sexta-feira, 29 de abril de 2022

Carta para Theo: o Antropoceno sentido e pensado a partir de Gargaú - RJ

 

Carta para Theo – o Antropoceno sentido e pensado a partir de Gargaú - RJ 

 

Carlos Abraão Moura Valpassos*


 

A pandemia de Covid-19 alterou de forma significativa a vida das pessoas no início do ano de 2020. A ameaça de um agente microscópico e as recomendações de distanciamento social transformaram as rotinas e impuseram reflexões e ações para reduzir as chances de contágio. Vivendo em uma casa pequena e rodeado por asfalto, cimento e outros imperativos de uma cidade de médio porte, sem avistar no horizonte possibilidades palpáveis de retorno à “vida normal”, concluí, como milhares de outras pessoas no mundo, que a “fuga” para o interior poderia ser uma forma de amenizar os impactos da pandemia. Foi assim que trabalhei para tornar habitável a casa de veraneio de seus avós em Gargaú, que estava sem uso há anos. Depois de uma limpeza pesada e da manutenção necessária para tornar a casa funcional, passamos a utilizá-la aos finais de semana e feriados, até que, na primavera de 2020, ela se tornou nosso endereço principal.

Gargaú é uma praia do município de São Francisco do Itabapoana, no norte do Estado do Rio de Janeiro. Fica no delta do Rio Paraíba do Sul, em sua margem esquerda. A paisagem de restinga mescla manguezais, lagoas, o rio e o oceano Atlântico. Foi lá que passei os verões de minha infância, onde, quando menino, ajudei a puxar as redes de arrasto na beira da praia, onde catei mariscos e pesquei siris com puçás. Ao longo dos últimos 15 anos não havia ficado mais que um ou dois finais de semana por lá. E pouca coisa parecia ter mudado, mas o advento da Internet por fibra ótica e a implementação do trabalho e do ensino remotos permitiram estadias mais prolongadas.

Você tinha 14 anos e quase todos os dias eu te levava para caminhar. Você preferia permanecer em casa jogando Minecraft no computador, mas eu forçava nosso passeio para obrigá-lo a receber um pouco de sol e a ver “o mundo real” – o que me dava a sensação clara de ter envelhecido e atuar como um pai chato, mas que buscava proporcionar uma boa criação para seu rebento  – seja lá o que isso for.  

Enquanto caminhávamos pela praia, buscava falar sobre a geografia local e sobre o ambiente em que estávamos. Mostrei a você os pequenos buracos na areia molhada na Lagoa de Gargaú, que por vezes borbulhavam e indicavam, assim, a presença de “unha de velho” (tagelus plebeius), o molusco que eu coletava em baldes no início dos anos de 1990 e que muitas vezes se transformavam no almoço dos seus avós. Expliquei que a unha de velho não ficava em qualquer lugar: ela só seria encontrada na parte de areia molhada pela água salobra composta pelo encontro do rio e do mar. Na areia seca não haveria unha de velho e nas margens do rio ou do mar ela também não apareceria. Era apenas ali, naquela Lagoa constantemente aberta para o mar, por onde entravam e saíam as embarcações de pesca, que a unha de velho poderia ser capturada. As bolhas que saiam dos buracos indicavam a proximidade do molusco, mas era necessário cavar rapidamente para conseguir alcançá-lo, pois ele penetrava mais rapidamente na areia para fugir de seus predadores. Apenas naquelas areias grossas, escuras e molhadas pela água salobra, encontraríamos, em Gargaú, a unha de velho. E, embora a unha de velho proporcionasse uma refeição saborosa, ela possuía um status baixo entre as pessoas de Gargaú, não sendo capturada de forma intensa por lá. Todavia, meses depois eu descobriria que, mesmo assim, a espécie estava ameaçada de extinção.

Nesses passeios pela praia, sempre encontrávamos diversos animais mortos na areia: peixes de diferentes tamanhos e espécies, siris, crustáceos etc. Por vezes, era necessário tomar cuidado para desviar dos ferrões dos bagres que jaziam à beira mar. Não apenas animais, vivos ou mortos, compunham a paisagem. A algumas centenas de metros avistávamos as torres de energia eólica e, dependendo de nossa localização, era possível escutar o barulho das hélices girando, impulsionadas pelo vento. Barcos de pesca de camarão ou pequenas embarcações de águas interiores, chamadas localmente de “bateras”, também se faziam presentes constantemente. Em alguns casos, as embarcações que voltavam ou iam para o mar perturbavam o espelho d’água e projetavam pequenas ondas que chegavam até nós. Estávamos sempre na presença de uma diversidade de seres, humanos e não humanos, vivos ou mortos, por mais que nos sentíssemos sozinhos e isolados ali. As pegadas na areia deixavam isso evidente: cachorros, humanos, cavalos e aves diversas imprimiam marcas na areia para que fossem apagadas pelas águas e renovadas posteriormente.

 



Barco de pesca oceânica e bateras utilizadas em águas interiores

Foto por Carlos Valpassos em 30 de abril de 2021

 

Por vezes, mesmo durante os dias de semana, havia outras pessoas na praia. Poderiam ser pescadores verificando suas armadilhas, indo ou voltando de suas embarcações, ou mesmo pessoas que, como nós, se mudaram para Gargaú durante a pandemia e apenas passeavam na praia. Todavia, havia algo que sempre nos fazia perceber a existência dos humanos – os plásticos. Garrafas, sacolas, potes e uma infinidade de objetos eram depositados na praia. De um lado, o Rio Paraíba, ao longo de seus aproximados mil quilômetros de extensão, depositava ali todo tipo de objeto que conseguia flutuar até o delta. De outro, eram as correntes marítimas que traziam os objetos. Como se não bastasse, ainda contávamos com os turistas de final de semana que não tinham qualquer pudor em deixar seu lixo na praia.

Árvores mortas também eram conduzidas pelas águas até a praia de Gargaú. Era comum encontrar troncos ou grandes galhos na praia, ou dentro d’água, exibindo-se parcialmente. Nas areias secas, onde o mar não conseguia mais chegar, um grande galho se destacava na paisagem, pois nele havia uma caixa de descarga. Não sei se o galho e a caixa de descarga se encontraram no mar e foram depositados ali em uma maré alta, ou se uma pessoa promoveu o encontro entre eles, mas o fato é que, da primavera ao final do verão, eles estiveram juntos. 

Theo, eu buscava te explicitar os detalhes do mundo, salientando que tudo aquilo à nossa volta compunha a paisagem e que as ações humanas faziam parte disso – para o bem ou para o mal. Certa vez, falei que Gargaú era o fim da linha de um grande rio e que recebia os resultados das ações de inúmeras pessoas, pessoas que sequer sabiam da existência de Gargaú. Estávamos no interior, mas nos ligávamos aos grandes centros não apenas pela fibra ótica que nos trazia a Internet, mas também através dos vestígios que caracterizavam nossa paisagem, pois, tal como definiu Anna Tsing: “A paisagem é um ponto de encontro para os atos humanos e não humanos e um arquivo de atividades humanas e não humanas do passado” (2019: p.17). 

Cerca de uns seis meses depois de nossas primeiras caminhadas eu leria, pela primeira vez, artigos e livros de Anna Tsing e descobriria que aquilo que eu sentia e observava em Gargaú constituía uma paisagem de “diversidade contaminada”:

 

“Eu uso o termo ‘diversidade contaminada’ para referir-me a modos culturais e biológicos de vida que se desenvolveram em relação aos últimos milhares de anos de difusão da perturbação humana. Diversidade contaminada é adaptação colaborativa a ecossistemas de perturbação humana. Emerge como os detritos da destruição ambiental, da conquista imperial, dos fins lucrativos, do racismo e da norma autoritária – assim como do devir criativo. Nem sempre é bonita, mas é quem somos e o que temos disponível como parceria para uma terra habitável” (2019: p. 23).

 

As torres de energia eólica no horizonte sinalizavam para a tentativa de obtenção de energia supostamente “limpa”, na busca de redução de impactos ambientais causados por outras formas de geração de energia, como as represas ou mesmo a queima de combustível fóssil. Isso se dava ao lado do acúmulo de plásticos e microplásticos trazidos, de perto e também de muito longe, pelo rio Paraíba do Sul e pelas correntes do Oceano Atlântico. Ao mesmo tempo, as embarcações de pesca adentravam a Lagoa antes de retirarem-se para o porto, queimando óleo diesel e trazendo em seu encalço inúmeras gaivotas que aprenderam a segui-las para comer as vísceras dos peixes que eram jogadas pelos pescadores ao mar enquanto realizavam a limpeza do pescado. Na praia, répteis, aves e insetos compunham os habitantes da vegetação de restinga que dava os tons de verde da paisagem. Todos os seres formavam linhas de vida que, como destacou Tim Ingold, se encontravam para a composição de uma malha, uma malha que caracterizava aquela paisagem de “diversidade contaminada”.

Em uma manhã de dezembro, você não foi à praia. Fui com Patrícia e, como de costume, caminhamos em direção ao norte onde, por vezes, atravessávamos as águas da Lagoa em seu trecho mais estreito para seguirmos em direção à outra faixa de areia e consequentemente ao mar. Nesse dia, de longe, avistamos um grupo de urubus voando e saltitando. Era comum ter urubus na praia, alimentando-se de restos de peixes. Todavia, um grupo daqueles, em tamanha algazarra, indicava a presença de um animal de porte considerável. “Será que devemos continuar? Verei algo que não gostaria de ver?”, perguntou Patrícia. Fui otimista e respondi que ela poderia ficar tranquila, provavelmente os urubus haviam encontrado um peixe grande como um robalo, uma tainha ou um cação. Eu estava errado. Os urubus disputavam o cadáver de uma tartaruga, uma grande tartaruga. Ela ainda estava preservada, mas as cores da morte já eram evidentes. Patrícia xingou e reclamou, ficou triste ao ver o animal morto. Ela não parecia machucada e não consegui identificar o motivo da morte. Tampouco consegui fotografar, pois fui tomado por uma espécie de respeito pelo animal. Para os urubus, no entanto, era apenas alimento – bom e farto alimento.

Logo que nos afastamos, lembrei que meus pais, nos anos de 1990, foram presenteados com cascos envernizados de tartaruga. As pessoas diziam que era comum encontrar tartarugas, vivas ou mortas. Havia quem comesse as tartarugas e também era possível capturá-las mortas nas redes de pesca. Seja como for, era a primeira vez que eu via uma tartaruga morta. Não era comum, mas também não era raro observar as tartarugas colocando a cabeça para fora d`água a fim de respirar na Lagoa de Gargaú, ali, perto da barra aberta para o oceano. Durante os meses seguintes percebi que aquele não era um fenômeno isolado nas praias de São Francisco do Itabapoana. Através das redes sociais, vi imagens de outras tartarugas mortas e até mesmo de uma baleia. A vida dos seres do mar às vezes se encerrava perto ou na própria costa, fazendo com que a liminaridade característica da praia, entre o continente e o oceano, destacasse também a transição da vida para a morte – e da manutenção da vida através da morte. 

* Professor de Teoria Antropológica - Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense

sexta-feira, 22 de abril de 2022

O que Bolsonaro fez foi jogar a bola para o STF - Luis Felipe Miguel

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O que Bolsonaro fez foi jogar a bola para o STF. Se não houver uma resposta dura, Bolsonaro será o vitorioso.**


Luis Felipe Miguel***


Não sou jurista, longe disso, mas é claro que a condenação do deputado neofascista é muito controversa. A imunidade parlamentar impede a tipificação do delito de opinião. O argumento de que Silveira estaria promovendo a violência precisaria de outros elementos, afora a retórica, para ser sustentado além da dúvida razoável.

Isto quer dizer que a condenação foi errada? Não. Minha interpretação é de que foi correta. Foi correta como movimento no jogo de forças de um país em que o direito não vigora mais.

A deflagração da Lava Jato e seu primeiro rebento, o golpe de 2016 - tudo com o beneplácito do Supremo, convém não esquecer - jogaram o Brasil num vale-tudo, sem regras fixas, uma permanente queda de braço entre os poderes e dentro dos poderes.

É uma pinoia? É. Mas não é algo que se resolva por um mero ato de vontade, nem por exemplo virtuoso. É preciso entender as novas circunstâncias em que a disputa está sendo travada.

Muitos, no campo democrático, preferem, taticamente, louvar a decisão do STF como um primor de exegese jurídica, mas acho importante ver os fatos tal como são. A ginástica feita para condenar Silveira dificilmente se justificaria se não vivêssemos na situação de incerteza legal em que o desmonte da Constituição de 1988 nos colocou.

Por isso, é preciso ter clareza também em relação a outra questão: o Supremo se ergue em favor de quê?

Movidos pela justificada ânsia de ver alguma ação contra o bolsonarismo, muitos passaram a ver no STF o guardião da Constituição que ele deveria mesmo ser. Não falta quem acenda velas no altar de Alexandre de Moraes.

Mas o Supremo se ergue em favor dele mesmo, não da democracia. Não é à toa que os únicos ataques do bolsonarismo que merecem respostas duras são os ataques a ele próprio. Em relação a tudo mais, há sempre contemporização, negociação, acertos.

O Supremo - e eu me refiro aqui, obviamente, à resultante de 11 ministros bastante diversos entre si - não quer perder seu lugar à mesa: a mesa em que se dá a queda de braço entre os poderes, para ver quem manda mais.

O bolsonarismo, como é da índole dos movimentos da extrema-direita, quer ficar sozinho nesta mesa.

Claro que a concentração do poder no Executivo bolsonarista representa um passo importante para a fascistização do país. Por isso, nesta disputa, é preciso apoiar o STF.

Mas sem ilusões. Seu compromisso com a democracia é pontual, vacilante, condicional. Se tivermos, a partir do ano que vem, um governo comprometido com a tarefa de reconstitucionalização do Brasil, o Supremo será mais um empecilho do que um parceiro na realização da tarefa.

Falta-lhe compromisso e falta-lhe coragem. Não custa lembrar o que deflagrou a condenação de Silveira: um vídeo em que ele comentava as declarações de Facchin sobre o reconhecimento público, pelo general Villas Bôas, de que o Exército exigiu a inelegibilidade de Lula em 2018.

O STF falou grosso com o deputado - que pode ser anabolizado, miliciano, mas é um zé-ninguém - e continuou pianinho diante dos militares...

O indulto de Bolsonaro, por sua vez, segue a lógica de escalar a crise.

Pode ser uma jogada para atiçar sua base, que delirou com o anúncio; pode ser o pagamento de um tributo para garantir o silêncio de Silveira, já que é mais difícil dar a ele uma solução à Adriano; pode ser uma nova tentativa de colocar na rua o carro do golpe, ainda que as chances de êxito sejam, por ora, escassas.

Seja como for, é um escárnio - uma afronta seja ao princípio da moralidade pública, seja à autoridade do STF.

Exige uma resposta dura.

A revogação do indulto é parte dela. Ao que parece, há muitas brechas legais para isso, embora tenha que refutar jurisprudência anterior do próprio Supremo. Mas tudo bem, eles fazem isso o tempo todo.

Seria o caso de ir além disso. Sempre tendo em mente que o que está em jogo não é o direito, é a capacidade de se colocar na ofensiva política.

Uma vez que uma das explicações possíveis para o indulto é a necessidade de manter Silveira calado, seria possível - por exemplo - apertar as investigações sobre a relação entre a família Bolsonaro e as milícias.

Decretar a prisão preventiva de um ou dois dos filhos seria perfeito, mas não me arrisco a sonhar tão alto.

Para isso, o Supremo teria que usar uma coragem que não revelou até agora.


* "The clash of the titans", pintura de Gustave Dore, 1866. Disponível em: https://www.wikiart.org/en/gustave-dore/the-clash-of-the-titans-1866, acesso em 22 de abril de 2022.

** Publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Luis Felipe no dia 22 de abril de 2022. Reproduzimos aqui com a autorização do autor.

*** Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autor de  "Democracia e representação: territórios em disputa" (Editora Unesp, 2014), "Dominação e resistência" (Boitempo, 2018), dentre outros. Está lançando neste abril de 2022  "Democracia na periferia capitalista" pela Autêntica Editora.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Maravilhos@s vagabund@s...

Carlos Abraão Moura Valpassos*

 

Há pouco tempo, lá no ano de 2019, parte da população brasileira adotou uma postura ácida em relação a intelectuais e artistas. Não faltavam dedos erguidos para indicar que os membros das classes artísticas e intelectuais eram vagabundos, mamadores da lei Rouanet, pessoas “sem carteira de trabalho” ou qualquer coisa equivalente. 


Não deveria precisar dizer, mas, nos dias de hoje, como nem o óbvio é poupado das distorções, é bom deixar claro: era o primeiro ano de governo de Bolsonaro. Naquele ínterim, havia um frenesi da direita brasileira e um derramamento de ódio contra tudo e contra todos – mas sobretudo contra intelectuais e artistas. Todavia, a terra redonda gira, e em 2020 veio a pandemia de Covid-19, obrigando as pessoas a ficarem reclusas em suas casas. Foram dias, semanas e meses de isolamento. Não demorou para que os vagabundos mostrassem seu valor: apresentações de lives, entrevistas e outras formas variadas encontradas pela criatividade. O mundo acadêmico, em um momento em que os dados sobre a pandemia eram abafados ou distorcidos, tomou para si a tarefa de alertar sobre os riscos envolvidos, indicando desde o potencial de letalidade até os efeitos econômicos e sociais. Entre erros e acertos, podemos hoje afirmar que os alertas mais sérios sobre a pandemia, no Brasil, vieram das universidades. Nenhum cientista classificou a Covid-19 como “gripezinha” e logo no início foram apresentadas análises sobre a possibilidade de a condução das políticas de combate à pandemia adotadas, orientadas pelo planalto, levarem a uma hecatombe. Oficialmente, passamos dos 650 mil mortos. Isso em uma oficialidade que não reflete a realidade, pois essa, por sua vez, indica números muito mais elevados. 


Voltemos, agora, aos nossos valiosos vagabundos. Eles (e elas! – perdoem este ser alfabetizado nos anos de 1980) foram malditos em 2019, seguraram a peteca e salvaram a lavoura quando a situação ficou sombria em 2020, sofreram com as limitações de suas atividades em 2020-2021, e agora, em 2022, ano de eleição, voltam a ser chamados de malditos vagabundos mamadores da lei Rouanet. “Joga pedra na Geni!”. No ano de eleição presidencial, o bolsonarismo precisa criar fantasmas que desviem a atenção de seus próprios demônios. Artistas e intelectuais são ótimos fantasmas. É uma estratégia política. No entanto, 2022 surge como o ano da recuperação das atividades e da economia. E esses artistas e intelectuais, sem suas carteiras de trabalho assinadas, podem ser menosprezados e vilipendiados. E é aqui que precisamos pensar na contribuição econômica dessas pessoas, mesmo que de modo simples e rápido, mas sempre refletindo o mundo fático.


Imagine o Rio de Janeiro sem aqueles vagabundos carnavalescos para organizar os desfiles e as apresentações de carnaval. Você não terá trabalho para imaginar isso, basta lembrar o que aconteceu em 2021. Sem carnaval, as atividades turísticas desabam. Não há ocupação hoteleira satisfatória, os bares não ficam lotados, os táxis e ubers se movimentam em escala tímida, os vendedores ambulantes ficam sem público, as lojas vendem menos. “Malditos vagabundos que atraem milhões de pessoas para a baderna na cidade do Rio de Janeiro” - e movimentam a cidade e sua economia. 


A vida não é feita só de carnaval. E o setor turístico, super mal aproveitado no Brasil, desperdiça seu potencial quando não investe na arte e na intelectualidade. As pessoas, quando vão ao Rio de Janeiro, querem ver a praia de Ipanema, não por ela ser mais bonita que as praias da Barra, mas porque já ouviram falar, na voz de Tom Jobim, de uma tal Garota de Ipanema. Elas vão à cidade de São Paulo e querem tomar um chopp na esquina da Ipiranga com a Avenida São João, para ver se alguma coisa acontece no coração, tal como cantou Caetano. E os exemplos não param.


Em 2018, o Brasil recebeu 6,62 milhões de turistas estrangeiros. Em 2019, os Estados Unidos receberam cerca de 80 milhões de turistas estrangeiros, que geraram cerca de 179... bilhões de dólares em receitas em bens e serviços (Dados U.S. Travel Association, mencionados pela Bloomberg). O que gera tal diferença? Pode-se argumentar que a diferença de desenvolvimento econômico entre os países – e isto estará correto. Entretanto, há outras questões que acentuam a disparidade. Eu destacaria uma questão muito simples: as histórias. Os vagabundos americanos possuem maior poder para divulgar suas histórias: livros, filmes, músicas, esportes etc. As pessoas querem estar nos palcos onde aconteceram grandes histórias, elas querem pisar naquele solo e respirar aquele ar. E sem esses vagabundos, as histórias não são contadas, elas não são registradas. Sem histórias, pode até haver turismo, mas não do mesmo modo e tampouco na mesma intensidade. Histórias filmadas, fotografadas, escritas ou cantadas fascinam e atraem pessoas. Pessoas movimentam cidades e economias. Isso gera renda, trabalho e possibilidades. 


Quando não valorizamos artistas e intelectuais, fazemos com que o Mississipi, um rio que nunca vimos, pareça mais poético e atraente do que o Paraíba do Sul, que nos fornece a água de cada dia. É preciso frisar a importância desses vagabundos e vagabundas que tornam os palcos de suas vidas atraentes para outras pessoas, que nos fazem desejar passar uma tarde em Itapuã ou ir ao Maracanã num domingo para ver o Flamengo jogar (mesmo na fase atual). 

 

Professor de Teoria Antropológica 

Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense






quarta-feira, 6 de abril de 2022

Carlos Lessa e os intelectuais públicos - Milton Lahuerta


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Carlos Lessa e os intelectuais públicos!**

Milton Lahuerta***

Em meados de 1976, tive uma oportunidade de trabalho que mudou minha vida. À época, com 22 anos, eu cursava o 3o ano de Ciências Sociais na FFLHC-USP, militava no MDB e no PCB, e vivia atormentado por trabalhar numa empresa multinacional holandesa, a Philips. 

Por uma colega que também fazia Ciências Sociais, a Sarah Yakhni, fiquei sabendo que estava em curso um processo de seleção de estagiários para trabalhar num projeto de pesquisa sobre "Estrutura e gênese  da Administração Pública Paulista", junto à Diretoria de Pesquisa de uma instituição que havia sido recém criada: a FUNDAP (Fundação para o Desenvolvimento Administrativo). 

Fiz a entrevista de seleção com Rui Fontana Lopes, que me explicou o que seria o projeto e me informou que a equipe da Diretoria de Pesquisa era composta por Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (Diretor), Paulo Davidoff Cruz e ele próprio (um pouco depois seria incorporada à equipe como técnica Ieda Marques Britto), e que seria complementada por mais quatro estagiários, dos quais só faltava selecionar um. Acabei sendo o escolhido, para minha alegria e profundo desgosto de minha família, pois em casa eu era o único com trabalho fixo numa "boa empresa".

A mudança significou uma redução de 75% do meu salário e nunca esqueci o que meu pai, que sempre respeitou muito minhas escolhas, me disse, meio consternado por estar questionando minha opção: "você tem certeza do que está fazendo? Todo mundo anda pra frente, você vai andar pra trás?".

De fato, trocar um salário de 3.000,00 cruzeiros, com carteira assinada, refeitório e assistência médica, numa empresa multinacional, por um estágio, pelo qual receberia 600,00 cruzeiros, a ele e a meus amigos, parecia uma atitude insensata e, eu mesmo, confesso que vacilei!

E foi com essa dúvida que iniciei minha primeira experiência de pesquisa, integrando uma equipe que, além dos citados acima, passou a ser composta por quatro estagiári@s, que trabalhavam quatro horas por dia, em duplas, num edifício na Av. São Luís, no centro de São Paulo, onde ficava guardado o arquivo da Assessoria Técnica Legislativa (ATL), reunindo todas as leis e decretos do Estado de São Paulo, desde 1890, nos quais resgatávamos as informações sobre a criação, extinção, fusão, desmembramento de todos os órgãos da Administração Pública Paulista. A equipe de estagiários era composta por Eliane Pérola Maizel (CS-USP), Lizete Prata  (CS-UNICAMP), Milton Lahuerta (CS-USP) e Olivier Udry (AP-FGV), substituído por Mário Mazzilli (CS-USP).

Durante um ano cumprimos uma rotina rigorosa de trabalho de pesquisa, definindo a maneira de coletar as informações e padronizá-las, escrevendo textos sobre o evolver da Administração Pública Paulista, coordenados por Rui Fontana Lopes, que, ainda que fosse recém formado pela GV e tivesse a nossa idade, tinha muitas qualidades intelectuais e grande experiência como pesquisador. Para que o trabalho pudesse ser realizado, além das reuniões com Belluzzo, Paulo Davidoff e Rui, tínhamos encontros quinzenais com consultores, primeiramente, com a finalidade de ajustar o desenho do projeto e depois para acompanhar o seu desenvolvimento. Dentre os consultores, brilhava justamente o economista Carlos Lessa, à época com menos de 40 anos, que juntamente com Belluzzo, João Manoel Cardoso de Mello, Maria da Conceição Tavares, Frederico Mazzucchelli, Liana Aureliano, compunha o Depto de Economia da UNICAMP, que tivera importante papel na criação da FUNDAP. 

As participações de Lessa como consultor da equipe traziam uma lufada de bom humor, energia e esperança para tod@s nós, pois nele não havia nenhum resquício de tecnocratismo e/ou de uma visão burocrática sobre o estado e sobre o trabalho a ser realizado. Suas intervenções, além de tratarem dos desafios próprios da pesquisa, do Estado, da economia, da Administração Pública, falavam da vida, da literatura, da cultura brasileira e universal. Eram recorrentes suas citações de  Sartre e Hemingway, sempre exercitando a ironia, a verve crítica e a imaginação criadora, e sempre nos desafiando a pensar para além dos escaninhos burocráticos. Assim como eram recorrentes suas colocações acerca da necessidade de um projeto nacional e democrático de desenvolvimento para o Brasil. 

Nesse sentido, Lessa, além de nos inspirar a pesquisar, estimulou em cada um de nós a necessidade de se pensar não só como profissional, como técnico, mas principalmente como intelectual. Naquele projeto, sua presença foi fundamental não só para que a equipe se constituísse com organicidade e a pesquisa pudesse ser concluída e publicada como livro, "Perfil da Administração Pública Paulista", mas, principalmente, para que aquel@s jovens estagiári@s, que participavam do empreendimento, pudessem apurar o rigor intelectual e o compromisso público com a democracia e com o desenvolvimento. Para mim, particularmente, conviver com ele nesse período foi decisivo também para definir o meu perfil intelectual e para me dar a certeza de que, contrariando meu pai, eu não estava "andando pra trás!".


* Foto de Victor Vogel. Disponível em: https://www.vitorvogel.com.br/retratos?lightbox=imagepbm, acesso em 06 de abril de 2022.

** Texto publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Milton Lahuerta (https://www.facebook.com/milton.lahuerta). Reproduzimos aqui com a autorização do autor. O professor Lahuerta compartilhou essa memória "(...) quando do passamento de Carlos Lessa em 2020".


*** Milton Lahuerta é professor de Teoria Política na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, Campus de Araraquara. É autor de inúmeros artigos, capítulos de livros e coletâneas nas áreas de pensamento social brasileiro, sociologia dos intelectuais e teoria política. Publicou, em 2014, o seu "Elitismo, autonomia, populismo - Os intelectuais na transição dos anos 1940" pela editora Andreato.

terça-feira, 29 de março de 2022

MANA CHICA GOYTACÁ - Por mais Cabruncas e menos lamparões - Carolina de Cássia

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MANA CHICA GOYTACÁ - Por mais Cabruncas e menos lamparões ** 

Carolina de Cássia*** 

A estreia do curta “Faroeste Cabrunco” e do doc. que revela o seu processo de construção  foi sensacional. 

Na verdade não sei se existiu uma produção ficcional no município – caso a pesquisar. Dia desses, comentei com um ator dos velhos tempos que eu adoraria fazer um filme de ficção, baseado no livro Mangue, de Osório Peixoto. Para minha surpresa ele disse que esse filme foi realizado e nunca editado, que ele chegou a fazer parte como ator. Ahn? Mistérios ou falta de apoio para que o filme fosse finalizado?

Voltando ao Faroeste! O coronelismo que marca os campos Goytacá e todo território mundial, que fomenta a colonização até os dias de hoje, é um fato. Trazer essa realidade para a ficção é uma sabedoria invejável (a inveja fica por conta de meu lugar de documentarista). 

Considero o filme como uma sátira que nos convoca a refletir quem são os coronéis contemporâneos.  Além daqueles que continuam a mamar nos fundecanas do Estado existe os que, historicamente, cortam nossas árvores, retiram gramados para colocar um piso de granito encerado, onde a guerra pela sobrevivência se dá, para que ali não seja nosso túmulo como espetáculo.

Os personagens que pareceriam absurdos fora do filme, o fazem acontecer, num movimento de corpo invisível que provoca a imaginação no jogo realidade/ficção, que tudo vê no olhar profundo do Cabrunco.

Victor Van Ralse (diretor e roteirista) dá um show de criatividade no roteiro; aguça nossa memória de infância nas sessões da tarde, relembra o jongo (pisei na pedra pedra balanceou levanta meu povo cativeiro se acabou) e revela a realidade coronelista, colonizadora, expropriadora, mas sem esquecer a resistência Goytacá e negra que nos marca. Na guerra entre o bem e o mal, mocinho e bandido a luta é a vencedora, parece que não acaba nunca.

É um filme de resistência e utopia quando encerra com o presente que a mulher do povo - atriz Michelle Pereira – recebe do Cabrunco.  Hum, mas vai que, as luzes acendem e o lamparão coronelzinho tá ali, tá ali no palco do teatro e da vida, nos provocando a “pocar tudo” e persistir. 

Persistência é o que não falta para a maioria dos artistas. Fazer um filme dessa grandeza com um orçamento que parece mais piada é sofrível. Um conjunto maravilhoso de artistas - uns que atuam desde os anos 60, outros recém-formados no curso de teatro do IFF - faz o filme acontecer como um ativismo pela arte. 



Mas até quando a sobrevivência dos artistas terá que passar por isso, desde atuar sem cachê ou cachê irrisório/ diárias - como o nome diz, dia tem não e o outro também - até assistir seu trabalho ser utilizado no palco como propaganda eleitoreira de coronéis fantasiados de produtores /gestores culturais? Até quando?

Não sou bairrista e a guerra anda reafirmando isso, mas na terrinha do chuvisco e da goiabada existiu e existe muito artista com conhecimento grandioso, mas raramente reconhecido. Raros são os que vivem da arte sem recorrer ao emprego público. O que deveria ser diferente, óbvio. A autonomia artística e o financiamento do trabalho artístico pelo Estado é o mínimo que podemos reivindicar.

Torcendo pelo sucesso/premiação do filme, de forma que possam receber mais do que um prato de torresmo com chope, como diz um amigo meu do ramo, que nem imagina como e quando irá se aposentar.

Ah, o filme conta com fotografia maravilhosa, interpretação excelente das atrizes/atores. Fico imaginando a trabalheira da produção no processo. Muito feliz com o trabalho de vocês. 

A Mana Chica deseja que entre na agenda das escolas e do teatro apresentações diárias do filme para a meninada. Aí sim, Vamos “pocar tudo” só que, contra os coronéis!

Que venham muitos!

                                                                            Outono de 2022.

* As fotos do set de filmagem que ilustram esta crítica nos foram cedidas gentilmente por Victor Van Ralse, diretor e criador de Faroeste Cabrunco.

** Texto publicado no perfil do Facebook da autora ((https://www.facebook.com/ccarolina.cassia.92) oportunamente em 28 de março de 2022, aniversário de Campos dos Goytacazes. Reproduzimos aqui com a autorização de Carolina.

*** Assistente Social e Documentarista. Realizou 14 filmes, sendo 12 documentários que revelam a realidade do Norte Fluminense e alguns estados do Nordeste. Seus filmes trazem um olhar anticolonialista valorizando a sabedoria popular, a criticidade e a resistência cotidiana. E-mail para contato: carolinadecassia07@yahoo.com.br. Seus filmes podem ser degustados em seu canal no YouTube: https://www.youtube.com/c/CarolinadeC%C3%A1ssia.

                                                                       

domingo, 27 de março de 2022

PARA ALÉM DA ELEIÇÃO - AS BRUMAS DO FUTURO - Christian Lynch



PARA ALÉM DA ELEIÇÃO - AS BRUMAS DO FUTURO **


Christian E. C. Lynch ***

Se eu fosse capaz de ver algo do alto da montanha, veria que os próximos anos seriam marcados pela conclusão do processo de rearticulação do sistema começada em 2013-2016.

O sistema se rearranjaria  polarizado. À esquerda/centro-esquerda, as forças históricas oriundas da nova república (no momento, em torno de Lula), comprometidas com o progresso. À direita, as novas forças conservadoras comprometidas com o atraso (em torno dos Bolsonaros).

O sistema partidário está se recompondo. A federação somada à cláusula de barreira permite uma recomposição incremental rumo a um sistema marcado pela menor  fragmentação e maior consistência ideológica.

O quadro ideológico geral é estruturalmente mais conservador do que o passado recente. A crise da globalização e a emergência da direita radical jogaram o centro pra direita. Não é à toa que Lula está se movendo pro centro e empurrando junto o PT. O mesmo movimento fez o PSB.

À direita, vemos o "centrão" se converter abertamente ao conservadorismo ideológico. Outrora, no mundo da nova república, o "realismo político" conservador dessa turma tinha de se fazer de pragmático para ocupar o poder em governos progressistas. Isso acabou.

Com a mudança do clima ideológico na direção conservadora, o Centrão pode se assumir conservador. Contribui para isso, claro, o poder acumulado no domínio do congresso das emendas orçamentárias. Mas também com Bolsonaro o centrão, como antes os militares, encontrou seu homem.

Por quê? O sonho do Centrão era encontrar um Sarney ou um Temer com votos. Bolsonaro tem votos, mas resistia em vestir o figurino da normalidade. Daí o esforço do Centrão em enquadra-lo, afinal bem sucedido diante do fiasco do golpismo de 7 de setembro e a ameaça de impeachment.

Ha outras razões para o centrão virar uma coalizão bolsonarista. Uma delas é o ânimo  antirrepublicano e antijudiciarista. Bolsonaro é um aliado poderoso no desmonte das instituições de combate à corrupção política. Gente como Aras na PGR e Kassio, no STF são o seu sonho dourado.

Por fim, o Centrão apoia Bolsonaro e o "civiliza" porque o presidente detesta governar, para alem de blindar sua família e aliados dos braços da Justiça. O programa de Bolsonaro se resume em parar o relógio da história, razão pela qual pode delegar a administração ao Centrão.

Entregar o grosso do governo e da administração aos cupins centrônicos garante por inércia a política conservadora estilo Sarney. Bolsonaro se contenta em ficar de garoto propaganda do populismo reacionário, andando de jetski e apresentando o "Show do Gado" quinta à noite.

Quanto ao novo regime de governabilidade, o objetivo do Centrão é consolidar o status quo, substituir o presidencialismo de coalizão por um semipresidencialismo que garanta a ascendência legislativa contra o judiciarismo do STF. O STF e o PGR sendo neutralizados pelas nomeações de figuras anódinas ou conservadoras, pervertendo os princípios originais da Constituição.

Lula no poder vai tentar recuperar o presidencialismo de coalizão para poder organizar uma agenda progressista. Já o centrão e Bolsonaro vão apoiar o semipresidencialismo como modelo de governança da inércia, destinado a gerir a rotina e congelar o presente.

É como as brumas do futuro revelariam o futuro posterior à eleição, se eu tivesse uma bola de cristal. 

* Ilustração de Koji Yamamura. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-21163117, acesso em 27 de março de 2022.

** Texto originalmente publicado no perfil do Facebook do autor em 25 de março de 2022 (https://www.facebook.com/christian.lynch.5). Reproduzimos aqui com a autorização do próprio Christian.

*** Cientista político e professor da área no IESP/UERJ. É autor de “Monarquia sem despotismo e liberdade sem anarquia” publicado pela editora da UFMG, “Wanderley Guilherme dos Santos: a imaginação política brasileira - cinco ensaios de história intelectual”  publicado pela Revan, dentre outras obras, coletâneas e inúmeros artigos nos campos do Pensamento Político Brasileiro, Teoria Política e História das Ideias Políticas.


sábado, 26 de março de 2022

A paz e seus descontentes

 

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A paz e seus descontentes **

George Gomes Coutinho


Não se deve esperar de um humanista qualquer apoio à guerra enquanto resposta para crises ou disputas. Já disse Georg Lukács (1885-1971) em contexto bélico: “quanto melhor, pior”. Ou seja, batalhas vitoriosas, de qualquer dos lados, não se dão sem morticínio. Falo evidentemente do contexto ucraniano em andamento. Mas, o mesmo se aplica a todos os outros conflitos armados em paralelo no mundo, de guerras civis a violações de um Estado-Nacional por outro. Chocante mesmo é que estes tantos conflitos simultâneos fora da Europa prossigam sendo quase que ignorados e não contem com a mesma comoção. Não é mera conjectura afirmar neste contexto que, para parcela relevante da população mundial, determinadas vidas valem mais do que outras. Lastimável e moralmente repugnante.

Retomando, penso que a primeira providência, diante de conflito armado, é lutar desesperadamente para restaurar a solução pela palavra e salvar vidas civis e militares. Portanto, defendo que nossos melhores esforços devem estar no apoio irrestrito ao encaminhamento de um desfecho negociado pela diplomacia profissional ou qualquer outra. Para agora, para já! Não creio que seja defensável moralmente ou politicamente qualquer outro encaminhamento. A questão é que o que julgo ser a única posição humanista possível parece não seduzir parte da opinião pública em Europa, EUA e até mesmo em nosso quintal.

Daqui por diante irei problematizar uma das respostas cognitivas ao conflito, um ponto de partida do entendimento humano facilmente sequestrado por interesses ideológicos ou econômicos. Falo da simplificação quase pré-reflexiva produtora de maniqueísmo. O problema é que terem parado preguiçosamente no ponto de partida cognitivo torna a defesa da paz na opinião pública uma causa difícil. Mas, antes eu gostaria de convidar o(a) leitor(a) a um exercício de imaginação.

Imagine uma praça onde há muitos e diferentes jogos sendo jogados ao mesmo tempo. Há a mesinha do pessoal do jogo de damas. Há outra com os concentrados num dominó. Mais adiante há o pessoal do carteado. Seria estúpido avaliar a performance dos jogadores de damas utilizando as regras de buraco. Ou incorporar os traquejos e jogadas ensaiadas do enxadrista ao participar de uma partida de gamão.

Nesta nossa praça lúdica imaginada vamos acrescentar um elemento fantástico: imagine que os resultados das mesas, dos jogos independentes, tenham potencial de produzir mudanças de impacto na praça, nos jogadores e na dinâmica dos próprios jogos. Mudanças não esperadas inclusive. Sem falar das consequências não desejadas.

De alguma maneira, e guardadas as devidas proporções, o mesmo procede no contexto da guerra no leste da Europa. Há níveis regionais, nacionais e transnacionais de interação entre os agentes. Há entes que são grupelhos atuantes e barulhentos. Também encontramos atores de grande porte, a indústria armamentista e instituições multilaterais robustas. Temos elementos geopolíticos, econômicos e ideológicos que incrementam em complexidade as interações e os processos de tomada de decisão.

É um secos e molhados sangrento do sistema internacional. Tem de tudo. Só não há factualmente anjos e demônios nitidamente identificáveis por quaisquer critérios que queiramos utilizar.

Resumidamente o contexto implica o crime de invasão de um país soberano por outro, erros grosseiros de caráter geopolítico da Comunidade Europeia, a proximidade com as eleições de meio de mandato (mid term elections) nos EUA, a imprudência de uma OTAN de existência indefensável, etc, etc, etc.. As variáveis são tantas, tão variadas e com tantos níveis de densidade, que é simplesmente incompreensível o alinhamento automático a qualquer dos lados. Quer dizer, incompreensível a todos que não tenham ganhos assegurados e interesses contemplados diretamente com a derrota ou destruição de um ou mais dos envolvidos no conflito.

O risco da excessiva simplificação, que não considera a complexidade de uma realidade organizada em diferentes níveis de interação, redunda nas aberrações que estamos vendo na grande mídia e nas redes sociais. Ocorre o esdrúxulo, vide os cancelamentos do estrogonofe ou de Dostoievski. Mas, temos muito mais. O consumo acrítico das informações disseminadas por agentes com interesses claros no tabuleiro da guerra, a narrativa desumanizante e o adesismo quase que por imitação, produzem o ambiente da opinião pública refratária a discussões e pressões em prol da paz.

A tragédia do momento é infinitamente mais manejável pela ação humana do que a pandemia e precisaria da colaboração dos tomadores de decisão direta ou indiretamente envolvidos. Estes, por seu turno, são sensíveis aos outros Estados-Nacionais, organismos multilaterais e, claro, aos diferentes níveis possíveis de atuação da sociedade civil em escala regional, nacional e transnacional. Neste cenário, uma opinião pública que clama pela paz é uma grande arma de dissuasão em cenário de guerra. Mas, a paz sempre teve seus descontentes, tal como agora.

Infelizmente o que a humanidade tem conseguido produzir de paz perpétua, como assinalou em triste ironia o maior filósofo de Königsberg, é ainda a paz dos cemitérios.


* Pintura "Os Horrores da Guerra" de Peter Paul Rubens, circa 1638. Disponível em: https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/after-peter-paul-rubens-the-horrors-of-war, acesso em 26 de março de 2022.

** Texto Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de mar. de 2022. Pág. 4.