Mostrando postagens com marcador sociedade de risco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade de risco. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O CAPITALISMO INDIGNO E AS "TRAGÉDIAS" AMBIENTAIS

*


O CAPITALISMO INDIGNO E AS "TRAGÉDIAS" AMBIENTAIS


Por Fabrício Maciel, publicado orginalmente em A terra é redonda, em 19 de maio de 2024.


É impossível não se emocionar ao ver as tristes cenas vindas do Rio Grande do Sul. O que se apresenta como uma grande tragédia natural, em narrativas sensacionalistas como a do Fantástico, na Globo, na verdade é também um crime. A caracterização do fato como tal, entretanto, exige alguma reflexão, para além das imagens à primeira vista.

 

O que estamos presenciando, na verdade, é um dos frutos mais perversos e perigosos do novo sistema econômico e cultural global que eu tenho definido como “capitalismo indigno”. Com esta expressão, procuro tematizar o novo capitalismo que, desde os anos de 1970, se especializou em naturalizar o desvalor da vida humana como um todo, inclusive nos países ditos centrais. Hoje, na Europa, por exemplo, ninguém pode afirmar que está “seguro”. Segurança é um sentimento do passado.

 

Um dos maiores pensadores das últimas décadas, Ulrick Beck (2011), foi incisivo e visionário ao desenvolver, ainda nos anos de 1980, sua conhecida tese da sociedade de risco. Em outras palavras, o autor estava mostrando o futuro próximo e altamente perigoso da vida no planeta como um todo, produzido pelos erros do capitalismo indigno. Para o autor, no período atual, que ele definia como “segunda modernidade”, as sociedades contemporâneas produziriam muito mais “risco” do que desigualdade.

 

Mal interpretado por alguns críticos, o que o autor queria dizer não é que o capitalismo parou de produzir desigualdade, esta que sempre será um de seus efeitos centrais, mas sim que a questão do risco se coloca em primeiro plano. Atualmente, nenhuma região do planeta é totalmente segura, ainda que algumas sejam, por razões históricas, mais seguras do que outras.

 

Não é outra coisa o que vemos nas tristes imagens do Rio Grande do Sul. A revolta da natureza, fruto do aquecimento global e de questões puramente políticas do capitalismo indigno, pode causar rapidamente profundos efeitos na vida das pessoas. Ela pode colocar em poucas horas milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, e isso para além da condição de classe. É claro que, considerando as desigualdades territoriais, os mais pobres são os primeiros a ser afetados, por habitarem os territórios mais vulneráveis. Entretanto, nenhum território está totalmente seguro. Somos todos vulneráveis.

 

A pergunta que não quer calar é a seguinte: até quando o sistema político e as elites econômicas, que na prática ditam os caminhos da humanidade, não entenderão que a grande máquina do capitalismo indigno precisa ser freada? Chegaremos ao limite do risco para que isso aconteça? A resposta parece ser um pavoroso sim. Não parece haver força política e econômica consciente que queira enfrentar o problema mais grave da humanidade, que é exatamente a destruição de nossa casa.

 

Ninguém pode dizer, neste sentido, que não fomos avisados. Não falta conhecimento científico geológico, político, econômico, e de outras ciências sociais e da natureza, que não possa deixar claro o rumo equivocado da história moderna. Atualmente, a discussão sobre o antropoceno ou, como prefere Jason Moore (2022), do “capitaloceno”, deixa claro termos chegado a um momento no qual não dá mais para permitir que a máquina do capitalismo conduza a si mesma desenfreadamente. Algo bastante ruim há de acontecer.  Na verdade, já está acontecendo.

 

O sociólogo alemão Klaus Dörre (2022), por exemplo, é um dos que foram incisivos ao mostrar que estamos diante de uma dupla crise econômico-ecológica que exige, especialmente nos países centrais, detentores da maior parte do capital e do poder no mundo, alguma ação urgente. Não há nada concreto, entretanto, que nos garanta a possibilidade de este tipo de ação emergir do Atlântico Norte. Talvez seja no cone sul do mundo, onde a maioria das “tragédias” acontecem, que tenhamos a possibilidade de alguma reação efetiva. Na dimensão da solidariedade, pelo menos, temos visto várias ações em todo o Brasil, em nome de nossos irmãos do sul.

 

Não devemos, entretanto, romantizar a solidariedade, que é, sem dúvida, indispensável em tempos de tragédia e sofrimento humano. A ação do Estado é necessária e fundamental. É ele quem tem a responsabilidade e a legitimidade para agir, em defesa da sociedade, não deixando este ser tão indefeso responsável por si mesmo. Além disso, como ressaltou recentemente Hartmut Rosa (2024), em discussão sobre o contexto da pandemia, o Estado não é só responsável e legítimo, mas ele simplesmente pode agir, para além de teorias pessimistas que não acreditam em sua possibilidade de ação.

 

Outro sociólogo alemão, Stephan Lessenich (2018), também contribuiu de maneira importante para esta discussão ao mostrar que as sociedades do Atlântico Norte de alguma forma sempre conseguiram “externalizar” todos os riscos produzidos pelo capitalismo moderno para a sua periferia. Isso garantiu, em grande medida, um “modo de vida imperial” nas sociedades centrais, como muito bem definiram Ulrich Brand e Markus Wissen (2017).

 

Por fim, é preciso dizer com todas as letras que não estamos lidando aqui com “tragédias” simplesmente, ainda que uma dimensão considerável dos fenômenos como este no sul do Brasil possa ser caracterizada desta forma. Trata-se aqui também, em boa medida, do efeito de crimes políticos e econômicos. Neste ponto, a discussão precisa ser mais profunda do que a troca de acusações entre políticos e partidos, ainda que, em boa medida, algumas negligências e negacionismos sejam evidentes. O mais importante, entretanto, é compreender que o espírito político geral de nossa época, o que guia as ações políticas efetivas, pode ser definido como tendo dentre um de seus aspectos centrais um negacionismo ambiental em escala global. Não se trata mais de ver para crer. Já estamos vendo e ainda não acreditando. Nos encontramos agora como os músicos do Titanic, tocando harmonicamente uma bela canção enquanto o navio afunda.

 

Referências:

 

Beck, Ulrich. Sociedade de risco. Rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011.

Brand, Ulrich: Wissen, Markus. Imperiale Lebensweise. Zur Ausbeutung von Mench und Natur im globalen Kapitalismus. München: Oekom, 2017.

Dörre, Klaus. Teorema da expropriação capitalista. São Paulo: Boitempo, 2022.

Lessenich, Stephan. Neben uns die Sintflut. Wie wir auf Kosten anderer Leben. München: Piper Verlag, 2018.

Moore, Jason (Org.) Antropoceno ou capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo. São Paulo: Editora Elefante, 2022.

Rosa, Hartmut. Aceleração. A encruzilhada histórica no capitalismo tardio: uma análise sociológica da crise do coronavírus. In: Estanque, Elísio; Barbosa, Agnaldo de Souza; Maciel, Fabrício (Orgs.) Re-trabalhando as classes no diálogo Norte-Sul. Trabalho e desigualdades no capitalismo pós-covid. São Paulo: Editora da Unesp, 2024.

* Disponivel em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-05/rio-grande-do-sul-ja-registra-29-mortes-por-causa-das-chuvas, acesso em 31 de maio de 2024.

 


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Covid-19 e conjuntura: Risco, catástrofe, percepção e tomadas de decisão – parte II


Covid-19 e conjuntura: Risco, catástrofe, percepção e tomadas de decisão – parte II
George Gomes Coutinho


“Chegaram totalmente impreparados ao seu encontro com a história (...)”

Antônio Scurati[1]


Foto do Centro de Campos dos Goytacazes, RJ, por George Coutinho em 25/03/2020


Na primeira parte desta reflexão, disponível aqui, apresentamos uma breve síntese[2] da proposta teórica de Ulrich Beck (1944-2015) que construiu em sua carreira as bases de sua profícua sociologia do risco. Para Beck não há propriamente uma pós-modernidade. O que temos é um processo, e é vital frisar que estamos falando de algo dotado de caráter processual, onde é possível observar a radicalização estrutural dos princípios modernizantes da sociedade nas últimas quatro ou cinco décadas, incluindo, por exemplo, tanto o encurtamento de distâncias (simbólicas e físicas) quanto o incremento de reflexividade.

Por obra da reflexividade há a ruptura da perspectiva de progresso unilinear e invariavelmente positiva. O incremento de reflexividade abre a percepção para o lado sombrio do progresso técnico-científico-industrial desnudando suas mazelas[3] dotadas de potencial irreversível e da possibilidade de tornar a vida humana até mesmo inviável. “Antropoceno” diriam alguns onde uma concepção cornucopiana de natureza e de produção se desmancham no ar.

Na modernidade radicalizada os Estados-Nacionais veem seus processos de tomada de decisão consideravelmente constrangidos na medida em que os riscos não respeitam necessariamente os limites fronteiriços tradicionais. A primeira versão de “Sociedade de Risco” de nosso autor, é importante notar, é apresentada ao mundo no longínquo ano de 1986 em plena conjuntura de uma tragédia cujos rebatimentos ameaçaram simplesmente parte da Eurasia. Falamos aqui de Chernobyl.

A descrição de uma sociedade auto-consciente de seus riscos e monitorando sistematicamente os mesmos envolve considerar, nas tomadas de decisão, o conjunto sofisticado de metodologias, dados, predições analíticas, modelagens matemáticas, etc.. Se a tensão entre leigos e especialistas é previsível neste cenário pelas linguagens e visões-de-mundo diferentes, Beck coloca que o sistema político não poderia seguir imune.

Em uma inspiração luhmanniana[4] lembramos que fazer política é tomar decisões tomadas de caráter vinculante. Portanto, a política é feita na sociedade, da sociedade e para a sociedade. Desta maneira, dadas as mudanças de caráter estrutural, Beck irá assinalar redirecionamentos sensíveis e qualitativos no modus operandi da política moderna[5].

Possivelmente compartilhando a clássica proposição weberiana acerca da modernidade 1.0[6], o parlamento seria o “centro da formação da vontade racional”[7] no âmbito político. Em outros termos: dada a heterogeneidade e complexidade das sociedades industriais, o que envolve assumirmos inclusive a diversidade de interesses e conflitos, os parlamentos são espaços que acomodam provisoriamente a natureza explosiva destas interações gerando sínteses, sempre imperfeitas, que redundam em decisões dotadas de caráter vinculante. O parlamento é o espaço por excelência da política em tempos normais, salvo os momentos onde lideranças extraordinárias se apresentam (Weber, 1997).

Na modernidade radicalizada os processos políticos não deveriam ignorar o incremento de reflexividade. Trata-se de ponto de não retorno. Disto deriva que mesmo nos processos de tomada de decisão no âmbito político a modulação técnico-científica se impõe. É fundamental ressaltarmos que na análise de Beck acerca da modernidade 2.0, não há atalho para o risco. Sendo o risco produto também do avanço do progresso industrial, seu caráter lusco-fusco de probabilidade e concretude constrange os atores políticos.

Beck tem uma perspectiva crítica desta fragilização da vontade política stricto sensu modulada pela ciência e por outros campos tecnificados. Para o autor, o acompanhamento crítico, público e transdisciplinar se coloca como via para a defesa em si da democracia cerceada por um possível futuro distópico de autocracias tecnificadas. Não se trata aqui de adesão ingênua ou apologética ao domínio científico, tal como em parte do senso comum mais cínico que faz a defesa das decisões “técnicas”, supostamente impolutas, e coloca de outro lado o âmbito político naturalmente decrépito e corrupto. Há mais problemas do que soluções no empoderamento dos grupos sociais que se apresentam enquanto agentes do progresso técnico-científico, sejam estes economistas, biólogos ou administradores.

Por outro lado Beck não é um reacionário. Ele não está aconselhando, de forma alguma, que se ignorem os diagnósticos e demais produtos do contraditório avanço técnico-científico. Ele está propondo é o amplo debate, nos moldes democráticos, e que a política também se informe de tais produtos e afins. Trata-se de apropriação crítica[8] onde a imaginação política não se torne raquítica. Mas, que também não enverede na irresponsabilidade de ignorar os fatos. Há a defesa de um equilíbrio fino, portanto, entre vontade política e avanço técnico-científico nos complexos processos de tomada de decisão na sociedade de risco.

De alguma maneira o autor descreve a fisionomia dominante da política por décadas em países cêntricos e periféricos onde novos movimentos sociais, instituições governamentais, ONG´s, empresas de consultoria, etc.. se apresentam como atores importantes para compreendermos as configurações das políticas públicas e do Estado. Banco Mundial, Greenpeace, WWF, Organização Mundial da Saúde, Freedom House, Eurasia Group, etc, não são nomes estranhos para quem acompanha o processo de criação, implementação e avaliação de políticas públicas de naturezas diversas. Estas organizações se destacam tanto por seu caráter transnacional quanto por materializarem e atuarem em recomendações, propostas e relatórios elaborados justamente por grupos dotados de alta qualificação, as autoridades do mundo técnico científico.

Trata-se de um fotografia do establishment. Com reservas e nuances podemos inserir Gerard Schroeder e Angela Merkel. Clinton, Bush Jr e Obama. Em nosso quintal FHC, Lula, Dilma e até mesmo Temer, O Breve. Mas, de lá até aqui decorreram mudanças eleitorais experimentadas fortemente nos últimos anos que são compreendidas como movimentos de crítica à globalização que caem no colo dos “perdedores” imediatos da classe trabalhadora, pobres e dotados de baixa qualificação. Mas, em paralelo pensamos que estes movimentos possam ser enquadrados também como um movimento de rebeldia contra o incremento de reflexividade que detectamos nesta modernidade 2.0. Falamos dos populismos de direita, e assim utilizamos a nomenclatura tal como empregada por Steve Bannon[9]. É neste cenário contemporâneo de disputa de narrativas políticas que a Covid-19 se depara e de onde já podemos detectar consequências trágicas nos processos políticos de tomada de decisão propriamente, tendo impactos diretos na vida e na morte de populações inteiras.

Continua...


[1] Citação retirada do texto “O fim de uma era” onde Scurati faz uma análise tão poética quanto sombria de Milão nestes tempos de pandemia. Uma das versões do texto em tradução para o português encontra-se em: https://vermelho.org.br/2020/04/05/o-fim-de-uma-era/, acesso em 06 de abril de 2020.
[2] Me concentrei propositalmente em determinados pontos da teoria para discutir os elementos que interessam para este ensaio experimental de sociologia e política. A teoria de Beck tem muito mais bifurcações do que os limites desse espaço poderiam dar conta.
[3] Beck já chamava a atenção para o problema dos “riscos desigualmente distribuídos” em uma sociedade de classes. Para a conjuntura do Covid-19 recomendo o texto “Corona vírus, desigualdade e sociedade global de risco” de Fabrício Maciel na mesma toada. O texto encontra-se disponível aqui: http://macielfabricio.blogspot.com/2020/04/corona-virus-desigualdade-e-sociedade.html.
[4] HELLMANN, Kai-Uwe. Aristoteles y nosotros. In: NAFARRATE, Javier (org.). Niklas Luhmann: La política como sistema. Mexico, D.F.: Universidad Iberoamericana, 2009, p.51-80.
[5] Irei utilizar neste texto dois momentos de Beck analisando as conexões entre política e sociedade de risco: tanto o clássico “Sociedade de Risco”, publicado no Brasil pela editora 34 em 2010 quanto “A política na sociedade de risco”, publicado na revista Ideias da Unicamp igualmente em 2010.
[6] WEBER, Max. Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída. São Paulo: Nova Cultural, 1997 (col. Os Economistas).
[7] BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.
[8] Beck defende que a sociologia pode desempenhar um papel importante nesta tarefa de análise não-dogmática e produtiva do conhecimento técnico científico a ser consumido pela sociedade.
[9] Recomendamos as entrevistas de Bannon onde os termos “populista de direita”, “populismo nacionalista”, “nacional-populismo”, etc, são empregados como auto-designações tão legítimas quanto elogiosas. Por exemplo esta aqui para o El país republicada pelos colegas da Unisisnos: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/587807-bolsonaro-salvini-e-orban-sao-os-melhores-representantes-do-movimento-nacional-populista-entrevista-com-steve-bannon



quarta-feira, 22 de abril de 2020

O que sugerir numa hora dessas? – dicas em quarentena



Prólogo


Esta é uma carta com sugestões para a quarentena que fiz para meus alunxs de Ciências Sociais na UFF-Campos dos Goytacazes. A demanda me chegou pela galera do Centro Acadêmico Gisele Reis, o CAGIR para os mais íntimos.


O texto foi publicado originalmente no perfil do Centro Acadêmico no Instagram: @cagir_cs. Podem seguir lá! O pessoal vai gostar :)


Quanto aos textos, os mesmos encontram-se disponíveis no seguinte link: https://drive.google.com/open?id=13nsb35L6n8csTYG9nBjc12OnTgU7cd-f 



O que sugerir numa hora dessas? – dicas em quarentena


George Gomes Coutinho





Caríssimxs estudantes,


Como estão vocês? Suas famílias? Seus queridxs? Amores? Amigxs? Pets? (use a ordem que melhor se encaixar para você e ignore quando for o caso).


Por aqui tudo sob controle.  Como devem saber muitos de nós prosseguimos em nossas rotinas no trabalho em home office. Inclusive o home office não é exatamente uma novidade dada a inexistência de gabinetes de trabalho na UFF-Campos.


Posso afirmar que o trabalho dxs docentes do Departamento, o que envolve pareceres, artigos, preparação de aulas, estudos, etc.., invariavelmente é feito em casa mesmo onde dividimos nossa atenção com família, queridxs, amores, amigxs, pets (não nesta ordem de atenção em todos os momentos).


Este trabalho de bastidor, aquele que não é visível, persiste turbinado pela conjuntura.


Mas, há a ausência inegável e sentida dos encontros dos grupos de pesquisa, das reuniões, das aulas... De tudo aquilo que constitui o nosso habitat concreto que todxs compartilhamos e onde criamos afinidades, desavenças, disputas, solidariedade... Enfim, na rua José do Patrocínio 71, entre paredes de alvenaria ou de contêineres, que nos esbarramos e nos co-influenciamos (uns com os outros, uns contra os outros). Torço sinceramente que possamos todxs compartilhar esses espaços em breve. Para ontem.


Até porque o momento em que forem permitidas as aulas presenciais será o sinal evidente do término da travessia do deserto que todxs nós estamos fazendo por agora.


Sem mais delongas... Vou para as minhas dicas.




Começo em algo para ouvir: o podcast Xadrez Verbal. Eu o recomendo para quem tem interesse em política internacional. Até porque, vamos e convenhamos, parte da cobertura de política internacional da grande imprensa é muito pobre (vocês entenderão ouvindo o podcast). Para além disso, Átila Iamarino, epidemiologista que se tornou figurinha fácil em tempos de pandemia na mídia, tem se colocado como comentarista residente no Xadrez. Então, aqui temos epidemiologia séria em perspectiva comparada e vocês poderão compreender bastante, em termos factuais, como se pode construir uma análise verdadeiramente abrangente sobre um problema sério de caráter transnacional. E sem o caráter transnacional não entendemos a conjuntura Covid-19.


No campo das leituras eu irei me concentrar em 4 pontos: sociologia do risco, Estado de Exceção, crise das democracias e Bolsonarismo.


- Sociedade de Risco: é o Ulrich Beck mesmo. O alemão falecido no ano de 2015 deixou uma abordagem que alertava sobre o quanto os Estados-Nacionais teriam dificuldades concretas para produzirem a regulação de seus próprios territórios e relações no processo de radicalização da modernidade. Questões ambientais, riscos com energia atômica, financeirização, são faces concretas das demandas colocadas por nossos tempos. Podemos acrescentar também aí as pandemias....


- Estado de Exceção: texto que é velho conhecido de quem fez Política IV comigo. Descortina já no pós-11 de setembro a fragilização dos direitos civis e explicita os mecanismos de exceção inseridos na arquitetura das constituições liberais (por exemplo o Estado de Sítio). Texto fundamental para lembrar que nas democracias representativas deve-se dormir com um olho aberto e outro fechado. Neste momento, aqui e alhures, os direitos civis encontram-se sob mira a partir da utilização justamente destes mecanismos constitucionais;


- Crise das democracias: inseri aqui Castells, Mounk, Runciman, Levistsky, Ziblatt... Diferentes perspectivas sobre a democracia representativa liberal contemporânea, sua crise e aquela sensação de que “tudo que é sólido continua se desmanchando no ar”. São descrições que explicam a fisionomia do sistema político que encontrou o Covid-19;


- Bolsonarismo é um fenômeno social e político com profundo impacto nos processos de tomada de decisão de indivíduos, gestores públicos, agentes de mercado, etc.. As ações no contexto da pandemia em solo brasileiro se colocam neste pano-de-fundo: ou adesão acrítica ou adesão parcial ou enfrentamento. Para entender o fenômeno penso que textos da Isabela Kalil e da Rosana Pinheiro Machado podem ajudar a entender esta “ambiência” onde decisões políticas são tomadas, desditas, gritadas.. e nos fazem arrancar cuecas e calcinhas pela cabeça quase que diariamente nesta república dos tweets.


Até breve e cuidem-se bem!


Referências Bibliográficas:

                                       

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade; São Paulo: Editora 34, 2010.
CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2018.
LEVISKY, Steven & ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2018.
KALIL, Isabela Oliveira. Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro. (Relatório de Pesquisa).
KALIL, Isabela Oliveira, MORETTO, Márcio & ORTELLADO, Pablo. Pesquisa no ato “PT nunca mais”. (Relatório de Pesquisa).
RUNCIMAN, David. Como a democracia chega ao fim. São Paulo: Todavia, 2018.
MACHADO, Rosana Pinheiro & SCALCO, Lucia Mury. Da esperança ao ódio: juventude, política e pobreza do lulismo ao bolsonarismo. In: Cadernos IHUideais. São Leopoldo, Unisinos, Ano 16, n.278, vol.16, 2018.
MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.