quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Paulo Freire e o Google Scholar – Um diálogo com Paul Spicker - Parte III

Como última parte do diálogo com Paul Spicker sobre Paulo Freire e sua popularidade no Google Scholar, apresento neste post a tradução livre para o português que elaborei dos comentários originalmente publicados aqui em língua inglesa. Como se trata de uma primeira versão, podem ocorrer correções que eu mesmo identificarei ou que serão sugeridas pelos(as) leitores(as). Boa leitura!

As pessoas que estudam Políticas Sociais podem esperar encontrar uma grande quantidade de trabalhos em Ciências Sociais. Todavia, em virtude dos pesquisadores virem para o campo de diferentes disciplinas, o escopo inclui uma seleção bastante eclética de material proveniente da sociologia, economia, ciência política e outros campos de conhecimento. Meu website pessoal (www.spicker.uk) oferta uma introdução às Políticas Sociais e, como parte do meu trabalho, sugiro por lá leituras e aponto para as fontes bibliográficas. Em virtude disto, eu estava interessado em descobrir quais trabalhos eram os mais freqüentemente citados em Políticas Sociais e, então, apliquei um teste simples: qual o quantitativo de citações seriam encontradas no Google Scholar?
Este é um indicador  um tanto tosco e há algumas precauções óbvias ao se fazer uso do mesmo. A primeira é que os trabalhos “internacionais” serão citados em maior profusão do que textos importantes de alcance nacional – o relatório Beveridge, o qual legitimamente pode ser visto como a inspiração para diversos Estados de Bem Estar Social, não é tão freqüentemente citado ao ponto de ser incluído na lista. Em segundo lugar, a contagem é tendenciosa em favor dos países dotados das maiores indústrias acadêmicas – o material publicado nos EUA obtém maior atenção do que os textos publicizados na Europa. Por fim, textos que atraem as pessoas em disciplinas mais largamente difundidas tendem a ser sempre mais citados do que a produção de campos mais especializados: há mais pessoas estudando sociologia do que administração pública por exemplo.
No topo da lista, com mais de 51.000 citações acadêmicas, encontra-se o livro de Paulo Freire, A pedagogia do oprimido. O livro de Freire é internacional em termos de alcance, sendo lido principalmente por traduções. É largamente citado na educação e no trabalho comunitário. Isto posto, sua proeminência e popularidade continuam impressionantes – seu alcance e influência deixam os outros trabalhos  comendo poeira.  Já ouvi referências ao trabalho vindas de trabalhadores comunitários, educadores e funcionários de autarquias locais na Escócia e na Inglaterra. Em suma, o livro é parte da paisagem intelectual – um trabalho clássico onde se espera que as pessoas tenham que se ver com ele em um dado momento.
A obra Pedagogia do Oprimido combina teoria e prática, e esta combinação é central para os estudos em Políticas Sociais. Ele é aberto ao desafio em ambos aspectos (teoria e prática)[1]. Enquanto teoria, a argumentação de Freire sobre opressão e liberdade por vezes o leva a subestimar a evidente, porém implícita, ênfase na solidariedade e na ação coletiva. Realmente não é suficiente dizer para as pessoas que elas se libertarão simplesmente se elas rejeitarem a opressão:  “A Pedagogia do oprimido... faz da opressão e suas causas objeto de reflexão do oprimido e, a partir desta reflexão, torna necessário seu engajamento na luta por sua libertação”[2].

Enquanto prática, Freire parece por vezes mais preocupado com o ambiente político do que com a obtenção de resultados. A minha própria formação é em direitos de Bem Estar e, por vezes, eu fico desesperado com meus colegas que estão mais preocupados com o alargamento das experiências de aprendizagem dos pobres do que em fazer algo com a sua pobreza propriamente dita. Nos Estados Unidos, o trabalho comunitário – tal como implementado pelos ex-agentes comunitários Barack Obama ou Hillary Clinton – é mais afeito a se utilizar da obra maliciosamente pragmática de Saul Alinsky do que das posições abertas por Freire.

Eu prefiro pensar que o mundo se transformou desde Freire. Pelo mundo as técnicas que costumavam ter um uso extra-cotidiano tornaram-se parte da rotina da governança democrática. Organizações internacionais são profundamente engajadas em empoderar  a deliberação coletiva e a capacidade de desenvolvimento das comunidades. Porém, precisamente por conta destas abordagens serem agora tão difundidas,  o trabalho que as apresentou é mais citado do que nunca.






[1] Inserção minha. Os parênteses não constam na versão original dos comentários de Spicker.
[2] Spicker não explicitou em seu comentário de onde foi retirada esta citação. Talvez em uma segunda versão desta tradução eu consiga do próprio autor a referência... Por ora esta lacuna não impede a compreensão geral do comentário elaborado por ele.

Paulo Freire e o Google Scholar – Um diálogo com Paul Spicker - Parte II

Texto original para o Autopoiese e Virtu elaborado por Paul Spicker, professor emérito da cadeira de Políticas Públicas da Robert Gordon University, Escócia.

People studying Social Policy can expect to encounter a range of work in social science.  Because people come to the field from different disciplines, the range includes a very disparate selection of material from sociology, economics, political science and other fields.  My website at www.spicker.uk offers an introduction to Social Policy, and as part of that I suggest readings and point to sources. I was interested to find out which works were most often cited in Social Policy, and to that I applied a simple test: how many citations were recorded on Google Scholar? 

This is a very crude indicator, and there are some obvious reservations to make about it.  The first is that international work will be cited more widely than important national papers - the Beveridge Report, which can legitimately be seen as the inspiration for several welfare states, is not referred to often enough to be included in the list.  Second, the count is biased towards the countries with the largest academic industries - material published in the USA gets far more attention than material published in Europe.  Third, material that appeals to people in the major disciplines will always be cited more than material in a specialist field: there are far more people studying sociology than public administration.   
 

At the top of the list, with more than 51,000 academic citations, was Paulo Freire’s book,
 The Pedagogy of the Oppressed.  Freire’s work is international in scope, and mainly read in translation.  It’s widely referred to in education and community work.  Having said that, its prominence and popularity is still striking - its reach and influence leave other work standing.  I’ve heard it referred to by community workers, educators and local authority officers in Scotland and England.  It’s a part of the intellectual landscape - one of the standard works that people are expected to come to terms with.    

The
 Pedagogy of the Oppressed combines theory and practice, and that combination is central to studies in social policy.  It’s open to challenge in both respects.  As theory, Freire’s rhetoric about freedom and oppression sometimes leads him to understate his evident, but less explicit, focus on solidarity and collective action.  It’s really not enough to say that people will be liberated if they reject oppression:  

“The pedagogy of the oppressed ... makes oppression and its causes objects of reflection by the oppressed, and from that reflection will come their necessary engagement in the struggle for their liberation.”

As practice, Freire seems at times to be more concerned with the political environment than he is with achieving outcomes.  My own background is in welfare rights, and I sometimes despair when my colleagues are more concerned with broadening the range of poor people’s learning experiences than they are with getting something done about their poverty. In the USA, community work - as favoured by former community worker Barack Obama,  or Hillary Clinton - is more likely to depend on the slyly pragmatic work of Saul Alinsky than on Freire’s overt positions.    

I’d like to think that the world has moved on since Freire.  Around the world, techniques that used to be extraordinary have become a routine part of democratic governance.  International organisations are heavily engaged in empowerment, the development of community capacity and collective deliberation.  But it’s precisely because these approaches are now so widespread that the work which expounded them is more widely cited than ever.
 

Paulo Freire e o Google Scholar - Um diálogo com Paul Spicker - Parte I

Paulo Freire e o Google Scholar – Um diálogo com Paul Spicker

Neste início de 2016 fui brindado com uma interessante informação na lista de discussão “Social Policy”, lista por e-mail que congrega pesquisadores do Reino Unido interessados em discutir políticas sociais. A novidade em questão é um despretensioso, porém elucidativo, survey elaborado pelo professor Paul Spicker onde ele mapeia os trabalhos mais citados em políticas sociais utilizando a ferramenta “Google Scholar”.

A tabela* produto deste levantamento é apresentada abaixo deste parágrafo. Evidentemente não se trata de um survey “definitivo” e tampouco esgota qualquer discussão acerca da qualidade dos trabalhos “mais citados” a partir do Google Scholar. Mas, nos ajuda a pensar sobre o tema e fornece indícios sobre como esta área se estrutura tendo por referência a produção em língua inglesa. Afinal, a produção teórica auxilia a moldar as formas de interpretação dos fenômenos sociais...




Published text          
Google
scholar
citations (Jan. 2016)
P Freire, The pedagogy of the oppressed, 1970  
51179
M Foucault, Discipline and punish (Surveiller et punir), 1975
50195
R Puttnam, Bowling alone, 2001
35667
J Coleman, Social capital in the formation of human capital, American Journal of Sociology 1988
31530
G Hardin, The tragedy of the commons, Science 1968
28073
A Sen, Development as freedom, 1999
23973
G Esping-Andersen The three worlds of welfare capitalism, 1990
23146
W Wilson The truly disadvantaged, Chicago 1987
14825
M Friedman, Capitalism and freedom, Chicago 1962
14674
13006
S Arnstein, A ladder of citizen participation, Journal of the American Town Planning Institute 1969
11017
9371
E Goffman, Asylums, Penguin 1961
9133
A Sen, Poverty and famines, Oxford 1983
8922
M Foucault, Madness and civilisation (Historie de la folie) 1961
8357
R Herrnstein, C Murray, The Bell Curve, 1994
7681
A Hollingshead, F Redlich, Social class and mental illness, 1958
7549
M Lipsky, Street level bureaucracy, 1980
7249
T Marshall, Citizenship and social class, 1950
7163
J Habermas, Legitimation crisis, 1975
6703
A Sen, Commodities and capabilities, 1999
6286
6046
R Thaler, C Sunstein, Nudge, 2009
5842
S Bowles, H Gintis, Schooling in capitalist America, 1976
5448
C Jencks, Inequality, Basic Books 1972
5434

O que mais me chamou atenção foi encontrar Paulo Freire no topo da lista. Freire, autor freqüentemente atacado pelos agrupamentos mais conservadores no Brasil e tido muitas vezes por démodé, supera Michel Foucault como autor mais citado no survey de Spicker. Em virtude disto, contactei o próprio Spícker e deste diálogo o professor generosamente produziu um breve texto inédito para o blog explicando tanto a metodologia que utilizou quanto também sobre como interpreta Paulo Freire no contexto das políticas sociais enquanto sub-campo de conhecimento.

Sabendo do quase onipresente complexo de vira-lata rodrigueano que infesta a auto-interpretação dos brasileiros sobre quem somos, o que pensamos e para onde vamos, o que implica por vezes em franca má vontade intelectual com nossos autores, considerei importante apresentar tanto a tabela quanto o posicionamento de Spicker sobre o Paulo Freire.

Por se tratar de uma colaboração especial, farei de “Paulo Freire e o Google Scholar” uma publicação em três atos: esta primeira que publiciza a tabela. Uma segunda, onde apresento o texto original de Spicker e, por fim, um terceiro post onde me arrisco em uma traduçãolivre.


Antes de finalizar, irei situar o leitor sobre quem é o nosso autor. Paul Spicker é professor emérito na cadeira de Políticas Públicas da Robert Gordon University, Escócia. Autor de 16 livros sobre a área, publicou mais de 80 artigos sobre questões relacionadas ao enfrentamento da pobreza e políticas sociais.  É bolsista do International Social Science Council's Comparative Research Programme on Poverty.

Atualização de 23/01/2016 - Paul Spicker publicou em seu blog um resumo do diálogo em 14 de janeiro. O "balanço final" na ótica de Spicker pode ser acessado aqui.


* Foi feita uma edição no post a pedido do próprio professor Spicker. Ele fez uma versão mais recente da tabela e solicitou que fosse feita a correção.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Produção de Cinema na Planície Goytacá Parte II

Neste post reproduzo entrevista que concedi, agora quase em sua integralidade, publicada na Folha da Manhã ontem, dia 02 de novembro de 2015. 

A entrevista para Paula Vigneron ganhou ares de "ensaio"... Dado que não sou um especialista no tema, fiz uma abordagem "aproximativa" sobre a relação existente entre cinema e sociedade, produção cultural e especialmente a difusão da produção cinematográfica em Campos dos Goytacazes.

Cinema em Campos ainda é artesanal

Paula Vigneron
Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), o sociólogo George Coutinho fez uma análise sobre a realidade da produção cinematográfica em Campos nesses últimos anos. Para ele, é necessário que haja profissionalização e participação não somente do poder público, mas também da iniciativa privada. Coutinho destacou também o papel dos cineclubes, como o Cineclube Goitacá e o da Associação de Imprensa Campista (AIC), como fundamentais para a formação de público informado e crítico.
Folha da Manhã – Enquanto sociólogo, qual é a sua opinião sobre o cinema na formação dos grupos sociais? Há relação entre as duas coisas?
George Coutinho – Há uma clara relação entre os grupos sociais, os valores simbólicos em circulação em uma dada sociedade e sua produção “espiritual”. Por espiritual, me refiro aos elementos não materiais fundamentais para compreendermos um dado momento histórico e seu patamar civilizatório. Este terreno imaterial é justamente o espaço da arte. O cinema, como outras formas de expressão artística, mantém uma relação contraditória com a sociedade concreta: tanto reproduz quanto critica o status quo. Ainda, neste caminho, tanto reforça determinados padrões comportamentais e valores quanto incentiva a desconstrução dos parâmetros vigentes. Da mesma forma, o cinema, tal como a literatura ou as artes plásticas e a música, coleta na sociedade, em suas diversas expressões e embates, a matéria prima para a sua produção estética. Ou seja, tanto a sociedade e seus agentes coletivos e individuais utilizam do cinema para elaborarem suas interpretações quanto as artes em geral, e o cinema em particular, “interpretam” esta mesma sociedade a partir de seus critérios próprios. Por razões bastante óbvias, as artes traduzem os elementos concretos e simbólicos da sociedade em uma linguagem estética.
Quanto ao papel do cinema, em termos concretos, há uma dubiedade inerente por tudo o que eu disse. O cinema, expressão artística radicalmente moderna, é utilizado para legitimar a barbárie, a sociedade de consumo ou até mesmo padrões comportamentais patológicos e grupos sociais predatórios. Este rol temático usualmente, embora não seja uma regra rígida, aparece com bastante freqüência nos chamados “blockbusters”, os filmes de grande bilheteria focados em uma tônica de entretenimento pouco reflexivo.
Na outra banda, há uma produção humanista, crítica, dotada de um sopro reflexivo poderoso que justamente, em caminho oposto do reforço do status quo, nos leva a um processo de desnaturalização das relações sociais e nos tira de uma rotina massacrante e “dopada” moralmente para nos estranharmos conosco e com nosso entorno.
Por isso, eu digo que o cinema desempenha papéis. Papéis estes que são aceitos e determinados pelos grupos produtores de cinema, dos técnicos aos diretores, e pelo espectador que seleciona para assistir o que lhe é mais atraente a partir de seu conjunto de crenças e valores.

Folha – Como você enxerga as produções cinematográficas em Campos? Se levarmos em conta o tamanho da cidade e o número de habitantes, há produção suficiente?
George – A produção de cinema em Campos é fomentada por uma produção ainda bastante artesanal e concentrada na modalidade de curtas-metragens. O que acompanho é a confecção de documentários que são, sim, importantes, sobre questões históricas locais ou dramas sociais conjunturais.
O que devemos compreender é que há um avanço tecnológico importante que auxilia a reduzir custos deste tipo de produção aliada a uma prática militante, seja no experimentalismo estético ou especificamente no realismo dos documentários, que torna esta ainda diminuta e nada irrelevante aventura cinematográfica local possível.
Inclusive o termo “militante” é absolutamente pertinente aqui. Sem algum tipo de fé dos empreendedores deste tipo de ação, muito provavelmente nem documentários artesanais teríamos.
Pensando especificamente na produção cinematográfica em termos quantitativos, devemos compreender que ainda falamos de um salto numérico importante só muito recentemente no Brasil. Relatórios específicos sobre o cinema produzido entre nós indicam que há uma profunda concentração regional, existindo polos regionais, notadamente Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Ou seja, pensando nas dimensões continentais de nosso país, certamente ainda é insuficiente. Isto implica outro dado: a captação de recursos financeiros, que permitem a realização deste tipo de empreitada, é igualmente desigual. Há produtoras que “acumulam” recursos de forma hábil e nem sempre utilizando de métodos republicanos na captação.
Diante de tudo isso, Campos poderia ter uma produção mais pujante, porém lida tanto com entraves locais quanto seus produtores enfrentam as desigualdades perversas de um mercado nacional pouco democrático. O que posso dizer é que ainda assim considero um milagre a diminuta produção local que, a partir do esforço pessoal de seus realizadores, por vezes, participa do circuito de mostras nacionais de cinema, mesmo que sejam as mostras mais “underground” e voltadas para o cinema não comercial.

Folha – Em relação à cultura como um todo, acredita que haja investimento e apoio que satisfaçam e incentivem os produtores locais?
George – A produção de cultura em Campos em geral, neste sentido podemos falar para além do cinema, também envolve o sacrifício pessoal de seus produtores. Publicação de livros, sejam os mais “canônicos” e voltados para o público acadêmico, seja no âmbito da ficção ou até mesmo formas literárias como a poesia e as crônicas, contam muitas vezes com o autofinanciamento de seus autores. Quando não é assim, e neste caso os intelectuais organicamente pertencentes ao ensino superior sabem, obtém financiamento das agências usuais como a Faperj – Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, ou arriscam submeterem seus originais para as editoras das instituições públicas de ensino. Os autores vinculados a outras formas de produção contam com fomento do poder local de poucos editais, estes por vezes insuficientemente claros e raríssimos, quando existem!
O que é preciso compreender é que o incentivo para gerar uma produção cultural rica e pujante necessita de recursos e precisa se tornar uma rotina, algo que a sociedade civil local é incapaz de sustentar, mesmo com iniciativas heróicas como o Festival Doces Palavras e os cineclubes existentes nas universidades e os fomentados pela Associação de Imprensa Campista ou o Cineclube Goitacá. Estes espaços tornam possível a circulação de produções de origem diversa, formam um “público” informado, algo certamente fundamental para qualquer uma das expressões artísticas que conhecemos, mas é preciso ações sistemáticas. Não incluo somente a prefeitura dentre os responsáveis pela implementação de um cenário mais frutífero. A iniciativa privada precisa igualmente ser mobilizada, assim como os agentes produtores locais precisam de capacitação para participarem de editais como os fornecidos pelo Ministério da Cultura. Afinal, não obstante todo o romantismo do ímpeto impulsivo criador que ronda a produção artística, a Sturm und Drang (tempeste de ímpeto) como diriam os alemães, necessita de profissionalização se não estamos falando dos raros gênios incontestáveis.
Sem este conjunto de ações, aliada a uma formulação séria e rigorosa de política cultural, continuaremos a perder gerações futuras que poderiam ser não somente consumidores passivos de produtos culturais, mas, certamente, poderiam ser produtores e contribuir com o mercado local e nacional.

Folha – Se pudesse sugerir melhorias para a área do cinema campista, o que sugeriria? E o que você acha que precisa ser mantido?
George – Primeiramente, considero que já foi mais árido o cenário. Campos, durante anos consecutivos, viveu a “privatização do consumo de cinema” no momento em que suas salas de exibição fecharam. A apreciação da produção cinematográfica encerrou-se nos lares, sendo um programa privado das famílias que recorriam as hoje quase extintas locadoras de vídeo ou ao que era ofertado pelos canais de TV. Hoje temos maior oferta de cinema em espaços coletivos, embora que notadamente a produção escoada seja mais dos blockbusters, de maior saída comercial.
No âmbito da formação de um público informado e crítico, temos os cineclubes locais. Estes cumprem uma função diversa das salas de cinema comercial ao darem visibilidade a uma produção alternativa, muitas vezes mais ousada e reflexiva que a produção comercial. Porém, por suas características, atendem a um público de menor monta que as salas de cinema convencionais, mas não são menos importantes. Pelo contrário: por darem vazão à transgressão estética, auxiliam a formar um público que irá fomentar os circuitos alternativos e experimentais de cinema. Parte deste público, inclusive, costuma migrar da condição de espectador/consumidor para se tornar parte ativa de produção, algo fundamental para a sobrevivência do cinema enquanto expressão autônoma de uma dada sociedade.
Também no fomento, vimos nos últimos anos cursos de curta duração sendo ofertados, algo que auxilia na profissionalização dos aspirantes a cineasta. Há mostras de cinema, sejam de iniciativa de instituições privadas ou públicas, que igualmente são espaços de difusão desta arte.
Mas, para além de formar profissionais, uma tarefa das instituições de ensino, termos um público informado, tarefa desempenhada por nossos cineclubes, é preciso de recursos sistematicamente disponibilizados para tornar uma produção local sustentável. Sejam editais dotados de periodicidade, rubricas orçamentárias destinadas para esta finalidade previstas etc. Afinal, não desprezando o lema “uma câmera na mão, um idéia na cabeça”, é preciso prover recursos que viabilizem e incentivem a produção artística. Estes não podem ter uma aparição episódica. Afinal, produtores e realizadores de cinema não comem e sustentam suas famílias de forma episódica.
02/11/2015 11:48

Disponível em: http://www.fmanha.com.br/cultura-lazer/cinema-em-campos-ainda-e-artesanal, acesso em 03 de novembro de 2015 Publicado em versão impressa no suplemento cultural "Folha Dois" do Jornal "A Folha da Manhã" de Campos dos Goytacazes em 02 de novembro de 2015.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Produção de cinema na Planície Goytacá Parte I

Na semana passada fui procurado por uma jornalista da Folha Manhã, jornal de circulação no Norte/Noroeste do Estado do Rio, para falar um pouco sobre a produção de cinema em Campos dos Goytacazes, a relação entre cinema e sociedade, etc..
Esta entrevista, feita de forma respeitosa e competente pela jornalista Paula Vigneron, manteve dois links com a "Folha Dois", suplemento cultural do jornal.
O primeiro "produto" foi uma matéria, onde também participaram cineastas locais como Alexandro Florentino e Carlos Alberto Bisogno, que faz um "diagnóstico" do cenário local para a cinematografia. Esta matéria "síntese" foi publicada na Folha de ontem e aqui neste post reproduzo em sua íntegra.
Resultou em um interessante e preocupante balanço sobre a produção cultural em uma cidade onde ainda há muito o que se construir.... Há algo de embrionário... Porém, este embrião, para se tornar maduro, precisa do apoio decisivo do poder público e dos agentes privados locais.

Eis a matéria:


Cinema campista: sem apoio, sofre falta de identidade


Paula Vigneron

Campos poderia ter uma produção (audiovisual) mais pujante, porém lida tanto com entraves locais quanto seus produtores enfrentam as desigualdades perversas de um mercado nacional pouco democrático”, declarou o sociólogo e professor George Coutinho. Para ele, a ausência de recursos públicos e privados destinados à produção cinematográfica no município prejudica o desenvolvimento e o crescimento da área. A opinião do professor é partilhada por produtores campistas, que lamentam as dificuldades geradas pela falta de investimentos e apoios.
Atualmente, no Brasil, são produzidos, em média, 100 longas-metragens por ano, número inferior a produções dos Estados Unidos e do continente europeu. Os dados foram apresentados pelo cineasta e jornalista Alexandro Florentino. A realidade local, no entanto, não pode ser determinada por números.
— Em Campos, não dá pra se fazer uma afirmação com muita convicção, pois não há um trabalho que mapeie e identifique se há ou não produção cinematográfica na cidade. A produção existe, mas é feita de forma completamente independente, ou seja, sem vínculo com qualquer incentivo ou iniciativa dos setores públicos da cidade e muito menos da iniciativa privada — afirmou.
Diretor de documentários — como “Cambaíba” — e curtas-metragens de ficção, Alexandro explicou que seus trabalhos possuem conceito e postura bem definidos.
— Na minha perspectiva, a linguagem audiovisual, neste caso aplicada à realização de filmes, sejam de ficção ou documentário, proporciona-me uma forma de expressar e me relacionar com o mundo social que me rodeia. Deste modo, os filmes acabam tendo um teor ideológico muito forte, pois eles refletem as relações que eu estabeleço com as outras pessoas e também expressão minhas indignações, frustrações a respeito dos acontecimentos cotidianos — contou o cineasta, que destaca os filmes “Artífices: memórias do ensino técnico” e “Ignorados” como os únicos que receberam apoio do Instituto Federal Fluminense (IFF) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), respectivamente.
Para divulgar suas produções, Alexandro os envia para festivais e costuma postá-los em sites especializados. A intenção do jornalista é que haja diálogo e debate acerca de seu trabalho, que não podem ser atrapalhados pela comercialização, tida para ele como “um entrave, principalmente se formos levar em consideração que a maioria da população do nosso país não tem condições de pagar o preço que se cobra pelas salas de cinema para se ver um filme”.
— Se eu não fizer assim, não consigo fazer filme algum, principalmente se for esperando alguma contrapartida do município. Pois não há mecanismos pra se ter acesso a recursos, a não ser que você conheça alguém e vá pedir um apoio ou outro, mas, além de isso ser humilhante, no meu ponto de vista, é imoral. Pois devem existir meios pelos quais todos que produzem possam concorrer e ter as mesmas chances de conseguir recursos pra realizar sua obra, mas não há um mísero edital se quer destinando recursos pra produção audiovisual no município. Ai, o que se tem é um ou outro produzindo, heroicamente, um filme ou outro de tempos em tempo — criticou.
Para ele, é importante que as produções audiovisuais sejam vistas como “ferramenta prática de se lançar livres olhares, de ser livre e experimentar o mundo”. Por meio delas, segundo Alexandro, é possível desmistificar estereótipos que limitam o pensamento humano e a comunicação.
— A partir desta compreensão, é necessário elaborar ferramentas eficientes para que se possa incentivar e proporcionar, de fato, a realização cinematográfica no município. E isso vai de capacitar os professores para que possam cumprir, adequadamente, a Lei nº 13.006, de junho de 2014, que realizar editais com destinação de recursos para a produção de filmes na cidade — afirmou.
O diretor Carlos Alberto Bisogno — que lançará no próximo dia 6, no Sesi-Guarus, o curta “Ondas” e tem no currículo nove trabalhos — também lamentou a falta de investimentos na área de produção cinematográfica em Campos. Para ele, há somente o cinema comercial, a proposta de cineclubes “abertos para a divulgação do grande cinema” e a atuação do Sesi, “grande motor da divulgação da cultura regional”.
— A tão sonhada Escola de Cinema nunca veio, o motor econômico de um Polo Regional de Cinema nunca foi implementado ou mesmo levado a sério. Em 2011 fui convidado pelo então vereador Rogério Matoso e a apresentar o Projeto do Polo de Cinema numa Audiência Pública na Câmara de Vereadores de Campos, mas a ideia não ecoou, e definhando, parece ter morrido em definitivo — contou.
A Prefeitura de Campos, por meio de nota, declarou que “desenvolve nas comunidades carentes e quilombolas o projeto “Cine Zumbi”, com exibição de filmes nacionais e educativos. A municipalidade estuda a criação de um Cine Teatro. Por isso, a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, esteve com representantes da Agência Nacional de Cinema (Ancine), no final de 2014, para a construção de um anexo ao Teatro Trianon”.
Escola de Cinema ficou perdida
Nos anos 90, com a construção da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), surgiu a oportunidade da construção da Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV) no polo. De acordo com o Plano Orientador da universidade, a escola seria “integrada à Faculdade de Educação e Comunicação da Uenf”, que funcionaria no Solar do Colégio dos Jesuítas, onde, atualmente, funciona o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho. A ideia, no entanto, não foi concretizada.
— No final dos anos 2000, tentativas de formação de um consórcio entre UFF, IFF e a própria Uenf, para tornar o projeto concreto, também não foram adiante, inclusive por dificuldades orçamentárias e congêneres. Uma escola de cinema seria um passo importante na profissionalização da produção cinematográfica local, sem dúvida — assegurou o sociólogo George Coutinho.
O professor, no entanto, ressaltou que, além da formação de profissionais e de público, por meio dos cineclubes, é necessário que sejam sistematicamente disponibilizados recursos, com editais periódicos ou rubricas orçamentárias, que tornem sustentável a produção de Campos. “Afinal, produtores e realizadores de cinema não comem e sustentam suas famílias de forma episódica”, pontuou.
O cineasta Alexandro Florentino destacou a cidade de Recife, no estado de Pernambuco, como um polo de cinema consolidada a partir de ideia semelhante à da EBCTV.
— O que ocorre lá não é fruto do acaso, mas sim de um processo semelhante do que se almejou pra Uenf e, consequentemente, para Campos. O Norte e Noroeste Fluminense só teriam a ganhar, pois, além de instalar um polo de produção criativa na região, incentivaria o desenvolvimento de diversos setores da sociedade, e podemos mencionar alguns exemplos: o fato de a produção cinematográfica movimentar a economia onde ela se realiza, pois se utiliza dos serviços alimentícios locais, hospedagens, papelarias, confecções de figurinos, cenários, mão de obra necessária na composição de uma equipe, como eletricistas, costureiras, especialistas em equipamentos de segurança, entre tantos outros e, também, o turismo — opinou.
“Tem tempo que não vou ao cinema. Tive um filho há pouco tempo. Mas gosto de cinema. Em relação aos filmes, não tenho costume de assistir aos brasileiros e não acompanho as produções de Campos, por não ter tempo e conhecimento. Acho que não é muito noticiado.”
Suelen de Souza Gomes, gerente bancária, 29 anos
“Costumo ir ao cinema. Acho bons os filmes que chegam aqui. É importante porque cinema é cultura, e a cidade cresce com isso. Não assisto às produções campistas por não ser divulgado. A cidade tem que produzir porque é desenvolvimento.”
Rafael Ângelo Rangel, auxiliar de escritório, 29 anos
“Eu vou ao cinema, geralmente, duas vezes ao mês. É muito importante para a cidade por ser forma de cultura. Não conheço as produções de Campos. Falta divulgação para tentar mostrar um pouco o que a cidade tem, para mostrar que podemos fazer algo importante.”
Matheus Leal Monteiro, auxiliar financeiro, 19 anos
“Gosto da programação do cinema, principalmente dos lançamentos nacionais, que estão melhores e são cada vez mais divulgados. Em relação ao cinema em Campos, não acompanho por falta de divulgação. Temos que ter a produção para que seja mostrada.”
Douglas da Silva Barcelos, técnico em logística, 24 anos
“O cinema enriquece a cultura da cidade. Eu não conheço as produções de Campos porque faltam informação e divulgação. Temos que ter essas produções, pois equivale ao enriquecimento da cultura com informações sobre a nossa cidade. Tem que ter, mas deve haver divulgação.”
Guilherme Araújo, bancário, 31 anos
“Gosto de assistir a filmes no cinema, mas não vou muito ao cinema. Não acostumo ver os filmes produzidos em Campos, mas temos que ter porque precisamos mostrar que Campos tem talento e diversão e sabe fazer cinema e que não precisa vir só de fora.”
Scheila Alves, 37 anos, auxiliar de cabeleireiro

Disponível em: http://www.fmanha.com.br/cultura-lazer/cinema-campista-sem-apoio-sofre-falta-de-identidade (acesso em 02 de novembro de 2015. Matéria publicada na versão impressa da Folha da Manhã em primeiro de novembro de 2015).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cientistas políticos brasileiros e a conjuntura

As interpretações mais ou menos sistemáticas produzidas na academia sobre o fenômeno político brasileiro, seja na prática de uma "sociologia política" ou entre os ensaístas oriundos de diversas áreas de conhecimento, ou mesmo as produzidas após a institucionalização do primeiro programa de pós-graduação propriamente em Ciência Política, em 1966 na UFMG, quase sempre seguiram uma certa "vocação pública".

 Por "vocação pública" compreendo a disposição do conjunto de pesquisadores que se defrontam com o fenômeno "poder", algo que não é monopolizado de forma incontestável por um único campo de conhecimento, na busca por ofertar análises, interpretações, dados e afins, de modo a dialogar com a sociedade. Evitarei propositalmente o termo "esfera pública" por compreender que o conceito pode levantar polêmicas teóricas ou empíricas francamente desnecessárias.

Inclusive, evidentemente este não é um caminho de mão única. Se nossos analistas ofertam análises para a sociedade, esta, invariavelmente pauta boa parte da pesquisa realizada entre nós. Afinal, a academia não é dotada integralmente de agentes praticantes de solipsismo....

Retomando, justamente por estas análises deterem um "outro patamar" analítico, algo um tanto diferente das esbaforidas e muitas vezes viciadas "opiniões" encontradas fartamente na imprensa, penso que parte da "missão" da academia é assim cumprida. Ao romper com o por vezes necessário insulamento discursivo, algo que gera decerto pesquisas de fôlego e promove a formação/treinamento de novos profissionais para o próprio campo, especialmente aqui os cientistas políticos brasileiros apresentam contribuições criativas, por vezes provocativas.. Mas.. nunca inúteis. Justamente por todas que selecionei saírem da vala comum desnorteada encontrada alhures.

Irei apontar três profissionais da ciência política brasileira que neste momento se dedicam a este papel um tanto incômodo, o de comentarem a conjuntura em um momento delicado como esse no Brasil. Decidiram "surfar" a onda perigosa, indomável  e imprevisível do movimento histórico.. Por isso mesmo são importantes.

O primeiro deles é Wanderley Guilherme dos Santos. Como já chamei a atenção aqui, WGS prossegue com suas análises, muitas vezes contra-intuivas, em seu blog:  http://insightnet.com.br/segundaopiniao/. Justamente por serem contra-intuitivas, as polêmicas nem sempre justas pululam nos comentários....


Outro que destaco é Fabiano Santos (IESP/UERJ) que concedeu uma longa e densa entrevista para Miguel do Rosário em seu "Cafezinho".  A entrevista nos apresenta um conjunto de cenários, análise de comportamento de grupos, temas espinhosos como o impeachment e preocupações com a democracia representativa brasileira. A entrevista, intitulada "Opção pelo golpe vai ser cobrada na história" pode ser acessada aqui: http://www.ocafezinho.com/2015/09/15/fabiano-santos-opcao-pelo-golpe-vai-ser-cobrada-na-historia/ 

Finalizando as sugestões de leitura, Adriano Codato da UFPR tem se dedicado a compreender o fenômeno do crescimento da direita brasileira, seja em termos discursivos ou propriamente demográfico/eleitorais. Neste diapasão Codato, que já mantém uma larga experiência na análise das elites políticas brasileiras, concedeu entrevistas para o Mediapart (aqui), Valor Econômico (aqui), Agência Pública (aqui).... Ainda, sobre o autor, recomendo a visita em seu blog: o "Sociologia Política" que mantém um bom e eclético acervo sobre a área e análises de conjuntura.

Em suma, mesmo que dentre as narrativas em disputa na ciência política brasileira exista uma tentativa de se construir uma aura de uma ciência "ensimesmada", talvez aqui encontremos uma prova de cientistas políticos menos umbigocêntricos do que se poderia supor.