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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Uma exegese da imagem

                                                                                                                         Fonte: Estado de Minas (aqui).

Uma exegese da imagem*


Fábio Py

 

* Publicado originalmente na Revista IHU on-line (aqui).

 

A foto/montagem é forte. Contrastante até. Tem tanto contraste que não há quem não se espante. Afinal, no imaginário cristão uma pessoa que carrega a figura de “Nossa Senhora” não deveria estar conectada à morte, mas ela carrega uma arma em sua mão direita. A figura de Nossa Senhora está acompanhada do dizer “Dai-nos a benção, oh mãe querida Nossa Senhora”. Pelo ombro direito está a bandeira do Brasil. Ambos, à bandeira e à Santa estão protegidos pela arma. A relação se amplifica quando a estampa da blusa tem um cão altamente armado. Todo esse jogo de figuras se movimenta na cena por Juliana Gaioso Pontes, candidata ao cargo de vereadora no Mato Grosso do Sul, de onde é natural, nascida em 1973.

 

Qual é a política de Juliana Gaioso Pontes e seu terrorismo de direita?

 

A montagem da campanha de Juliana Gaioso é uma síntese. Sumariza a união entre catolicismo conservador, patriotismo, armamentismo e a defesa da família tradicional brasileira. A foto evidencia todos elementos numa montagem política. Não à toa. Afinal, Juliana é uma figura conhecida da política de Mato Grosso do Sul, onde foi assessora parlamentar. Ela surfa na onda midiática de Bolsonaro, a quem define como “homem de deus para nação”. O trabalho meticulosamente montado da foto é para promoção de sua candidatura à vereadora pelo Partido Social Liberal (PSL).

 

Juliana se declara casada e “Dona de Casa”, embora tenha trabalhado como assistente parlamentar intermediária no gabinete da senadora Soraya Thronicke (PSL). Deixou o cargo em junho deste ano para concorrer ao pleito eleitoral, quando tinha um salário bruto de 13 mil reais. De acordo com o TSE, ela teria o Ensino Médio incompleto, não apresentou a lista de bens materiais ou de valores depositados em contas bancárias em seu nome, embora apareça em vídeo falando sobre sua casa num bairro dito ‘periférico’ de Mato Grosso do Sul. Na campanha eleitoral a candidata recebeu R$ 20 mil do PSL e outros R$ 500,00 de uma pessoa física.

 

Ela se define como ‘terrorista de Direita’, uma afirmação tão escancarada que vem impulsionando uma investigação da Procuradoria-Geral da União (PGU) por liderar e promover grupos de ódio e antidemocráticos no estado, além de espalhar pelas redes sociais conteúdos classificados como fake news. A suspeita é que integre o “gabinete do ódio” bolsonarista de Mato Grosso do Sul.

 

Juliana também se diz católica praticamente, devota de Nossa Senhora, tal como destaca a foto. Em vídeo, ela aparece fazendo campanha junto ao grupo de jovens católico de Campo Grande chamado de “Anjos de Maria”. No vídeo da campanha aparece ao lado de Bolsonaro, andando com uma arma na cintura e atirando. Nele, volta a usar o apelido “terrorista de direita”, no qual explicita no verso de sua promoção eleitoral “Ela se diz bolsonarista raiz, faz a esquerda enlouquecer”. Assim, segue a prática comum do autoritarismo bolsonarista de espalhar pautas contra vida, pousando com armas, xingando movimentos LGBTQIA+, promovendo a caça de setores de esquerda ou adversários políticos. Nos quais afirma que “deveriam ser expulsos do país”.

 

Sua foto escancara o cristianismo conservador como colonial-assassino

 

É claro, normalmente, se diz que o apelo às armas e ao cristianismo são contraditórios. Contudo, tal incongruência, não raro, é apenas aparente. Pois, essa história já se esboça desde a formação brasileira quando “os jesuítas carregavam armas nas mãos, terços nos pulsos, e catequeses nas bolsas para o serviço da interiorização brasílica”, segundo escreve Ronaldo Vainfas, no seu clássico “Traição” (Companhia das Letras, 2008). O historiador diz também que os jesuítas andavam armados não para ‘simples’ defesa, mas para atacar e promulgar o projeto colonizador brasileiro, diante das diferentes tribos que aqui habitavam. Por fim, o historiador informa enfaticamente que existiam jesuítas especialistas na caça e morte indígena.

 

Outro projeto colonial que veio ao Brasil, que unia o cristianismo e a violência armada contra setores heterodoxos é mais recente. Ele data de 1870, quando houve migração de americanos do Sul derrotados na Guerra de Secessão, que ocupam a região de Santa Barbara do Oeste. Eles, que em sua maioria eram das denominações evangélicas batistas, presbiterianos e metodistas, formaram a colônia americana do Brasil. A qual ajudou na expansão dessas expressões religiosas pelo país. Os membros da colônia tanto trouxeram escravos para o Brasil, quanto compraram outros mesmo após a abolição da escravatura. O pastor batista Helcio Lessa gravou vídeo em 1984, para o Centro de Memória Batista, descrevendo que nessa colônia de americanos “havia dias de estudo da Bíblia, e infelizmente, dias que sacrificavam escravos a tiros de arma de fogo”. Essa memória do racismo, escravidão, cristianismo e armas teria seguido até 1950 entre os batistas e presbiterianos quando nos seus seminários tinham “negros que viviam nos porões, às vezes até acorrentados, que faziam os serviços domésticos e carregavam as bíblias dos seminaristas”.

 

Assim, voltando à foto/montagem eleitoral. Acredito que o que chama tanto a atenção é que ela deixa claro que o cristianismo conservador é e sempre foi violento. Seus símbolos, liturgias, e fiéis se esforçam em esconder o sangue derramado dos índios e das populações de África que cá vieram habitar. Contudo, a simples foto eleitoral da ‘terrorista de direita’, Juliana, expõe quão tenebrosa é a formação do Brasil cristão. Ela demonstra que esse cristianismo, é filho direto da colonização e está acostumado tanto com a devoção das rezas e liturgias quanto com os ‘tiros nas cabecinhas’ dos demais povos ‘pagãos’.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Fim do Estatuto do Desarmamento?


Por Paulo Sérgio Ribeiro

O Senado Federal lançou a consulta pública sobre o fim do Estatuto do Desarmamento*. Pela relevância da coleta de opiniões para o trabalho legislativo, impressiona a disparidade do seu resultado: 90.026 pessoas declararam “sim” à revogação do estatuto e 5.597, não. Tramitação da consulta encerrada. Topamos num consenso irrefutável? As ciências sociais em geral, e a sociologia da violência em particular, elencam tópicos variados que dialogam com o tema do desarmamento, indo desde a consagrada definição weberiana de Estado como detentor do monopólio legítimo da violência à própria comparação de matrizes do pensamento filosófico acerca da possibilidade de limitação do poder como contrapartida da ideia de autonomia. Ao manejar a literatura especializada, aprendemos que abrir o flanco para simplificações moralistas sobre o fenômeno da violência vai de encontro à fundamentação conceitual de questões que emergem ao sabor do dissenso no debate público, tais como: a) ampliar ou restringir as franquias legais à posse e ao porte de armas de fogo? b) ratificar ou relativizar a liberdade individual em face da proteção à vida?

Em cada cenário de época se produzem respostas provisórias àquelas questões conforme a maturidade ou a incipiência da avaliação do modelo de segurança pública e de justiça criminal em vigor e, não menos, da sua intersetorialidade com as políticas de desenvolvimento, inteligência, direitos humanos, planejamento urbano, entre outras. Sua margem de experimentação institucional é delimitada pelo alcance de correntes de opinião que, não raro, refletem mais as distorções do senso comum sobre violência e criminalidade do que um aprendizado coletivo sobre a gestão de conflitos. Sendo assim, uma leitura apressada daquela consulta pública pode, inadvertidamente, reforçar os nossos autoenganos sobre o drama da violência, embora a tentativa de contextualizar o esmagador “sim” à revogação do Estatuto do Desarmamento possa, também, evidenciar as vicissitudes de nossa cultura política diante de mais um interregno democrático (1989-2016). Dentre elas, uma salta aos olhos nos dias que correm: o avanço das posições autoritárias.

Esse diagnóstico é sinalizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com a recente divulgação da pesquisa “Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil”. Adotando a perspectiva teórica de Theodor Adorno em estudo seminal nos anos 1950 sobre tendências proto-fascistas nos EUA, o FBSP elabora o “Índice de Propensão ao apoio a Posições Autoritárias”. Para os pesquisadores do FBSP, outra referência igualmente relevante é a obra do psicólogo José Leon Crochík, o qual também se valeu daquele enfoque em pesquisa realizada junto a estudantes de Administração de Empresas e de Psicologia no Brasil em início dos anos 2000. Nos seus traços gerais, essa linhagem de pesquisa notabiliza-se pela mensuração de personalidades autoritárias por meio de escalas psicométricas.

A “Escala F” (fascismo) inaugurada por Adorno e seus colaboradores - psicólogos sociais associados à Universidade de Berkeley - tomou corpo através de um formulário que abrangia nove dimensões de análise: submissão à autoridade; agressividade autoritária; convencionalismo; antiintrospecção; superstição e estereotipia; poder e “dureza”; destrutividade e cinismo; projetividade; preocupação com o sexo. Crochík, por sua vez, aclimatou a “Escala F” ao selecionar 28 das suas 40 assertivas originais. Já no referido trabalho do FBSP foram selecionadas 15 daquelas assertivas, com acréscimo de duas novas com o intuito de “mensurar a eventual influência da religiosidade na construção de representações sociais acerca da identidade dos policiais brasileiros” (FBSP, 2017, p.11). Esse conjunto de 17 assertivas contemplou as três principais dimensões do trabalho original de Adorno: submissão à autoridade, agressividade autoritária e convencionalismo.

O Instituto Datafolha, parceiro na pesquisa realizada pelo FBSP, aplicou 2.087 entrevistas, entre os dias 07 e 11 de março de 2017, junto a pessoas de 16 anos de idade ou mais distribuídas em 130 municípios brasileiros. Por meio de técnicas de abordagem pessoal, os entrevistados responderam a um questionário que dispunha de seis níveis de concordância em relação às assertivas: concorda totalmente, concorda, concorda parcialmente; discorda parcialmente, discorda, e discorda totalmente. Colhidos os dados da amostra, os resultados descritivos alicerçaram a criação do índice para o apoio a posições autoritárias conforme um ranking de 1 a 10 pontos. Maior adesão a ideias autoritárias, mais próximo de 10; menor adesão, mais próximo de 1. O apoio a posições autoritárias aferido - 8,10 – indica um grau elevado de adesão ao autoritarismo como modus vivendi do brasileiro médio. Destacam os pesquisadores do FBSP que a dimensão mais acentuada no Brasil é a submissão à autoridade. A seu ver, “a população brasileira necessita de figuras de liderança que podem ser representadas pelo fortalecimento de grupos radicais e de celebridades virtuais presentes em diversas plataformas e redes sociais” (op. cit., p.14).

Em um Estado pós-democrático – para usarmos a feliz terminologia de Rubens Casara – flexibilizar as regras para a posse e o porte de armas de fogo implica uma inflexão na política nacional de desarmamento em detrimento de uma divulgação mais abrangente dos resultados dessa política – mortes efetivamente evitadas pelo maior controle, mesmo que insuficiente, de circulação de armas de fogo no país a partir do Estatuto do Desarmamento (2003)** – para quem dela queira, criticamente, tomar parte no processo legislativo. Pior: em uma ambiência política na qual a aceitação da autoridade está longe de confirmar uma adesão racional a normas, os pânicos morais e ódios inoculados podem ser o dedo no gatilho, literalmente, para aqueles cuja obediência servil ao líder demagogo retroalimenta-se na opressão de quaisquer indivíduos ou grupos que se mostrem divergentes do convencionalismo de classe média que debita a tais pânicos e a ódios a sua autoimagem.

* Acesso: https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=128456

** "Como era o Brasil quando as armas eram vendidas em shoppings e munição nas lojas de ferragem", reportagem do jornal El País.

Acesso: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/25/politica/1508939191_181548.html


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Obra consultada:

Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil: índice de propensão ao apoio a posições autoritárias.
Organizador: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2017. 39p.

Acesso:

http://www.forumseguranca.org.br/publicacoes/medo-da-violencia-e-o-apoio-ao-autoritarismo-no-brasil/   

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O atirador de bem

O atirador de bem*

George Gomes Coutinho **

Os fatos nos EUA podem nos servir de parâmetro para pensarmos nossa própria sociedade. A razão é simples: parte de nossas elites financeiras, políticas, empresariais e intelectuais vêem no “Grande Irmão do Norte” um modelo a ser seguido. Isto implica que leis, instituições e costumes poderiam ser transplantados para cá a despeito da complexidade intrínseca das culturas nacionais. E mesmo com o decalque realizado os resultados não viriam a reboque.

Dentre as questões a serem “transplantadas” há a da venda e porte de armas de fogo. Em termos econômicos é uma questão que atende diretamente ao empresariado da indústria armamentista. O Brasil é um potencial grande mercado consumidor caso seguíssemos a legislação de parte dos estados norte-americanos. Cabe esta ressalva: dadas as características específicas do federalismo por lá, a regulação sobre venda e porte de armas de fogo varia nas cinqüenta unidades que constituem os EUA. Há estados mais ou menos liberais.

Como no Brasil neste momento alguns dos mais conservadores defendem a revogação ou o afrouxamento do Estatuto do Desarmamento de 2003, penso que a tragédia ocorrida na noite do último domingo em Las Vegas, estado de Nevada, é relevante. Nevada é dos estados que mantém uma das legislações mais liberais quanto ao porte de armas de fogo nos EUA e, nestes termos, seria uma espécie de paraíso para os mais entusiasmados. Contudo, não obstante a perda estúpida de 59 vidas, um recorde em um país que se habituou a este tipo de ocorrência bárbara, há um fator que salta aos olhos. O surgimento do “atirador de bem”.

Stephen Paddock, 64 anos, era um contador aposentado com 23 armas em um quarto de hotel. Ainda não há indícios de que fosse um fanático religioso ou supremacista branco. Sua suposta “normalidade” nos aproxima da figura mítica e retórica do “cidadão de bem”. Diante dos fatos a tragédia de Vegas coloca duas perguntas sombrias. Os supostos e questionáveis benefícios da venda quase indiscriminada de armas valeram as 59 vidas perdidas? Ainda, “cidadãos de bem” seriam sempre estáveis, indestrutíveis ou santificados? Para a última pergunta Sigmund Freud, Nelson Rodrigues ou até mesmo Immanuel Kant responderiam que não. 

* Texto publicado em 07 de outubro no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.


** Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes