domingo, 22 de novembro de 2020

Derrotar Crivella para destronar o falso messias

Fonte: Agência O Globo (aqui).

Derrotar Crivella para destronar o falso messias*


Fabio Py

 

* Publicado originalmente em Mídia Nínja (aqui).

 

Crivella, a face política Universal

 

Estamos no período eleitoral e, no Rio de Janeiro, um personagem se vinculou diretamente ao presidente Jair Messias Bolsonaro durante a campanha: o candidato à reeleição e “bispo licenciado” da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella (Republicanos). Crivella é sobrinho do dono da Universal e do Sistema Record de Comunicação, o bispo Macedo. Mesmo que por momentos negue, sua figura política está diretamente relacionada ao título “bispo” da Universal. Para se livrar um pouco do tom religioso, nos últimos anos ele passou a fazer uso do termo “bispo licenciado”. Com ele, sinaliza que está afastado das atribuições integrais do bispado, não recebendo o salário, nem tão pouco exercendo liderança de templo ou cuidando de região eclesiástica.

 

Contra ele, no meio teológico, existe um chavão: “pastor sempre será pastor onde quer que esteja”. Logo, se segue o mesmo raciocínio: se ele é bispo onde quer que esteja, sempre será bispo – mesmo licenciado das funções oficiais. Mesmo na condição de licenciado, não deixa de ter aura sacerdotal seja quando pisa em um espaço sagrado, seja quando faz orações, seja num lugar comum. Leonardo Boff escreve sobre o bispado na Igreja Católica, que de alguma forma se relaciona às estruturas evangélicas: “o bispado é o acúmulo de bens materiais (ornamentos, veste, acesso às pessoas e à estrutura) e bens imateriais (devoção, emoções, carismas e amores) próximo ao ápice na direção de Pedro, monarca cristão”. Também, nas estruturas evangélicas, é uma função maior, de organização de pastores, missionários, evangelistas, pregadores, obreiros. Por isso, se diz que na hierarquia da Universal, Crivella está no topo. Ele está a um passo do papa… Nesse caso, o bispo e tio Edir Macedo.

 

O que se está dizendo é que o cargo de bispo oferece grande peso simbólico/afetivo sobre qualquer pessoa. Na Universal, “o pastorado é ocupado por alguém separado por Deus para uma comunidade e o missionário por alguém que atina em Deus alguma missão em locais distantes ou desafiadores”, o bispado tem seu “carisma relacionado ao cuidado de pastores e pastoras e conjunto de igrejas da região”. E, tal como na Igreja Católica, o bispado é uma função institucional. Por isso, quando Crivella se designa (ou é designado) “bispo” na arena política demonstra que a estrutura da Universal o apoia.

 

Ai está o perigo!

 

A simbiose Crivella-Universal

 

Antes, gostaria de sinalizar que a questão não é tanto a de ser evangélico, católico, espírita ou qualquer tradição religiosa a ocupar cargo político. Não é essa a questão. Mas o perigo se coloca quando algum religioso se mobiliza politicamente junto a uma grande corporação. Nisso, Crivella, o bispo Universal, sempre foi exemplo de conexão. Sua figura pública é a mais pura simbiose grandes igrejas cristãs e o pior da política partidária.

 

O preço “cobrado” pelas instituições religiosas (como a Universal) do apoio político sempre foi muito alto. Crivella sempre pagou o preço, defendendo o setor evangélico fundamentalista e, mais ainda, defendendo como suas as causas da Universal. Por exemplo, em 2007, quando era senador e deu entrada no Dia Nacional da Marcha pra Jesus (projeto de Lei n.376). Assim, permitiu-se verba pública para a maior celebração evangélica do país, sendo a Universal uma das suas propositoras. Em julho de 2018, realçando seu compromisso contra o diálogo inter-religioso e contra as tradições afro-diaspóricas, vetou o projeto de lei 346, que declarava o Quilombo da Pedro do Sal, no centro do Rio de Janeiro, como Patrimônio Cultural e Imaterial do Munícipio. Mais recentemente, em julho de 2020, em plena pandemia do Covid-19 no Brasil, sua gestão designou os tomógrafos para a Igreja Universal da Rocinha. A ação foi um escândalo, pois a comunidade tem uma UPA. A ação ocasionou uma série de mobilizações dos moradores. Eles questionavam se os tomógrafos iam atender os moradores ou apenas os fiéis da Universal.

 

A Universal e a mobilização política dos candidatos

 

Crivella não tem apenas um apoio simbólico com nome de “bispo”. Ao contrário, a Igreja Universal sempre mobilizou ações na direção de seus projetos eleitorais. Primeiro, promovendo nos últimos anos uma série de orações, jejuns, vigílias e unções no meio das liturgias de seus principais templos. Assim, publicamente reveste suas candidaturas com a aura religiosa, uma santidade política. Segundo, a instituição disponibiliza em cada região um número de adeptos para ajudar nas campanhas trabalhando na distribuição de panfletos políticos. Por exemplo, em cidades de 500 mil habitantes, como Campos dos Goytacazes, colocam mais ou menos 100 pessoas diariamente na distribuição de santinhos políticos. E, em cidades como Rio de Janeiro, estrategicamente dividem em 5 áreas, conseguindo mobilizar até 1000 pessoas atuando no corpo a corpo eleitoral com a população.

 

Mobilizam mais pessoas que qualquer partido político!

 

O laboratório das eleições de 2020 e o sonho com 2022

 

Portanto, o que foi estruturado pela Universal, nos últimos anos, é um grande maquinário eleitoral-religioso. Algo tão denso que nenhum partido político consegue mobilizar. Essa máquina, em 2016, conseguiu eleger o próprio Crivella, e, dois anos depois, consagrou a eleição de Bolsonaro, Witzel, Flavio Bolsonaro, Arolde de Oliveira e os demais políticos de extrema direita no Rio de Janeiro.

 

Assim, o desafio que está posto é de como derrotar uma estrutura eleitoral tão densa e que é a base de Crivella. Esse desafio é urgente: barrar a conexão tão direta das grandes corporações cristãs com o poder estatal. É imprescindível, em nome da democracia, que desarme a relação umbilical das grandes igrejas e as políticas de estado que as beneficiam. É fundamental que se supere essa densa fracção fundamentalista evangélica transformada em Estado, beneficiando cristãos em detrimento das demais camadas religiosas do município.

 

Eles são uma pedra no caminho da democracia. Quando uma tradição religiosa toma conta da arena pública, há o risco da construção de um sistema de ódio e desprezo contra as demais tradições religiosas. Essa política de morte em nome de deus tem um nome: teocracia – o regime máximo totalitário-religioso. Assim, espera-se que a mobilização na disputa eleitoral contra o fundamentalismo das grandes corporações evangélicas implicadas na arena pública (identificadas na figura de Crivella) seja um grande laboratório das lutas político-eleitorais em prol da amplificação da democracia, das lutas pela defesa das pluralidades e das liberdades religiosas.

 

Que elas nos ajudem a organizar as forças para derrotar futuramente o mal do bolsonarismo fascista, que tem na cidade do Rio de Janeiro a face do bispo Crivella, negacionista, anti-ciência, genocida e autoritário.

 

Assim, o primeiro desafio está posto: derrotar Crivella. Para depois destronar o eugenista-mor, pai da mentira fingido de messias.

 

Referências bibliográficas:

 

ALMEIDA, Jhenifer.  Política e compromisso religioso: notas sobre a IURD e a atuação de cabos eleitorais a partir do PRB. Nelson Lellis e Fabio Py. (Org.). Religião e política à brasileira: ensaios, interpretações e resistência no país da política e da religião. São Paulo: Terceira Via, 2019.

 

BOFF, Leonardo. Igreja carisma e poder. São Paulo: Record, 1999.

 

EZENDE, Gabriel S. Religião, Voto e Participação Política: a vitória de Marcelo Crivella na disputa eleito-ral carioca de 2016. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do IU-PERJ/UCAM. Rio de Janeiro: IUPERJ/UCAM, 2018.

 

GRACINO Jr, Paulo & REZENDE, Gabriel. A vez dos eleitos: religião e conservadorismo nas eleições municipais do Rio de Janeiro, RBHR, v.13, n.38, 2020.

 

MARIANO, Ricardo; SCHEMBIDA, Rômulo Estevan de Oliveira. O Senador e o Bispo: Marcelo Crivella e seu Dilema Shakespeariano. Interações: Cultura e Comunidade (Faculdade Católica de Uberlândia), v. 4, 2009.

 

MATA, Sergio. Teologia de Bolsonaro. História e historiografia, v.34, n.51, 2020.

 

ORO, Ari Pedro. A Igreja Universal e a política. In: BURITY, Joanildo ; MACHADO, Maria das Dores Campos (Org.). Os votos de Deus: evangélicos, política e eleições no Brasil. Recife: Massangana, 2006.

 

VITAL DA CUNHA, Christina; LOPES, Paulo Victor Leite; LUI, Janayna. Religião e Política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll: Instituto de Estudos da Religião, 2017.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

João Alberto Silveira Freitas

Fonte: G1 (aqui).

João Alberto Silveira Freitas


Paulo Sérgio Ribeiro

Se branco fosse, vivo estaria. Simplismo? Não. Apenas uma mórbida confirmação do genocídio negro perpetrado por brasileiros(as) às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra. O fato: João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi espancado ontem, sem chance de defesa, até a morte por seguranças privados de uma corporação francesa – Carrefour – em um dos seus estabelecimentos comerciais em Porto Alegre/RS, dando um nome e um rosto ao velho “normal” descrito pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública[1]. Em sua edição mais recente (2020), tendo por referência o ano de 2019, dois dados saltam aos olhos: das vítimas de violência letal no Brasil, 74,4% atingem negros e, no tocante à vitimização decorrente de intervenções policiais, 79,1% lhes acomete[2].

Ante a constância da vulnerabilidade social de homens e mulheres negros(as) à violência em suas múltiplas manifestações racistas, temos de indagar sobre as razões possíveis da arbitrariedade sobre os seus corpos aqui e alhures. Em “Contra-história do liberalismo”[3], Domenico Losurdo sugere apontamentos tão perturbadores quanto as imagens do brutal assassinato do senhor João Alberto.

Ao focalizar a construção do pensamento liberal nos dois lados do Atlântico a separar o império inglês de suas colônias no hemisfério norte até o século XVIII, Losurdo revela em detalhe as incongruências de uma visão de mundo que encontraria na escravidão racial seu anteparo em um emergente capitalismo cuja lógica desumanizante não daria margem a veleidades iluministas.

Losurdo é incisivo: o que é o liberalismo? A resposta, feita com suficiente fôlego empírico em sua obra, poderia assim ser contextualizada: filósofos, como John Locke entre tantos outros expoentes daquela tradição de pensamento, que elegeram a liberdade como o alfa e o ômega de um concepção de boa vida, justificariam o poder absoluto sobre homens e mulheres tornados bens semoventes sob o escravismo colonial como prova de coerência de sua luta contra qualquer poder despótico que interviesse na propriedade privada entendida como um direito natural. Tratar-se-ia, em sua forma e conteúdo, de assegurar vida longa ao mito fundador de uma sociedade nacional politicamente emancipada (EUA), mas comprometida (eternamente?) com o seu complexo de colono:


Se a honra da metrópole como lugar privilegiado da liberdade estava salva, não obstante a permanência da escravidão na sua extrema periferia, para os colonos, essa visão cometia o erro de confundir e assimilar ingleses livres, escória carcerária e povos de cor.

[...]

Independentemente até do problema da representação, a delimitação espacial da comunidade dos livres é percebida como uma exclusão intolerável. Por outro lado os colonos, ao reivindicar a igualdade com a classe dominante inglesa, aprofundam o abismo que os separa dos negros e dos peles-vermelhas. Se em Londres se faz a distinção entre a área da civilização e a área da barbárie, entre o espaço sagrado e o profano, contrapondo em primeiro lugar a metrópole às colônias, os colonos americanos são levados por sua vez a localizar a linha de separação em primeiro lugar no pertencimento étnico e na cor da pele: em base ao Naturalization Act de 1790, só os brancos podem ser tornar cidadãos dos Estados Unidos[4].


EUA e Brasil diferem quanto às vicissitudes do seu racismo institucionalizado, mas olhar para a contradição insolúvel do ideário de liberdade que caracteriza a autoconsciência dos(as) estadunidenses e o preço de levá-la adiante, caso não subestimemos o movimento “Black Lives Matter” detonado pelo assassinato igualmente brutal de um homem negro – George Floyd – por agentes policiais, coloca-nos diante do nosso próprio complexo de colono. Ora, não estaríamos diante dos impasses trágicos da delimitação, por exclusão, de uma “comunidade dos livres” entre nós?

O senhor João Alberto ousou ser livre ao acessar as dependências de um hipermercado e delas foi expulso como um corpo sem vida por dois homens brancos, agentes de segurança privada, sendo um deles também policial militar[5]. Excelsa realização de nossa subcidadania: Mercado e Estado personificados como uma só força contra alguém que não seja legatário de uma ordem capitalista cuja estrutura de poder se edifica sobre as bases duradouras do colonialismo.

O que advirá do holocausto negro testemunhado na capital gaúcha retirará o véu de nossas iniquidades neste 20 de novembro? Haverá sublevações populares como as que se seguiram à morte de George Floyd nos EUA? Não levanto tais questionamentos me fazendo incendiário. Só desconfio que, se sobrevierem atos de revolta antirracista como uma onda crescente nas ruas de nosso(?) país, apelar à ordem dirá muito sobre o lugar de fala e o lugar de escuta de cada um(a).



[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2020). Acesso em 20/11/2020. Disponível (aqui).

[2] Idem, p. 12.

[3] CF. LOSURDO, Domenico. Contra-história do liberalismo. São Paulo: Editora Ideias & Letras, 2006.

[4] Op. cit., pp. 61-62.

[5] G1. “Era esperto, brincalhão”, diz amigo de infância sobre homem negro morto espancado em supermercado no RS. Edição de 20/11/2020. Disponível (aqui). 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Jovens evangélicos de esquerda: potência de novos rostos da política brasileira

                                                                                                                                                                                                                                                  Fonte: Mídia Ninja (aqui).


Jovens evangélicos de esquerda: potência de novos rostos da política brasileira*

 

Eis que faço uma coisa nova;
agora está saindo à luz;
porventura não a percebeis?
Isaías 43, 19

 

Fábio Py

 

* Publicado originalmente em Mídia Ninja (aqui).

 

A população brasileira tem aproximadamente 210 milhões de pessoas, dessas, se estima, que em 2020, existam 65,4 milhões de evangélicos, segundo Instituto Datafolha. Logo, o país tem 31% de evangélicos, sendo o setor religioso em maior expansão nas últimas décadas. Por conta da ascensão populacional, existe um somatório de impressões sobre o setor. Muitas delas causadas pela força midiática das igrejas de grandes figurões televangelistas, como a Igreja Universal do Reino de Deus, a IURD, do magnata Edir Macedo, a Igreja Mundial do Poder de Deus, de outro magnata, Valdemiro Santiago, ou então, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (a ADVEC) do estridente milionário Silas Malafaia. Na verdade, os evangélicos hoje pagam pela impressão de serem meros súditos dessas figuras emblemáticas, como se essas grandes estruturas fossem as majoritárias ou se seus fiéis fossem simples massa de manobra hipnotizadas dos pastores. Contudo, na prática, se sabe que a maior igreja do setor é a Assembleia de Deus, seguida pelas Igrejas Batistas, ambas igrejas muito comunitárias, pouco centralizadas, que nutrem baixas pretensão em termos políticos.


A suposta falta de autonomia e criticidade dos 65,4 milhões de evangélicos é algo a ser refutado, até porque, por trás dela se encontra uma intensa malha do racismo à brasileira. Sim, existe uma noção, que paira a partir do senso comum, de que o sujeito evangélico não seria dotado de pensamento, de racionalidade, de agência. Essa especulação está relacionada à outra concepção preconceituosa, a de que pobres (que formam a maioria dos evangélicos) têm pouca formação crítica. Essa linha tem forte conexão com o pensamento acadêmico e elitista nas grandes metrópoles brasileiras que defende que religiosos não exercem o pensamento crítico, muito menos, os religiosos das camadas populares. Assim, o imaginário coletivo é que os “crentes” seriam os pobres, os periféricos (as) e pretos (as), dotados de pouca inteligência. Um cinturão de pessoas desmioladas, simples manobra de suas lideranças. Logo, não existiriam evangélicos fora do espectro do conservadorismo das direitas.


Esse desenho não passa de uma caricatura mal pintada sobre o setor, e para tensionar esse conjunto de impressões e de falácias preconceituosas e racistas, apresento quatro candidaturas evangélicas em São Paulo e no Rio de Janeiro, de homens e mulheres que se configuram no viés mais crítico das esquerdas. Eles e elas, que são jovens lideranças, mobilizados quase sempre por diferentes razões do pensamento antirracista brasileiro, habitam as periferias e se alocam no fenômeno dos evangélicos progressistas. Tais jovens vêm trabalhando para denunciar pastores como Malafaia, Macedo e Feliciano, qualificando-os como “fariseus”, “falsos crentes” que vivem um cristianismo hipócrita. Ao mesmo tempo, a partir desses jovens candidatos à vereância, se coloca em perspectiva o equívoco político da generalização dos evangélicos como “conversadores”, ou de dotados de pouca crítica, ou alienados. Ao contrário, suas posturas políticas nos mostram que a sobrevivência deles e dos demais trabalhadores e trabalhadoras das periferias urbanas e a organização das igrejas dos bairros populares é algo absolutamente político. Assim, passo às quatro vozes potentes dos jovens evangélicos de esquerda, dois homens e duas mulheres, de dois partidos, o PSOL e o Rede Sustentabilidade.


1. Candidatos evangélicos progressistas de São Paulo


Apresento a primeira candidata, Keitchelle Lima, do PSOL de São Paulo, moradora de Brasilândia. Ela faz parte da Marcha das Mulheres Negras e é integrante do Educafro, ONG. Keit, como é conhecida, trabalhou em 2018, na Bancada Ativista, mandato coletivo que o partido elegeu em 2018 à Assembleia Legislativa de São Paulo. Religiosamente ela é cria da Assembleia de Deus desde o Recife, e segue frequentando até hoje em São Paulo. Sua trajetória política se inicia na escola pública, que estudava na Brasilândia, quando se “tornou ativista na luta contra desigualdade (…) se aproximando da política institucional a partir da própria Educafro, instituição que ajuda a construir há mais de dez anos”. Se filiou ao PSOL porque, segundo a candidata, é o partido que tem o projeto de cidade igualitário.


Embora, seja cria da Assembleia de Deus, não firma sua candidatura a partir disso, mas faz questão de afirmar com todas as letras a laicidade do Estado. Pela via de sua candidatura como projeto político popular, se compromete “em dialogar com as pessoas cristãs, sobre o projeto de cidade e de mundo que acredita”. Sem qualquer apoio das igrejas institucionais, busca suas bases com as pessoas da periferia que cristãos, em sua maioria. Por isso, Keit afirma a tônica plural e popular de sua candidatura “O Estado é laico, mas precisamos dialogar com ‘geral’. Precisamos dialogar com a galera evangélica (…) porque para mim, não é sobre o outro, é sobre mim, é sobre minha mãe, é sobre minha tia”.


No fim da entrevista, feita pelo aplicativo, Keit faz a provocação: “A esquerda se perdeu por falta de diálogo com as pessoas evangélicas. E eu não acredito numa política onda não há diálogo”. Assim, se política é uma arte do diálogo com todo mundo, logo, “quero saber quais as propostas das pessoas por uma cidade mais democrática, mais justa, mais inclusiva”. Por meio do diálogo a partir da periferia, se diz incomodada, como cristã, quando “alguém se diz ser seguidor de Jesus e, ao mesmo tempo, apoia leis e comportamentos que tirão a humanidade, o direito de viver plenamente de qualquer ser humano, não passa de um hipócrita”. Instiga ao dizer que “A Bíblia não é um aval pra geral destilar seu preconceito, não dá pra aceitar usarem a Bíblia como disfarce para o preconceito”.


Também de São Paulo, há outra candidatura singular do setor evangélico de esquerda, a de Vinicius Lima, integrante da Igreja Batista de Água Branca. O pastor da denominação é seu tio, Ed René Kvitz, e ele desenvolve o projeto SP-Invisível, cujo objetivo é assistir pessoas em situação de rua. Vinicius nunca teve cargo político, contudo, afirma que exercitou a política a partir da escuta. Sua escolha pela luta partidária é pelo ativismo que já exerce, e não, pela via institucional. É filiado à Rede Sustentabilidade, e fez a escolha pela legenda pela “questão do afeto, nada pragmático, pensando em cadeiras, nada”. Assume as pautas do partido como a “ideia de sustentabilidade”, pois, para ele, se conecta a “ideia de o Evangelho ser inteiro: meio ambiente, ser humano, corpo, alma, espirito, essa dignidade que tem de estar em todo ser humano”.


Vinicius entende que o “cristianismo e política se misturam não em termos de Estado. Não no sentido da Constituição e a Bíblia. Não no sentido de Igreja e Câmara Municipal. Mas, a minha fé me incentiva a servir ao próximo. E, ao cuidar do lugar que estou, ao cuidar das pessoas que vivem na cidade, principalmente as excluídas”. Segue o tom crítico às megacorporações evangélicas: “eu acredito que essa deve ser a relação de cristianismo e política: não dos festivais evangélicos que dão isenções para as igrejas, que fiscalizam o corpo das pessoas, que querem controlar seus corpos”. Sua proposta política é “pensar a cidade, para pessoas que não são considerados cidadãos – as pessoas em situação de rua. Porque a cidadania liberal-burguesa é excludente. Uma cidadania que pede CPF, para as pessoas te atenderem, poderem ter acesso a tal benefício”.


Vinicius é incisivo no questionamento sobre a postura da classe média para com a população de rua: “Como que a gente pensa políticas públicas para pessoas que nem são vistas como cidadãos?”. Logo, munido desse cristianismo integral “que pensa o homem e mulher como um todo” indica que o “O Estado vê as pessoas em situação de rua, com um problema, um problema estético. Pois existem pessoas assim em frente ao meu shopping (…) Tirem elas daqui”. Logo, firma sua campanha eleitoral nas denúncias das pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social.


2. Candidatos evangélicos progressistas do Rio de Janeiro


No Rio de Janeiro, também há dois jovens candidatos (as) evangélicos de esquerda concorrendo à vaga de vereador. A primeira é a Iza Vicente de Macaé, integrante da igreja batista, candidata à vereadora no noroeste Fluminense, pela Rede Sustentabilidade. Ela vem de uma família simples. Herdou a sensibilidade para as causas políticas da mãe: “ela tinha muita consciência política, quando a gente vivia episódios de racismo, quando questionava a qualidade dos serviços públicos nos dava noção do coletivo”. Na sua vivência evangélica, participou “muito de ações sociais, movimentos de caridade e isso acabou entrando na minha rotina, então para mim é muito normal, ir para mutirões, ações de distribuição de alimentos, minha adolescência foi muito atrelada a isso, e também, a participar de grêmio da escola”.


De acordo com Iza, a participação nas ações sociais foram uma chave, pois mostraram que existiam questões mais densas e mais estruturais do que as ações assistenciais podiam resolver. “Quem vai resolver a questão do saneamento? Quem vai resolver a questão da mobilidade urbana? Da moradia? Da educação”. Por isso, diz ela, voltou-se à política: “nós procuramos caminhos para tornar a vida das pessoas melhores, e pensar um bem comum”. Encontrou-se na Rede Sustentabilidade, pois o partido tem a figura de Marina Silva que também é cristã, preta, e faz “um trabalho exemplar de defesa do meio ambiente”.


Sua vinculação ao partido se dá pela questão do meio ambiente e do combate ao racismo. Sua atividade política se relaciona em termos práticos com ações de ONGs, em projetos da Universidade, também junto à própria igreja metodista, com seus ministérios de ação social. A atividade na igreja da Iza “sempre esteve atrelada ao serviço ao mais pobre, que é algo que faz parte da ação do cristão no mundo, se preocupar com o combate com a pobreza, só que essa preocupação pode ser também política”. Iza admite que “a religião cristã influencia muito na política, contudo, a gente pode fazer isso de uma forma muito mais qualificada, temos que saber das nossas origens, sabe que o legado da Reforma também é da separação de Igreja-Estado”.


Iza desenvolve seu raciocínio ao afirmar que “é importante conhecer nossa história para não repetir essa ordem vigente de domínio, de imposição através do Estado, da legislação, de valores que não podem ser impostos para as pessoas”. Ela defende de forma muito interessante que o debate do cristianismo e a política deve ser “qualificado”, pois se está aumentando o número de evangélicos no Brasil, “significa que vão ocupar todos os locais”. Logo, não se pode correr desse debate, e para ela, deve-se fazer isso, pela via da Reforma Protestante da afirmação da separação Igreja e Estado. Dito isso, defende que a participação evangélica na política é absolutamente legitima. Só não é legitima se “é para ser um despachante de luxo das grandes igrejas”. Nessa linha crítica da relação direta de religião e igreja, afirma que não vai “representar apenas os evangélicos, mas representar a defesa dos direitos sociais, o que também vai ser bom para os evangélicos porque em sua maioria são pobres, são mulheres, mulheres negras”.


Outro candidato evangélico de esquerda do Rio, é Wesley Teixeira, do PSOL de Duque de Caxias. Wesley tem uma trajetória política no trabalho como assessor de Flávio Serafini, Marcelo Freixo e da Monica Francisco, todos políticos do PSOL. Ele é filho de pastor da Igreja Evangélica Projeto Além do Nosso Olhar, localizada no Morro do Sapo, em Duque de Caxias. Uma comunidade de fé, que é uma das milhares dissidências da Igreja Assembleia de Deus. Sua “trajetória política inicia no movimento estudantil no grêmio do Colégio Estadual Irineu Marinho, e assim, começou a lutar pelo passe-livre e luta pela educação”. Na sua caminhada de reconhecimento político percebe que “a luta do povo periférico que trabalho é constante, logo, a luta deve ser constante em todas as épocas”. Por isso, entende que o político não é apenas exclusividade das lutas eleitorais, mas “de todo momento da existência humana”.


Suas referências na política institucional são os políticos Chico Alencar e Marcelo Freixo. Eles que são “figuras lutadoras por direitos e contra corrupção e que foram decisivos para escolha da entrada no partido na cidade”. Wesley participou também da coordenação da união de estudantes, coordenador de pré-vestibular popular, e de um jornal comunitário. Logo, tem em si uma longa trajetória de lutas mais ligada aos movimentos sociais populares da cidade de Caxias e visa “representar as centenas de trabalhadores e trabalhadoras periféricos da região”. Wesley posiciona que “a relação do cristianismo e a política, tem relação pelos seres humanos, pois todos eles são seres políticos, porque tem relação com a mediação das nossas relações”. Para ele, então o “cristianismo está dentro da experiência humana, dentro das experiências de um Deus que se fez humano (…) logo, não tem como fazer uma leitura bíblica fora da sua realidade, pois ela está dentro da história”.


Nesse sentido ao evocar o ato de historizar a experiencia da leitura bíblica busca sair dos parâmetros do fundamentalismo que tragou o seguimento evangélico. Segue dizendo que para ele o “estado é laico, não posso abrir mãos dessa defesa (…) e assim, é importante a defesa pela liberdade religiosa”. Assim, para ele “não pode ocorrer a imposição de uma fé sobre as outras, de doutrinas, dogmas, sobre o estado sobre a lei”. Mas, o cristianismo “na instancia humana, não impositiva, pode trazer a reflexão de uma busca por humanidade, valoroso para a sociedade”. Wesley tem uma trajetória junto ao movimento negro, que “passou 500 anos resistindo, nos últimos anos obteve muitas vitórias, o acesso à universidade, colocando a gente como protagonista, do debate da político”. Assim, percebe que os acessos às universidades permitiram “que não falem por nós, mas que nos mesmos possamos falar da nossa realidade. Ao mesmo tempo, nosso povo segue apartado da política tentando trabalhar, trazer comida para dentro de casa”. Nesse sentido, Wesley identifica sua candidatura aos “milhares de trabalhadores e trabalhadoras urbanos da cidade de Caxias que diariamente vão para outras partes do estado do Rio de Janeiro trazer o pão diário para sua família”.


Enfim, Wesley, como candidato cristão, reconhece a “legitimidade na fé”, inspirada no fazer político a partir da teologia negra, com figuras como James Cone, Martin Luther King, Ronilso Pacheco, Henrique Vieira, pastora Cacá e Ariovaldo Ramos. Está preocupado em compor uma “nova síntese que passe pelo povo a esquerda e o movimento negro é muito importante”. Para ele, esses envolvimentos estão, sobretudo, muito dispersos. Eles merecem ser mais relacionados traçando uma política prática de igualdade (típica das esquerdas) devem ser “melhor conectadas aos trabalhadores e trabalhadoras do Rio que são as populações pretas”.


Os corpos da síntese que já brotou


Clara Mafra, celebre antropóloga da religião, escreveu em 2011, que o “cinturão das periferias dos grandes centros urbanos do Brasil foram tomados pelos evangélicos”. Se é assim, está na nossa frente um turbilhão de dificuldades. Pois, essas periferias urbanas são formadas sobretudo pelos crentes, concebidos pela elite e mesmo pelas esquerdas, como conservadores, preconceituosos, uma versão brasileira do Talibã. Tal como foi visto, essas candidaturas de jovens mostram justamente o contrário. Mostram que estão absolutamente conectados às lutas populares que se apresentam nas suas geografias. Assim, percebo que a face evangélica é muito mais diversa, plural do que a caricatura construída pela esquerda dinossauro e/ou os acadêmicos positivistas racistas das universidades. Esses evangélicos periféricos estão despontando em candidaturas que partem de sua vivencia das Igreja contudo, não se fixam nela, não fazem sua fim. Não tem os traços dos fundamentalismos, mas sim, são sensíveis as articulações antirracistas da população periférica que sente diariamente a falta de política públicas do Estado brasileiro. Mais até: se vê hoje uma proeminência de candidaturas das mulheres pretas periféricas pois, sobretudo a vida delas, é política. São elas as que mais sofrem a chicotadas do Estado e dos patrões.


Por isso, é importante construir tais sínteses tão evocadas pelo jovem candidato Wesley. Sínteses que se unam ao movimento negro e às pautas de direitos típicas das esquerdas. Ao mesmo tempo, perceber a força das candidaturas que se colocam no diálogo com todos e todas, sem se esquecer de onde está se partindo, como a candidatura da Keit de Brasilândia. Também, numa candidatura à vereância que traga as questões dos moradores de rua, como do Vinicius e o engajamento por Direitos Humanos prol por políticas publicas como da Iza Vicente. Assim, temos novos rostos e corpos preocupados com as políticas. São evangélicos e evangélicas que querem despontar no setor fazendo oposição a Bancada Evangélica, pesado braço do fundamentalismo das megacorporações evangélicas. Nesse sentido, o que está ocorrendo é uma nova incidência política de um novo setor disposto a colocar o pé na porta e ocupar os espaços da política oficial brasileira.


Nada mais justo, pois, o setor evangélico já compõe grande parte da população economicamente ativa do Brasil, logo, esses representantes mostram mais detalhadamente as faces evangélicas, distantes dos grandes pregadores Feliciano, Malafaia e Macedo. Assim, no país, em 2020, brotam uma variedade de candidaturas jovens evangélicas engajados nas lutas tão caras ao Evangelho, de justiça, como a luta antirracista, com a ecologia e com a paridade de gênero em direta oposição ao setor evangélico mais institucional, com suas relações eletivas com as pautas de conservadoras. Essas jovens faces trazem à tona e reforçam as vinculações já existentes do setor com as lutas de promoção humana no Brasil.


Sobre isso, vale a pena lembrar de Francisco Julião, batista-presbiteriano, que lutou pela organização das ligas camponesas. Lembra-se de Gernote Kirinus, Werner Funchs, Carlos Dreher, Leonildo Gaede, Roberto Zwesth, Gunter Wolff e Milton Schwantes, todos luteranos, que ajudaram na organização dos movimentos sociais rurais como o MST. Também do potente Ronilso Pacheco, pastor batista, na luta contra a prisão racista de Rafael Braga. Vale reverenciar a trajetória de Ras André Guimares e Lis Guimares, poderoso casal metodista, que luta, a partir do Degasi, contra o pecado do racismo. Na mesma tônica no Recife, destaca-se também o trabalho fundamental da batista Vanessa Barbosa na luta contra o racismo e a violência contra as mulheres, e de Jackson Augusto, com seu canal Afrocrente, ambos pelo Movimento Negro Evangélico. E, também, não se pode deixar de falar de Nancy Cardoso Pereira, pastora metodista em incansável luta contra o latifúndio e o machismo no Brasil.


Assim, essas candidaturas só reforçam a face que sempre existiu, e que grande parte das vezes foi silenciada, a face dos evangélicos-protestantes que estão preocupados com os trabalhadores e trabalhadoras, que denunciam o racismo, lutam contra o feminicídio, contra o latifúndio. Eles e elas sobretudo representam leitura distinta do mundo cristão das grandes corporações evangélicas preocupadas com o proselitismo e seu lucro. Lutam potentemente contra as mazelas humanas causadas pelo capitalismo à brasileira e do racismo tão entranhando na colônia que se chama Brasil – que chamamos por vezes de pais.


Bibliografia:


GRABOIS, Pedro. Devir minoritário no ‘devir-evangélico’ do Brasil. UniNomade Brasil, 2018. Em: http://uninomade.net/tenda/devir-minoritario-no-devir-evangelico-do-brasil/.


MAFRA, Clara. O problema da formação do ‘cinturão pentecostal’ em uma metrópole da América do Sul. Interseções, 13, 2011, p.136-152.


PACHECO, Ronilso. Teologia negra: o sopro antirracista do espirito. Brasília: Novos Diálogos: 2019.


PY, Fábio. & PEDLOWSKI, M. A atuação de religiosos luteranos nos movimentos sociais rurais do Brasil (1975-1985), Tempo, 2018.

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sábado, 7 de novembro de 2020

Manifestação - Campos dos Goytacazes - 08/11 - 13 hs - Na rua por Mariana Ferrer



 Vamos aos fatos:

Um homem rico dopa e estupra uma menina de 21 anos, ainda virgem. 

A menina, Mari Ferrer, faz a denúncia e o exame de corpo delito. 

No exame, encontra-se o sêmen do estuprador e é detectado o hímen rompido.

Na audiência, o advogado de defesa resolve atacar e humilhar a própria vítima na frente do juiz e do promotor, que não o interrompem. 

O vídeo é uma cena de horrores, em que o advogado tenta justificar o estupro pelas fotos nas redes sociais da vítima. [O vídeo pode ser acessado pela página do theinterceptbrasil no Instagram].

O juiz decide, portanto, inventar um crime não tipificado em lei: o estupro culposo, ou seja, um estupro em que não se teria intenção de estuprar, que na prática é um estupro que não se tem intenção de punir. 

E, dessa forma, como o crime não existe, não está previsto em lei, o estuprador pôde sair livre. 

O que acontece em todas as regiões do país quando as mulheres denunciam crimes de estupro é uma revitimização pelo Estado, a medida protetiva demora a sair, o agressor permanece solto e ainda coloca em risco vida dela e dos seus filhos. 

Por isso, a luta tem que ser permanente! 

Por isso, não podemos deixar esse caso, que cria uma jurisprudência absurda, passar em branco!

No dia 08/11 (domingo), o Movimento Unificado de Mulheres convoca todAs e todOs a estarem presentes às 13h em frente ao Fórum clamando por Justiça por Mari Ferrer!


Evento no Facebook: https://fb.me/e/3aamXTLQC


#JustiçaporMariFerrer

#Estuproculposonãoexiste


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Cultura do estupro e o caso das "meninas de Guarus"?

                                                                                                            Fonte: Revista Galileu (aqui)

Cultura do estupro e o caso das "meninas de Guarus"?*

 

Publicado originalmente em Brasil de Fato (aqui).

        

Luciane Soares da Silva**

 

Em uma noite de sábado do ano de 2016, debatíamos o filme "As Sufragistas" lançado no ano anterior. No momento em que discutíamos o direito ao aborto, uma das convidadas lançou a seguinte questão: “e o caso das meninas de Guarus?". 


Minha resposta refletiu a condição de uma estrangeira que chegara em 2010 e sabia pouco sobre os fatos: “como alguém que não é de Campos dos Goytacazes (RJ), eu pergunto à essa plateia se alguém aqui presente não sabia o que acontecia, não sabia do caso dessas meninas?”.


Em 2018, conversando com uma juíza na capital, soube da complicada situação de que 17 juízes de Campos se declararam impedidos de atuar no caso. E isto revela muito sobre o judiciário brasileiro, sobre o caso Mari Ferrer, sobre o caso Robinho e seu problema com o movimento feminista. Sobre o cotidiano de violações, mortes e injustiças sofridas por mulheres no país. 


Estou trabalhando neste texto desde o início de ano. A dificuldade na finalização dele ocorre pelo conteúdo encontrado, pelo medo em relação ao que o caso explicita e principalmente, pela impunidade posta em tela com o fato de que vários envolvidos estão em liberdade a atuantes na sociedade civil local. 


Na memória da população campista, o caso mostrou exatamente a diferença entre o poder e a condição de mulheres e crianças que são objeto de cruel desumanidade de agentes públicos, comerciantes, empresários, policiais. Figuras que suspendem a lei e agem em redes de associação que não poderiam receber outra classificação que não associações criminosas. 

 

O caso

 

Em resumo, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 2009, a Polícia Civil descobriu um ponto de exploração sexual em um hotel - que funcionava na verdade como um motel. No estabelecimento eram mantidas crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos de idade. Escravizadas, viciadas e levadas ao cativeiro. Depoimentos coletados à época dão conta de dois homicídios e ocultação de cadáver. 


Essas meninas eram obrigadas a fazer uso de cocaína até que seu nariz sangrasse. Eram trancafiadas e retiradas do cárcere somente para programas em sítios, casas e hotéis da cidade. Levadas a festas com mais de 40 homens para realização de programas. Eram vigiadas por homens extremamente violentos que não teriam receio em levá-las até a morte para impor o terror. Sumir com corpos infantis não parecia um problema.


Levadas de um lado para o outro. Diariamente dopadas, desmaiadas e mesmo assim, abusadas. Seus serviços eram oferecidos nos classificados de jornais locais e contratados inclusive, por homens em passagem pela cidade. Homens com a tatuagem da família no braço. Meninas do Espírito Santo, de Minas Gerais, de Custodópolis. E “clientes” que ignoravam o inferno vivido pelo grupo de crianças residindo em uma casa com portas e janelas trancadas com cadeados.


Programas pagos de todas as formas, até com material de construção ao agenciador que seguia aumentando domínio e patrimônio. Donos de lojas e supermercados também contratavam os programas. Entravam e saíam de hotéis sem nenhum registro na portaria (ao que parece, caso necessário, telefones para programas eram fornecidos nestes estabelecimentos).

 

Investigações

 

Em 28 de agosto de 2013, a ex-vereadora Odisseia Carvalho (PT) compareceu à Câmara dos Deputados para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a apurar denúncias de turismo sexual e exploração sexual de crianças e adolescentes, presidida pela deputada Erica Kokay (PT).


A transcrição de 42 páginas apresentava o caso que ficaria conhecido nacionalmente como “Meninas de Guarus”.  A sessão tratava de acusação “acerca de denúncias que atestam duplo homicídio, utilização de drogas e, ao mesmo tempo, cárcere privado, em função de uma rede de exploração sexual que existe – ou existia – nesse município”. Na sessão ainda estavam presentes os então deputados e deputadas, Keiko Ota (PSB), Antonia Lúcia (PSC), Jean Wyllys (Psol) e a relatora, deputada Liliam Sá (PROS). 


Essa rede de pedofilia operava, por óbvio, com colaborações múltiplas para manutenção dessas meninas em situação de cárcere privado. Sequer era conhecido naquele momento o paradeiro das mesmas após uma denúncia feita ao Conselho Tutelar por uma declarante de paradeiro igualmente desconhecido. O medo da denúncia corresponde ao lugar social dos envolvidos. Policiais, políticos conhecidos, figuras públicas locais. 


Importante informar que Guarus é uma região de Campos com alta densidade populacional, onde residem negros e negras, em condições sociais populares ou na linha da pobreza. Regiões com presença de conflitos urbanos constantes motivados principalmente pelas disputas do tráfico de drogas.


Ao mesmo tempo, grande parte da força de trabalho da cidade desloca-se diariamente desses bairros para os setores mais variados, do comércio às instituições de ensino, e trabalho doméstico. Embora o caso tenha ficado conhecido como "Meninas de Guarus", também estavam envolvidas meninas de outros estados, como o Espírito Santo. 


A relatora, deputada Liliam Sá, apresentou em sessão a mesma dúvida que eu apresentaria alguns anos mais tarde naquele debate: “por que o sigilo e por que abafaram o caso dentro do município? É isso que nós queremos entender: se foi uma coisa notória, se o próprio Conselho Tutelar disse que há mais de 600 casos notificados de pedofilia no município de Campos dos Goytacazes”.


O fato é que esse acobertamento tinha base no estranho desaparecimento de registros fundamentais para investigação. E ainda em decorrência de depoimentos prestados à alguns policiais, existiriam atos de extorsão quando o nome de empresários locais começaram a aparecer. Em resumo, chantagem por um lado e ameaça de esquartejamento dos filhos, caso a quadrilha fosse denunciada, por outro. O medo é compreensível. 


Durante as investigações, o fechamento de uma casa de shows, do filho de uma importante figura pública na política local, ilustraria bem o quanto a rede era estruturada. Em documentos consultados, o local era utilizado para venda de drogas e proporcionava situações de exploração sexual. Um dos indiciados, que teria machucado gravemente uma das meninas, tinha cargo de confiança no governo municipal.


No cativeiro eram mantidas meninas e meninos. Ao voltar ao número de casos, a relatora Liliam Sá, demonstrara estarrecimento pelo fato de em uma cidade com 480 mil habitantes, existirem registros que informavam 600 casos de pedofilia. Erika Kokay observara que o desaparecimento da denunciante e de sua família, os recorrentes abusos sem efetiva resolução, mostravam os efeitos da impunidade: a naturalização do crime e o temor. 


A CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes teria vindo ao Rio de Janeiro para cobrar um posicionamento das autoridades. Pelo então prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), sequer foi recebida. As reivindicações foram apresentadas ao vice-governador. Nenhuma iniciativa concreta foi tomada. Ou seja, um delegado transferido, um Ministério Público omisso, executivo e grande parte do legislativo local acovardados (além é claro, de alguns cúmplices).


O fato de alegações chegarem a vereadores de Campos, como o publicamente citado Nelson Nahim (PSD), e parte da Câmara de Vereadores posicionar-se afirmando que as alegações não eram verdadeiras, colabora para entendermos como esta rede das “ Meninas de Guarus” entranhava-se em todos os níveis da sociedade campista. Na política, na economia, na justiça.


Em novembro de 2009 o vereador Nelson Nahim declarava publicamente que “alguém poderia estar se passando por ele”. Em dezembro de 2009 o senador e presidente da CPI da pedofilia, Magno Malta (Golpista) (PR/ES) declarava em rede nacional, no programa do Datena, que iria a Campos. Apuraria com sua vinda, a rede de pedofilia na cidade. Em 2012, o caso amargava um solene silêncio.


Em março de 2013, em decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STF), Leílson, o único preso até então, foi inocentado da acusação. Na audiência pública realizada em maio daquele ano, em Campos, com a ida de deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj) à cidade, presidida pelo então presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcelo Freixo (Psol), não havia nenhum representante do Ministério Público. O que causou estranheza aos presentes, pela gravidade do caso. 

 

Violação estrutural

 

A rede de exploração sexual tratada pela CPI na Câmara de Deputados, em 2013, ainda ressaltava o envolvimento de políticos no Amazonas e em Santa Catarina. Outras cidades, outras pessoas, as mesmas formas de exploração.


Em 2016, o STF concedeu o benefício da liberdade a seis acusados. Entre os nomes divulgados estão Gustavo Ribeiro Monteiro, Renato Pinheiro, o ex-vereador Marcos Alexandre dos Santos Ferreira e Cleber Rocha da Silva. Os internos cumpriam pena na Penitenciária Bandeira Stampa, em Bangu, no Rio.


Os casos de estupro, abuso sexual de crianças e morte de mulheres seguem como indicadores desse quadro de violação cotidiana. Em 1976, Ângela Diniz fora assassinada com 4 tiros de pistola por Doca Street em Búzios, no Rio. Ele não aceitava o fim do relacionamento que começara três meses antes. No julgamento, a defesa de Doca alegou “legítima defesa da honra”. Tese aceita para absolvição do assassino que teria “matado por amor”.


Ou seja, não é recente esta forma de tratamento do judiciário brasileiro. Esse caso é fundamental para a luta feminista no Brasil. No segundo julgamento, já em 1981, com forte atuação do movimento de mulheres e da opinião pública, Doca foi novamente a julgamento e então, condenado a 15 anos de prisão. O slogan “quem ama não mata” tornaria-se uma das principais bandeiras de luta pela vida das mulheres.


No caso Mari Ferrer é fundamental que o Brasil seja denunciado em cortes internacionais dos Direitos Humanos por graves violações já tipificadas na Constituição de 1988. 


Para concluir, essas violações são inseparáveis de um contexto de ataque a democracia. O Brasil conta com importantes documentos como a Recomendação Geral 35 sobre violência de gênero contra as mulheres do Comitê para eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher. O documento faz parte da série de tratados internacionais de Direitos Humanos. 


O trecho do julgamento no qual Mariana Ferrer é humilhada recorrentemente pelo advogado de André de Camargo Aranha explicita a prática de misoginia desferida pelo advogado criminalista catarinense Cláudio Gastão da Rosa Filho. Sua conduta deve ser apurada. 


Apoiador do atual presidente da República, o advogado acha natural que Bolsonaro nada entenda de economia. É compreensível que nesse circo dos horrores, um advogado que pouco entende de ética e um promotor que defende a tese do estupro culposo representem a forma mais bem acabada do que vivemos desde a eleição de 2018.


Fundamentar a sentença de absolvição com base no princípio in dubio pro reo (mesmo com todas as provas coletadas) é jogar a definitiva pá de cal que faltava sobre o judiciário brasileiro. Ou seja, instituir o machismo, a misoginia e a violação de mulheres como modus operandi do governo Bolsonaro.

 

** Socióloga. Professora e Pesquisadora associada à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Vice-Presidente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ADUENF).