quarta-feira, 11 de março de 2026

“Por que misturar futebol e política?”


 

Misturar (M) pressupõe elementos distintos (A e B). O conceito de distinção pressupõe a existência de alguma separação material ou conceitual. Se algo nunca esteve separado (A e B), sem partes independentes, não se pode misturar (M) o que quer que seja.

Futebol e política nunca estiveram separados. No máximo, é possível identificar locais, como a Inglaterra, onde o futebol se desenvolveu independentemente do Estado. Mas jamais da política em sentido lato. Nos anos 1880, no Norte e no Centro inglês predominavam clubes de industriais, da pequena burguesia e de operários, que remuneravam os melhores atletas e treinadores. A prática foi contestada após as conquistas da FA Cup pelo operário Blackburn Olympic (1883)[i] e seu rival, Blackburn Rovers (1884)[ii]. Os clubes aristocráticos do Sul tentaram proibir a remuneração; em resposta, os clubes do Norte ameaçaram criar uma liga independente, culminando na profissionalização (1885). O futebol, embora independente do Estado, refletia as lutas de classes que protagonizavam a política britânica no século XIX. Também no futebol britânico, foi a classe operária a principal agente de transformação.

Esse desenvolvimento político do futebol – de certo modo – autônomo em relação ao Estado não é a regra. Em diversos países, a política do (no e sobre o) futebol influencia e é influenciada pelas instituições do Estado. Seria possível citar diversos exemplos, desde as interferências do nazismo nos clubes alemães, do fascismo italiano, do franquismo, até as eleições de dirigentes e ex-atletas para cargos legislativos e executivos em democracias liberais mundo afora. Na Argentina e no Brasil, a relação entre política e futebol se desenvolve em múltiplas esferas com repercussões sobre o Estado. Reconstruindo essa articulação, a Editora Ludopédio lançará, em maio, o livro Na grande área do poder – O futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002).

O livro resulta das pesquisas de doutorado realizadas por Jefferson Nascimento, professor do Instituto Federal de São Paulo, e mostra que tais relações não podem ser reduzidas a episódios de apropriação das entidades do futebol por regimes autoritários. Ao contrário, representantes de clubes, federações, associações e confederações de futebol se articulam para interferir na política institucional-estatal. São interesses organizados do alto escalão do futebol encontrando interesses de partidos e autoridades estatais.

Embora o marco inicial seja 1930, o livro resgata episódios importantes anteriores. Do mesmo modo, no posfácio há reflexões sobre ocorrências após 2002. A ênfase, contudo, começa na década de 1930, quando tais relações deixam de ser episódicas, e termina com análises sobre como a neoliberalização dos Estados argentino e brasileiro se refletiu no futebol profissional.

O livro pode contribuir com o público interessado em futebol e/ou política, jornalistas, acadêmicos e pesquisadores. Pode fornecer insights também para quem queira compreender as relações entre entidades do futebol e os entes subnacionais do Estado (municípios e unidades federativas). Mas, acima de tudo, demonstra que não dá para olhar para essa poderosa manifestação da cultura popular meramente como pão e circo, muito menos ignorar os efeitos concretos da política do (no e sobre o) futebol na vida da classe trabalhadora.


PRÉ-VENDA


Até dia 10 de abril, o livro pode ser adquirido junto ao curso “Futebol e política na Argentina e no Brasil: o jogo por trás do jogo” (online), a ser ministrado ministrado nos dias 11, 18 e 25 de abril. Esta opção conta com a política de valores reduzidos (50% no preço do curso) para negros, negras, indígenas e quilombolas, pessoas com deficiência, estudantes e docentes da Educação Básica. Abaixo, os preços do curso junto ao livro:

·        Integral:  R$ 370,00 (4x R$ 92,50);

·        Valor reduzido (50%) = R$ 220,00 (4x R$ 55,00);

Informações e compra neste link. 


É possível adquirir apenas o livro em pré-venda na Editora Ludopédio. Os valores promocionais são:

·        1º lote: até 31/03 R$ 69,90 (Compre aqui)

·        2º lote: até 30/04 R$ 79,90

·        3º lote: até 31/05 R$ 84,90

·        A partir de junho R$ 94,90

Para mais informações, sobre datas, horários, opção de compra do curso sem o livro, parcelamento etc., acesse os links indicados anteriormente.


* Este texto foi publicado originalmente no dia 11 de março de 2026 como Nota Cultural da LCB.



[i] O Blackburn Olympic, clube da classe trabalhadora, durou 11 anos (1878-1889). Segundo Miguel Stédile (2013, p.17), o time campeão em 1883 era “[...] formado por tecelões e mineiros, além de um encanador e um operador de fundição de ferro”. Apesar do título de 1883, ficou difícil concorrer na cidade com o Blackburn Rovers por público e patrocínio. A pá de cal veio quando o Campeonato Inglês (The Football League, 1888) permitiu apenas um clube por cidade e o escolhido foi o Rovers. No ano seguinte, endividado, o Olympic dispensou os jogadores profissionais. Ver mais em: STÉDILE, Miguel (2013). Clubes de futebol operário como espaço de autonomia e dominação. Espaço Plural, nº 29, p. 15-44.

[ii] Os Rovers foram fundados por estudantes da escola particular Shrewsbury School e se desenvolveu como principal representante de Blackburn, polo industrial têxtil, possuindo identidade industrial e contratando operários das fábricas locais e jogadores escoceses.

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