quinta-feira, 30 de março de 2023

A PEC 206 já foi tarde

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 A PEC 206 já foi tarde**


George Gomes Coutinho***


Com certo barulho nas redes sociais e na mídia, a “PEC das mensalidades nas Universidades Públicas”, a PEC 206, que então tramitava na CCJ da Câmara dos Deputados, foi retirada da pauta. É derrota, mesmo que momentânea, de seus defensores.

A PEC 206, apresentada em 2019 pelo deputado federal General Peternelli (União Brasil /SP), discutia a cobrança de mensalidades dos “estudantes ricos” nas Universidades Púbicas brasileiras. Também defendia a manutenção da isenção de mensalidades para “a população mais carente”. O argumento, reencarnado periodicamente em editoriais dos grandes jornais e em círculos conservadores e/ou liberais, apresenta: 1) a condenação moral da “gratuidade generalizada”, a despeito da não cobrança de mensalidades implicar na entrega de um serviço público, mesmo que focalizado, prestado a uma população que já paga impostos diretos e indiretos; 2) uma denúncia conveniente das desigualdades sociais no espaço das instituições públicas de ensino brasileiro universitário. Os argumentos neste último caso não transbordam, por óbvio, para todas as outras esferas da sociedade. Discussões sérias de caráter tributário sequer mandam lembrança.

Com tudo isso conta-se ainda com um público dotado de capacidade contributiva que é menor do que o propositor imagina. Só na Região Norte há apenas 5,6% dos estudantes de graduação com famílias com renda na faixa acima de 10 salários mínimos, vide perfil de 2018 dos graduandos das instituições federais de ensino feito pela Andifes. Além de não lidar com a complexidade dos desafios da universidade pública brasileira contemporânea a medida, caso fosse aprovada, arriscaria descambar em constrangedora futilidade. Não reduziria desigualdades e tampouco produziria recursos relevantes para as instituições.  A PEC 206 já foi tarde.

* Arte elabora pela equipe da ANPOCS.

**A primeira versão deste texto foi publicada em 03 de junho de 2022 no Instagram da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, a ANPOCS, na seção Entre Aspas. Link para o post original: https://www.instagram.com/p/CeV-Acurpbw/?utm_source=ig_web_copy_link, acesso em 30 de março de 2023. O contexto era mais uma derrota da base do governo Bolsonaro na CCJ com a famigerada PEC 206. A PEC, como evidencia o texto, visava instituir a cobrança de mensalidades nas universidades públicas.

*** Professor da área de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos. É um dos coordenadores do Imagina-Sul (Grupo de Estudos e Pesquisas do Pensamento e da Imaginação Política no Sul do Mundo).

quarta-feira, 29 de março de 2023

De que comunismo estamos falando? – Sobre a pesquisa IPEC de março.

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De que comunismo estamos falando? – Sobre a pesquisa IPEC de março.

 

George Gomes Coutinho **

O IPEC, antigo IBOPE, realizou pesquisa nacional entre 02 e 06 de março. A síntese da pesquisa[1], divulgada primeiramente pelo grupo Globo[2], visava verificar a temperatura da conjuntura política no que tange a recepção do governo Lula 3 e, para além disso, aproveitou para tratar de outras temáticas de interesse político mais amplo. Dentre as questões apresentadas aos indivíduos da amostra, um total de 2 mil brasileir@s, algo assombrou formadores de opinião e demais atuantes no atual mercado descentralizado de produção de informações: 44% dos participantes concorda total ou parcialmente com a afirmação de que o Brasil corre o risco de se tornar um país comunista.



Vale dizer que se adotarmos a perspectiva do “copo meio vazio”, e acrescentarmos os que “discordam em parte” da afirmação, o percentual chega a 55%. Afinal, “discordar em parte” quer dizer que não se discorda totalmente da possibilidade de nos tornarmos um país comunista na atual quadra histórica. Ou interpretei errado?

A reação de maneira geral foi de estupefação e em alguns casos resignação. Afinal, estamos no país do patriota do caminhão, dos aliens golpistas, dos Messias em goiabeiras, etc.. Por outra via há os que se lançaram no esforço (ou fé) iluminista e se puseram a explicar, afinal, o que é o comunismo, seja por um resumo conceitual formal ou revisitando experiências factuais.

Os 44%, ou os 55% em minha perspectiva mais pessimista, que acreditam para mais ou para menos na hipótese do país se tornar comunista, certamente apresentam baixíssimo letramento político-ideológico em termos canônicos. Vale dizer que, destes que temem uma ameaça comunista no horizonte, há grande percentual que se declara portador de diploma universitário (43% do total da amostra com ensino superior aposta na hipótese comunista – 55% se somarmos também os que discordam só parcialmente do suposto risco vermelho neste estrato). A maior qualificação formal não conferiu imunidade cultural ou cognitiva pelo visto.

Não se trata de exigir que a população da amostra da pesquisa IPEC ande com o Dicionário do Pensamento Marxista de Bottomore debaixo do braço. Mas, a perplexidade generalizada se dá é pela ausência de rudimentos de conhecimento sobre o que seria o comunismo ou a experiência do socialismo real. De alguma maneira seria como se 44% da população da pesquisa (ou os 55% em minha ótica mais sombria) se declarasse inepta para operar somas ou subtrações simples. O levantamento do IPEC também indica lamentavelmente, dentre outras coisas, uma lacuna de conhecimento básico.

Eu reconheço a gravidade do problema e considero louváveis as intervenções abnegadas dos que se esforçaram no esclarecimento sobre o que seria o comunismo em termos factuais ou conceituais. Contudo, eu gostaria de apontar para outra coisa, para algo mais pragmático que importa na atual luta política brasileira para restituir alguma saúde à democracia nativa. Considero que o comunismo que está no horizonte de forma mais ou menos palpável para estes cidadãos, e o que eles temem, é outra coisa, algo para além do cânone ou das experiências do socialismo em Cuba, Coréia do Norte ou no Leste Europeu. O que estamos lidando é com a atualização rarefeita, quase etérea, do anticomunismo.

Heloisa Starling data o nascimento do anticomunismo nacional em 1935[3] por ocasião dos levantes comunistas do período. Desta malfadada experiência, voluntarista para dizer o mínimo, decorreu trabalho sistemático da máquina varguista de perseguição implacável aos membros do partido e simpatizantes, satanização ideológica e deflagração de pânico moral. Todo este trabalho foi muito bem sucedido. Gildo Marçal Brandão costumava lembrar que entre 1922, data de fundação do Partido Comunista Brasileiro, e 1985, período da abertura da ditadura civil-militar em que houve a reconfiguração do sistema político tal como o conhecemos, o PCB gozou de apenas três anos e meio de legalidade plena. Este apagamento, esta vida nas catacumbas do sistema político, jamais seria possível sem ampla legitimidade. E aqui pouco importa, em temos das consequências práticas, se é legitimidade alcançada às custas de iletrados ideológicos.

Portanto, desde 1935 o espectro do anticomunismo assombra a imaginação política brasileira, tendo atuação decisiva nos fatos que desencadearam o golpe de março/abril de 1964. O anticomunismo no período ajudou a conferir eficácia simbólica ao discurso de ditadores, torturadores e de seus apoiadores, seja na sociedade civil ou nos quartéis.

A atual reencarnação do anticomunismo nesta década de 20 do século XXI é enquanto recurso retórico eficiente justamente por seu caráter impreciso, lusco-fusco. Aproveita-se da capilaridade adquirida pelo anticomunismo após décadas de inculcação no inconsciente político nacional. Mas, a atual versão, mobilizada por direita e extrema-direita, é dotada de conteúdo vazio[4]. Portanto, os esforços de esclarecimento formal ou factual aí não penetram. Não se trata de uso público da razão ou algo que o valha. O termo é usado como arma política de mobilização contra os adversários, e aqui qualquer adversário. Partido dos Trabalhadores, movimentos LGBTQI+, feministas, ambientalistas, médicos sanitaristas.. fiscais de posturas, multas de trânsito.. libearis! Tudo e todos, rigorosamente tudo pode entrar no comunismo dotado de conteúdo vazio e neste anticomunismo rarefeito, militante e popular contemporâneo. Comunista é o inimigo, aqui no sentido schmittiano, que se opõe ao meu grupo. É antiesquerda e além.

Portanto, pasmem, talvez a eleição de Lula para o grupo que vislumbra o comunismo no horizonte, tenha significado passo firme em direção ao regime que promete a socialização dos meios de produção.

O que fazer? Seguir saneando a opinião pública é trabalho necessário e importante, até para sairmos desse lodaçal discursivo que não interessa ao regime democrático. É fundamental que as coisas e seus devidos nomes se associem, aí pouco importa se para críticos ou simpatizantes ao comunismo. É preciso instituir qualidade na discussão pública. E junto a isso, nos resta é a boa, velha e pouco quista luta política, a ocupação de espaços institucionais, nos veículos de opinião, etc.. Se não o fizermos, os paranoicos que veem fantasmas comunistas até mesmo em borras de café, o farão.

 

* Ilustração de Maurenilso Freire publicada no Correio Braziliense em 21 de março de 2023. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2023/03/5081751-nas-entrelinhas-o-fantasma-do-comunismo-renasceu-com-o-bolsonarismo.html, acesso em 28 de março de 2023.

** Professor da área de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos. É um dos coordenadores do Imagina-Sul (Grupo de Estudos e Pesquisas do Pensamento e da Imaginação Política no Sul do Mundo).

 


[1] O relatório completo da pesquisa IPEC pode ser consultado aqui: https://www.ipec-inteligencia.com.br/Repository/Files/2218/Job_22_1925-3_Avaliacao_Relatorio_de_tabelas_Imprensa.pdf. Acesso em 27 de março de 2023.

[3] STARLING, Heloisa Murgel. O passado que não passou. In: Democracia em risco? 22 ensaios sobre o Brasil hoje. Sâo Paulo: Cia das Letras, 2019.

[4] Starling, Op. Cit., 2019.

sábado, 25 de março de 2023

Lula versus Moro - Luis Felipe Miguel

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Lula versus Moro**


Luis Felipe Miguel***


Lula errou feio em suas últimas falas sobre Sérgio Moro. Errou na entrevista ao 247, ao expor a compreensível raiva que sentia por ter sido vítima da desonestidade do juiz, sem levar em conta o uso que a direita daria de suas palavras. E errou mais ainda ao dizer que o plano assassino do PCC era provavelmente uma armação do próprio Moro, reconhecendo, na própria fala, que não tinha provas para fazer a acusação.

O timing da operação é estranho? Sim. A juíza paranaense, cúmplice de Moro, que está tocando o processo não teria competência para tal? É o que dizem os juristas.

Mas não cabe ao presidente da República levantar especulações sobre o caso. Lula podia ter dito apenas que, no seu governo, é prioridade garantir a integridade física de todas as pessoas, que a Polícia Federal age sem viés político ou que esperava que a investigação fosse levada até o final.

O problema não é que ele tenha permanecido com "discurso de palanque", como disseram alguns jornalistas.

É que ele devolveu a Moro uma importância que ele não tem mais. Como se um senador medíocre pudesse ser antagonista do presidente.

Hoje, todos sabemos quem é Sérgio Moro: um sujeito inculto, de poucas luzes, não muito inteligente ou articulado, capaz apenas de uma esperteza de fôlego curto.

Deixado à própria sorte, ele terminará seus anos de senador despontando para o anonimato, como diria Nelson Rodrigues.

Não cabe a Lula dar destaque a ele. Lula deve ser cioso da distância que hoje os separa.

E, se há mesmo suspeita de que houve armação, é melhor deixar a investigação andar, para, no momento certo, denunciar com provas, não apenas com convicções. 


* Charge do genial Aroeira publicada no site Diário do Centro do Mundo. Link para o post original: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/dia-dificil-para-moro-que-esta-de-ferias-por-renato-aroeira/, acesso em 25 de março de 2023.

** Publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Luis Felipe no dia 25 de março de 2023. Reproduzimos aqui com a autorização do autor.

*** Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autor de  "Democracia e representação: territórios em disputa" (Editora Unesp, 2014), "Dominação e resistência" (Boitempo, 2018), dentre outros. Lançou no primeiro semestre de 2022 o seu  "Democracia na periferia capitalista" pela Autêntica Editora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A dor não acolhida dos (meninos)-jogadores da seleção brasileira

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A dor não acolhida dos (meninos)-jogadores da seleção brasileira

 

Tábata Berg**

 

Quem me conhece, sabe que sou apaixonada por futebol, apesar de ter passado a última década e meia um tanto brochada. E sei que, como tão bem nos ensinou Galeano, futebol e política encontram-se fundamentalmente imbricados. A Copa escancarou várias dessas tessituras. Não vou falar aqui do que tem sido tão debatido no plano do macro, solo pútrido que contamina todas a dimensões do espetáculo, isto é, dos acordos econômicos milionários, da superexploração do trabalho imigrante, da misoginia, homofobia e racismo que estruturam o futebol como uma poderosa instituição capitalista.

Vou me deter a algumas impressões mais subjetivas.

Logo após o primeiro jogo do Brasil, aquele que Neymar saiu machucado e Richarlyson fez uma bela partida com um gol que foi uma obra de arte, eleito pela FIFA como o mais bonito do campeonato, as minhas redes progressistas foram tomadas por publicações sérias e memes que contrapunham esses dois craques da seleção. Ressalto, de antemão, que acho legítimo que Neymar tenha sido responsabilizado por seus posicionamentos políticos. No entanto, incomodou-me profundamente o prazer sádico, típico da branquitude, em rivalizar dois homens negros e periféricos. Expurgar o próprio mal para o outro, nesse caso, Neymar, é uma estratégia colonial, talvez a mais basilar. Sugiro leituras atentas, não apenas proforma, de Lélia Gonzalez, Toni Morisson, Fanon.

Depois foi a vez da carne folheada à ouro. Vi várias postagens de pessoas cujo próprio existir é um impacto ambiental e social, que são partícipes de instituições ainda profundamente excludentes, como é o caso das nossas universidades, apontando o dedo! Novamente... Expurgar o mal é uma delícia, né, meu filho?!

Quando o Brasil perdeu, vieram outras postagens. Dois padrões nessas publicações me são particularmente indigestos.

Em primeiro lugar, aquele que reproduzia a noção de "meninos" do futebol como uma reposição não mediada do machismo, especialmente vinculada à irresponsabilidade afetiva e ao abandono paterno - aspectos amplamente difundidos no caso do jogador Militão. Não pretendo entrar nos entremeios desse caso. Ressalto, o patriarcado, com a consequente reprodução de um padrão de maternidade/paternidade que responsabiliza com uma desigualdade abissal mulheres e homens pelos cuidados de crianças e idosos atravessa as mais distintas posições e condições sociais. Todavia um olhar interseccional e, portanto, mais acurado nos possibilita não perder de vista as singularidades que conformam masculinidades não-hegemônicas. Houve de modo difuso uma certa identificação do caso do Militão com essa meninice tipicamente tupiniquim. Em contraposição há uma paternidade e afetividade responsáveis encarnada no jogador argentino (branco) Lionel Messi. É particularmente interessante, nesse contexto de contraposição, o silenciamento de paternidades ativas como a exercida pelo jogador Neymar Jr. O racismo é estrutural justamente por operar também de modo difuso e silencioso.

 A identificação da tríade ausência parterna, masculinidades negras e periféricas e meninice é profundamente perversa, pois esconde todo o processo histórico no qual o escravismo impossibilitou homens negros de constituirem famílias e estabelecerem vínculos afetivos e familiares duradouros, impossibilidade que foi atualizada no pós-abolição seja pelas políticas de barreiramento (Moura, 1977), seja pelo genocídio aberto empreendido pela República brasileira contra a população negra, em particular, contra o homem negro (Gonzalez, 1984; Nascimento, 1977).

E , ainda, se ser “menino” tem sido amplamente utilizado para desresponsabilizar sujeitos brancos de suas ações, como podemos ver no caso de crimes que envolvem jovens brancos, não podemos fazer uma simples transposição para os homens negros, nesse caso, “menino”, “moleque”, “garoto” é mobilizado como marca de uma subumanidade. Os infantes, como bem nos mostra Lélia Gonzalez, são aqueles sem direitos plenos, aqueles pelos quais e dos quais se fala. Segundo a autora:

 

“temos sido falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos) [...] A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por que? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice, etc. e tal” (GONZALEZ, 1984, p. 225).

 

Mesmo ganhando milhões, homens negros e periféricos, seguem sendo tratados como meninos. Negar aos oprimidos a sua plena condição de sujeito, capaz de se responsabilizar e falar por si, continua sendo fundamental para que a estrutura capitalista do futebol siga tutelando-os, ao mesmo tempo em que reproduz estigmas raciais e de classe.

O outro padrão, mas que me parece intrinsecamente ligado a esse, foi a minimização da dor dos jogadores diante da derrota. Vale ressaltar que se dedicar a esportes de alta performance demanda um investimento libidinal exorbitante e, portanto, um grande sofrimento diante da derrota. Sabendo disso, qual é o peso dessa derrota para sujeitos cujo existir é absolutizado pelo futebol? E isso num sentido literal, pois o esporte para muitos desses jogadores pode ter representado a linha tênue que os separou do encarceramento ou mesmo da morte violenta. 

Na derrota para a Croácia, eu chorei com os jogadores da seleção,  li seus relatos no instagram com o coração partido. Inclusive, o de Neymar, que entregou tudo nos últimos jogos e que pode ter tido a última oportunidade de vencer uma Copa do Mundo.

Sim, sujeitos periféricos podem sofrer! O direito ao sofrimento, à demonstração de fragilidade diante da dor tem sido um direito há tempo demais exclusivo dos humanos plenos. Tem dúvida? Veja as estatísticas de como às mulheres negras têm sido negado analgesia em procedimentos médicos ou como homens indígenas e negros lideram os números de sucídio no país. "Mas eles ganham milhões!", por trás desse pensamento expresso, há outro mais fugidio, a ausência do direito à humanidade plena a qual homens negros e periféricos encontram-se submetidos, no caso, ao direito tão primordial de sofrer e ser acolhido na derrota.

 

Referências

 

Gonzalez, Lélia. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244.

Moura, Clóvis. O negro: de bom a mau cidadão?, 2021 (1977).

Nascimento, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 2016 (1977).

* Portinari, "Futebol em Brodowski', trabalho de 1935. Disponível em: https://www.arteeblog.com/2018/06/pinturas-de-futebol.html, acesso em 27 de dezembro de 2022.

** Tábata Berg é Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas e integra o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses, o GPMT, também na Unicamp. Tábata organizou e lançou neste longo ano de 2022, junto de Flávio Lima e Murilo van der Laan, a obra “Trabalho e Marxismo: questões contemporâneas”: https://lutasanticapital.com.br/products/o-livro-trabalho-e-marxismo-questoes-contemporaneas.

 

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A mercantilização do futebol e a dupla alienação da classe trabalhadora

 

Texto originalmente publicado no jornal Vanguarda 26, de novembro de 2022, Ano 2, nº 20. Republicado aqui em 22 de novembro de 2022 com atualizações.
Fonte da Imagem: Getty Images.

Jefferson Ferreira do Nascimento[i]

A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação.[ii]

Domingo começou a 22º Copa do Mundo no Catar, criticada, ela é considerada uma Copa para milionários: a hospedagem mais barata é uma cabine nas Fans Villages (acampamentos) por US$ 207,36 a diária por pessoa. A organização catariana, ao que consta, foi exemplar no cumprimento do cronograma e na qualidade dos estádios. No entanto, são diversas as denúncias de exploração do trabalho de imigrantes, a utilização de trabalho semiescravo, análogo à escravidão e milhares de mortes dentre esses trabalhadores. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram as violações de direitos humanos.

Essa Copa é alvo da imprensa ocidental, sobretudo por ser em um “forasteiro” árabe que avança sobre o futebol europeu. Isso não apaga ou diminui as violações e muito menos ameniza a quantidade absurda de trabalhadores mortes no período de preparação da sede. Contudo, soa irônico lembrar do quase silêncio dessa imprensa ou da indignação intermitente e quase seletiva sobre uma sede escolhida em dezembro de 2010 e, em geral, do tom bem mais ameno nas criticas sem propostas de boicotes aos inúmeros atos de racismo e homofobia ignorados ou punidos leve e/ou protocolarmente no futebol em quase todo mundo, inclusive nas principais competições europeias. Há doze anos atrás já era notória a posição do país em relação aos direitos humanos (em relação às mulheres, LGBTQIA+ e da maioria da população composta por imigrantes sem cidadania catariana). Na ocasião também era conhecida a inexistência de estádios aptos a receber jogos de Copa do Mundo e o regime monárquico absolutista lá vigente. Portanto, não era necessário exercício de futurologia para alertar como o país se transformaria para receber o mundial. Poucos anos depois, o FIFAGate (2015) tornava mais uma vez pública a forma pelas quais as sedes são escolhidas pela FIFA, aumentando motivos para uma campanha real contra essa competição. A ironia não para por aí, se considerarmos o recorrente tratamento de países ocidentais - notadamente europeus - aos refugiados de outros continentes, sobretudo africanos e asiáticos. Isso sem contar o fato desse cenário não ser completamente inédito: a Copa de 1978 foi realizada em uma Argentina liderada por uma violenta ditadura civil-militar, com direito a estádio ao lado de centro de torturas. Mais de quatro décadas depois da Copa na Argentina, a líder histórica das Mães da Praça de Maio, Hebe Bonafini, faleceu no dia da abertura da edição sediada no Catar.  

Sobre o título "A Copa dos Milionários", não custa perguntar: há quanto tempo as Copas são inacessíveis à maioria dos trabalhadores? Inclusive aos operários dos países-sede, que acessam os jogos apenas pela televisão – e olhe lá! Ou seja:

[...] o trabalho produz coisas boas para os ricos, mas produz a escassez para o trabalhador [...] Substitui o trabalho por máquinas, mas encaminha uma parte dos trabalhadores para um trabalho cruel e transforma os outros em máquinas. Produz inteligência, mas também produz estupidez e a cretinice para os trabalhadores[iii].

Ora, mas é indispensável lembrar que os trabalhadores não construíram só os estádios ou cuidaram dos bastidores. É um erro reduzir o futebol a um esporte de elite. A prática nos clubes começou aristocrática, mas rapidamente se popularizou e se tornou uma paixão mundial. Segundo Hobsbawm: “O futebol como esporte proletário de massa – quase uma religião leiga – foi produto da década de 1880”[iv]. Vejamos o contexto da frase. No Norte e no Centro da Inglaterra predominavam clubes de industriais, da pequena burguesia e de operários, que remuneravam os melhores atletas e treinadores. A prática foi contestada após as conquistas da FA Cup pelo operário Blackburn Olympic[v] (1883) e, seu rival, Blackburn Rovers (1884). Os clubes aristocráticos do Sul tentaram proibir a remuneração e os clubes do Norte ameaçaram criar uma liga independente, culminando na profissionalização a partir de 1885. Logo no início do século XX os clubes ingleses começaram a virar companhias empresariais com acionistas. Essa conversão precoce é consequência da expansão dos clubes não aristocráticos e da popularização da prática e do gosto pelo espetáculo. Ou seja, as soluções apresentadas hoje como inovadoras – clube-empresa e Sociedades Anônimas do Futebol – datam mais de um século em consequência da apropriação do esporte pelo proletariado.

Emblema e a foto do clube operário campeão em 1883 (Fontes das imagens: Tranfermarket e Wikipedia).

Poucas décadas depois dos aristocratas ingleses, os clubes de elite cariocas também recuaram. Em 1915, o Vasco da Gama entrou no futebol quando, ainda dedicado às regatas, já havia eleito um presidente negro havia dez anos. Em 1923, o cruzmaltino venceu o Campeonato Carioca e seus rivais exigiram a exclusão de doze atletas negros “inadequados ao esporte”, alegadamente por serem analfabetos. Na “Resposta Histórica”, o Vasco se recusou a excluí-los, preferindo se retirar da competição. Em ascensão perante às classes populares, foi readmitido em 1925. Na década seguinte, o Vasco foi um dos principais defensores da profissionalização. Ou seja, o desenvolvimento e a profissionalização do futebol aqui também contaram com a popularização da prática e do torcer.

Clube de Regatas Vasco da Gama campeão de 1923 (Fonte da imagem: Netvasco).

Hoje o futebol é uma das maiores indústrias capitalistas. Junto à lógica da livre circulação de mercadorias e capitais da União Europeia (UE), a Lei Bosman intensificou a mercantilização do futebol. Por ela, é jogador “local” na UE qualquer atleta com cidadania de qualquer país do bloco e todo atleta fica livre ao fim do contrato, estimulando um mercado de naturalização e obtenção de passaportes europeus para atletas principalmente da América e da África (dupla cidadania). Assim, a circulação de jogadores se intensificou com a possibilidade de clubes ricos montarem verdadeiras seleções mundiais.

Do ponto de vista dos clubes, provocaram um considerável enfraquecimento da posição de todos aqueles que não estão no circuito das superligas internacionais e dos supertorneios e em especial nos clubes dos países exportadores de jogadores, notadamente nas Américas e na África. A crise dos outrora altivos clubes de futebol do Brasil e da Argentina o comprova.[vi]

A mercantilização não se limita aos atletas. Desde a Copa do Mundo de 1978 na Argentina, ocorre a desnacionalização das competições com vendas de cotas de patrocínios e direitos televisivos centralizadas na FIFA. (Antes os países-sede negociavam). No final dos anos 1990 a FIFA avançou: realiza toda a produção e transmissão com empresas parceiras. Agora as emissoras do mundo todo, ao comprar direitos de transmissão, apenas reproduzem as imagens da FIFA. Esse processo, típico dos esportes estadunidenses, foi replicado nas transmissões e patrocínios de competições de clube.

O modelo de consumo total, também baseado nos esportes estadunidenses, se tornou o meio preferencial de relacionamento com os torcedores. Além de camisas, os clubes vendem planos sócio torcedor, experiências (batizados, visita a estádios e centro de treinamentos, pacote de viagens para acompanhar o time, camarotes, etc.) e diversos produtos licenciados. No Brasil, isso começou nos anos 1990. Não é coincidência que a partir dali ocorra uma maciça campanha de estigmatização das torcidas organizadas com um enquadramento simplista sobre o problema da violência, sem ações efetivas de prevenção. Essa estratégia encobre a responsabilidade do Estado e das entidades promotoras de eventos esportivos.

O estigma [...] desumaniza e, ao fazer isto, autoriza o controle social sobre aquele que é desumanizado [...] e, consequentemente, reduz sua capacidade de mobilizar apoio e de interferir nos processos decisórios acerca das políticas de contenção da violência no futebol, em particular, e nos arranjos institucionais do futebol profissional, de uma maneira geral.[vii]

Ademais, as torcidas organizadas resistem ao processo de mercantilização do futebol. Desde a luta contra os altos preços dos ingressos a protestos políticos. (Exemplo: contra o governo Bolsonaro, em defesa da vacina e de políticas de combate à fome entre 2020 e 2021). Nesse mês de novembro, algumas torcidas desbloquearam estradas ocupadas pela extrema-direita negando os resultados eleitorais.


  
Torcidas organizadas nos protestos em 2020 (Fontes das imagens: G1.com, CTB Nacional e Mídia Ninja).

Antes da construção de estádios, da confecção de uniformes e bolas, antes de ser reduzido aos braços, suor e sangue que atuam nos bastidores, foi o proletariado quem tirou o futebol dos restritos círculos aristocráticos, quem deu ginga, quem fez do jogo arte, luta e paixão. Entretanto, conforme avança a mercantilização, o processo de dupla alienação se intensifica no trabalho e no consumo. A participação popular nas arquibancadas foi limitada, a forma de torcer nas tais arenas foi modulada, a forma de jogar foi padronizada em nome da tática (“transforma os outros em máquinas”) e o comportamento dos atletas controlado pelas restrições impostas pela FIFA às diversas manifestações, da comemoração do gol às entrevistas (“produz estupidez e a cretinice para os trabalhadores”). Assim, até os craques do espetáculo, majoritariamente filhos da classe trabalhadora, são desumanizados como máquinas incansáveis, peças nos esquemas táticos e celebridades despolitizadas.

               “Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”iii, incluindo o futebol que é um mercado e um produto. Porém, o pertencimento não é dado a priori, afinal “a vida que [o operário] deu ao objeto se torna uma força hostil e antagônica”iii. É pela luta de classes que se combate essa dupla alienação. No futebol, urge lutar para re-humanizar os atletas e retomar as arquibancadas para a classe trabalhadora. Só assim será “tudo nosso”!



[i] Professor no IFSP, doutor em Ciência Política, membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA).

[ii] HOBSBAWM. Nações e Nacionalismo desde 1870

[iii] MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos.

[iv] HOBSBAWM, Eric. Mundos do Trabalho.

[v] O Blackburn Olympic durou 11 anos (1878-1889). Apesar do título de 1883, ficou difícil concorrer na cidade com o Blackburn Rovers por público e patrocínio com o avanço do profissionalismo. A pá de cal veio quando o Campeonato Inglês (The Football League, 1888) começou permitindo apenas um clube por cidade e o escolhido foi o Rovers. No ano seguinte, endividado, o Olympic dispensou todos os jogadores profissionais.

[vi] HOBSBAWM, Eric. Globalização, Democracia e Terrorismo

[vii] LOPES, Felipe. Dimensões ideológicas do debate público acerca da violência no futebol brasileiro. Rev. bras. educ. fís. esporte.


A questão ambiental (também) voltou? – Uma conversa com o prof. Arthur Soffiati



 “A questão ambiental (também) voltou? – Uma conversa com o prof. Arthur Soffiati”


Atividade presencial na UFF-Campos: 29/11/2022, 16 horas.

Local: Sala Multiuso – Bloco C

Apresentação: prof. Aristides Arthur Soffiati Netto

Debatedor: prof. Carlos Abraão M. Valpassos (COC/UFF)

Mediador: prof. George Coutinho (COC/UFF)

Organização:

Curso de Ciências Sociais, Atena (Atelier de Etnografias e Narrativas Antropológicas) e ImaginaSul (Grupo de Estudos e Pesquisas da Imaginação Política ao Sul do Mundo)

Maiores informações: georgec@id.uff.br

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A 8ª Rodada do projeto Voyeur Político

No dia 31 de outubro encerramos o ciclo de discussões das eleições de 2022 na primeira temporada do projeto Voyeur Político. Foram oito rodadas e diferentes convidad@s analisando especificamente aspectos da conjuntura eleitoral durante um ano.

Agradeço demais minhas convidadas da 8ª Rodada, as queridas Fernanda Alcântara (UFJF) e Tábata Berg (GPMT/Unicamp). Com brilhantismo e competência habituais fecharam com chave de ouro este experimento de discussão pública. O resultado pode ser conferido aqui:




Evidentemente igualmente agradeço também a Fábio Py (PPGH/UERJ), Fábio Siqueira (IFF), Fabrício Maciel (Friedrich-Schiller-Universität/UFF), Jefferson Nascimento (IFSP), Luciane Silva (UENF), Márcio Malta (INEST/UFF), Mariele Troiano (COC/UFF), Ricardo Ferreira (COC/UFF) Ricardo Vasconcelos, Roberto Dutra (UENF), Valdemar Figueredo (Instituto Mosaico) e Vitor Peixoto (UENF). Cada qual deu sua contribuição nos quase 1000 minutos de discussão que fizemos de outubro de 2021 pra cá.

Por fim agradeço demais a todo mundo que participou das discussões síncronas ou nos acompanhou no YouTube. O projeto é justamente pensado para vocês. 

Voltaremos em 2023, até segunda ordem, com uma nova temporada mirando outros aspectos da conjuntura política (embora eu esteja com a estranha sensação de que falaremos por um bom tempo ainda destas eleições de 2022).

O projeto Voyeur Político é projeto de extensão sediado no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos coordenado por mim, o prof. George Coutinho (georgec@id.uff.br).