O IPEC - antigo Ibope - mostra Lula lá na frente, ganhando folgado no primeiro turno. Está quase 30 pontos à frente de Bolsonaro. Moro, com carnaval da mídia e tudo, não chega a dois dígitos, acompanhado de perto por meio Ciro - isto é, aquele Ciro Gomes que parece condenado a fazer metade de sua votação anterior.
Para quem insiste no "antipetismo" como fator atuante na eleição presidencial, como ainda faz boa parte da mídia, está na hora de virar o disco. Lula não apenas é capaz de levar no primeiro turno como tem, também com folga, a menor taxa de rejeição entre os principais candidatos - menor até que a de nanicos como João Doria.
Os números também permitem recolocar a questão da vice. Os defensores mais argutos da chapa com Alckmin já deixaram de lado a questão do impacto eleitoral da composição. Assumem que, embora a presença de Alckmin não tire votos, já que o eleitorado do campo democrático não tem para onde correr, também não acrescenta.
A questão, dizem, é a garantia de "governabilidade" que o ex-governador acrescenta à chapa. E a questão é exatamente esta: governabilidade para quê?
Alckmin na vice é um indicativo poderoso de que Lula, novamente presidente, não afrontará os interesses dominantes no Brasil. Que aceitará os limites impostos, ainda maiores do que aqueles dos primeiros mandatos.
É a espada de Dâmocles pendente sobre a cabeça do novo governo, pronta a cair caso se dê um passo fora da linha.
Nós precisamos, porém, não de "governabilidade" em abstrato, mas de condições políticas para a transformação do país. Para mexer na política tributária, na política agrária, na mídia, militares, mercadores da fé.
Isso só se faz com ação para mudar a relação de forças, isto é, com mobilização e organização do campo popular.
Lula é um político de enorme competência, que sabe medir o pulso das conjunturas. Não adianta esperar que ele tome a iniciativa de adotar posições menos acomodatícias.
O necessário é fazer pressão.
Este foi o erro ao longo dos governos petistas - boa parte dos movimentos abriu mão de fazer pressão, julgando que seu papel era apenas defender os companheiros no poder. Mas as classes dominantes nunca param de fazer pressão, com todos os muitos meios de que dispõem.
Se a pressão vem de um lado só, é natural que obtenha êxito e empurre o governo para o conservadorismo.
Infelizmente, a postura de muitos diante da questão da vice - abster-se de tomar posição, aceitar qualquer decisão - mostra que, uma vez mais, o risco é de um governo sempre na defensiva, condenado a fazer muito pouco e sob ameaça permanente.
* James Rougeron -"Fighting Man" - 1818. Disponível em: https://www.mutualart.com/Artwork/Fighting-Men/0D93A954FA51F127, acesso em 16 de dezembro de 2021.
** Publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Luis Felipe no dia 15 de dezembro de 2021. Reproduzimos aqui com a autorização do autor.
** Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autor de "Democracia e representação: territórios em disputa" (Editora Unesp, 2014), "Dominação e resistência" (Boitempo, 2018), dentre outros. Está lançando neste final de 2021 "Democracia como emancipação" junto de Gabriel Eduardo Vitúlio pela editora Zouk.
Labaxúrias Decantarábias: Porque esse episódio
é um problema político
Esther Alferino*
**
Eis minha análise que ninguém pediu, mas vou
fazer.
Dia desses vimos Micheque, a primeira-dama,
falando em línguas estranhas e sapateando, em comemoração a nomeação de André
Mendonça para o STF.
Virou chacota e ela disse que foi vítima de
intolerância religiosa. Em um país cristão podemos falar de deboche de
manifestações extravagantes de fé cristã, mas não de intolerância religiosa
contra esse grupo. Não existe nenhuma estrutura que desfavoreça esse grupo
religioso ou a profissão de sua fé. Deboche é muito diferente de cristofobia.
Mas por que a esposa do presidente nessa cena é
um problema político?
Porque desde a campanha, o marido dessa senhora
e seus apoiadores falavam sobre um ministro "terrivelmente
evangélico", um ministro que irá herdar questões centrais para o interesse
de um grupo específico de pessoas, os evangélicos, e para a base governista.
Vai passar pelas mãos dele, por exemplo, o caso dos perfis fakes do
"gabinete de ódio" do presidente e seus filhos. Ele será o novo
relator do caso dos incêndios na Amazônia e no Pantanal. Relator da omissão do
senado em taxar grandes fortunas. E a primeira-dama, com sua oração
extravagante, sabe exatamente como ele vai se posicionar sobre esses assuntos.
Assim como ela sabe como ele vai se posicionar em relação a temas sérios sobre
os direitos das pessoas LGBT, da questão das armas e do marco temporal das
terras indígenas. Andre Mendonça terá em mãos algumas das questões
centrais para o governo do qual essa moça faz parte por casamento, por isso ela
acredita que o deus dela é deus de promessas (pra mim ele é assim, com letras
minúsculas, porque meu Deus não honra o mal) como ela menciona entre um
labaxúria e outro, porque ela realmente acredita que tem, por direito divino,
um país do jeito que ela deseja.
Rir e debochar das formas de culto alheias pode
não ser exatamente bonito, mas essa moça nos dá, todos os dias, razões pra
sentir ódio do que ela representa, e se nosso ódio vier em deboche, tudo bem.
Espero sinceramente que ele se transforme em ação política, inclusive para
aprender a dialogar com o povo do reteté, que em sua maioria está em sério
aperto e pode abandonar essa base cristofascista em tempo.
* Mestre em Sociologia Política pela
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
** Bloco de madeira do século XVII representando sonho supostamente premonitório de Frederico III da Saxônia. Dias após o sonho de Frederico III, o reformador Martinho Lutero teria apresentado suas 95 teses ao mundo. Ilustração disponível em: https://reboarts.wordpress.com/2016/10/31/fredick-iiis-dream, acesso em 10 de dez. de 2021.
Com grande satisfação que convidamos para o lançamento do livro “O Dourado e a Piabanha: impressões sobre a pesca de um eco-historiador ativista” de Arthur Soffiati.
Nesta live de lançamento teremos uma conversa animada com o autor mediada por José Colaço, antropólogo e prefaciador do livro. Esta atividade imperdível será transmitida ao vivo pelo canal do Neanf/INCT-InEAC/UFF no You Tube.
O Neanf é Núcleo de Estudos Antropológicos do Norte Fluminense Neanf/INCT-InEAC/UFF coordenado pelo Prof. José Colaço (COC e PPGJS/UFF).
Eis que Luciane Silva (UENF) apronta mais uma das suas. Ela está lançando, pela Ciclo Contínuo Editorial, o seu "Funk para além da festa - Disputas simbólicas e práticas culturais no Rio de Janeiro".
Reproduzindo uma síntese sobre o livro publicado no site da editora:
"O livro nos encoraja a apreender e questionar o baile 'além do baile', que é o cerne da abordagem da qual ele se origina. É por isso que não é, a rigor, uma etnografia do baile. O baile aparece aqui como uma situação cuja ocorrência se torna possível pela conjunção de elementos que vão além da música e da dança. À maneira da análise situacional da antropologia social britânica, Luciane nos convida a seguir e dissecar cada uma dessas dimensões que se juntam, são compostas ou se opõem para fazer o baile acontecer. Como um pano de fundo contra o qual se manifestam as batalhas, às vezes silenciadas, às vezes em choque de armas, que opõem a favela ao Estado, o batidão evoca aqueles 'tambores de aflição' ouvidos na Zâmbia por Victor Tuner, e cujo ritual marcava a angústia e revolta resultantes da presença colonial."
- Jean-François Véran - Professor adjunto de Antropologia na PPGSA do Instituto de Filoso a e Ciências Sociais da UFRJ
Aproveitando o ensejo, avisamos que neste 02/12, 19 hs, a Luciane fará live de lançamento do livro junto a ilustríssim@s convidad@s. O evento pode ser acompanhado no Youtube da editora.
Como eu mesmo já disse em outra ocasião: funkem-se!
O dia da "Consciência Negra" é um excelente motivo para lembrar não só da luta histórica do Povo Negro, mas principalmente para lembrar do Brasil!
Já se disse que "se existe uma história do Povo Negro sem o Brasil, não existe uma história do Brasil sem o Povo Negro" e essa é uma verdade irrefutável!
O nosso país foi construído, desde os primórdios da colonização, pela extrema violência exercida contra os povos originários e contra as várias etnias escravizadas na África, que para cá foram trazidas ao longo de mais de três séculos. Essa marca ninguém pode apagar de nossa história e nos atormenta negativamente até hoje!
Do mesmo modo, nessas condições malsãs, também foi se estruturando uma sociedade. Por baixo, amalgamando etnias e culturas numa síntese criativa, se estabeleceu um "povo novo", como gostava de dizer o grande Darcy Ribeiro, enriquecido ainda mais pela vinda de imigrantes pobres de todas as partes do mundo. Somos, portanto, um povo profundamente mestiço, que tem dentro de si a África, a Ásia e a Europa, e afirmar isso não significa, em nenhum sentido, deixar de reconhecer a profunda violência que nos marca desde sempre nem muito menos aceitar a ideia de uma "democracia racial". Mas apenas reiterar que essa é uma dimensão que nos engrandece e que nos honra diante do mundo.
Que a luta pela igualdade e contra todo tipo de discriminação continue a orientar os brasileiros que acreditam nesse país e reconhecem a presença negra como fundamental na formação do nosso povo!
E que sigamos com os ensinamentos do inspirado Gilberto Gil, ao proclamar que "a felicidade do negro é uma felicidade guerreira!"
Ao que se poderia acrescentar que toda felicidade só pode ser uma felicidade guerreira!
Viva o Povo Negro, viva o Brasil mestiço, viva os brasileiros de todas etnias que contribuiram para formar o nosso povo!
* Sociólogo. Doutor em Ciência Política (USP). Professor associado ao Departamento de Ciências Sociais (Área de Ciência Política) da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus Araraquara.
Eis que que
Sérgio Silva, o polímata da Unirio, coloca mais uma das suas criações no mundo.
“Irracionalismo
de conveniência: ensaio sobre a pós-verdade” nos chega pela editora curitibana
Appris e sintetiza o conjunto de inquietações teóricas e politicas do autor.
Sérgio não só revisita autores tão diferentes como Foucault ou Adorno. Bebe na
fonte destes, penso que para ganhar fôlego e fúria, e os renova para decifrar
os desafios destas inquietantes primeiras décadas do século XXI.
Para quem quiser
ter um petisco do debate, recomendo o vídeo abaixo da conversa de Sérgio com o
querido Fabrício Neves (Unb) sobre o trabalho recém-lançado:
Também abaixo
socializo o prefácio que elaborei para este livro do Sérgio. Aos navegantes
aviso que tive a honra de ter sido orientado por Sérgio em uma das minhas vidas
na UENF. Hoje eu e ele podemos dizer que somos amigos na universidade e brothers
de armas. Ou, para ser mais preciso, brothers nas artes das seis cordas.
Finalizo dizendo
que igualmente muito me honrou o convite para escrever este prefácio. Sem
dúvida minha contribuição não dá conta da complexidade e da sofisticação da
propostacorajosa de Sérgio. Mas,
funciona como um convite para o leitor fazer o mergulho neste lançamento.
Boa leitura!
PS: O livro pode ser encontrado nas boas casas do ramo.. e, evidentemente, no site da editora Appris: https://www.editoraappris.com.br/
Das conveniências do irracionalismo - Prefácio
de “O irracionalismo de conveniência: ensaio sobre a pós-verdade, fake News e a
psicopolítica do fascismo digital” de Sérgio Pereira da Silva. Editora Appris,
Curitiba, 2021
George Gomes Coutinho
A crise do setor financeiro e imobiliário em 2008 nos EUA. A conformação
das novas e perversas dinâmicas do sistema internacional. A ascensão e
previsível queda da Terceira Via inventada, recauchutada, testada e torpedeada
por seu perfil conciliatório e pusilânime com as estruturas sociais brutais do
mundo pós-fordista. A persistência da pauperização, da precarização do mundo do
trabalho, das promessas não cumpridas e tampouco remotamente entregues no mundo
do caráter corroído discutido por Richard Sennett[1]
há tempos atrás. O suposto empresário de si, o “empreendedor” envolto em
fantasias e auto-mistificações falsamente douradas, incensado a partir de nada,
frustrado, oprimido, adoecendo sistematicamente e criando índices de sofrimento
mental ainda não detectados em outros momentos históricos. A mônada com pés de
barro.
Em meio a tudo isso há ainda a pandemia de Covid-19 enquanto escrevo que
denunciou e segue denunciando em cores, áudios, movimento e índices as
diferentes faces da desigualdade em todos os aspectos por todo globo terrestre.
Esta sociedade complexa, intrigante e com traços distópicos incomoda e
pressiona por respostas. É com este momento, onde temos tudo e não temos nada
diante de nós, que Sérgio Silva e seu trabalho se defrontam. Diria que autor e
obra corajosamente se defrontam com
mais uma das grandes crises modernas nadando de peito aberto em mar revolto.
Mas, não obstante a humanidade já ter passado por momentos disruptivos e
francamente vertiginosos, Sérgio e seu livro ressaltam menos o que há de
cíclico em nossa conjuntura, o retorno da roda, e mais os elementos
particularmente trágicos que singularizam o que vivemos. Trata-se de um trabalho de diagnóstico do tempo presente.
Antes de prosseguir penso ser relevante fazer um paralelo com um autor
que se apresenta como alma gêmea e, não obstante a sua ausência no trabalho de
Sérgio, apresentou um opúsculo em 2009 que se coloca em comunicação tão íntima
com a proposta deste livro que podemos dizer que ambos funcionam como vasos
comunicantes. Falo do crítico cultural Mark Fisher (1968-2017) e seu Realismo Capitalista[2].
Sérgio Luiz Silva e Mark Fisher são teóricos críticos em estilo livre[3].
Fisher assinalava com alguma ironia, por vezes sarcasmo e muita indignação o
cenário de terra arrasada do mundo
pós-neoliberal, tudo isso em uma narrativa que vai da cultura erudita ao pop na
velocidade da luz. O ocidente após Thatcher, Reagan, Consenso de Washington e
afins não enveredou acriticamente somente em fórmulas austericidas que
redundaram em índices assassinos de concentração de riqueza. Esta sociedade que
vivemos hoje e que não nasceu ontem, sendo tudo engendrado nas últimas décadas
na verdade, contaminou algo além da imaginação de editoralistas da mídia convencional,
policy makers e agentes coletivos ou
individuais do setor financeiro. Fisher
denunciava nada menos que subjetividade humana mutilada, decepada pela
violência simbólica de slogans como “there´s
no alternative” tal como triunfante já bradou o thatcherismo. Tanto se fez,
tanto se repetiu que não há nada além de capitalismo (e desta modalidade
específica de capitalismo), que o homem comum assim olhou diante de si um
abismo que fornece um presente eternamente cinzento e bárbaro. Um Dia da
Marmota sem final feliz. E, como
sabemos, no risco de flertar em demasia com o abismo o observador pode ser
engolido confundindo-se simbioticamente com a escuridão.
Neste cenário em que o arbítrio se coloca como relação necessária e o interessemal compreendido impõe uma ontologia postiça é que se apresentam os
sintomas discutidos por Sérgio em nossa contemporaneidade. Pós-verdade, fake
news, barbarização da opinião pública, autoritarismo, reedição do fascismo em
versão atualizada 2.0 e necropolítica. Em meio a tudo isso um capitalismo mais
do que anti-iluminista que se apresenta até mesmo com traços pós-humanos. Pulsão
de morte em ritmo de videoclipe.
As consequências desta sociedade não redundaram somente em indivíduos
dopados em um ciclo de consumo dia após dia de sujeitos aprisionados na
maldição da obsolescência programada. O projeto é de uma sociedade de tiranos e
narcisicamente orientada. Algo que a filosofia política há poucos séculos atrás
chamaria simplesmente pelo nome de guerra
de todos contra todos. Minha base humanista não vê a menor chance de isso
render bons frutos. E não tem dado.
Desta franca deterioração situada além dos limites da opinião pública,
que redundou na ressurgência dos projetos autoritários em diferentes graus e vitoriosos
nos processos de concorrência eleitoral, é difícil não reconhecer que ambos os
lados do espectro político contribuíram de maneira direta ou indireta. Nos
governos no flanco esquerdo, para além de abraçarem sem maiores questionamentos
o receituário fiscal, há aquela
arrogância costumeira. Oras, aos campeões morais o sucesso é inevitável! No
lado direito, compartilhando a mesma cartilha de políticas públicas fornecida
pelo ultraliberalismo, a insuficiência de enfrentarem de maneira honesta seus
próprios demônios. Entre progressistas e conservadores, em uníssimo, a falta de
imaginação política e de compreensão das experiências do século XX e das
demandas do século XXI. Neste ínterim, segue o mundo concreto desabando na
cabeça de milhões de pessoas que não sonhavam e não imaginavam mais qualquer
outro tipo de futuro. Eis o cenário onde grassa o chorume analisado neste
trabalho.
Sérgio compreendeu o caráter multivariado das patologias do nosso tempo. Se
armou com as armas de uma teoria crítica renovada que não abre mão da tradição
do materialismo multidisciplinar. Desejo e necessidade são olhados com lupa em
suas contradições, complementariedades e dinâmica. Teoria social, psicanálise,
sociologia e epistemologia são ferramentas habilmente combinadas. Como se não
bastasse ainda há Habermas, Foucault, Adorno, Elias, dentre outros, que são
mobilizados criativamente em novas sínteses arriscadas e que, por vezes, podem
fazer com que ortodoxos de diferentes matizes sintam certo desconforto. Mas,
pouco importa. O objeto em sua complexidade se coloca em posição de prioridade
analítica e as ousadias teóricas se justificam mais do que qualquer outra
coisa. Importa é compreender em minúcias o inferno semiótico em que estamos.
O livro de Sérgio é critica e compreensão.
Fornece um quadro interpretativo poderoso para compreendermos como a opinião
pública se tornou o ringue de vale tudo que conhecemos. E há, também, em meio
aos meandros argumentativos e analíticos que explicam o fascismo nosso de cada dia, espaço para uma esperança rebelde e
sutilmente subversiva. A utopia de Sérgio envolve a aposta em uma terapêutica
do diálogo como cura para a barbárie. Uma
atuação voltada interativamente para o entendimento, um uso da razão em uma
plenitude expressiva muito além do embotamento coisificado fornecido pela
sociedade dos cliques de curtir/descurtir. A utopia de Sérgio é pulsão de vida.
É interesse bem compreendido embebido do que há de melhor na tradição
iluminista com a qual Sérgio se agarra angustiado.
Por fim, tal como o título denuncia, temos sim um Irracionalismo de conveniência cinicamente mobilizado como resposta
aos afetos, frustrações e desalentos do horizonte árido dado pelo realismo
capitalista. Mas, o trabalho do Sérgio apresenta, na verdade, todas as inconveniências deste irracionalismo. O
preço a ser pago pelo uso de tal playbook
pode ser alto demais, insuportável eu diria. A questão é que temos tempo ainda
de evitarmos um ponto de não retorno. E este livro dá, nas brechas, algumas
possibilidades enquanto nos explica o funcionamento da hidra.
Campos
dos Goytacazes, 13 de maio de 2021.
Referências
BERMAN,
Marshall. Tudo o que é sólido desmancha
no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
FISHER, Mark. Capitalism realism: is there no alternative?
London: Zero Books, 2009.
HOLLERAN, Max.
Marshall Berman´s freestyle marxismo. In: New
Republic. New York City, New Republic, n. 14, abr. 2017.
SENNETT,
Richard. A corrosão do caráter:
consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo: Rio de Janeiro:
Record, 1999.
[1] SENNETT,
Richard. A corrosão do caráter:
consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro:
Record, 1999.
[2] A
edição brasileira foi publicada pela Autonomia Literária em 2020.
[3]
Devo esta expressão a Max Holleran em artigo publicado no ano de 2017 na
revista New Republic. Holleran
definiu o não menos inventivo Marshall Berman como praticante de um marxismo em estilo livre (freestyle marxism). Penso que o termo
aqui se adeque como mão e luva.