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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

PT de Campos dos Goytacazes, o partido que virou suco - Douglas Barreto da Mata

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PT de Campos dos Goytacazes, o partido que virou suco

Douglas Barreto da Mata** 

Um breve histórico sobre o Partido dos Trabalhadores, que nasce como uma junção de setores de movimentos políticos que resistiram à ditadura cívico-militar com outros setores mais recentes, no fim da década de 70, início dos anos 80.

 Uma base eclesial, que tinha como orientação a Teoria da Libertação, egressos da resistência armada e exilados que retornavam, integrantes do movimento estudantil, que ressurgia, intelectuais, artistas, e claro, o movimento operário do ABC de São Paulo, que era quase hegemônico no partido (e de certa forma, ainda é, senão como movimento operário, mas pelo domínio paulista).

 Essa mistura pariu várias tendências, que davam um aspecto de cacofonia partidária, que não raro era considerado um ambiente impossível de se fazer política, dada a tradição do caciquismo político nacional.

 Não foi esse o problema do PT, nem no Brasil, nem em Campos dos Goytacazes.

 Na planície goytacá, o partido nasce da iniciativa de servidores públicos (como em boa parte das capitais, exceto SP, ABC paulista e outras regiões industriais), setores da Igreja Católica (como resposta ao enclave ultra tradicionalista local), e algumas lideranças rurais, já que a dinâmica econômica campista não permitia a existência de um movimento operário forte.

 A atividade industrial por aqui sempre foi ligada à agroindústria, no ramo de fabricação e manutenção de insumos para as plantas das usinas, ou para a manutenção de bens de capital, usados na lavoura (material rodante, caminhões, etc).

 Foi assim que o PT de Campos surge, bem no meio do início da transição econômica da economia agroindustrial para o extrativismo de hidrocarbonetos.

 Em 1980, 1981 ainda não se falava de petróleo ou de royalties, mas já eram ouvidos os primeiros ruídos da fratura das oligarquias rurais.

 Data desta época a estranha simbiose entre o PT  comum fenômeno da comunicação de massas local, que usava o rádio, então a plataforma que atingia os mais pobres da cidade e, principalmente, os alcançava onde a TV não ia, no interior.

 Anthony Garotinho é um dos fundadores do PT, e olhando hoje a situação do partido na cidade, isso explica muita coisa.

 Desde então, a vida partidária do PT local se resume a amar odiar ou a odiar amar o ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-prefeito e ex-governador, e duas vezes secretário estadual, uma vez de agricultura, com Brizola, e depois, de segurança, com sua esposa como governadora.

 Mas por que o PT ama odiar a família Garotinho?

 Em 1988, o PT racha, sendo que uma parte sai para a campanha do então candidato a prefeito, Garotinho, que concorria contra o cambaleante Zezé Barbosa (avô de Rafael Diniz), e a outra parte defende e leva adiante um candidato, Luiz Antônio Magalhães.

 Daquele momento até hoje, reduzindo um pouco as coisas, é possível afirmar que o PT se uniu e se separou do clã Garotinho quase sempre sem conquistar nada, nem na entrada, nem na saída.

 Isso se estende aos aliados da família que se transformaram em opositores do clã.

 Ou seja, ainda que buscando alternativa, esse deslocamento sempre se deu com pouco acúmulo, ou como resultado de arranjos “vindos de cima”, em sua maioria, para submeter o interior e a capital do Rio de Janeiro às demandas de Lula e do PT/SP.

 O PT esteve no governo Arnaldo Vianna, esteve junto com Garotinho no seu primeiro governo estadual, até o rompimento, esteve com Carlos Alberto Campista (dissidente do grupo dos Garotinhos), esteve com o desastre Alexandre Mocaiber, e por último, com a catástrofe Rafael Diniz.

 Sempre a reboque, sempre na hora errada, pelos motivos errados, ou pior, sem qualquer motivo que valesse à pena.

 Há episódios de bons resultados eleitorais, como os irmãos Rangel (Antônio Carlos e Zé Maria), e Makhoul Moussalem.

 Mais uma vez, estes projetos pessoais nunca repercutiram na vida do partido, ou se repercutiram, apenas para dar mais dimensão aos personagens, que se encolheram em seus projetos personalíssimos.

 O partido que vira suco.

 Toda essa trajetória e nosso vínculo afetivo com o partido nos levaram ao exercício de tecer algumas análises, todas, sem exceção, publicadas no Blog do Pedlowski.

 Em junho de 2024 fizemos uma análise mais ampla:

https://blogdopedlowski.com/2024/06/20/o-pt-e-sua-singularidade/

 Depois passamos ao escrutínio na cena campista.

 O processo de amadurecimento da campanha eleitoral petista, desse ano de 2024, nos chamou a atenção, já que a conjuntura nos mostrava pouco espaço de manobra para o partido, soterrado por um avanço do conservadorismo, que se não é inédito por essas plagas, assumiu contornos mais agudos desde 2018.

 Talvez a cidade esteja no mesmo nível de ânimo conservador de sempre, mas o ruído produzido por setores mais extremados dão a impressão de um aumento da direita.

 Esta é a primeira noção que passa despercebida ao PT de Campos dos Goytacazes, talvez seduzido, mais uma vez, por acenos e atalhos patrocinados por forças políticas antagônicas aos Garotinhos.

 Encaixotado na disputa entre os Bacellar e os Garotinhos (como já aconteceu com cada um dos clãs que antagonizam os Garotinhos), o PT foi levado a promover um suicídio político-eleitoral, e aguardou uma candidata deputada estadual, que estava impedida, e que agia por ordem do clã Bacellar.

 A ideia era usar o partido como ponta de lança contra os Garotinhos, neste caso personificados no Wladimir Garotinho, para facilitar o caminho da extremista de direita, a delegada Madeleine.

 Falamos disso por aqui:


https://blogdopedlowski.com/2024/07/16/por-onde-anda-wally/

 Sem a candidata deputada, sem os votos dela, sem sequer sua presença, Jefferson Manhães, ex-reitor do IFF, neto do José Alves de Azevedo (que foi prefeito do PTB, e perdeu o cargo para um golpe de Zezé Barbosa, aliado dos militares), o PT de Campos ficou pendurado na brocha.

 Porém, como se tudo isso não fosse suficiente, o PT local insiste nesse papel secundário, de rabo de elefante, no lugar de ser cabeça de mosquito, como sempre falo.

 O caso do IDEB foi um clássico, onde Jefferson se aliou à extrema-direita para passar um vexame digno de Kim Kataguiri, ou de Carla Zambeli.

 Tratamos disso aqui:

 

https://blogdopedlowski.com/2024/08/18/o-ideb-separa-a-california-da-louisiana-mas-aproxima-o-pt-da-extrema-direita-em-campos/

  

Bem como antes falamos das possibilidades do PT em Campos:

 

https://blogdopedlowski.com/2024/08/12/o-pt-de-campos-e-suas-possibilidades-em-2024/

 Como se pode ver, há uma anacronismo tal nas ações do partido, que nem precisamos dar um aspecto cronológico nos textos.

 É como se fosse uma burrice atemporal, quase anti histórica mesmo, que nos leva de volta à questão:

 Por que o PT de Campos ama odiar os Garotinhos, e orienta toda sua trajetória a partir dele como referência, ao contrário do que deveria fazer, já que o PT de Campos diz ser a alternativa a esse modelo dos Garotinhos?

 Historicamente incapaz de adentrar no campo popular campista, segregado no eleitorado de classe média, cujo caráter tem sido mais sensível, ultimamente, às falas da extrema-direita, o PT de Campos ficou sem lugar, como resultado de um processo que não é recente.

 Em verdade, a nível nacional instalou-se certa esquizofrenia no PT quando a pauta “moralista” anticorrupção foi subtraída do partido (que a usava com maestria no fim dos anos 80 até o início dos anos 2000).

 Como teve que governar e fazer alianças, o partido afastou as bases sindicais, movimentos populares do campo e da cidade, e optou por dar ênfase ao institucionalismo e aos reclames da governabilidade, que como um círculo vicioso, ou um saco sem fundo, exigiu cada vez mais concessões, que por sua vez enfraquecia a base popular de mobilização, e cada vez mais fraco, o PT precisa ceder mais, e  por aí foi.

 Uma prova:

 Dilma foi golpeada, Lula preso, sem resistência.

 Nada.

 Em Campos dos Goytacazes esse problema se deu nos moldes das especificidades locais.

 Durante um tempo, os apelos moralistas do PT mantiveram uma parte do eleitorado classe média conservador e anti garotista.

 Com o advento da devassa do lawfare recente, que foi iniciado em 2006 (mensalão), a legenda desidratou.

 Porém, ao invés de optar por demarcar um campo político que afastasse a extrema-direita e seu discurso predileto (moralista), o PT escolheu disputar esse campo com os extremistas, o que parece-nos que vai levar o partido a ser reduzido ainda mais.

 Assim, ao invés de ter a coragem de falar o que tem que ser dito, como rico é que deve pagar imposto, desenvolvimento econômico desigual não nos serve, reforma agrária é urgente, etc, o PT de Campos tenta seguir o caminho da suavização envergonhada, pálida, brigando com IDEB, acendendo a mais horrorosa demonização e criminalização da pobreza e de populações de rua, fazendo coro às histerias da classe média.

 Bem, como não há espaço vazio em política, o PT corre o risco de contribuir para o isolamento do prefeito atual, ou pior, na sua reaproximação com setores mais radicais de direita.

 Não devemos cair na palermice de imaginar que a presença de Flávio Bolsonaro seja um sinal de que Wladimir Garotinho pendeu para aquele espectro da política.

 Só os tolos e os petistas, do tipo “Sou PT, mas voto Feijó”  defendem uma asneira dessas.

 Observar com honestidade o cenário estadual mostra que Wladimir atraiu Flávio, e interditou uma aliança com as facções mais exaltadas aqui no interior, e de certa forma, esse movimento se reflete no afastamento de uma parte dos Bolsonaros de Cláudio Castro e Cia, inclusive porque Carlos Bolsonaro vai disputar vaga para o senado, em detrimento do governador, ou de quem ele indicar.

 A percepção desse racha, com a presença do senador filho do ex-presidente, dão uma demonstração do faro fino do prefeito campista em aproveitar brechas e costurar alianças de todos os lados, fazendo interlocução simultânea com todas as matizes ideológicas.

 Sem um programa, e pior, sem interesse em fazer a diferença entre a extrema-direita representada na delegada e seus aliados do Governo do Estado e o atual prefeito, que ele mesmo reivindica um “centro” político que, se não existe, ao menos o torna mais ameno ao debate, o PT, mais uma vez, renuncia àqueles que seriam bons motivos para conversar com um “centro” (o que, aliás, é o que Lula faz todo o tempo), e embarca na canoa da extrema-direita, reproduzindo conceitos caros à ela, como eco.

 Por fim, o PT de Campos abre mão de renovar seu discurso de esquerda, com o qual poderia sentar à mesa e disputar espaço onde é possível disputar.

 Espremido pelas contingências e por sua própria inabilidade, deixando que a coordenação de campanha afunde o porvir partidário, eis que o PT de Campos virou suco.

* Disponível em: https://brasiliarios.com/images/estreladoPT1.jpg, acesso em 22 de agosto de 2024.

** Douglas Barreto da Mata, inspetor de polícia desde junho de 2003, com passagens por delegacias de São Gonçalo, Maricá, Rio das Ostras, Macaé e Campos dos Goytacazes. Formado em eletrotécnica pela então Escola Técnica Federal de Campos, atual IFF. Autodidata, marxista convicto e fã de Led Zeppelin, Chico Science, Nação Zumbi, e Mundo Livre S/A. Militante do PT desde 1986, onde integrou o diretório municipal de Campos dos Goytacazes e o diretório regional do RJ. Participou dos governos Arnaldo Vianna, na aliança PT/Garotinho em 1999/2000, na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e do governo Benedita da Silva, como chefe de gabinete da FENORTE, em 2001/2002. Editor do blog Planície Lamacenta.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Os ardis da autocrítica pregada aos outros


Pichações nazistas em uma igreja católica de São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo/RJ.

Os ardis da autocrítica pregada aos outros

Por Lara Luna da Silveira*

Li algumas críticas pertinentes sobre a responsabilidade da esquerda e a falta de autocrítica do PT no fenômeno de adesão em massa a Bolsonaro e, cercada de pessoas que votam nele, tenho convicção para afirmar que, de fato, "aquela tia" ou "aquele colega" não são fascistas, mas convictamente antipetistas.

O mesmo cuidado que pedimos para não misturar "comunismo" com PT (e mesmo com toda preguiça de ver o nome Venezuela e "ditadura petista" em memes que "viajam na maionese") estou tentando ter para não encaixar qualquer um, dentre quase 50 milhões de pessoas, no rótulo de fascista. Se tem mulher, negro, pobre e gay votando nele, no mínimo, tenho curiosidade em entender essa adesão.

Dito isto, acho que a ojeriza à corrupção não explica tudo. Não sabemos o percentual de eleitores que estão votando porque ele é um "mito" que fala aquilo que querem ouvir; nem dos eleitores que votam "apesar do que ele fala", a título de voto de veto.

Fato é que também vejo pessoas como eu, que não queriam o PT no segundo turno, que queriam que o PT reconhecesse que não é só vítima de interpretações enviesadas, de difamações, mas que também permitiu e cometeu não apenas erros de estratégia eleitoral, mas inclusive corrupção, que é sim um problema sério. Mas a coisa é complexa. Não caio no maniqueísmo de odiar o PT, porque apesar de seus erros foi, para mim, de longe o governo que mais tentou incluir pessoas e enfrentar as desigualdades sociais. Também é um problema sério, muito sério aliás, ter gente passando fome. A minha crítica ao PT, assim entendo, passa longe de ser esse antipetismo que vocifera nas redes. Prefiro fazê-la entre aqueles que estão ainda mais à esquerda que a socialdemocracia adotada pelo partido, porque tentamos sair desse lugar comum e repetido de falar em corrupção, considerando haver todos os incentivos estruturais para que ela não acabe e que candidato nenhum vai "dar jeito" nela nem "messianicamente".

Há, assim, quem vai votar no Haddad no estilo "apesar de" também (particularmente, gosto muito de sua biografia, admiro-o muito enquanto político).

Mas, agora, chego aonde quero: apesar do voto de veto, o que mais tem pautado a disputa é o argumento moral. E aí o antipetismo vem agregando “fake news”, ignorância e maledicência. Não falo isso porque estou do outro lado trincheira, sei que há “fake news” do lado de cá também. Mas já é sabido o quanto a campanha do Bolsonaro tem sido feita pura e simplesmente pelas redes, particularmente pelo Whatsapp, com apoio de especialistas que sabem como gerar medo. Medo de sermos uma Venezuela, medo de seu filho ter que dividir banheiro com transexuais, medo do comunismo, medo de andar desarmado. Não importam os debates, não importam os projetos estruturais (economia, educação, saúde, saneamento, etc.), não importa a experiência em gestão. Não importa nem saber o que era, de fato, o projeto "Escola sem homofobia".

Isso explica a adesão de religiosos. Não porque a preocupação maior seja com a mensagem de paz, que se escandaliza com a apologia à tortura. Mas porque a regulação da sexualidade ainda é hoje instrumento de biopolítica, de controle de corpos não só dos integrantes das nossas famílias, mas de todos aqueles que atravessam a rua. Por isso, a violência física a certas minorias, apesar de vir de uma parte restrita do eleitorado, encontra-se no mesmo candidato catalisador do voto daqueles que são contra a agressão física, mas que não acolhe a diversidade por motivos de ordem moral. O candidato não era o único antipetista disponível. Era o que, em nuances diferentes, conversava sim com a mentalidade de muita gente, "apesar de...".

Não quero que o medo nem o ódio pautem as decisões da minha vida, mesmo sabendo que os tenho. Meu voto é, assim, uma decisão racional, de posicionamento de valores. Considero-me mais liberal "raiz" em muitos quesitos que muita gente que se diz de direita: não quero o Estado cerceando direitos civis. Entretanto, quero-o provendo direitos sociais porque não somos nenhum país de Primeiro Mundo que possa abrir mão disso. Choca-me termos milhões de analfabetos e uma proposta de ensino à distância para crianças não chocar as pessoas! Como alguém no meio da caatinga sem um livro vai acessar o ensino "à distância"?! Mas aí eu entro na pauta estrutural e o que vale é discutir o "sexo dos anjos"!

Esse "textão" chato vai ser jogado em resposta a todo mundo que vier com o papo de "mas o PT isso...". Eu também sei votar movida por valores, "apesar de"...

* Doutora em Sociologia Política (UENF).

domingo, 17 de setembro de 2017

Autocrítica, PSDB e PT

Autocrítica, PSDB e PT *

George Gomes Coutinho **

Há semanas atrás, ainda no mês de agosto, o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, apresentou uma propaganda partidária que suscitou reações acaloradas e estranhamento entre gregos, troianos e baianos. Será impossível debater aqui neste espaço todas as contradições ali presentes. Todavia causa perplexidade a crítica de FHC ao que ele anda chamando ultimamente de “presidencialismo de cooptação”, tema apresentado na propaganda partidária, sem reconhecer que parte do DNA deste tipo de relação entre legislativo e executivo é tucano.

Porém ressalto algo que considero importante para a conjuntura. Há a tentativa de realizar a autocrítica. Mesmo que o texto veiculado seja insuficiente, inegavelmente superficial e por vezes piegas, o exercício da autocrítica tenta estabelecer uma nova relação entre partido e eleitorado. Ou seja, para além de seus convertidos, os tucanos sabem que precisam abrir o diálogo com amplos setores da sociedade em virtude da desconfiança endêmica dos cidadãos com seus representantes.   

O Partido dos Trabalhadores, doravante PT, anda seguindo caminho diverso neste momento em que os partidos e a classe política são alvejados diariamente no espaço público.

O PT sem dúvida sofreu diversos reveses nos últimos anos e conta com a fadiga de material causada pelos anos sucessivos no executivo federal. Para além disso tem atuado, em termos táticos, cuidando de outras questões: 1) a denúncia das não poucas contradições do processo de impeachment de Dilma Roussef, onde apresentam a tese do golpe parlamentar; 2) o combate à “lawfare” (guerra jurídica) cujos alvos seriam Lula em particular e o PT em geral.

Não desconsiderando a seriedade destas questões, que fazem parte da guerra de narrativas em voga, o PT peca para além de seu círculo de militantes e/ou simpatizantes. Ou seja, tanto a lawfare quanto o golpe parlamentar até o momento só enternecem os integrados. O auto-elogio também não tem ajudado. Serei excessivamente redundante para fins didáticos: é como Cristo pregando a cristandade entre os cristãos. Por isso a autocrítica, para além de abrir o diálogo com grupos não petistas, pode ser uma excelente terapia em um sistema político em estado terminal.

* Texto publicado em 16 de setembro de 2017 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A lava jato e a sociedade

Por George Gomes Coutinho

            Tornou-se tema inevitável e praticamente onipresente na sociedade brasileira, até pelo farto incentivo da Grande Mídia, a chamada Operação Lava Jato, impetrada pelo Ministério Publico Federal (MPF) e Polícia Federal (PF), desde março de 2014. De um lado, há aqueles que creem (só posso supor ser ato de fé e não mais do que isso) que se trata de uma verdadeira purificação da sociedade dos crimes, brechas e outros bichos gerados exclusivamente pela administração do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos. Nesta perspectiva, admiravelmente rudimentar, a obscena história brasileira da relação entre público e privado tem seu início com o governo Lula e prossegue na gestão Dilma. Lula, neste caso, é o Alpha e para muitos, que Dilma seja o Omega para voltarmos a um estado de coisas hipoteticamente impoluto. Só hipotético... Sem desconsiderar o caráter delirante deste tipo de interpretação.

            De outro lado, entre diversos analistas e intelectuais vinculados aos setores progressistas da sociedade, a Operação Lava Jato tem se mostrado um verdadeiro circo de horrores na manutenção do Estado Democrático de Direito. Garantias fundamentais são atropeladas, provas aparecem e desaparecem, elementos discursivos são seletivamente fornecidos e alardeados pela Grande Mídia e, neste momento, se apresenta um novo grande anti-herói nacional: o delator “premiado”. O “x9”, o “dedo-duro”, o “cagueta”, que dentre diversos setores da sociedade sempre foi tido por um sujeito abjeto e covarde ganha todas as luzes possíveis da ribalta. Sobre esta figura Wanderley Guilherme dos Santos já fez ponderações muito interessantes em seu blog.

            Até agora de concreto o efeito produzido pela Lava Jato é a colaboração com o processo de desaceleração da economia em um momento absolutamente inoportuno. A crise do sistema econômico mundial, que provavelmente os leitores dos hebdomadários creem não existir a despeito das notícias internacionais que também estão fartamente disponíveis para qualquer interessado, prossegue de forma persistente. Conforme apontam de forma assistemática, talvez a Lava Jato já tenha “engolido” 1% do PIB neste cenário enervante. A questão é se este preço já pago redunda na entrega da cálida, úmida e caliente promessa suspirada nos ouvidos dos mais ingênuos: a “purificação” da sociedade brasileira dos danos produzidos pelo inimigo público número 1, o Sr. Luis Inácio Lula da Silva.

            Além de discordar de forma veemente que o Partido dos Trabalhadores tenha inventado a corrupção nesta parte dos trópicos, e que o próprio Lula seja o “coisa ruim” personificado, o que provavelmente esta leitura produz é nada menos que a ignorância sobre a própria sociedade onde estes fatos ocorrem. Além disto, a ausência de conhecimento lúcido trafega pelas águas turvas da igualmente ausente auto-crítica do próprio mercado. Esta instância, sempre apontada como tábua de salvação por liberais de todos os calibres, é não menos partícipe dos processos de corrupção que qualquer outro setor e tampouco se apresenta como ilha de eficiência em um oceano de incompetentes. Empresários, políticos, padres, médicos, policiais, juízes, garis, são todos recrutados em uma mesma sociedade. Para entender o atual estado de coisas, o pretérito e as perspectivas futuras, sem um entendimento adequado da própria sociedade estamos fritos.

            Algo que discuti com um amigo pessoal que vive entre a rapaziada do business: as empreiteiras e congêneres não querem mais operar com contratos públicos. A razão é simples. “Não compensa”, disse ele, justamente em virtude do incremento dos processos de accountability e governança que cresceram sistematicamente nos últimos anos no Estado brasileiro. Este setor, o do empresariado que opera grandes obras, embora seja leviano afirmar que “todos os gatos são pardos”, opera com trocas de favores, preços exorbitantes e outras tantas práticas que não constam nos manuais de boas maneiras. Trata-se de uma lógica predatória que mantém uma estrutura oligopolista, sendo o “livre mercado” uma quimera, um mero jargão... Há favorecimentos diversos, em dinheiro ou ações concretas, no setor privado. Claro que neste caso não entra o dinheiro público e o leitor pode bradar que “se danem todos”. Mas, o efeito mais imediato deste cenário é redução da velocidade ou mesmo a paralisação das obras públicas em todo país. Isto implica prejuízos imediatos para a população no fornecimento de serviços e na manutenção da infra-estrutura pública só recentemente alargada e recuperada após os anos de desmonte do Estado na gestão FHC.

            O que compreendo é que a Lava Jato, a despeito de sua pirotecnia e da constelação de interesses que atende, não modificará a sociedade. Não introduzirá “boas práticas” a fórceps. Tem servido sim, além dos efeitos danosos para a economia, para a criminalização da política partidária, o desgaste das instituições e o esvaziamento da arena pública pela transformação das grandes questões nacionais em simples “caso de polícia”. Em suma, a sociedade brasileira, que certamente modificou-se dramaticamente nas últimas décadas em um sentido positivo, manterá suas permanências seculares que antecedem, em muito,  a  fundação do Partido dos Trabalhadores em 1980.


            Concluindo, não estou aqui fazendo a apologia de qualquer prática ilícita. No meu mundo ideal, todo tipo de prática corrosiva seria investigada a despeito de quem quer que tenha praticado. A questão é que em uma sociedade habituada ao “jeitinho”, em um cenário de punição democrática, talvez não fique pedra sobre pedra. No caso da Lava Jato, é este o caminho que está sendo adotado. Cabe perguntarmos o que será posto no lugar após a assepsia.... Como tem sido lembrado alhures, na Itália das “Mãos Limpas”, que decerto não destruiu a máfia, se seguiu um Berlusconi. Desejo destino melhor para todos nós.