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terça-feira, 8 de março de 2022

A mulher (ainda) é o negro do mundo

 

Fonte: ACNUR.

A mulher (ainda) é o negro do mundo*

* Publicado originalmente no Blog do Pedlowski.

Luciane Soares da Silva**

Uma letra da década de 70, composta por John Lennon para Yoko Ono, conduz nossa reflexão neste Oito de Março. Seu conteúdo é interseccional pois aqui a poética põe em íntimo contato formas distintas de dominação. Tão contemporâneas …

Em 2022, já não bastasse a guerra e seus horrores, o medo e a barbárie na condição imposta aos refugiados, temos um novo capítulo do ódio/desprezo às mulheres. Pedirei aqui um pouco de paciência porque me proponho a conectar fatos que estão na ordem do dia. Vamos destacá-los: o deputado que foi à Ucrânia  com um verniz de ajuda humanitária, revelou ao mundo parte de um inconsciente digno do filme Saló de Pasolini[1]. Vamos acordar que não precisamos mais citá-lo, até porque ele é um genérico do Movimento Brasil Livre, cuja troca por outros, resultaria no mesmo conteúdo. Misoginia, racismo, nazismo e violência são a plataforma que elegeu boa parte destes canalhas.

Saló assombrou a Itália e o mundo desde seu lançamento. A lembrança deste filme tem sido uma constante para mim desde 2018. Personagens que se divertem com piadas simplórias, defensores da família indiciados por envolvimento em assédios e violência sexual, racismo, linchamento e defesa da tortura na Câmara de Deputados. Não seria um exagero pensar no roteiro de uma Itália fascista e sua relação com estes anos de governo Bolsonaro.

O deputado em seu “tour” fez o mesmo uso de um linguajar comum entre os políticos eleitos em 2018. Tudo remete a um ato escatológico. No qual alguém submete ou é submetido. No qual o diálogo é objeto de desconfiança. É preciso ofender, atacar, destruir física e moralmente não apenas os inimigos. Não, claro que não. É preciso incorporar todos aqueles que podem ser sequestrados ideologicamente por descuido, vaidade ou pura ingenuidade nesta nova ordem.

Em março de 2018, uma vereadora foi assassinada, a tiros, no centro da segunda maior cidade do país enquanto voltava de uma atividade política. A noite e o ano começavam com uma intervenção, apenas mais uma fracassada e custosa intervenção. A morte de Marielle Franco, após uma semana de seu discurso na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, marcaria definitivamente o presidente que tornou Carlos Brilhante Ustra, seu patrono. Não é possível que se evoque os espíritos sem que eles apareçam. Já sabemos disto em 2022.

O ódio endereçado às mulheres, a misoginia explícita nos espaços públicos, particularmente nas Câmaras, Assembleias Legislativas e Universidades, não cessaria um dia sequer. Estamos falando dos feminicídios cotidianos, da interrupção de políticas públicas fundamentais para o combate a violência contra a mulher, do avanço desta violência sobre o corpo de mulheres indígenas.

A casa dos homens, o governo Bolsonaro, se assemelha ao filme de Pasolini em sua predileção pela covardia concretizada no ódio aos pobres. Quando o deputado se refere a situação de pobreza das ucranianas, ele o faz em comparação a riqueza de São Paulo. Este misto de alienação, demência e abuso de poder foi o motor de muitas de grande parte das ações destes parlamentares. Em algumas delas, deputados eleitos no Rio de Janeiro, não demonstravam qualquer problema em exibir uma placa quebrada com o nome da vereadora Marielle como se fosse uma cabeça de alce, um prêmio de guerra.

Esta masculinidade mal posta favorece o uso de tacos para morte de africanos. Favorece o uso de armas para disparos em vizinhos. Ou ainda, homicídios contra negros em dia claro em situações inaceitáveis.

As mulheres refugiadas são os negros do mundo pela extrema vulnerabilidade a que são expostas. A condição de vendeta em que são violadas. Ou o uso de seu corpo em redes de prostituição em confins inacessíveis dos Estados-Nação.

Aí reside o problema que a questão dos refugiados, e particularmente, das mulheres e crianças coloca para o projeto de modernidade. Se falamos de milhões de imigrantes, se sua vida em campos que deveriam se temporários, se torna “a vida que levam”, de que paz estamos falando? O que garantimos com tratados, missões humanitárias e discussões jurídicas? Sempre me preocupa que a relação sobre o território se reduza cada vez mais ao controle de recursos. Imagino a mão invisível e cruel de um sacerdote jogando milhões de pessoas como se fossem dados em pedaços de deserto no México. Ou como uma brincadeira engraçada em barcos de papel no Mediterrâneo. Uns afundam, outros não.

As mulheres ainda são os negros do mundo porque são “pobres” disse o deputado agora acusado também por assédio de menores em 2016 em uma escola do Paraná. Porque sua beleza é resumida a instrumento de troca, venda e violação. São os negros do mundo porque sendo vietnamitas, romenas, angolanas, ucranianas, não são assim … tão europeias. São do leste europeu. Aqui os jornalistas ficaram confusos, afinal, a população de Kiev não era “como Iraque ou Afeganistão”. E o racismo renasce enquanto potência explicativa deste biopoder em ação.

 

“a mulher é o negro do mundo, sim, ela é, pense a respeito, faça algo contra isso, nós fazemos ela pintar o rosto e dançar, se ela não quer ser nossa escrava, dizemos que não nos ama, se ela é sincera, dizemos que está tentando ser um homem […] fazemos ela parir e criar nossos filhos, e depois a deixamos feito uma velha e gorda mãe galinha , dizemos que ela devia estar em casa, depois reclamamos que ela é provinciana demais para ser nossa amiga […] nós a insultamos todo dia na TV, e questionamos as razões pelas quais ela não tem confiança, quando ela é jovem, matamos seu desejo de ser livre, enquanto dizemos para não ser tão esperta, e a rebaixamos por ser tão boba”.

A luta que se trava nas ruas a cada ano, após cada assassinato é a recusa total e absoluta em seguirmos sendo, como mulheres, trabalhadoras do campo e da cidade, trans, mães, cientistas, vereadoras, subjugadas e escravizadas.

** Docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (LESCE), integrante da diretoria da Associação de Docentes da UENF (Aduenf).



[1] Estadão. Especial Cinema e Fascismo: Salò, fascismo e o pecado de Pasolini. Edição de 21/06/2020. Acessível aqui.               

segunda-feira, 8 de março de 2021

Dia internacional da mulher: Dia de luta, dia de busca por igualdade e respeito


Dia internacional da mulher: Dia de luta, dia de busca por igualdade e respeito*

 

Renata Souza**

 

O dia 8 de março de 2021 será uma um pouco diferente dos 8M de anos anteriores. Estamos vivendo o ineditismo de uma crise sanitária que está perto de completar um ano e já ceifou mais de 265 MIL vidas, só aqui no Brasil. Mesmo vendo nas redes sociais e em reportagens que muitas pessoas estão naturalizando a gravidade da situação e abandonando as recomendações de segurança sanitária preconizada pela OMS, a pandemia é real e letal, queira as autoridades, e seus seguidores, ou não.


A pandemia desnudou uma série de problemas estruturais históricos da nossa sociedade, principalmente a divisão desigual de trabalho entre homens e mulheres. O isolamento social necessário para a contenção do contágio pelo COVID-19, nos colocou diante de um outro problema, seja ele, a sobrecarga de trabalho para nós mulheres. Principalmente os trabalhos relacionados ao cuidado, pois além de termos que dar conta de nossas atividades remuneradas, no home office, era necessário cuidar de tudo para que nossos filhos e/ou companheiros também pudessem dar conta de suas respectivas atividades, seja escolar ou profissional.


Deste modo, vivenciamos, historicamente, uma série de desigualdades e violência pela condição de gênero, ou seja, por sermos mulheres, há a necessidade e a urgência de leis e até mesmo datas comemorativas relacionadas as nós. Essas medidas visam a conscientização e a mudança de mentalidade.


A Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975, oficializou o dia 8 de março como o dia Internacional da Mulher. Mas a pergunta que lhe faço é: Você sabe por que existe um dia da mulher? Qual a necessidade de separar uma data para lembrar ou “celebrar” a mulher?


Gera-se até mesmo o questionamento do senso comum, sobre qual seria o dia do homem? Ou outras pérolas, que evidenciam uma estratégia muito comum aqui no Brasil, por parte dos grupos privilegiados ou pelos grupos alienados, que não conseguem entender o seu lugar social, que muitas vezes encampam o discurso do opressor e reproduzem as opressões. É a ideia a de que o opressor também é oprimido, numa clara tentativa de deslegitimar lutas por igualdade de condições.


E esse contra-ataque já nos é bem conhecido, existindo até as frases prontas e clássicas tais como: achar que existe racismo inverso, que deveria existir o dia do homem, a lei João da Penha dentre outros devaneios que escutamos por aí, no claro esforço de diminuir ou inferiorizar a luta por demandas específicas.


O dia Internacional da Mulher, historicamente, tem relação direta com a luta das mesmas por igualdade de condições econômicas, políticas e sociais, uma vez que a imagem feminina sempre esteve ligada à ideia da esfera doméstica, da fragilidade, maternidade e da inferioridade. O que criou barreiras para que as mulheres fossem consideradas até mesmo cidadãs.


E esse modelo de mulher ligada à esfera doméstica remonta ao início do século XIX, fruto de uma construção social consolidada na opinião pública, na imprensa e nas leis. Segundo, as historiadoras Carla Bassanezi Pinsky e Joana Maria Pedro em seu artigo Igualdade e Especificidade.  “A mulher que atua nos territórios ‘masculinos’ da cultura e da política foi repudiada em favor da mulher doméstica, que elege a família como centro de sua vida”. Reforça, o que as autoras chamam de segregação sexual dos espaços públicos e privados.


Foi somente a partir das revoluções Francesa e Americana que a ideia de romper com o status quo, começou a ecoar nas sociedades da época. Assim, abrindo espaço para que as hierarquias e poderes estabelecidos pudessem ser questionados. Mas como sempre, nem tudo são flores. Mulheres mataram e morreram em nome dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, propalados pela revolução Francesa. E depois de terminado o trabalho duro, as mesmas foram convidadas a retornarem para seus lares e servirem a nação como eximias donas de casa.


Retomou-se a ideia de que para as mulheres cabia a vida doméstica constitutiva da “natureza” feminina e não os assuntos do Estado, que eram considerados da “natureza” masculina. Por essas e outras que alguns historiadores falam das contradições das ideias iluministas que não contemplavam as mulheres.


Desde o início da Revolução Industrial, quando o emprego da mão de obra feminina se mostrou necessário, elas eram submetidas a jornadas de trabalho, que podiam chegar há 16 h por dia. Uma atividade desumana e mal remunerada. O que nos mostra que ao longo dos tempos o trabalho feminino, quando lhes era permitido um trabalho remunerado, sempre foi desvalorizado e explorado.


Assim, a data é relacionada ao incêndio ocorrido em uma fábrica em Nova York, em 25 de março de 1911, quando 146 trabalhadores morreram queimados, dentre eles 129 mulheres. Evidenciou-se as péssimas condições de trabalho, já que as portas ficavam trancadas para impedir a fuga dos trabalhadores. Há uma versão que diz que o incêndio foi causado criminosamente pelo patrão em resposta a uma greve dos operários dessa fábrica, que se trancaram na mesma para reivindicar melhores condições de trabalho e salário.


Não podemos permitir que essa data “comemorativa” seja descolada de seu real sentido e significado, passando a figurar como mais uma data qualquer, ou apenas uma data comercial. Precisamos urgentemente resgatar o real sentido e significado desta data. E é muito bom lembrar, que o dia 8 de março não é dia de presentear as mulheres com flores ou chocolates, ou qualquer tipo de presente. É dia de luta! É dia de balanço sobre nosso lugar na sociedade.


Dia de questionarmos o porquê de ainda ganharmos salários inferiores aos dos homens em cargos de mesma escolaridade e atribuições. É dia de perguntarmos quem matou Marielle?


Dia de questionar o porquê de sermos vítimas diárias das mais variadas violências e desrespeitos. De questionarmos o porquê de não podermos exercer plenamente o direito constitucional de ir e vir sem sermos estupradas. Dia de lembrarmos que não devemos fazer essas reflexões e questionamentos só no dia 8 de março de cada ano. Dia de lembrarmos que devemos resistir e reivindicar direitos todos os dias.

 

* Publicado originalmente em Ururau Jornal Online (aqui)

 

**  Professora de Sociologia da Educação Básica, Mestre em Sociologia Política, Pesquisadora do Núcleo Cidade, Cultura e Conflito e Doutoranda em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).