segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Querelas e acertos sobre o pensamento político brasileiro (parte 1)

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Um dos aspectos mais instigantes do pensamento político brasileiro é a própria dificuldade de submetê-lo à observação quando delimitamos a ciência em sua autonomia cognitiva frente à política. O fascínio que desperta se deve ao fato de o trânsito profissional nessa área de estudos ser, quiçá, um alento para o cientista social em face da desarticulação dos discursos políticos com a crise das grandes narrativas (um então porto seguro da nossa subjetividade ante o esforço metódico de pesquisa) e, sobremaneira, com o comprometimento cada vez maior do nosso imaginário com o tempo intemporal das redes sociais virtuais. Valendo-me das últimas, creio que uma maneira de tatear o relevo do pensamento político sem fazer dele perfumaria é enquadrá-lo a partir da sistematização que Gildo Marçal Brandão lhe conferiu enquanto uma área temática que, no cenário brasileiro, mobiliza diferentes campos disciplinares nas ciências humanas[1].

Admitindo a relativa incipiência desse debate sem subestimar o potencial de autoconhecimento da sociedade nele observável, G. M. Brandão oferece um enfoque construtivo às asserções científica e humanista do trabalho intelectual nas ciências sociais. Com o intuito de dimensionar o escopo da dicotomia “ciência” versus “humanismo”, descrevo, também, a avaliação do estado de arte das ciências sociais sustentada por Fábio Wanderley Reis após décadas de institucionalização do seu ensino e pesquisa no Brasil[2]. Este breve desvio se justifica por possibilitar um contraponto exemplar do programa de pesquisa proposto por G. M. Brandão ao diagnóstico feito por F. W. Reis e, assim, evidenciar algumas nuances de suas escolhas epistemológicas. 

Comecemos pelo diagnóstico. Apesar da demonstração do vigor das ciências sociais brasileiras nas últimas décadas, verificável na diversificação do seu campo de atuação profissional e na ampliação de seu capital cultural institucionalizado em universidades e associações nacionais de pesquisa, F. W. Reis é cético quanto ao desempenho obtido no domínio teórico e metodológico, pois se cristalizou um modo de intelecção da realidade social, calcado num vezo “historicizante” dos problemas, que tanto revela quanto agrava lacunas do treinamento para a pesquisa. A indistinção de explicação sociológica e explicação histórica em muitas pesquisas empíricas desenvolvidas por cientistas sociais não lhes franqueia a expertise dos historiadores profissionais, o que leva ao cultivo de uma espécie de história do presente que nada mais seria do que um “descritivismo pobre e às vezes contente com sua pobreza”[3]. De maneira complementar, F. W. Reis aponta um quadro heterogêneo no tocante à consolidação de um padrão “científico” nesta esfera do saber especializado:


Creio que a Sociologia e a Ciência Política encontram-se claramente mais próximas do padrão “científico”, caracterizado pelo apego ao rigor, à sistematicidade, à generalização e à busca de cumulatividade, ao passo que a Antropologia e a História estariam, em geral, mais próximas do padrão “humanista” e “idiográfico” de trabalho, com a ênfase no qualitativo e no descritivo, a valorização da dimensão temporal ou histórica dos fenômenos e de suas consequentes “peculiaridades”, o relativismo, a confiança depositada na intuição e na “compreensão”(REIS, 1997).
             

A hierarquização das disciplinas subsumida naquela avaliação não consiste, necessariamente, em reduzir suas querelas metodológicas ao uso apurado de um conjunto de técnicas de pesquisa tornado unívoco pelo trabalho intelectual dito hard, mas aduz a uma perspectiva do conhecimento – referendada no mainstream da ciência política norte-americana – que propiciaria não desvirtuar as ciências sociais de sua “vocação teórica e nomológica” que, bem compreendida, subscreve uma concepção de método que não as desabona por sua proximidade com os “fundamentos lógicos da aceitação ou rejeição de hipóteses e teorias” das ciências naturais[4].

Sem dúvida, F. W. Reis vocaliza uma postulação do programa de pesquisa legado pelo sociólogo norte-americano Robert Merton: uma ciência social não é incompatível com a cumulatividade do conhecimento. Pelo contrário, pressupõe-na como meio de realização e meta precípua. O aporte teórico, requerido para construir um problema sociológico, deixa de depender do retorno ritualizado aos textos clássicos ao ceder lugar a sistemas conceituais e argumentos causais cuja validade se comprove através do encadeamento lógico-formal do processamento dos dados com os resultados alcançados. Estes últimos configurariam um conhecimento “verdadeiro”, posto que verificável pela confrontação de hipóteses e teorias, capaz de realimentar futuras pesquisas a partir de um novo patamar de inquirição da realidade nelas circunscrita. Neste sentido, a releitura de uma obra canônica tange o risco de subordinar a pesquisa a argumentos de autoridade que, no melhor dos casos, revelariam erudição suficiente para uma exegese igualmente canônica.

Tal “risco” seria elevado em nossa ambiência cultural, devido à obsessão pela questão nacional, que estimularia, por exemplo, revisões permanentes dos “clássicos” do pensamento político-social brasileiro. Quais seriam os móveis dessa obsessão? A rigor, vigora a pretensão de uma elaboração discursiva “autêntica” sobre a realidade brasileira, difundida com maior ou menor refinamento em nossas ciências sociais frente as suas congêneres europeia e anglo-americana que, não obstante, tende a gerar efeitos regressivos na elaboração teórica stricto sensu. Noutros termos, o sacrifício de nossa imaginação sociológica – decorrente da focalização de temas/obras situados localmente como critério de relevância sem rival na produção de conhecimento – traduz certo acanhamento diante do problema sociológico como problema teórico tout court. Logo, a importância secundária atribuída à teoria apenas reafirmaria os papéis intelectuais prescritos na comunidade científica internacional, que chancelam a estreiteza de nossas iniciativas na fronteira do conhecimento:


Nessa ótica [da ciência social produzida localmente], boa ciência é aquela que, com alguma reverência aos modelos e abordagens “quentes” do momento, se dirige a problemas empíricos e práticos prementes, os quais vêm a ser os problemas socialmente relevantes na sociedade em que vivemos. Omite-se, assim, a ponderação crucial de que não saberemos sequer definir com propriedade nossos problemas empíricos e práticos se não tivermos condições de refletir com sofisticação adequada a respeito deles, vale dizer, se não formos teoricamente sofisticados (REIS, 1997; colchetes meus).

F. W. Reis defende que a superação desses óbices se apóia numa reversão de expectativas quanto à noção de “singularidade” da formação social brasileira. Assimilá-la criticamente nos obrigaria a não confundir o esforço endógeno em teoria social com uma ideia equívoca de precedência do “Brasil” no preenchimento de nossa curiosidade intelectual. Esta, a seu ver, somente se converterá num recurso manejável para a participação paritária na produção de conhecimento em escala mundial se o caso brasileiro for um caso entre outros para os cientistas sociais nativos. Para tanto, o repertório aquilatável em nossa socialização científica prescinde de uma postura “cosmopolita e aberta” [5] e, não menos, de uma reconfiguração de nossas áreas temáticas segundo proposições generalizantes que, por um lado, não limitem seus respectivos trabalhos a “descrever” o Brasil e, por outro, liberem seus autores do encargo de fornecer insumos (casos concretos) para a teoria social cujos empreendimentos mais ousados continuam restritos a poucos nichos acadêmicos fora do país.  


Obviamente, o diagnóstico de F. W. Reis tem a anuência de parte da comunidade científica brasileira afeita ao postulado de objetividade com o qual, diga-se, o politólogo mineiro projeta uma via de aprimoramento para pesquisa social sem recuar diante das clivagens metodológicas entre as ciências humanas e as demais áreas de conhecimento. Entretanto, F. W. Reis baliza seu diagnóstico numa crítica que, embora incisiva, não nos motiva para além de uma espera (resignada?) pela efetividade do seu desiderato: “fortalecer a qualidade do treinamento teórico-metodológico, em termos que valorizem o modelo analítico e sistemático do trabalho científico” [6]. Doravante, seus apontamentos críticos a respeito dos déficits qualitativos das ciências sociais brasileiras permitem, curiosamente, introduzir o programa de Gildo Marçal Brandão (a parte final desse texto, que reservo para outra publicação), mesmo que a analogia com a limpeza de terreno feita pelo filósofo alagoano nessa área temática não obscureça sua divergência com o modelo de ciência social preconizado por seu colega mineiro.



[1] Cf. Gildo Marçal Brandão, Linhagens do pensamento político brasileiro, São Paulo, Hucitec, 2010.
[2] O diálogo com Fábio Wanderley Reis e Gildo Marçal Brandão deve-se à filiação de ambos à Ciência Política, disciplina pela qual tecem um panorama das ciências sociais brasileiras segundo pontos de vista alternativos e, por vezes, antagônicos. Todavia, não menos relevante é o cotejo das perspectivas de Elisa Pereira Reis e de Gilberto Velho na entrevista que concederam com Fábio Wanderley Reis há duas décadas sobre a situação das ciências sociais no país e que se revela flagrantemente atual. Cf. Elisa Pereira Reis; Fábio Wanderley Reis; Gilberto Velho, As ciências sociais nos últimos 20 anos: três perspectivas, Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 12, n.º 35, out. 1997.
[3] Op. cit.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Ibid.

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