso que não queria. Não queria mesmo. O
que eu sonhava era voltar para a África ou qualquer que fosse o país."
O sonho virou também conveniência: com a nomeação,
o ex-prefeito do Rio passa a ter foro privilegiado, e o processo a que responde
é transferido para o Supremo Tribunal Federal.
Crise 2
O envio de Crivella para a África do Sul também cai
como uma luva para Bolsonaro, que foi cobrado por lideranças da Universal pela
omissão do Itamaraty diante da crise em Angola.
Para o teólogo evangélico Fábio Py, professor do
programa de pós-graduação em políticas sociais da Universidade Estadual do
Norte Fluminense, a "jogada" de Bolsonaro é uma maneira de afagar a
crise entre ele e a igreja, que já cobrou diversas vezes posicionamento do
presidente em relação às tensões no continente africano.
"Bolsonaro percebe que não consegue resolver a
questão de Angola porque entra em questão nacional do país. Para dar outro
caminho, ele abre possibilidade de Crivella assumir a relação Brasil-África do
Sul", afirma. "É uma jogada para não perder o apoio do Macedo."
Para ele, com a indicação, Bolsonaro age para não
"desamarrar a igreja Universal" de si. "Até porque está
começando a pintar 2022. Bolsonaro começa a se armar por conta de Lula",
diz. O presidente não quer "perder a Universal, sua estrutura e o processo
de propaganda da Universal" visando às eleições.
A igreja é representada no Congresso pelo partido
Republicanos, aliado do governo.
Além disso, o eleitorado evangélico tem um peso
significativo para o presidente - e uma pesquisa Datafolha divulgada no dia 12
de maio apontou o ex-presidente Lula (PT) e Bolsonaro empatados no primeiro e
segundo turnos entre o eleitorado evangélico. Indica que o atual presidente
precisa se mexer para não perder votos com essa parcela de eleitores.
Para Teixeira, o discurso ostensivo por parte de lideranças da Universal sobre a falta "de apoio e resguardo" do Itamaraty é o que fez o governo se mexer. "É como se o governo Bolsonaro não estivesse correspondendo ao apoio da igreja, o que pode fazer com que ela repense o apoio eleitoral", diz. "A aliança estaria em risco."
quarta-feira, 9 de junho de 2021
"Para Bolsonaro, parece que nenhuma ação tem consequência." - Luis Felipe Miguel
"Para Bolsonaro, parece que nenhuma ação tem consequência."*
Luis Felipe Miguel**
Se Bolsonaro chegar ao final de seu mandato, como parece que infelizmente chegará, ele terá sido vitorioso.
Mesmo perdendo as eleições, como espero que perca.
Ele terá mostrado que é possível alcançar a presidência por meio de eleições fraudadas manu militari e governar rasgando a Constituição, transformando o Estado num puxadinho de sua milícia, conspirando contra a democracia (ou o que dela resta), destruindo os direitos, sufocando as liberdades e matando o povo - e tudo bem.
Para Bolsonaro, parece que nenhuma ação tem consequência.
Tá certo que a gente sempre falou em "seletividade das instituições", mas devia ter algum limite, não?
O que se escancarou é que a direita pode tudo e as regras vigentes servem apenas para, quando for o caso, reprimir a esquerda.
Estamos pagando um alto preço por termos deixado impunes os crimes da ditadura. A conta será igualmente trágica se o bolsonarismo não for responsabilizado.
Em nome da "pacificação nacional", um eventual governo democrático será instado a varrer tudo para debaixo do tapete.
Isto não deve ser considerado uma opção. Investigar e punir Bolsonaro e seus muitos cúmplices não é apenas um dever diante dos milhões de vidas destruídas no Brasil - incluindo os mortos e aqueles que tiveram o futuro arrasado.
É um passo necessário para que possamos reconstruir um país.
* Texto republicado com autorização do autor. Post original disponível em: <iframe src="https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fluisfelipemiguel.unb%2Fposts%2F10219846740339839&show_text=true&width=500" width="500" height="294" style="border:none;overflow:hidden" scrolling="no" frameborder="0" allowfullscreen="true" allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; picture-in-picture; web-share"></iframe>
** Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autor de "Democracia e representação: territórios em disputa" (Editora Unesp, 2014), "Dominação e resistência" (Boitempo, 2018), dentre outros.
*** Paul Klee, "Angelus Novus". Disponível em: https://images.app.goo.gl/4PqRAqM2tseDp3qj7, acesso em 09 de jun. 2021.
terça-feira, 1 de junho de 2021
Sobre polarização e doisladismo no Brasil de Bozoasno
Sobre
polarização e doisladismo no Brasil de Bozoasno.
Márcia Cristina
Mérida Aguiar*
Tive
contato com o conceito em moda hoje, “polarização”, faz tempo. Muitas vezes,
vem sendo usado sem qualquer referência à sua construção histórica mais recente
e, por vezes, para se dizer sabe-se lá o quê.
Conheci,
usei, estudei “polarização” referindo-se às duas potências da Guerra Fria, EUA
X URSS, que num confronto de décadas, se destacavam como polos.
A
palavra "polo" diz sobre poder, capacidade, potência de lados
opostos, se não iguais, pelo menos com alguma equivalência ou correspondência.
Não
há uma só vez que eu escute ou leia a palavra polarização sobre o Brasil
contemporâneo, que não me lembre destes elementos: dois polos se confrontam por
possuírem poderes equivalentes.
Nunca
tinha ouvido a expressão referindo-se às situações desiguais. No entanto, no
Brasil do Bozoasno, esta palavra abriu mão da equivalência, princípio básico da
polarização e passou a substituir tudo que até então era tratado por lados em
oposição, lados assimétricos, lados desiguais, lados que não se enfrentam em iguais
condições.
De
repente, estamos nadando contra o afogamento neste mar de doisladismos.
Parece
até que nos foi furtada a possibilidade de pensar e agir, afinal, este discurso
não reflete a desigual relação de forças, os instrumentos de afirmação e as
formas de (luta pela) existência.
Em
meio a esta bruma confusa que surge no novo léxico, passamos à exposição
digladiadora sendo tratada como debate, sem chance de entendimentos ou de
divergências civilizadas, por exemplo, entre pressupostos científicos e
formulações que chegam pelo tio do zap.
Parece
que abandonamos a premissa primordial do debate: é preciso que se fale a mesma
língua, ou que se tenha alguma possibilidade de tradução (não que tenham as
mesmas ideias a serem defendidas), mas algum chão comum é o basal na elaboração
de um debate.
Nas
braçadas dadas entre os doisladismos, muito se defende o direito de opinião. É
esquisito observar como parece que tudo que resulta da conexão cérebro - boca
seja tratado como opinião. Sou do tempo em que a opinião concorria e se
diferenciava do delírio, da mentira deslavada, da pós-verdade, do blefe, da
retórica etc. e, note, todas as formas discursivas fazem este caminho entre o
cérebro e a boca e isto não é suficiente para tornar todo texto que venha deste
percurso seja considerada opinião.
São
muitas as confusões de fundo que resultam em tornar o que vivi no 29M em mais
um evento da polarização, em experiência de equivalências.
Eu
bem sei que a História não ensina nada a ninguém. Entretanto, nesta história,
há a figura do estudante, do estudioso, do curioso, do produtor e também do
aprendiz do conhecimento histórico.
O
que o doisladismo me aponta, do ponto de vista histórico, são os desperdícios
de conquistas históricas. Tem história, mas carece de aprendiz. Um exemplo: em
todas as sociedades, o homicídio passou por algum grau de reprovabilidade.
Entretanto, foi na modernidade que se consagrou o direito à legítima defesa,
situação que o indesejável homicídio é permitido.
O
princípio da legítima defesa, estudado em vários povos não modernos, estendido
do individual ao coletivo, esteve presente na consagração do direito de
resistência à opressão. Exatamente este direito, o de resistir. Sem ele, não
seríamos modernos, pois foi ele que garantiu a “evolução” das formas de
organização das sociedades.
Legitimamente,
para superar os paradoxos da opressão dos povos, foi a luta, a resistência que
desinstalou o absolutismo francês, a descolonização da América do Norte e, só
para ficar bem no começo de uma longa história moderna de lutas legítimas
contra o arbítrio, contra o Estado que se coloca contra seus próprios
governados.
Sem
esta referência histórica básica, a gente vem se perdendo, se afogando neste
mar de doisladismo.
É
muito estranho ouvir: estamos polarizados! "Temos dois lados iguais, a
oposição não pode aglomerar porque lutou contra isto até agora e se assim fizer
está repetindo o outro polo".
Quanta
desconsideração histórica! Em 29 de maio, eu fui para rua ao encontro dos meus
iguais. Aglomerei? Prefiro primeiro dizer o que não foi feito: o espírito da
praça São Salvador não era de deboche com o vírus. Todos de máscara e álcool
para higiene (quem estava sem máscara recebia gentilmente uma, acompanhada de
álcool). As pessoas que se mantiveram distantes até agora não se tocavam, não
se abraçavam, e todos se beneficiando da brisa do Rio Paraíba, a céu aberto.
Não vi ninguém com escárnio com a pandemia, nem com os mortos, nem debochando
da falta de ar que a covid produz. Muito menos cultuamos bonecos infláveis de
caixa de remédio já demonstrado ser sem qualquer eficácia.
O
que fizemos na praça? Demos um primeiro passo público, coletivo, contra quem
nos oprime.
Eu
não queria ter quebrado a quarentena, nem nestes parâmetros de cuidado que tive
na 29M. Sigo sendo contra aglomerações. E não contradigo nenhuma recomendação
dos cientistas em relação à pandemia. Não mudei de opinião em relação à
necessidade dos cuidados adotados nestes tantos meses de terror. Simplesmente
assumi o risco.
A
aceitação do risco surgiu da pergunta: qual seria o momento de começar a
manifestar, externalizar que não darei margem para o prosseguimento do crime
contra a humanidade que assola nosso país?
Temos
um Estado que age (não só se omite) para nos matar. Que não se importa com
nossas vidas, que deseja mesmo, malthusianamente, um controle populacional
demográfico, para tornar o ideal da pasta da Economia uma realidade. É um
Estado que guarda uma granada para colocar nos nossos bolsos, que lamenta que
estejamos vivendo mais e melhor, que culpa a vida pelo “rombo da previdência”,
que quer salvar os grandes e que quer que os pequenos e médios se fodam (não
posso colocar entre aspas, pois não estou transcrevendo, mas estas são falas ou
do "asno" ou do “gênio” da economia – “gênio” que participou da
construção de um Chile que neste momento está em superação, exatamente porque
houve o exercício do direito de resistir à opressão).
Fui
à manifestação do 29M com muito orgulho e esperança. É luta, é direito de
resistência, é busca para diminuir as desigualdades. Não tem nada a ver com
polarização, já que um dos lados, este que estou, está sendo massacrado. Não
tem nada a ver com dois lados diferentes e igualmente legítimos.
Tenho
sincero respeito por quem, neste momento, optou por não passar por este risco,
porém, não compartilho de mesmo reconhecimento com quem supõe que diante de um
Estado genocida, só devemos ir à rua quando não houver risco, pois isto não
acontecerá. Quando não houver o risco de um vírus, haverá o risco de milícias
ou de policiais mandados, o risco dos fundamentalistas, o risco de deixar
crescer a tragédia que estamos vivendo etc. Esqueçam o tempo em que fazer uma
manifestação era estar todos de boas com a cara pintada na rua. De agora em
diante, os riscos se multiplicarão, basta que observemos o que aconteceu em
Recife.
Na
luta contra a opressão, o que se quer é a queda do lado opressor, ilegítimo,
arbitrário, absurdo e bárbaro. Não me peçam o reconhecimento do outro lado,
pois eu fui às ruas em legítima defesa.
29
de Maio,
Márcia
Mérida
* Professora de História, Advogada, Mestra em Políticas Sociais.





