quinta-feira, 1 de novembro de 2018
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
A censura que paira sobre nossas cabeças
NÃO
ADIANTA PEDIR PERDÃO DAQUI A 50 ANOs
Por Eleonora de Lucena*
Ninguém poderá dizer que não sabia. É ditadura, é
tortura, é eliminação física de qualquer oposição, é entrega do país, é domínio
estrangeiro, é reino do grande capital, é esmagamento do povo. É censura, é fim
de direitos, é licença para sair matando.
As palavras são ditas de forma crua, sem
tergiversação – com brutalidade, com boçalidade, com uma agressividade do tempo
das cavernas. Não há um mísero traço de civilidade. É tacape, é esgoto, é
fuzil.
Para o candidato-nojo, é preciso extinguir qualquer
legado do iluminismo, da Revolução Francesa, da abolição da escravatura, da
Constituição de 1988.
Envolta em ódios e mentiras, a eleição encontra o
país à beira do abismo. Estratégico para o poder dos Estados Unidos, o Brasil
está sendo golpeado. As primeiras evidências apareceram com a descoberta do
pré-sal e a espionagem escancarada dos EUA. Veio a Quarta Frota, 2013. O
impeachment, o processo contra Lula e sua prisão são fases do mesmo processo
demolidor das instituições nacionais.
Agora que removeram das urnas a maior liderança
popular da história do país, emporcalham o processo democrático com ameaças,
violências, assassinatos, lixo internético. Estratégias já usadas à larga em
outros países. O objetivo é fraturar a sociedade, criar fantasmas, espalhar medo,
criar caos, abrir espaço para uma ditadura subserviente aos mercados pirados,
às forças antipovo, antinação, anticivilização.
O momento dramático não permite omissão,
neutralidade. O muro é do candidato da ditadura, da opressão, da violência, da
destruição, do nojo.
É urgente que todos os democratas estejam na
trincheira contra Jair Bolsonaro. Todos. No passado, o país conseguiu fazer o
comício das Diretas. Precisamos de um novo comício das Diretas.
O antipetismo não pode servir de biombo para mergulhar o país nas trevas.
O antipetismo não pode servir de biombo para mergulhar o país nas trevas.
Por isso, vejo com assombro intelectuais e
empresários se aliarem à extrema direita, ao que há de mais abjeto. Perderam a
razão? Pensam que a vida seguirá da mesma forma no dia 29 de outubro caso o
pior aconteça? Esperam estar livres da onda destrutiva que tomará conta do
país? Imaginam que essa vaga será contida pelas ditas instituições – que estão
esfarrapadas?
Os arrivistas do mercado financeiro festejam uma
futura orgia com os fundos públicos. Para eles, pouco importam o país e seu
povo. Têm a ilusão de que seus lucros estarão assegurados com Bolsonaro. Eles e
ele são a verdadeira escória de nossos dias.
A eles se submete a mídia brasileira, infelizmente.
Aturdida pelo terremoto que os grandes cartéis norte-americanos promovem no seu
mercado, embarcou numa cruzada antibrasileira e antipopular. Perdeu mercado,
credibilidade, relevância. Neste momento, acovardada, alega isenção para
esconder seu apoio envergonhado ao terror que se avizinha.
Este jornal escreveu história na campanha das
Diretas. Depois, colocou-se claramente contra os descalabros de Collor. Agora,
titubeia – para dizer o mínimo. A defesa da democracia, dos direitos humanos,
da liberdade está no cerne do jornalismo.
Não adianta pedir desculpas 50 anos depois.
* Jornalista, ex-editora-executiva da Folha
(2000-2010) e copresidente do serviço jornalístico TUTAMÉIA (tutameia.jor.br)
---
Fonte: Tutaméia.
Acesso: http://tutameia.jor.br/nao-adianta-pedir-perdao-daqui-a-50-anos/
domingo, 21 de outubro de 2018
Quem pragueja contra o comunismo sabe o que é liberalismo? (parte 3)
Quem pragueja contra o comunismo sabe o que é liberalismo? (parte
3)
Por Paulo Sérgio Ribeiro
Sumariadas as linhas conceituais da “justiça com equidade” (ver
parte 2), principiemos pela leitura do programa de governo de Fernando Haddad
(PT)[1]. Tendo por fio condutor o
Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado para o decênio 2014-2024, nesse
programa eleva-se a educação à condição de “prioridade estratégica” que obedece
às seguintes diretrizes:
a) Forte atuação na
formação dos educadores e na gestão pedagógica da educação básica, na
reformulação do ensino médio e na expansão da educação integral;
b) Concretização das
metas do PNE, em articulação com os planos estaduais e municipais de educação;
c) Institucionalização
do Sistema Nacional de Educação, instituindo instâncias de negociação
interfederativa; criação de política de apoio à melhoria da qualidade da gestão
em todos os níveis e aperfeiçoamento do SAEB;
d) Criação de novo
padrão de financiamento, visando progressivamente investir 10% do PIB em
educação, conforme a meta 20 do PNE; implementação do Custo-Aluno-Qualidade
(QAQ) e institucionalização do novo FUNDEB, de caráter permanente, com aumento
da complementação da União; retomada dos recursos dos royalties do petróleo e
do Fundo Social do Pré-Sal;
e) Fortalecimento da
gestão democrática, retomando o diálogo com a sociedade na gestão das políticas
bem como na gestão das instituições escolares de todos os níveis.
Das diretrizes expostas, chama-me atenção a proposta de
redefinição dos padrões de financiamento para alcançar 10% de investimento do
PIB em educação. Trata-se de uma meta que exigirá um verdadeiro rearranjo
distributivo e cujas chances reais de ser efetuada perpassam o comprometimento
das rendas petrolíferas com o investimento público em educação. Nos termos
originais do marco regulatório da exploração dos campos do pré-sal, delimitavam-se
75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde, além de 50%
de todos os recursos do Fundo Social do pré-sal para ambos os setores. A base
legal para essa repartição de investimentos, sancionada no então Governo Dilma[2], sofreu drásticas
alterações sob o Governo Temer[3] e, na prática, tornou-se
letra morta com a Emenda Constitucional nº 95, que restringe os gastos
primários do governo federal por 20 anos e que, diga-se, teve o voto de aprovação do
deputado federal Jair Bolsonaro[4].
Diante deste contingenciamento, como o programa de Haddad focaliza
a educação infantil e o ensino fundamental? Na primeira, em consonância com a
educação integral, estabelece-se a expansão “com qualidade” das vagas em
creches e o fortalecimento das políticas voltadas para a pré-escola. No
segundo, são previstos ajustes na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em
contraponto a “imposições obscurantistas” - uma menção indireta a projetos
de lei inconstitucionais sob o rótulo "Escola sem partido" -,
assim como uma “forte política nacional de alfabetização” que confira
tratamento qualificado às especificidades locais dos educandos. Para o ensino
fundamental, também são previstas medidas de valorização e formação
profissional dos professores e professoras a partir do fortalecimento do
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Por seu
intermédio, estudantes universitários de Pedagogia e de Licenciatura atuarão
nas escolas públicas em sinergia com a tentativa de promover um salto
qualitativo no processo de alfabetização das crianças.
Como o programa de Jair Bolsonaro (PSL)[5] delineia esses dois
segmentos da política educacional? A primeira menção a essa política é feita na
seção “Linhas de ação” na forma de um binômio Saúde/Educação:
Saúde e Educação:
eficiência, gestão e respeito com a vida das pessoas. Melhorar a saúde e dar um
salto de qualidade na educação com ênfase na infantil, básica e técnica, sem
doutrinar.
Na última oração – “sem doutrinar” – evidencia-se uma percepção do
processo de ensino-aprendizagem que é, no mínimo, ilógica. Ora, a socialização
escolar não se resume à transmissão de conhecimentos de ordem cognitiva, ainda
que os seus agentes estivessem deliberadamente comprometidos com a
exclusividade dessa função social da escola. Qualquer profissional de educação
sabe melhor do que ninguém que há uma tensão permanente entre as famílias e a
escola no tocante à expectativa de aquisição de comportamentos e declará-la
extinta seria o mesmo que, digamos, revogar as leis da física
newtoniana...
Adiante, postula-se a tese de que “gastamos como os melhores” e
“educamos como os piores”, aludindo à posição do país no Programa Internacional
de Avaliação de Estudantes (PISA). De fato, nosso desempenho educacional
encontra-se aquém do desejável. Os resultados colhidos através do PISA em 2015[6] sinalizam que os alunos
brasileiros tiveram um desempenho abaixo da média dos alunos nos países da
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Naquele ano,
obtivemos em ciências 401 pontos, enquanto a média dos demais países ficou em
torno de 493 pontos; em leitura 407 pontos, em comparação à média de 493
pontos; e em matemática 377 pontos, comparados à média de 490 pontos.
Diante das severas insuficiências na aprendizagem escolar,
lança-se um prognóstico que, à primeira vista, parece auspicioso: inverter as
prioridades, concentrando, pois, esforços na educação infantil, fundamental e
média. Qual diagnóstico lhe serve de base? Mudar (sem precisar como) a Base
Nacional Curricular Comum (BNCC), eliminar a “aprovação automática” e expurgar
a “ideologia de Paulo Freire” no processo de alfabetização. Uma vez mais,
vaticina que um dos maiores entraves no setor é a “forte doutrinação”.
Desnecessário dizer que tal afirmação vai de encontro ao que pedagogos e demais especialistas em diferentes latitudes do globo pensam. Basta lembrar que a Organização das Nações Unidas (ONU) ratifica o reconhecimento de Paulo Freire
como patrono na educação brasileira. Mas não nos distraíamos com bobagens.
Fixemos o olhar em uma proposição sui generis contida em seu
programa:
Educação à distância:
deveria ser vista como um importante instrumento e não vetada de forma
dogmática. Deve ser considerada como alternativa para as áreas rurais onde as
grandes distâncias dificultam ou impedem aulas presenciais.
Eis uma resolução que, em sendo implementada, tornaria o Estado e
a sociedade brasileiros divorciados daquilo que é, digamos, a quintessência do
liberalismo. Recordemos: tornar-se gente, na acepção genuinamente
liberal do termo, decorre de uma bem vinda “invasão” do Estado no reduto
familiar com vistas a incorporar seus membros em um processo
de cidadanização. Seu instrumento por excelência é a escola
pública, universal e gratuita que, mesmo sem deixar de aclimatar-se às
peculiaridades regionais, tem de promover a participação integral dos indivíduos na socialização de conhecimentos e comportamentos que seja
a um só tempo causa e efeito de uma nação que se possa chamar de conclusa.
Aqui, sequer podemos dizer que se adota uma concepção de justiça social afeita
à liberdade natural, pois, como vimos, mesmo nesta versão
minimalista do liberalismo social, é pressuposta a formação escolar em
condições equitativas para que um indivíduo adulto tenha sido capacitado a
empreender a si mesmo em uma economia competitiva de mercado.
Pasmem, qual o sentido de uma criança de uma família pobre do
semiárido nordestino ou do Alto Amazonas ter acesso a um conteúdo didático por
meios audiovisuais sem estar integrada à sala de aula? As famílias das áreas
pouco acessíveis deveriam suportar em seus próprios ombros a socialização dos
custos da integração nacional sem uma presença robusta do Estado na
educação básica? Seria razoável negar a uma criança as virtualidades do saber
não instituído que apenas a convivência em uma comunidade escolar mais ampla do
que suas relações familiares podem assegurar? Contar-se-iam com pais e/ou
responsáveis aptos a dirigir os estudos à distância das crianças sob sua
guarda?
A pertinência de tais perguntas ante os desafios que a “educação
2.0” está a exigir em uma sociedade complexa como a brasileira, atravessada
pelas iniquidades de uma elevada desigualdade socioeconômica entre classes
sociais, confirma a olhos vistos o quão iliberal é
Bolsonaro em seu programa de governo. Os fantasmas alimentados em torno do
comunismo não passam de um véu para as fragilidades de uma agenda
educacional que carece de um plano de ação que encadeie objetivos e metas.
Conclusão: no programa de governo de Haddad, prevalece uma
concepção de justiça social subjacente à igualdade liberal de
oportunidades, na medida em que preconiza uma alocação redistributiva
de recursos que gere oportunidades educacionais para segmentos da população em
relativa desvantagem sem, necessariamente, sacrificar o estilo universalista da sua política social. Já no programa de Bolsonaro, predomina uma perspectiva da
educação que, a considerar a recorrência das falácias em torno do “perigo
vermelho”, acaba por traduzi-la em um problema moral sem outra fundamentação
senão os velhos preconceitos de uma caserna militar que carece de luz e
oxigênio.
Por fim, é bom lembrar: um governo estadual ousou recentemente
navegar contra a maré montante do neoliberalismo no país. Trata-se do governo
do Maranhão[7],
que incluiu em sua carta náutica uma medida de recomposição salarial na
educação básica que propiciou um novo piso remuneratório a servidores efetivos e
contratados, comprometendo 115 milhões na sua folha de pagamento. Um professor
iniciando a carreira no Maranhão com jornada semanal de 40 horas terá
remuneração de R$ 5.750,83. Já o que inicia com jornada de 20 horas, receberá
R$ 2.875,41. De longe, a melhor remuneração para a docência nos níveis
fundamental e médio dentre os estados da federação, efetuada no governo de um
comunista, Flávio Dino (PCdoB). Surpreendente? Nem tanto.
[2] http://www.brasil.gov.br/governo/2013/09/sancionada-lei-que-destina-royalties-do-petroleo-para-saude-e-educacao
[3]
https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2016/10/partidos-que-hoje-querem-mudar-regras-do-pre-sal-se-posicionaram-de-forma-diferente-anos-atras-6194.html
[4]
http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/10/saiba-como-cada-deputado-votou-em-relacao-pec-do-teto-de-gastos.html
[7]
https://www.cpp.org.br/informacao/noticias/item/10576-com-reajuste-maranhao-pagara-mais-alto-salario-de-professor
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
IFF em defesa do Estado Democrático de Direito
Em defesa da autonomia universitária, reproduzimos abaixo nota do CONSUP/IFF:
O Conselho Superior do IFFluminense, diante de questionamentos e denuncismos vazios que vem ocorrendo nos campi do instituto, divulga um manifesto em defesa da liberdade de expressão. Leia o texto na íntegra clicando na imagem abaixo:
Fonte: IFF.
Acesso: http://portal1.iff.edu.br/reitoria/noticias/conselho-superior-divulga-manifesto
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Quem pragueja contra o comunismo sabe o que é liberalismo? (parte 2)
Quem pragueja contra o comunismo sabe o que é
liberalismo? (parte 2)
Por Paulo Sérgio Ribeiro
Traçados os pressupostos para a questão educacional
(ver parte 1), definamos os pontos de referência na tradição liberal que
facilitarão uma abordagem comparativa dos programas de governo de Fernando
Haddad e Jair Bolsonaro. Para interligá-los, é fortuito indagarmos como
uma visão de mundo igualitária pode ou não se concretizar em uma sociedade nacional.
Segundo Álvaro de Vita[1], ninguém melhor do que
John Ralws sistematizou teoricamente a defesa do igual valor dignitário dos
indivíduos sem, contudo, abrir mão das premissas liberais da ideia de autonomia
que a modernidade nos legou. Seguindo os passos da “justiça rawlsiana”, Vita
elenca três tipos de bens que devem ser considerados no tocante à gestão dos
conflitos distributivos:
- Renda, riqueza, acesso a oportunidades
educacionais e ocupacionais, provisão de serviços (bens passíveis de
distribuição);
- Conhecimento e auto-respeito (bens não passíveis
de serem distribuídos diretamente, mas que são afetados pelo modo como os
primeiros são distribuídos);
- Capacidades físicas e mentais de uma pessoa (bens
cuja distribuição em dada população não são condicionados pela distribuição de
outros bens).
O primeiro e segundo tipos constituem os "bens
primários", que, embora vinculem a todos pelo valor intrínseco que
possuem, são afetados por contingências naturais e sociais que impedem ou, ao
menos, dificultam os indivíduos retirarem deles um benefício mútuo. Sendo assim, como assegurar a cooperação social entre os mais e
menos dotados de recursos escassos de todo tipo? Para Vita, o enfoque
liberal-igualitário de Ralws vislumbra três princípios distintos para a
distribuição de benefícios sociais e econômicos.
O primeiro deles seria a liberdade natural,
do qual se extrai a visão política mais aproximada do liberalismo econômico,
uma vez que esse princípio sugere a combinação de ordem social competitiva com igualdade
formal de oportunidades como condição suficiente para garantir a todos os
mesmos direitos de acesso às melhores posições sociais. Nesta versão do
liberalismo, tão decantada no senso comum pela ideologia da mérito, não se
ofereceria, na prática, uma solução a contento para as desigualdades raciais,
de gênero e étnicas que as relações de mercado acomodam em contrariedade àquilo
que prometem: a inexistência de barreiras legais para o exercício dos próprios
talentos e capacidades sob o veredicto escolar.
A tentativa de superar um padrão de desigualdade
atribuível a fatores naturais e sociais que estão fora do alcance da escolha
individual e que, portanto, tende a se perpetuar de modo arbitrário, redundou
no segundo princípio, a igualdade liberal de oportunidades. Nesta
forma de igualação, tenta-se viabilizar um ponto de partida em que não haja
constrangimentos externos à vontade dos indivíduos que tenham destrezas
semelhantes, bem como motivação para realizá-las conforme suas predileções.
Para tanto, todo um complexo institucional haveria de ser erguido em torno da
efetiva igualdade de status de cidadania, liberando assim os
indivíduos de contingências (lugar de origem, caracteres raciais adscritos,
entre outras) que limitassem suas perspectivas de realização pessoal. Aqui,
importa reconhecer que a estratificação social não deveria ser a medida de
todas coisas para o senso de pertencimento dos indivíduos a uma civilização que
seria em si mesma um bem comum.
Não obstante, um ponto de
partida desigual será assumido in totum se aceitarmos que o horizonte histórico não transcenderá, até prova em contrário, a
sociedade de classes capitalista. No primeiro princípio (liberdade natural), não se daria margem
alguma a ponderações desse tipo. Já no segundo (igualdade liberal de oportunidades), esse condicionante estrutural
apareceria de maneira subliminar como um problema. A desigualdade de classe se
mantem na medida em que recursos intangíveis (background familiar, capital cultural)
são transmissíveis de geração a geração sob um verniz meritocrático que
ocultaria a falta de contrapartida aos desprovidos de vantagens sociais
herdadas, condenando-os, pois, à condição de (sub)cidadãos.
Frente ao caráter inconcluso daquele problema, vem
à tona um terceiro princípio, a igualdade democrática. Aqui
encontramos uma espécie de especulação sobre a motivação moral de um indivíduo para que um
novo padrão distributivo tenha eficácia. Ora, testar o seu próprio
desempenho para fins de classificação em carreiras profissionais privilegiadas e, sobretudo, instrumentalizar-se para tal são
disposições de agir específicas, isto é, implicam uma socialização de certas
atitudes de classe que, digamos, faça com que as (auto)profecias se realizem.
Se não escolho livremente os dotes genéticos nem a circunstância social que me
facultam desenvolver talentos naturais suscetíveis de serem mais
valorizados do que outros em um dado arranjo socioeconômico, por que seria legítimo supor que poucos devam obter a maior parte dos frutos da cooperação social? Vita lembra que essa
arguição na obra de Ralws é controversa, já que lançaria um ataque frontal à
“cidadela última para onde políticos e economistas conservadores recuam quando
querem justificar as desigualdades sociais existentes”. O igual valor
dignitário dos indivíduos não encontraria rival à altura se a fraternidade
fosse, de fato, o ponto médio de um pêndulo que oscilasse entre as
aspirações à liberdade e à igualdade:
O
princípio de igualdade democrática requer que os mais privilegiados abram mão
de tirar proveito das circunstâncias sociais e naturais que os beneficiam, a
não ser quando fazê-lo beneficia também os que têm o menor quinhão de bens
primários (VITA, 1999, p.48).
Revistas essas concepções normativas de justiça
social em seu sentido amplo, passaremos à leitura dos programas de governo na terceira e última parte desse
texto (a publicar). Inicialmente, cogitei avaliá-los já nesta
segunda parte, porém creio não ser construtivo fatigá-los com um
texto demasiado extenso. Adianto apenas que o recorte que
farei das agendas educacionais propostas por Haddad e Bolsonaro privilegiará as
ações voltadas ao ensino pré-escolar e fundamental, por entender que esse período da
aprendizagem é crucial para ampliar as possibilidades de superação das
desigualdades frente à cultura.
[1]
Vita, Álvaro de. Uma concepção
liberal-igualitária de justiça distributiva. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, Fev. 1999, vol. 14, nº 39, p.41-59. ISSN 0102-6909
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