sexta-feira, 5 de junho de 2020

MESA REDONDA "RELIGIÃO, POLÍTICA E CONJUNTURA BRASILEIRA"

As Coordenações dos Cursos de Ciênciais Sociais da UFF-Campos e o Blog Autopoiese e Virtu convidam para a mesa redonda:

"RELIGIÃO, POLÍTICA E CONJUNTURA BRASILEIRA"

Mesa composta por:
Fabio Py (PPGPS/UENF)
Valdemar Figueredo (Idealizador e Editor do Instituto Mosaico)
Mediação: George Coutinho (UFF/Campos)
Na mesma ocasião teremos o lançamento do livro "A fraquejada de um país terrivelmente evangélico" de Valdemar Figueredo
Data: 12/06/2020 Horário: 19:00


terça-feira, 2 de junho de 2020

A Pandemia e a Educação*



            A Organização Mundial da Saúde declarou, no dia 11 de março de 2020, a existência de uma pandemia. Era uma quarta-feira e, de imediato, a declaração não trouxe qualquer impacto sobre o sistema educacional brasileiro: as aulas continuaram ao longo da quarta, da quinta e da sexta-feira. Todavia, as atividades letivas foram suspensas e permaneceram assim desde a segunda-feira de 16 de março. Desde então escolas e universidades se deparam com questionamentos sobre o futuro da Educação.
Durante os primeiros dias, quando não se sabia ao certo como proceder, houve uma suspensão das atividades de ensino. Com o passar do tempo, algumas escolas e faculdades particulares decidiram adotar sistemas de ensino remoto, fazendo uso de aplicativos de comunicação para ministrar aulas online. É preciso frisar que não houve qualquer tipo de preparação para isso: estudantes e professores foram lançados, da noite para o dia, na difícil missão de continuar as atividades educativas através de dispositivos móveis de comunicação em tempo real. Alguns professores compraram quadros – e até mesmo computadores e outros dispositivos – para ingressar nessa jornada. As aulas não adotavam modelos diferentes daqueles utilizados na experiência de ensino presencial: cabia ao professor falar para seus alunos por intermédio de uma câmera e escrever no quadro tal como sempre aconteceu. É claro que algum tempo passou isso fosse alcançado, pois em um primeiro momento havia total indefinição e professores davam aulas de 20 minutos e chegaram a enviar questões por aplicativos de mensagens. O improviso foi a regra – tanto para alunos, quanto para professores.
Os dias de ensino remoto se transformaram em semanas e as semanas em meses. O que era um improviso temporário foi se transformando em um arranjo necessário com duração indeterminada. Isso escancarou as desigualdades do sistema educacional. Estudantes que não tinham estrutura para assistir aulas remotas, mas que possuíam condições para investir nisso, trataram de criar ambientes mais agradáveis para assistir suas aulas. Aqueles que não tinham condições para isso, então, permaneceram improvisando o acesso através dos dispositivos disponíveis. E para completar o quadro: aqueles que não dispunham nem de condições precárias de acesso à Internet, nem de meios para adquiri-las, viram-se excluídos do sistema educacional. Muitas turmas que antes tinham 30 estudantes, virtualmente não conseguem incluir nem a metade. Estudantes de áreas afastadas, que pegavam dois ou mais transportes para chegar à escola, que não dispunham de dispositivos de teleinformática - nem de acesso à Internet -, ficaram de fora do direito de acesso à Educação.
Os professores, por sua vez, tiveram suas rotinas drasticamente transformadas. Sem tempo para adaptar-se aos novos instrumentos para ministrar suas aulas, mergulharam às cegas em ambientes virtuais de aprendizagem. A responsabilidade pela propriedade de instrumentos de trabalho foi lançada sobre eles, que tiveram que adquirir por conta própria equipamentos para o exercício da docência. E não fica por aí: pois rotinas exaustivas de trabalho foram impostas, impondo, além das aulas, atividades de atendimento aos estudantes, reuniões remotas e todas as outras atividades que já caracterizavam o ofício: preparação de conteúdo, correção de atividades etc.
O cenário é desolador. Profissionais desgastados ministrando aulas para turmas que foram divididas entre aqueles que podem e aqueles que não podem acessar as aulas. Mesmo aqueles estudantes que conseguem acessar as aulas por vezes encontram dificuldades com o novo modelo de ensino e não absorvem adequadamente o conteúdo disponibilizado. Há também quem não disponha, em casa, de um ambiente adequado para as atividades educacionais – e isso vale para estudantes e professores.
Estou tratando a “Educação” como um grande pacote, mas há diferenças cruciais que devem ser pensadas. Crianças em processo de letramento ou nos primeiros anos escolares também passaram a lidar com os ambientes de ensino remoto. Muitos pais, também eles adaptando-se às rotinas de trabalho em “home-office”, passaram a ter que trabalhar e auxiliar as crianças em suas atividades, o que criou um contínuo processo de estresse doméstico. Isso para os pais que puderam permanecer trabalhando em casa, pois muitos não tiveram tal condição. Neste caso, o que acontece com as crianças?
Faltou um plano de ação comum para lidar com os efeitos da pandemia sobre a Educação. Faltou, sobretudo, sensibilidade na condução do problema. O ENEM foi adiado, mas apenas depois de muito debate. O Ministério da Educação sustentou enquanto pode a ideia de que “O Brasil não pode parar” e veiculou uma propaganda com jovens em ambientes asseados, organizados e decorados com bandeirinhas, clamando pela manutenção do exame para que uma “geração de novos profissionais” não fosse perdida: “a vida não pode parar” – dizia o jovem do comercial. A vida, no entanto, parou para milhares de pessoas – definitivamente. E o comercial não considerou todos os estudantes que estavam há meses sem aulas. O Enem foi adiado, mas não existe adiamento que recupere o (antigo) fosso de desigualdade que foi aprofundado ao longo da pandemia.
O problema do ensino remoto não diz respeito somente aos jovens em idade escolar. Estudantes universitários também foram atingidos pela suspensão das aulas presenciais. E sofrem, tal como os mais jovens, com questões muito semelhantes, desde a dificuldade de acesso até o desencanto de aulas online: “uma aula chata com um professor falando lá na frente, é uma aula chata; uma aula chata com apenas a testa de um professor sendo projetada no monitor é muito pior” – disse um estudante. A dificuldade de transmitir remotamente o conhecimento específico de certas áreas é o obstáculo ao ensino remoto – que não permite aulas práticas e não é capaz de proporcionar o ambiente de um laboratório ou convivência em trabalho com profissionais experientes. Entretanto, uma qualidade do ensino remoto já se insinuou e cativou parte do público: a economia de tempo no deslocamento até os estabelecimentos de ensino e o posterior retorno aos ambientes domésticos. No caso de estudantes universitários que moram em uma cidade e estudam em outra – e fazem o trajeto de ida e volta diariamente -, a economia de tempo pode ficar em torno de 4 horas por dia. Abre-se margem, assim, para que o ensino remoto ganhe maior atenção.
Já li análises de profissionais da Educação que demonstraram-se otimistas em relação à ampliação de ensino remoto. Argumentos de que, assim, poderíamos, enfim, abandonar modelos de ensino conteudista e focar a atenção nos estudantes. Parece animador e o tom utilizado dá a entender que o debate é uma novidade proporcionada pelo desafio do ensino remoto, mas deixa de lado que essa questão apresenta-se como desafio há muito tempo no ensino presencial e que a “Educação a Distância” não promoveu grandes avanços nesse sentido.
É preciso manter no horizonte que as decisões tomadas agora podem ser para caminhos sem volta. A Educação a Distância é uma modalidade já estabelecida e destinada a um público com características específicas. O modelo agora começa a se insinuar como algo que poderia ser para todos – e o preço disso será, obviamente, a redução de oferta nos cursos presenciais, além das ameaças às carreiras docentes. Há cursos que podem passar a existir apenas na modalidade remota. Em um governo ultra-liberal, com alianças estreitas com empresários da área da Educação – sobretudo da Educação a Distância -, o isolamento social provocado pela pandemia de coronavírus pode servir a um duplo propósito: 1) expandir a atuação das faculdades particulares em modalidades remotas; 2) fechar cursos em universidades públicas ou reduzir drasticamente suas cargas horarias presenciais a partir da adoção de modelos híbridos – mesclando presencial e remoto. Professores poderão ter suas aulas gravadas e replicadas eternamente e com isso será deteriorada a carreira docente e será desvalorizada a relação pedagógica estabelecida através do contato – algo cuja importância é destacada desde sempre e que encontrou na relação entre mestres de ofício e seus aprendizes uma expressão singular. Perder-se-á em relevância, pois, a atuação professoral e, com ela, a própria qualidade do processo de aprendizado.
E isso é apenas o começo.


Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.


* Texto publicado originalmente no jornal Folha da Manhã no dia 30 de Maio de 2020 - http://www.folha1.com.br/_conteudo/2020/05/artigos/1262082-carlos-valpassos-a-pandemia-e-a-educacao.html

quinta-feira, 28 de maio de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Do reacionarismo para a imaginação política interditada

Do reacionarismo para a imaginação política interditada


George Gomes Coutinho

 Carreatas da morte. Pessoas de verde e amarelo nas ruas e praças bradando contra medidas de distanciamento social. Berram contra governadores e prefeitos que consideram corruptos, isso a despeito de ostentarem a insígnia da invariavelmente suspeita CBF no peito. Consideram que a economia deve ser protegida übber alles como diria aquele slogan famoso. As mortes e o sofrimento são fatalidades incontornáveis do destino. “E daí?” não é mesmo?


 Buscam um remédio a todo custo. Pode ser chá de boldo ou cloroquina. Afinal, se há remédio não há razão para que as pessoas fiquem em casa. Em meio a tudo isso discursos de ódio xenofóbicos. Há um “vírus chinês” e tudo o mais que lhe seja correlato, seja o próprio povo ou o Partido Comunista, deve ser encarado com nojo, desprezo ou violência.


 Sem dúvida temos acima fragmentos da atuação da extrema-direita que grassa no Brasil da Pandemia de Covid-19. Concordando com Ribeiro da Silva Jr (aqui) há a indiscutível presença do reacionarismo ou aquilo que Lynch já chamou de “conservadorismo culturalista” com fortes tintas autoritárias e anti-liberais. Há o que podemos definir como uma extrema-direita militante, organizada e dotada de alguma clareza ideológica sobre os seus valores, ideais, elementos simbólicos e normativos que devem constituir um projeto de Brasil para este século XXI.


Mas, vamos tentar supor
 que nem todos e todas que tenham ido para as ruas protestar nestes tempos de distanciamento social estejam organicamente vinculados a um projeto autoritário e reacionário de poder. Nas eleições de 2018 conhecemos o desconcertante voto “BolsoLula” ou “LulaNaro”[1] onde a genuína busca por “melhorar a vida” fez com que parte do eleitorado fosse capaz de votar no 13 e no 17 a despeito dos debates inerentes ao cipoal ideológico. O que mobiliza este eleitorado é a aposta em obter incrementos positivos, mesmo que conjunturais, apostando no rito e consequente sucessão eleitoral como uma via para obtenção destes objetivos.


E se parte do grupo raivoso presente nas ruas simplesmente sofrer do déficit de imaginação política ante o enfrentamento, por um caminho humanista, totalizante e empático, da pandemia? E se uma imaginação política pautada pela solidariedade for interditada, combatida e até mesmo ridicularizada por determinados grupos e setores que compõe a polifonia de nossa opinião pública?


O termo imaginação política foi apresentado por Wanderley Guilherme dos Santos (1935-2019) ainda na década de 1960[2]. Em última instância ele localizava, desde 1822, um conjunto de autores, temáticas e obras onde o Brasil era imaginado em suas instituições, políticas, modelos de governo, processos de auto-compreensão, etc.. Enfim, produção espiritual que não se pode enquadrar propriamente como articulação teórica sistemática, mas, animava e anima os debates e ações políticas concretas. São as articulações de nossa cultura política que segue dos panfletos ao que podemos chamar de “obras fundadoras”[3] do nosso processo de nation state building. Produtos culturais de origem diversa que alimentam nossa opinião pública.


Também é dado no campo da imaginação política o repertório do debate onde o possível se apresenta. E o impossível também.


É importante notar que parte dos grupos que vão para as ruas em plena pandemia protestar contra as medidas de distanciamento recomendadas pela Organização Mundial de Saúde talvez façam desta forma por simplesmente não vislumbrarem outra alternativa. Para ser mais preciso, não lhes foi dada uma alternativa concreta e segura para a manutenção de sua própria sobrevivência. Seja enquanto política pública ou por conta de um debate político interditado.


 A imaginação política acerca das políticas sociais e assistenciais por parte dos setores dos dois lados do espectro político sempre foi crítica. Não seria diferente em nossa conjuntura, por mais chocante que possa soar. Estes do lado destro[4] da política brasileira são os grupos que se encontram atuando no Governo Federal e em outros níveis de governo, em parte do mainstream da imprensa em jornais, revistas e TV. Também encontram representantes em associações empresariais, no setor financeiro, dentre economistas profissionais, etc.. Para estes qualquer ação remotamente dotada de natureza redistributivista é vista em perspectivas diferenciadas que se complementam em termos práticos: desde reduzidas a um mínimo constrangedor sob o argumento da racionalização fiscalista, o tal cobertor curto, até serem combatidas por gerarem um suposto desincentivo ao trabalho. Por vezes políticas sociais e assistenciais são até mesmo satanizadas e seus usuários estigmatizados.


Estas disposições que explicam parte da constelação que forma a nossa opinião pública ajudam a entender o caminho acidentado de nossa Renda Básica Emergencial. Primeiramente sequer era algo concebível. Depois se apresentou em sua faceta esquálida, os famosos R$ 200,00  da equipe de Paulo Guedes. Por fim, após os já tradicionais e persistentes embates entre legislativo e executivo no Governo Bolsonaro, chegamos aos R$ 600,00 em 3 parcelas mensais, algo  que ainda não soluciona a questão.


O design da política pública foi feito para repelir os setores mais vulnerabilizados da sociedade: 1) aqueles que não detém cidadania formal no mercado (não são portadores de cidadania bancária digamos assim); 2) não detém a documentação necessária (não são reconhecidos formalmente pelo Estado); 3) não são “nativos digitais” (apresentam todas as dificuldades formais e concretas para que obtenham uma cidadania digital plena). Por conta dos motivos elencados há o risco de termos 7,4 milhões brasileiros elegíveis para este política pública sem qualquer cobertura[5]. Uma tragédia.


Dificuldades não menos relevantes podem ser indicadas quando falamos de micro e pequenos empresários que não raro constituem a fauna das tais carreatas da morte. Grupos que não tem caixa para aguentarem os meses de distanciamento social sem o auxílio de algum tipo de linha de crédito que lhes permita, sob 0% de juros ou taxas similares, manterem seus negócios e os empregos agregados. Na ausência de uma efetiva política de crédito temos as alternativas que envolvem dilapidar patrimônio, demissões, falências, etc. justamente de fatia do empresariado que emprega trabalhadores formais e informais em grande monta. Mas, Guedes foi enfático na reunião de abril, a tal reunião de horrores, onde afirmou: “Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”[6]. Neste caso temos a demonstração de como funciona a imaginação política de indivíduos e grupos mais próximos ao “andar de cima” da sociedade brasileira.


Em ambos os casos, seja nas expressões de nossa imaginação política que criminalizam políticas sociais ou assistenciais ou na preferência claramente expressa em prol do grande empresariado em detrimento de micros e pequenos, temos a interdição da solidariedade. É uma imaginação política que inviabiliza, até repele, qualquer tipo de medida de Welfare, de Bem-Estar Social. Seja por conta de um repertório supostamente racionalizante ou no campo semântico que considera políticas sociais, assistenciais ou até mesmo políticas econômicas para pequenos empresários simplesmente uma baboseira.


Não é simples. Mas, inserir mecanismos de solidariedade que envolvam práticas concretizadas em politicas públicas é  parte do exercício de imaginação política que diga que tipo de Estado-Nação queremos durante e após pandemia. É tarefa urgente e civilizatória para o Brasil. Talvez seja um dos caminhos possíveis para honrarmos o sofrimento coletivo que estamos vivenciando, incluso milhares de mortes desnecessárias, onde a imaginação política interditada simplesmente se demonstrou insuficiente para lidar com esta conjuntura.



[1] Mais detalhes podem ser obtidos na seguinte matéria da BBC Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45323102

[2] “A imaginação político-social brasileira” de 1967 publicado na revista Dados. O texto encontra-se disponível aqui: https://drive.google.com/file/d/1JZ11NqfUItw-VXAxI_McsROG734QxPcM/edit

[3] Sobre estas oportunamente Lynch nos questiona se não cabe considerarmos as mesmas como produção teórica: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582013000400001

[4] As criticas de parte do campo da extrema esquerda e da esquerda propriamente são de outro teor, o que envolve, dentre outros apontamentos, o esmaecimento da luta de classes. Não irei entrar nos meandros desta crítica neste momento pelo simples fato de que estes grupos não se encontram com instrumentos de tomada de decisão na conjuntura ao ponto de serem óbices ao enfrentamento adequado da pandemia em suas consequências sociais e econômicas.

[5] Dados do Centro de Estudos da Metrópole. É possível acessar as análises visitando o seguinte link: http://agencia.fapesp.br/pesquisa-apresenta-o-perfil-dos-elegiveis-para-receber-a-renda-basica-emergencial/33220/

[6] A transcrição da reunião ministerial de 22/04/2020 pode ser acessada aqui: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/22/leia-integra-da-transcricao-do-video-da-reuniao-ministerial-de-22-de-abril-entre-bolsonaro-e-ministros.ghtml



sexta-feira, 22 de maio de 2020

ENTRE DOMINGOS JORGE VELHO E JOÃO FIGUEIREDO: a luta entre os conservadorismos no governo Bolsonaro


ENTRE DOMINGOS JORGE VELHO E JOÃO FIGUEIREDO: a luta entre os conservadorismos no governo Bolsonaro[1]
Christian Edward Cyril Lynch[2]

1.    A trégua ou transição do modelo fascista/reacionário de governo para o de um regime militar aguado, proposto pelos generais e pelo centrão nos últimos dias para a sua sobrevivência ("conservadorismo estatista"), não será aceito sem resistência do bolsolavismo e do gabinete do ódio, que forma a sua ala radical ("conservadorismo culturalista").

2.    As duas alas são em tese perfeitamente compatíveis, e sempre o estiveram em regimes conservadores na história brasileira, como o "saquaremismo" do começo do reinado de dom Pedro II, o Estado Novo e o Regime Militar. Mas a acomodação sempre supôs a subordinação do "culturalismo" ao "estatismo". Tristão de Ataíde não prevaleceu sobre Oliveira Vianna, nem Gustavo Corção sobre Golbery...
3.    Mas nunca houve, como hoje, um "culturalismo" tão reacionário e virulento, a ponto de ser revolucionário. Ele tem dado o tom central do Bolsonarismo, com sua utopia regressiva de volta ao século 17, pleiteando essa liberdade "colonial" ou "bandeirante" marcada pela ausência de limites sociais, pelo direito de mentir, de matar, de oprimir minorias, de depredar a natureza, de negar conquistas do Iluminismo e até do humanismo renascentista. Bolsonaro é simbolicamente um Domingos Jorge Velho no poder, ou seja, o sertanista bandeirante cujas milícias foram contratadas pelos senhores de engenho para arrasar Palmares. Com a diferença de que, na modernidade, eles se apresentam com tintas integralistas, e por isso parecem fascistas.
4.    Esse conservadorismo culturalista para quem a "liberdade americana" é o direito que o patriarca branco, hétero, tem de fazer o que bem entender contra as minorias e contra a regulação do Estado, choca-se com o conservadorismo estatista que exige a ordenação do caos socioeconômico pela agência racionalizadora de um Estado forte. O marquês do Pombal vem exatamente para acabar com o primado dos Domingos Jorge Velhos, criar uma nacionalidade ordenada em meio a uma sociedade percebida como anárquica torno do eixo do Estado. É um discurso que permeia o que vem sendo veiculado pelo comandante Pujol e pelo vice Mourão.
5.    A pacificação do governo, para os conservadores estatistas, passa por sua normalização, subordinando o espírito bandeirante/integralista (culturalista) à tradição imperial/estadonovista (estatista). Isso impõe transformar Bolsonaro numa espécie de Figueiredo, em um governo de retórica autoritária, mas desmobilizada em termos de população, ou despolitizado, em nome da "união nacional".
6.    Mas o "coração" do Bolsonarismo, porém, é o radicalismo culturalista, orientado pelo ideal colonial bandeirante de liberdade como predação e destruição, baseado na mobilização e na polarização permanente. O pessoal ligado ao Olavo sabe que a tradição no Brasil tem sido essa, de subordinação do culturalismo ao estatismo, e por isso não está disposta a entregar a rapadura tão facilmente dessa vez. Então nenhuma acomodação será possível, nos termos no passado.
Concluindo, a chance de que a corda acabe rompendo não é nada desprezível. E isso pode pesar em um eventual futuro abandono de Bolsonaro pelos militares, como um fardo demasiado grande para carregar. Afinal, o vice é o general Mourão. Por isso, os culturalistas elevam sempre os custos de ruptura, e atacam os generais com o populismo de que não dispunham nas outras ocasiões.


[1] Texto republicado com autorização do autor. Post originalmente publicado em: https://www.facebook.com/christian.lynch.5/posts/10219651084480032

[2] Professor da grande área de Ciência Política no IESP/UERJ. É autor de “Monarquia sem despotismo e liberdade sem anarquia” publicado pela editora da UFMG, “Wanderley Guilherme dos Santos: a imaginação política brasileira - cinco ensaios de história intelectual”  publicado pela Revan, dentre outras obras, coletâneas e inúmeros artigos nos campos do Pensamento Político Brasileiro, Teoria Política e História das Ideias Políticas.



Novo Normal?*




Atualmente somos bombardeados semanalmente por novos termos e expressões. A durabilidade de cada um varia, mas o tormento de ouvir a mesma expressão repetidas vezes parece ser algo que se renova a intervalos cada vez mais curtos. Não faz muito tempo, escutei pela primeira vez alguém falar em “novo normal”. De imediato, não entendi e, por questões de autopreservação, adotei a medida da sabedoria: ignorei. Todavia, não tinha como fugir e a expressão começou a brotar por todos os lados. Chegou ao ponto em que vi um debate sobre o termo utilizado na capa da revista Vogue, onde aparecia a top model Gisele Bündchen e, abaixo dela se lia: “Novo Normal: Simplificar a vida e se concentrar no essencial são os caminhos para um futuro mais ético e saudável”. A Vogue destacava, assim, uma tendência da expressão: algo relacionado à espiritualidade e ao consumo sustentável. Depois disso, passei a observar que havia um apelo à dimensão ética e ambiental na expressão. Fui me informar melhor e descobri que o “novo normal” era uma expressão para abordar o mundo pós Covid-19, algo do tipo: “agora que tudo deu errado, vamos nos reformular e buscar novos caminhos”. Fiquei incomodado, mas acreditei que não valia o esforço.

Dias depois, por acaso, li um artigo de opinião da Lilia Schwarcz intitulado “De perto ninguém é normal (ou o ‘novo normal)”, onde a antropóloga demonstrava um incômodo semelhante ao meu diante da expressão. Segundo ela:  


“A expressão “novo normal” tem sido muito utilizada nos últimos meses, quando se percebeu que o coronavírus há de acarretar mudanças para todo o planeta. Isto é, que os efeitos da Covid-19 não se limitarão ao dia em que a pandemia for dada por terminada. E é certo: a história mostra que não se sai de crises como essa da mesma maneira que se entrou. “Novo normal” não é, porém, um termo recente; tampouco se sabe a origem dele. No entanto, tem sido crescentemente associado a momentos da história em que toda a sociedade é obrigada a se reinventar diante de períodos de crises de ordem política, militar, econômica ou sanitária”.

Essa ideia de reinvenção diante da crise foi o que chamou minha atenção no “novo normal” – e que passou a incomodar, mesmo, depois da capa da Vogue. Por que a capa da Vogue é importante? Bem, porque ali fica explícito que a ideia de “normalidade” é muito variável. Ou você acha que a sua normalidade é igual à da Gisele Bündchen? Pois enquanto a celebridade se preocupa em “simplificar a vida e se concentrar no essencial”, há muita gente que vive a normalidade de não saber se vai conseguir a próxima refeição. Independente do extremo dos exemplos, o que quero frisar é que aquilo que é normal para a senhora Bündchen seria um sonho para cerca de 99% da população mundial - e que aquilo que se tornou normal para 40 milhões de brasileiros – sofrer nas filas para obter os R$600 de auxílio do governo – seria algo absolutamente anormal para ela. O conceito de “normalidade”, portanto, é relativo e contextual.

Boa parte das Ciências Sociais dos séculos XIX e XX estiveram preocupadas com a normalidade. Para ser mais específico: a Sociologia nasceu com o propósito de ser uma engenharia social capaz de trabalhar pela manutenção da ordem. As formas de “representação”, as categorias classificatórias e as “estruturas sociais” foram temas centrais na história das Ciências Sociais. Após a Segunda Grande Guerra Mundial – com o mundo sacudido por um evento que criava um “novo normal” da época -, ficou claro que era importante entender as formas de transformação da vida social. Um grupo de antropólogos, sob a liderança do sul-africano Max Gluckman, ficou conhecido como “Escola de Manchester” e teve suas pesquisas marcadas por uma ênfase na mudança social. Para tanto, uma forte preocupação foi direcionada aos conflitos sociais – que deixaram de ser vistos como algo de menor importância. A vida era marcada por conflitos e neles estaria a força motriz das transformações das diferentes sociedades do mundo.

Nesse grupo de pesquisadores, destacou-se um escocês, chamado Victor Turner, que formulou o conceito de “drama social”. De modo sintético, podemos dizer que os dramas sociais são rupturas do cotidiano “normal”. Quando algo acontece que tira as pessoas dos seus fluxos “normais”, então temos o início de um drama social. Isso significa que existem dramas sociais de pequena e de larga escala: dramas de pequenos grupos ou dramas de cidades, regiões ou países. Podemos encontrar expressões de dramas sociais em traições, conflitos armados, rupturas políticas, desastres “naturais” etc. Os dramas sociais podem se envolver uns nos outros - quando um drama familiar se insere em um drama nacional, por exemplo. A importância do drama social reside na ênfase que dá aos conflitos sociais, pois o “cotidiano” ou a “normalidade” tendem a esmaecer as tensões e as oposições – expressas ou latentes – que caracterizam a vida social. Assim, as ocasiões dramáticas teriam, para os antropólogos, a capacidade de descortinar as divergências dos grupos sociais, destacando valores e resistências a esses valores, ou mesmo valores em oposição. Em outras palavras: os dramas sociais são reveladores, pois os conflitos expõem os axiomas sociais.

Turner dividiu os dramas sociais em quatro etapas sequenciais. A primeira etapa foi chamada de “ruptura” e consiste na exposição pública de algum evento que signifique a quebra da normalidade: pode ser tanto a descoberta da violação de uma regra social quanto algum evento climático que altere o cotidiano drasticamente. A partir daí inicia-se a segunda etapa, que é conhecida como “escalada da crise”. Nesse momento, o problema originado na ruptura tende a se expandir envolvendo cada vez mais pessoas e grupos. É importante lembrar que Turner não escolhe o termo “crise” aleatoriamente, pois ele entende que as crises constituem momentos de aguda reflexividade, onde é necessário ponderar sobre passado, presente e futuro. Isso ganha força na terceira etapa, quando “ações de reparação” são adotadas para minimizar os efeitos da crise e tentar, assim, interromper sua escalada. Trata-se do momento mais “intelectual” do drama, na medida em que é aí que são discutidas as possibilidades de resolução das questões. Por fim, a quarta etapa: o cisma ou o retorno à estrutura. Aqui o argumento é que se a fissura no tecido social for irreparável, haverá uma divisão do grupo social – como em um casamento, quando não é possível reatar e o casal se divorcia. O retorno à estrutura seria algo como retorno à “normalidade” – mas é preciso enfatizar que Turner sinaliza que a “estrutura” já não é exatamente a mesma, pois ela carrega em si as marcas históricas dos eventos dramáticos.

Quando leio sobre o “novo normal”, lembro dos dramas sociais de Victor Turner. A transformação social é constante, mas ela não costuma ser abrupta. Mesmo os cismas, quando ocorridos, fundam-se sobre valores e modelos da estrutura social anterior. Do mesmo jeito, o retorno à estrutura representa uma transformação. Imagino que o drama social da Covid-19 não nos transformará radicalmente em pessoas solidárias e espiritualmente elevadas, preocupadas com a preservação ambiental e com o consumo consciente – tal como tem sido imaginado por inúmeras pessoas. Quando países europeus iniciaram a reabertura, filas enormes se formaram para comprar produtos da Apple e da Louis Vuitton. A Zara parecia estar com promoção de 90% de desconto – mas não estava. No que diz respeito ao consumo, as coisas não foram radicalmente alteradas e aquele consumo que ficou suspenso ao longo do isolamento social estava apenas esperando a oportunidade para sua satisfação.

Do mesmo modo, aqueles que pensam em um cenário distópico pós-Covid não devem esperar que o país se transforme em um “Mad Max” da noite pro dia. As transformações são dadas de passo em passo e o que virá será a continuidade de algo que já estava em andamento há muito tempo no Brasil. Seja um quadro de miséria extrema ou de um governo autoritário e ditatorial, não podemos dizer que isso se apresentou como consequência da pandemia, pois a pobreza e a desigualdade já estavam consolidadas em nossa sociedade há muito tempo; tal como certas inclinações autoritárias com fetiches por fardas e fuzis.

Seja como for, para além das especulações sobre o futuro, precisamos trabalhar com as questões fáticas. Vivemos em um país polarizado politicamente, sem compromisso com a educação e com o conhecimento científico, onde as desigualdades são naturalizadas e o racismo é estrutural. Nesse contexto, depois de anos em uma profunda crise econômica que se pretendia sanear por um modelo de pirotecnia neoliberal, presenciamos o coronavírus estagnar a economia e o desemprego aumentar acompanhando o número de mortes. Enquanto isso, o governo federal continua a gerar crises e a fracassar na apresentação de ações para reduzir os estragos pandêmicos. Ao final, pode até ser que uma parte das pessoas entre na mesma “onda” da Gisele Bündchen, simplificando a vida e focando no essencial enquanto buscam uma existência espiritualmente plena. No entanto, é preciso se lembrar que, enquanto isso, milhões de pessoas estarão em notável vulnerabilidade social, em um país em recessão, com crise política, intelectual e social de todas as ordens.


Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.


* Publicado originalmente em 19 de Maio de 2020 no Jornal Folha da Manhã  - http://www.folha1.com.br/_conteudo/2020/05/artigos/1261616-carlos-valpassos-novo-normal.html