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domingo, 24 de novembro de 2024

Reflexões partilhadas sobre o PPG em Ciências Sociais – Adelia Miglievich

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Reflexões partilhadas sobre o PPG em Ciências Sociais


Adelia Miglievich**

Há prenúncios de boas correções no sistema de avaliação da pós-graduação no Brasil.

Como sempre deveria ter sido, é a MISSÃO do Programa de Pós-Graduação que há de ser avaliada a partir do próximo quadriênio:

1) Formamos mestres e doutores em Ciências Sociais competentes?

2) Entendemos Ciências Sociais como uma área interdisciplinar (ou formamos sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, como fazem os Programas de Pós-Graduação desse modelo disciplinar)?

3) Qual a "diferença" positiva de nosso Programa de Pós-Graduação em face de dezenas de outros em Ciências Sociais no Brasil?

4) Se queremos ir além do mercado acadêmico para nossos alunos, a gente pode lhes dar base para o quê mais? Políticas públicas? Gestão não-governamental? Docência da Educação Básica? Sendo assim, nossa grade curricular está adequada?

5) Estamos efetivamente contribuindo com a graduação em CS? Em nossas aulas, orientações, PIBIC, PIBID, integração com a pós?

6) Nossos discentes estão se inserindo, ao longo do curso, na comunidade científica nacional?

7) Suas dissertações e teses estão sendo visibilizadas nos concursos de dissertações/teses?

8) Os resultados de suas pesquisas vêm sendo publicados?

9) Nosso Programa de Pós-Graduação, para além dos núcleos e grupos de pesquisa, tem atraído os pares no campo para estarem aqui conversando conosco?

10) Nossos docentes estão se prestigiando mutuamente e interagindo entre si nos bons trabalhos?

11) Nossos docentes estão colocando o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em redes nacionais e internacionais exitosas?

12) Os professores têm conseguido aliar sua produção ao perfil do Programa de Pós-Graduação que queremos ser?

13) Nossos egressos estão no mercado fazendo a diferença positiva?

14) Suas teses e dissertações viraram publicações capazes de demonstrar que o investimento neles gerou produção científica para fortalecer o campo das Ciências Sociais?

15) Vamos entender que não são mais os pesquisadores que serão avaliados daqui para a frente, mas o Programa de Pós-Graduação em sua atuação como uma entidade?

16) A comunidade externa está usufruindo de nossa produção de conhecimento?

17) Temos conseguido dar espaço para nossos estudantes e egressos vestirem com orgulho a camisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais?

 

Acabará o tempo dos "cavalos de corrida" (algo próximo de um colega com 6 artigos por ano!). Pra quê?.

 Tá na hora de entendermos que o desenvolvimento da ciência no Brasil é um trabalho intergeracional e "mutirão" de milhares de mãos.

 Intergeracional implica: acolher e abrir portas para as novas gerações e novos sujeitos epistêmicos, conforme compreendo.

Mas ... essa não é a lógica do Capital. Portanto, há ethos antípodas em disputa: cooperação versus competição.

Não tenho falsas expectativas. Até porque a política científica está contida nas macropolíticas. Quais governos virão?

 Mas, qualquer coisa no futuro vai depender de uma certa nota que teremos que conquistar até março/25, ainda nos critérios velhos de 2019, aqueles produtivistas ...

E agora?

 Ass: uma trabalhadora intelectual.

* Red and White Domes, Paul Klee. Disponível em: https://www.chrisjoneswrites.co.uk/paul-klees-tunisia-trip/, acesso em 24 de nov. de 2024.

** Adelia Maria Miglievich Ribeiro é professora associada no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo, UFES. É autora, além de dezenas de artigos publicados no Brasil e no exterior, do livro "Darcy Ribeiro, Civilization and Nation: Social Theory from Latin America" publicado pela Routledge neste 2024.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Pandemia, Crise Política e Crise do Conhecimento?

 

Pandemia, Crise Política e Crise do Conhecimento?[1]

 


*


 

José Colaço e Roberto Kant de Lima[2]

 

O discurso científico foi uma das primeiras coisas atacadas por autoridades políticas nacionais e importantes personalidades públicas brasileiras, desde o início da pandemia e pelas mais variadas razões. Esta atitude, como sabemos, foi designada como “negacionismo”, uma vez que ela mobiliza a negação, a não aceitação ou a rejeição de evidências basilares que até mesmo a ciência não precisa de muito esforço para tentar explicar. Como, por exemplo, que temos um novo e desconhecido vírus que se transmite pelo ar circulando por aí e precisamos nos mobilizar, de alguma forma, para conter isso.   

Nas etnografias que realizamos sobre conhecimentos naturalísticos, ou seja, sobre os conhecimentos que grupos sociais que estabelecem uma relação direta, biográfica e umbilical com o meio ambiente natural possuem sobre diversos os aspectos que o compõem, ficou evidente que estes conhecimentos quase nunca adquirem status de conhecimento com “C” maiúsculo para pesquisadores e/ou agentes de políticas públicas das áreas de oceanografia, biologia marinha, geologia, agronomia, etc., o que implica obstaculizar seu reconhecimento oficial, por parte do Estado, ou mesmo sua incorporação na implementação de políticas de conservação ambiental, planos de manejo de áreas protegidas etc. 

Por isso mesmo, se por um lado, tornou-se incômodo o ataque e a defesa incondicional da ciência na atual conjuntura,  por outro incomodou também a forma como a classe média esclarecida começou a se relacionar com ciência neste contexto. Com um discurso abertamente crítico ao atual Governo Federal, sobretudo no que diz respeito à condução da maior crise sanitária que já vivemos, parte considerável da grande mídia nacional iniciou uma campanha sem precedentes, a favor da ciência e tudo aquilo que dela pode ser derivado, como a vacina, os materiais de proteção, os protocolos sanitários, as pesquisas, os especialistas, as tabelas, os números, as estatísticas e por aí vai. A verdade é que não há um só dia que esta mesma mídia não exiba a fala de um especialista, ou seja, de um cientista, ou de um médico, sobre o modo através do qual a pandemia tem sido mal conduzida no Brasil. Nos expomos às elaborações de vários especialistas, como se todos eles tivessem um conhecimento uniforme sobre o vírus, o que misturou em sua maioria médicos – que têm a perspectiva do tratamento da “doença” – com aqueles que procuram estudar e conhecer o vírus – especialmente os virologistas e aqueles que têm suas especialidades na lida com as epidemias e a saúde pública. Todas essas perspectivas diferenciadas de abordagens de uma mesma pandemia produziu uma cacofonia de opiniões, aparentemente discordantes, se não se distingue de onde elas partem.

A voraz defesa da ciência, ou do pensamento científico, parece encenar uma espécie de “iluminismo tardio”, anacrônico e superficial, em plena segunda década do século XXI. Uma cruzada da racionalidade contra as trevas e o obscurantismo que, nesta edição contemporânea, ganhou o nome, acertadamente, de negacionismo. Essa narrativa do “iluminismo tardio” peca, no entanto, em não conseguir se comunicar com um considerável estrato da população que nunca acreditou ou vem sendo secular e sistematicamente excluída, por vários motivos, inclusive educacionais, sobre a eficácia das práticas científicas. Tal narrativa soa, por vezes, arrogante, e parece reificar a ciência como, ao fim e ao cabo, a única forma de razoável “estar no mundo” castigado pela pandemia. 

Tornamo-nos pesquisadores em antropologia num período em que a disciplina já tinha “ido para o divã”, em diversas ocasiões, para rever seu passado etnocentrista, racista, colonial, machista, racionalista, hiper ocidentalizado etc. Isso não significa que ela não seja isso, ou parte disso, ainda hoje. O que queremos destacar aqui, no entanto, é que há uma atitude fundamental para o exercício, não apenas da antropologia, mas da prática científica em geral. Estamos nos referindo ao ceticismo. Na antropologia ficou charmoso, pelo menos no Brasil, chamar ceticismo de “estranhamento”. Sem isso não há ciência, pois sem ceticismo não há experimentação nem especulação. 

Experimentação e especulação são características apenas do chamado “pensamento científico”? A ciência antropológica nos chamou a atenção de que todas as formas de pensamento humano partem de um mesmo princípio que combina, entre outras operações, a experimentação das coisas que habitam o mundo, sejam elas seres invisíveis aos olhos humanos, tais como micro organismos ou espíritos, e especulação sobre causas ou efeitos de fenômenos das mais diversas naturezas. Basta que lembremos de um desses textos, a “Ciência do Concreto”, capítulo do livro “O Pensamento Selvagem” de Claude Lévi-Strauss.  

Há outro componente que deveríamos destacar brevemente aqui, que escapa a isso que estamos chamando de reificação da ciência ou iluminismo tardio: a crença. A identificação com a ciência está muito mais relacionada ao ajustamento a um projeto de sociedade, com componentes morais, valorativos e práticos do que a sua real capacidade de resolver nossos problemas enquanto sociedade. “Acreditamos” na ciência e na tecnologia menos por seus resultados e mais, porque, naquilo que os sociólogos chamam (ou chamavam) de modernidade, parte considerável da sociedade sucumbiu aos chamados Sistemas Peritos, como tentou definir, já há alguns anos, Anthony Giddens. Sempre que pensamos em nossa relação com a ciência e com a técnica, é interessante lembrar exemplo do avião: não precisamos conhecer como um avião funciona, não precisamos entender de engenharia aeronáutica, não precisamos saber pilotar um avião, não precisamos saber em detalhes as condições atmosféricas durante um voo para sabermos que o avião é o meio de transporte mais seguro que a humanidade já produziu e, ao mesmo tempo, não aceitar esta condição e ter “medo de avião” é considerado, geralmente, algo infantil ou irracional. 

Se a noção de Sistemas Peritos aqui grosseiramente resumida é controversa na teoria social de hoje, de todo modo podemos admitir que a ciência, além de uma expressão do pensamento, de um conjunto metódico e bem arranjado de procedimentos e de uma linguagem é, também, uma crença, e por isso recorremos a esta noção num momento em que observamos construções de narrativas midiáticas e o uso exagerado e irresponsável das redes sociais (com vinculações de informações parciais, superficiais ou mesmo, claro, as agora conhecidas Fake News). 

Assim, a reificação, ou sacralização da ciência nos soa estranha quando o pensamento científico parece surgir como o “grande salvador da humanidade”. Claro que em relação ao combate ao vírus e à pandemia, bem como para outras tantas situações, pensamos que a humanidade não criou opções muito melhores. Nos preocupa, no entanto, a brecha que, por conta da crise humanitária que atravessamos, pode ser aberta para intensificar algo que já existe e para o qual a ciência foi muitas vezes utilizada sem parcimônia: sua capacidade de produzir hierarquias entre as áreas do conhecimento, mesmo entre aquelas consideradas científicas, como os contrastes que desigualam em status as “ciências do espírito” e as “ciências da natureza”, ou definindo o que é útil ou não para ser pesquisado. 

Mas a hierarquização dos conhecimentos não reside apenas dentro da ciência. Na verdade, o que mais tem chamado atenção é a produção de hierarquias na relação entre a ciência e outras formas de pensamento consideradas “não científicas”, “não acadêmicas” ou “não formais”. Nos referimos, portanto, ao que acontece “fora” dos muros dos laboratórios ou institutos de pesquisa que, como a antropologia sobretudo tem tentado mostrar, apenas atualiza uma hierarquia que é de ordem moral e social se pensarmos, por exemplo, quem são os detentores do conhecimento científico e quem são os detentores dos conhecimentos naturalísticos ou tradicionais. No caso de sociedades desiguais como a brasileira, infelizmente, como temos acompanhado em nossas pesquisas e etnografias sobre as políticas de reconhecimento de povos ou comunidades tradicionais, ou seja, grupos indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, por exemplo – detentores dos tais conhecimentos “não científicos” – a tendência tem sido além do aprofundamento das desigualdades não só no que diz respeito ao status dos conhecimentos naturalísticos que elas detêm, mas também à sua exclusão ao acesso a direitos sociais básicos, além de outras violências e silenciamentos.

O que nós, cientistas ou não, não podemos fazer, é atualizar a falsa ideia, tanto positivista como iluminista, de que há algo como uma “evolução do pensamento humano”, de uma fase mais simples e tosca, para uma fase mais elaborada e sofisticada, de modo que as outras formas de pensamento serão dirimidas, assimiladas ou simplesmente, desaparecerão, como chegou-se a afirmar em séculos passados do suposto duelo entre Ciência e Religião.   

A despeito destas elaborações, estranhamentos e críticas não temos dúvida que devemos defender a ciência contra qualquer tipo de ataque que tente difamá-la, caluniá-la ou desacreditá-la em prol de um projeto de “produção de mundo” que tem como base a aniquilação da diferença, das controvérsias e da vida. Não devemos esquecer que praticar ciência também é um ato político do qual, nós cientistas, não podemos nos esquivar. A ciência não é neutra nunca e nem é objetiva sempre. Nós cientistas, não devemos ter medo de reconhecer estas características tão marcantes em nosso ofício. Cada vez que conseguimos reconhecer isso, estaremos dando passos importantes, como a antropologia tem tentado realizar, para o reconhecimento da pluralidade do pensamento humano expresso na diversidade de modos de vida ou de se “estar no mundo”. 

* El Hombre, controlador del universo - Diego Rivera - Disponível em: https://i2.wp.com/arteref.com/wp-content/uploads/2019/12/Diego-Rivera-El-hombre-controlador-del-universo.jpg?w=800&ssl=1  



[1] Texto originalmente publicado no Blog Ciência & Matemática do Jornal O Globo, republicado aqui com a autorização dos autores. Post original disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/pandemia-crise-politica-e-crise-do-conhecimento.html, acesso em 03 de ago. de 2021.


[2] José Colaço e Roberto Kant de Lima são, respectivamente, pesquisador e coordenador  do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC - www.ineac.uff.br).

 

domingo, 28 de abril de 2019

Por que defender as Humanidades?


Por que defender as Humanidades?

Por Milton Lahuerta*

Historicamente, as chamadas Humanidades preocupam-se com o conhecimento crítico sobre a arte, a filosofia, o indivíduo, a cultura, a economia, o poder, etc. Numa palavra, elas têm por foco o homem em toda a sua complexidade. Neste sentido, em qualquer uma de suas áreas de atuação – o ensino, a pesquisa, a editoração, o jornalismo, o planejamento, a comunicação, o rádio, a televisão, o cinema, a música e o teatro –, as Humanidades lidam com conhecimentos e valores que norteiam a formação das sociedades, interrogando-se, permanentemente, sobre o ser humano singular e o mundo social em constante transformação.

Esses conhecimentos e valores são decisivos para a formação das novas gerações, para sua inserção na vida social e para o modo como elas vão lidar com a dimensão pública e com dinâmica democrática.

É claro que a perspectiva de formar as novas gerações para a vida civil não é fácil de ser cumprida numa época permeada pela prioridade da eficácia, na qual o tempo se acelera drasticamente, os papéis sociais tradicionais não conseguem se reproduzir, as certezas são colocadas em xeque e a vida passa a ser pautada pela lógica da descartabilidade. Decorrentes de uma transição para um novo padrão produtivo e tecnológico de escala planetária, essas transformações implicam novos requerimentos educacionais e têm forte impacto não apenas no trabalho, mas em todas as dimensões da vida.

Essa é uma questão decisiva, já que as duas principais finalidades da educação – a transmissão dos conhecimentos e da cultura necessários à integração social, e a formação de seres humanos autônomos – vêm perdendo sentido nas sociedades contemporâneas. Com isso, generaliza-se a perspectiva de que o sucesso profissional depende, exclusivamente, da aquisição de “conhecimentos úteis”, que, por sua aplicação, trazem benefícios materiais imediatos a seus portadores.

Com a naturalização desse modo de pensar, perde-se de vista um pressuposto fundamental: que a escola, e principalmente a Universidade, não devem apenas instruir e adestrar para o mercado, mas educar para a vida, formando seres humanos capazes de pensar com espírito crítico e autonomia moral.

É justamente aí que se encontra a importância das Humanidades como uma espécie de memória do que é (e foi) o homem, do que disse e pensou sobre si mesmo, resgatando e conhecendo os erros e malogros de nossas sociedades, constituindo-se numa base imprescindível para ensinar a viver no futuro.

Cada vez mais, a própria complexidade das sociedades atuais está a exigir profissionais capazes de pensar com autonomia, de apresentar explicações abrangentes sobre os processos em curso e de oferecer alternativas aos problemas individuais e sociais. Os egressos dos cursos de Humanidades – por estarem habituados à incerteza e ao questionamento permanente de seus próprios pressupostos – acabam por ter uma vantagem comparativa perante profissionais de áreas técnicas e especializadas: mais do que apenas preparar para o mercado, as humanidades formam para a vida. O que, numa era de grandes transformações, não é pouco!

* Sociólogo; Doutor em Ciência Política; Coordenador do Laboratório de Política e Governo da UNESP/Araraquara.

sábado, 16 de março de 2019

Racismo, Universidade e as disputas pelos sentidos do mundo.



Racismo, Universidade e as disputas pelos sentidos do mundo.

Por Luciane Soares da Silva*

Existem textos que são escritos de uma única tacada. A conjuntura, a necessidade da denúncia são aliados na construção dos argumentos. Não se deve esperar para apresentar um posicionamento. Faço esta advertência, pois correrei um risco muito grande hoje. De qualquer forma, outros correram antes de mim.

No início dos anos 2000, em um Congresso com cientistas portugueses, discorria sobre ocorrências de delegacia envolvendo injúria racial após a Constituição de 1988. Fui interrompida por uma professora que, muito preocupada com o espanto do grupo de 11 pesquisadores, tentava defender a representação do Brasil como um paraíso racial. Quando a indagaram sobre as “cotas”, experimentei o primeiro momento constrangedor de inúmeros que veria ao longo de uma década: aos prantos, fez uma defesa pessoal de sua orientação racial democrática. De como era ter orientandos do CNPq negros.

Como pesquisadora formada no sul do país, vivi ao longo de 6 anos situações que muito recentemente são classificadas como “racismo” institucional. Desde piadas em bancas de seleção com personagens negros cômicos de filmes americanos até o questionamento da vocação para pesquisa. Sem contar as classificações obscuras em concursos nos quais a banca permaneceu olhando pela janela durante minha prova-aula e bocejando. Todos sabem como isto acontece, mas não é possível criticar um círculo de poder se você ainda tem a pretensão de ingressar em uma Universidade.

São esses os inconvenientes que o professor José Jorge de Carvalho ousou denunciar ao tomar posição no “caso Ari”. Arivaldo Alves foi reprovado em uma disciplina obrigatória do curso de doutorado no departamento de Antropologia da Unb em 1998. Algo inédito nos 20 anos de existência daquele programa. Lembro de José Jorge na UFRGS contando quantos professores negros tínhamos na Universidade. Um deles era meu orientador, cabo–verdiano. Não lembro de outros durante o tempo que estive lá. E não creio que haja um número muito representativo em 2019. José Jorge indagava se tínhamos os dados sobre evasão nos cursos das principais Universidades. Por que concentrar-se em 20% de reserva de vagas?

Naquele ano, um muro amanheceu pichado na frente da faculdade de Direito na João Pessoa com a frase “Negro, só se for no RU, cotas não”. A referência era ao restaurante universitário, no qual comi por seis anos e o local em que, de fato, podíamos ver os não brancos. As “cotas” foram atacadas, livros foram escritos com vários argumentos sobre a dificuldade da classificação racial, sobre importar um problema que não existia no Brasil. Lembro de estudantes defendendo a meritocracia.

O Brasil de 2019 é bem diferente daquele. As primeiras turmas de UERJ e da UENF (pioneiras na política de ação afirmativa) já estão formadas e desmentem hipóteses iniciais sobre desempenho de cotistas. As Federais também sofreram o impacto das políticas e é possível perceber maior heterogeneidade quanto a cor em alguns cursos. Se olharmos para o corpo docente das Universidades, vemos algo curioso: alunos não brancos e de classes trabalhadoras ingressam em cursos de doutorado. Mas se realizarmos um levantamento nos últimos dez anos nos concursos públicos, veremos que segue o mesmo padrão de cor de décadas anteriores.

Quais as hipóteses para este fenômeno? Tenho amigos formados na UFF, USP, UFRJ, UFMG, UFRGS, UERJ, UFBA... por pesquisadores reconhecidos internacionalmente, com uma biografia de dedicação à pesquisa, com formação na Europa, Estados Unidos, com publicações nas melhores revistas. Como explicar seu desempenho em concursos? Um ponto: creio que as ações afirmativas não servem como resolução para desigualdades estruturais com base em cor. Mas sabemos o peso do reconhecimento pelo título conferido no século XXI para aqueles cujas famílias não têm uma única pessoa com ingresso no ensino superior.

Mas me parece que a entrada na carreira docente representa o passo que não demos. Representa a discussão de uma outra epistemologia científica, o deslocamento concreto dos objetos de observação (tanto na área de saúde como na geografia ou no urbanismo). Se temos como professor um homem negro, residente na Maré e que estuda favelas (e de fato, ele existe com estas características), alteramos um ponto nos discursos sobre um dos temas mais interessantes na ciências sociais brasileiras. Outro lugar de observação, outra forma de entrada em campo, outras possibilidades teóricas e políticas.

Creio que todos têm um acordo formal sobre isto. Como temos acordo sobre a necessidade de combater o racismo. Mas o que temos hoje é um outro tipo de reserva de vagas: aquelas que definem os sentidos do mundo. E que, ao definirem, estabelecem os lugares de poder. E, como conseqüência óbvia, a forma da distribuição dos recursos e da reprodução nos termos estudados por Pierre Bourdieu. Não é apenas uma questão de escolha teórica. Longe disto. Há também o uso do discurso dos estudos culturais, dos estudos de gênero e outros como forma de autoconsagração. Atuação magistral no campo da retórica. Mas que não se aplica às regras de seleção dos novos professores. O fato concreto é que não há nenhuma disposição para alterar este quadro e basta dar uma olhada nos resultados de concursos recentes para confirmar este texto.

Melhor seria se permanecessem as cátedras. É uma ironia. Mas pouparia muito sofrimento aos que entram em concursos com 50 candidatos e aceitam regras que jamais os incluirão. Que sequer explicarão a diferença de décimos que os colocou em segundo lugar (estas explicações nunca poderão ser dadas, pois democratizariam o processo). Quanto a mim, que furei o bloqueio sem qualquer obtenção de justiça em nenhum destes lugares, seguirei na disputa pelos sentidos do mundo. Porque não se pode acreditar em uma ciência sem dissenso e fenotipicamente homogênea. Eu estive prestes a dedicar este texto a quatro professores ... mas percebi que seria injusto não completar a lista. E o texto já está longo demais. Além disto, não faz mais diferença.

* Socióloga. Professora Associada à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (LESCE/CCH/UENF) e Presidenta da Associação de Docentes da UENF (ADUENF). 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Querelas e acertos sobre o pensamento político brasileiro (parte 2)

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Considerando que o objeto da ciência social "fala" e assim o faz de maneira contingente, a incorporação de elementos do pensamento político-social formulado originariamente na Europa ocidental e na América do Norte no trabalho de pesquisadores do Sul não é em si problema se o estatuto de cientificidade da pesquisa social não depender, exclusivamente, de “citar a literatura da Metrópole e tornar-se parte do discurso lá produzido”, como lembra-nos Raewyn Connell[1]. 

Para a socióloga australiana, um turning point no velho questionamento ao imperialismo cultural nas ciências humanas é assinalável atualmente por meio de quatro proposições: a) afirmar as diferenças entre os estilos de trabalho intelectual em correspondência com a história das sociologias nacionais; b) buscar “sistemas indígenas de pensamento” [2] cuja origem externa ao sistema de pensamento eurocêntrico faculte uma base para a produção autônoma de conhecimento; c) desconstruir o pensamento europeu mediante a crítica pós-colonial; d) vislumbrar um “universalismo alternativo” [3] fora das tradições europeia e norte-americana. Sintonizado particularmente com a primeira proposição de R. Connell, Gildo Marçal Brandão também sinaliza em muitos estudos do pensamento político brasileiro uma inclinação à pobreza analítica dimensionada por Fábio Wanderley Reis como um entrave à formulação de um pensamento teórico em bases universais sem, digamos, perder de vista um sotaque e ideias próprios. 

O diagnóstico de G. M. Brandão, tal como o de F. W. Reis (parte 1), não dá margem alguma à auto-condescendência. Na maioria dos estudos pensamento político brasileiro, pontua Brandão, ainda impera a tentação de resolver o “problema da qualidade e da capacidade cognitiva e propositiva de uma teoria pela enésima remissão ao grau de institucionalidade da disciplina ou província acadêmica na qual ela surge”; de reiterar as “tradicionais ‘explicações’ de uma obra pela origem social do autor”; e de operar as “reduções de conteúdo e da forma de produção intelectual às estratégias institucionais ou de ascensão profissional ou social das coteries” [4]. Desse ângulo, seria razoável que a abordagem de G. M. Brandão confluísse com o programa mertoniano de pesquisa, ao admitir que a pesquisa teórica se torna inócua quando serve de incremento a uma história científica - cujo escopo se confunde com o prestígio auferido por um autor nos “colégios invisíveis” da academia em detrimento das ideias teóricas contidas na sua obra. 

Como lembra Jeffrey Alexander[5], no programa mertoniano não estaria vetado a historiadores da ciência e cientistas sociais compartilhar um referencial epistemológico através da leitura das grandes oeuvres, ainda que coubesse aos últimos convertê-la em novos pontos de partida na busca do conhecimento, pois, ao contrário de outras disciplinas cuja construção do objeto é heterônoma, as ciências sociais se revelariam pródigas ao forjar seus próprios instrumentos para se manterem cumulativas. No entanto, o consenso termina quando se põe em questão o que significa propriamente “cumulatividade”. 

É fortuito lembrar que o estudo do pensamento político é antípoda do relato da história da ciência que consagra a autoimagem das ciências naturais. Ora, as teorias e polêmicas das ciências sociais consubstanciam atos performativos que, no plano linguístico, assumem caráter multitudinário ao serem partilhados por indivíduos que, em determinada formação histórico-social, cada vez mais atribuem sentido à sua coexistência mediante os produtos acabados daquelas ciências, transformando-os, no decurso do tempo, em pré-noções acerca de uma identidade coletiva associada àquela formação. Eis o terreno acidentado no qual caminha o pesquisador instigado pela teoria social.

A “dupla hermenêutica” da pesquisa social encontra seu meio de realização numa acumulação teórica que, no caso brasileiro, é permeada por “formas de pensar extraordinariamente persistentes no tempo, modos intelectuais de se relacionar com a realidade que subsumem até mesmo os mais lídimos produtos da ciência institucionalizada”[6]. Portanto, analisar “formas de pensar” não condena o cientista social ao inventário das tradições de pensamento mortas. Ora, recorrer àquelas “formas de pensar” modula a nossa imaginação sociológica na justa medida em que usufruí-la com neutralidade axiológica implica reconhecer no ensaio sobre a formação nacional um elemento ativo na vinculação social da obra pesquisada às ideias de valor com as quais, inexoravelmente, erige-se um dissenso entre perspectivas do conhecimento:


Nessa condição, não há como não confrontar leituras distintas do pensamento político-social brasileiro, especialmente os principais modelos de interpretação formulados nas últimas décadas, ao mesmo tempo verificando em que medida há continuidade ou ruptura entre as formulações clássicas dos convencionalmente chamados “intérpretes do Brasil” e o trabalho intelectual que vem sendo produzido na universidade segundo os métodos de investigação especializada (BRANDÃO, 2010, p.32).

           
A aplicação desses métodos tem levado a bom termo as mediações entre “continuidade” e “ruptura” nas ciências sociais brasileiras? G. M. Brandão acolhe o tratamento dado à questão por Gabriel Cohn, o qual salienta a polêmica entre Guerreiros Ramos e Florestan Fernandes no início dos anos 1960 como a inflexão mais desafiadora que tivemos até hoje no debate sobre a episteme das ciências sociais[7]. Passado meio século desse debate, a teoria social ainda é empreendimento de poucos ou, como ironiza Cohn, um problema “a ser deixado para outros em melhores condições” [8].

Os parâmetros avaliativos pelos quais G. M. Brandão esmiúça essa questão inconclusa – a elaboração de teoria social no trabalho científico aqui produzido – suscitam o balanço das perdas e ganhos da institucionalização de nossa pós-graduação em ciências sociais, um processo que atingiu seu ponto de maturação sob o crivo da agenda “americana” de pesquisa entre os anos 1990 e 2000. Por um lado, G. M. Brandão e F. W. Reis concordam que a delegação do problema a “outros” simplesmente ratifica desvantagens cumulativas das ciências sociais brasileiras em sua circulação internacional; por outro, se Reis indaga por que os “ganhos” da institucionalização são ainda exíguos, Brandão assevera que suas “perdas” tendem a se acentuar com a adesão acrítica àquela agenda de pesquisa, na medida em que ela nada mais faz do que obscurecer a cumulatividade do pensamento político brasileiro.

Seria dispendioso prolongar esse contraponto. Conservemos dele que G. M. Brandão não é indiferente ao aperfeiçoamento de procedimentos metodológicos logrado na pós-graduação em ciências sociais no Brasil. Bastaria dizer que tal aperfeiçoamento qualificou a crítica às diversas formas de determinismo que há pouco tempo faziam pressupor as variáveis políticas como “subprodutos de tendências macrossociais e macroeconômicas” [9]. Todavia, o formalismo instrumental nas ciências sociais pode assumir um viés minimalista ao situar a “vocação nos limites da profissão” [10]. Tais limites corporificam os ardis da especialização, notadamente quando omitem que a aplicação do método em cada disciplina é uma condição necessária, mas não suficiente para a elaboração teórica do objeto dessas ciências:


[...] se não é possível eliminar a especialização por ato de vontade, não é também válido supor que qualquer disciplina, ou qualquer campo interno a uma disciplina, que tenha obtido cidadania acadêmica corresponda necessariamente a mudanças e a individualizações no ser social (BRANDÃO, 2010, p.193-194).
           

Redefinindo o pensamento político como uma área de fronteira do conhecimento, G. M. Brandão lança mão de um prognóstico: por um lado, é possível responder com originalidade à “crise das grandes teorias” [11] a partir da situação brasileira ou, precisamente, do exame das formas de pensar rotinizadas nos e pelos ensaios de interpretação da formação social brasileira com as quais, queiramos ou não, colocamos à prova o campo discursivo das ciências sociais que exercemos na divisão internacional do trabalho intelectual. 


Por outro, seria contraproducente apartar o esforço endógeno em teoria social da pesquisa sobre as obras deixadas pelos nossos ensaístas, pois as cautelas diante do anacronismo histórico podem, paradoxalmente, estabelecer um corte arbitrário entre seus momentos de formulação e recepção. Com efeito, os ensaios sobre a formação social brasileira têm uma amplitude heurística irredutível ao seu contexto de origem e, logo, apropriar-se deles não precisa nos ocupar em coligir ornamentos do passado, senão em viabilizar a cooperação entre teoria social e pesquisa sobre os textos históricos para investirmos cientificamente em temas e problemas da ordem do dia.




[1] Cf. Raewyn Connell, A iminente revolução na teoria social, Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 27, n.º 80, out. 2012, p.11.
[2] Ibid. ibidem.
[3] Idem.
[4] Cf. Gildo Marçal Brandão, Linhagens do pensamento político brasileiro, São Paulo, Hucitec, 2010, p.22.
[5] Cf. Jeffrey Alexander, A importância dos clássicos in: Anthony Giddens & Jonathan Turner (orgs.), Teoria Social Hoje, São Paulo, Editora Unesp, 1999, p.23-89.
[6] Brandão, op. cit., p.29.
[7] Ibid., p.184.
[8] Apud. Brandão, op. cit., p.184.
[9] Brandão, op. cit, p.191.
[10] Ibid., p.185.
[11] Ibid., p.197.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Querelas e acertos sobre o pensamento político brasileiro (parte 1)

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Um dos aspectos mais instigantes do pensamento político brasileiro é a própria dificuldade de submetê-lo à observação quando delimitamos a ciência em sua autonomia cognitiva frente à política. O fascínio que desperta se deve ao fato de o trânsito profissional nessa área de estudos ser, quiçá, um alento para o cientista social em face da desarticulação dos discursos políticos com a crise das grandes narrativas (um então porto seguro da nossa subjetividade ante o esforço metódico de pesquisa) e, sobremaneira, com o comprometimento cada vez maior do nosso imaginário com o tempo intemporal das redes sociais virtuais. Valendo-me das últimas, creio que uma maneira de tatear o relevo do pensamento político sem fazer dele perfumaria é enquadrá-lo a partir da sistematização que Gildo Marçal Brandão lhe conferiu enquanto uma área temática que, no cenário brasileiro, mobiliza diferentes campos disciplinares nas ciências humanas[1].

Admitindo a relativa incipiência desse debate sem subestimar o potencial de autoconhecimento da sociedade nele observável, G. M. Brandão oferece um enfoque construtivo às asserções científica e humanista do trabalho intelectual nas ciências sociais. Com o intuito de dimensionar o escopo da dicotomia “ciência” versus “humanismo”, descrevo, também, a avaliação do estado de arte das ciências sociais sustentada por Fábio Wanderley Reis após décadas de institucionalização do seu ensino e pesquisa no Brasil[2]. Este breve desvio se justifica por possibilitar um contraponto exemplar do programa de pesquisa proposto por G. M. Brandão ao diagnóstico feito por F. W. Reis e, assim, evidenciar algumas nuances de suas escolhas epistemológicas. 

Comecemos pelo diagnóstico. Apesar da demonstração do vigor das ciências sociais brasileiras nas últimas décadas, verificável na diversificação do seu campo de atuação profissional e na ampliação de seu capital cultural institucionalizado em universidades e associações nacionais de pesquisa, F. W. Reis é cético quanto ao desempenho obtido no domínio teórico e metodológico, pois se cristalizou um modo de intelecção da realidade social, calcado num vezo “historicizante” dos problemas, que tanto revela quanto agrava lacunas do treinamento para a pesquisa. A indistinção de explicação sociológica e explicação histórica em muitas pesquisas empíricas desenvolvidas por cientistas sociais não lhes franqueia a expertise dos historiadores profissionais, o que leva ao cultivo de uma espécie de história do presente que nada mais seria do que um “descritivismo pobre e às vezes contente com sua pobreza”[3]. De maneira complementar, F. W. Reis aponta um quadro heterogêneo no tocante à consolidação de um padrão “científico” nesta esfera do saber especializado:


Creio que a Sociologia e a Ciência Política encontram-se claramente mais próximas do padrão “científico”, caracterizado pelo apego ao rigor, à sistematicidade, à generalização e à busca de cumulatividade, ao passo que a Antropologia e a História estariam, em geral, mais próximas do padrão “humanista” e “idiográfico” de trabalho, com a ênfase no qualitativo e no descritivo, a valorização da dimensão temporal ou histórica dos fenômenos e de suas consequentes “peculiaridades”, o relativismo, a confiança depositada na intuição e na “compreensão”(REIS, 1997).
             

A hierarquização das disciplinas subsumida naquela avaliação não consiste, necessariamente, em reduzir suas querelas metodológicas ao uso apurado de um conjunto de técnicas de pesquisa tornado unívoco pelo trabalho intelectual dito hard, mas aduz a uma perspectiva do conhecimento – referendada no mainstream da ciência política norte-americana – que propiciaria não desvirtuar as ciências sociais de sua “vocação teórica e nomológica” que, bem compreendida, subscreve uma concepção de método que não as desabona por sua proximidade com os “fundamentos lógicos da aceitação ou rejeição de hipóteses e teorias” das ciências naturais[4].

Sem dúvida, F. W. Reis vocaliza uma postulação do programa de pesquisa legado pelo sociólogo norte-americano Robert Merton: uma ciência social não é incompatível com a cumulatividade do conhecimento. Pelo contrário, pressupõe-na como meio de realização e meta precípua. O aporte teórico, requerido para construir um problema sociológico, deixa de depender do retorno ritualizado aos textos clássicos ao ceder lugar a sistemas conceituais e argumentos causais cuja validade se comprove através do encadeamento lógico-formal do processamento dos dados com os resultados alcançados. Estes últimos configurariam um conhecimento “verdadeiro”, posto que verificável pela confrontação de hipóteses e teorias, capaz de realimentar futuras pesquisas a partir de um novo patamar de inquirição da realidade nelas circunscrita. Neste sentido, a releitura de uma obra canônica tange o risco de subordinar a pesquisa a argumentos de autoridade que, no melhor dos casos, revelariam erudição suficiente para uma exegese igualmente canônica.

Tal “risco” seria elevado em nossa ambiência cultural, devido à obsessão pela questão nacional, que estimularia, por exemplo, revisões permanentes dos “clássicos” do pensamento político-social brasileiro. Quais seriam os móveis dessa obsessão? A rigor, vigora a pretensão de uma elaboração discursiva “autêntica” sobre a realidade brasileira, difundida com maior ou menor refinamento em nossas ciências sociais frente as suas congêneres europeia e anglo-americana que, não obstante, tende a gerar efeitos regressivos na elaboração teórica stricto sensu. Noutros termos, o sacrifício de nossa imaginação sociológica – decorrente da focalização de temas/obras situados localmente como critério de relevância sem rival na produção de conhecimento – traduz certo acanhamento diante do problema sociológico como problema teórico tout court. Logo, a importância secundária atribuída à teoria apenas reafirmaria os papéis intelectuais prescritos na comunidade científica internacional, que chancelam a estreiteza de nossas iniciativas na fronteira do conhecimento:


Nessa ótica [da ciência social produzida localmente], boa ciência é aquela que, com alguma reverência aos modelos e abordagens “quentes” do momento, se dirige a problemas empíricos e práticos prementes, os quais vêm a ser os problemas socialmente relevantes na sociedade em que vivemos. Omite-se, assim, a ponderação crucial de que não saberemos sequer definir com propriedade nossos problemas empíricos e práticos se não tivermos condições de refletir com sofisticação adequada a respeito deles, vale dizer, se não formos teoricamente sofisticados (REIS, 1997; colchetes meus).

F. W. Reis defende que a superação desses óbices se apóia numa reversão de expectativas quanto à noção de “singularidade” da formação social brasileira. Assimilá-la criticamente nos obrigaria a não confundir o esforço endógeno em teoria social com uma ideia equívoca de precedência do “Brasil” no preenchimento de nossa curiosidade intelectual. Esta, a seu ver, somente se converterá num recurso manejável para a participação paritária na produção de conhecimento em escala mundial se o caso brasileiro for um caso entre outros para os cientistas sociais nativos. Para tanto, o repertório aquilatável em nossa socialização científica prescinde de uma postura “cosmopolita e aberta” [5] e, não menos, de uma reconfiguração de nossas áreas temáticas segundo proposições generalizantes que, por um lado, não limitem seus respectivos trabalhos a “descrever” o Brasil e, por outro, liberem seus autores do encargo de fornecer insumos (casos concretos) para a teoria social cujos empreendimentos mais ousados continuam restritos a poucos nichos acadêmicos fora do país.  


Obviamente, o diagnóstico de F. W. Reis tem a anuência de parte da comunidade científica brasileira afeita ao postulado de objetividade com o qual, diga-se, o politólogo mineiro projeta uma via de aprimoramento para pesquisa social sem recuar diante das clivagens metodológicas entre as ciências humanas e as demais áreas de conhecimento. Entretanto, F. W. Reis baliza seu diagnóstico numa crítica que, embora incisiva, não nos motiva para além de uma espera (resignada?) pela efetividade do seu desiderato: “fortalecer a qualidade do treinamento teórico-metodológico, em termos que valorizem o modelo analítico e sistemático do trabalho científico” [6]. Doravante, seus apontamentos críticos a respeito dos déficits qualitativos das ciências sociais brasileiras permitem, curiosamente, introduzir o programa de Gildo Marçal Brandão (a parte final desse texto, que reservo para outra publicação), mesmo que a analogia com a limpeza de terreno feita pelo filósofo alagoano nessa área temática não obscureça sua divergência com o modelo de ciência social preconizado por seu colega mineiro.



[1] Cf. Gildo Marçal Brandão, Linhagens do pensamento político brasileiro, São Paulo, Hucitec, 2010.
[2] O diálogo com Fábio Wanderley Reis e Gildo Marçal Brandão deve-se à filiação de ambos à Ciência Política, disciplina pela qual tecem um panorama das ciências sociais brasileiras segundo pontos de vista alternativos e, por vezes, antagônicos. Todavia, não menos relevante é o cotejo das perspectivas de Elisa Pereira Reis e de Gilberto Velho na entrevista que concederam com Fábio Wanderley Reis há duas décadas sobre a situação das ciências sociais no país e que se revela flagrantemente atual. Cf. Elisa Pereira Reis; Fábio Wanderley Reis; Gilberto Velho, As ciências sociais nos últimos 20 anos: três perspectivas, Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 12, n.º 35, out. 1997.
[3] Op. cit.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Ibid.