terça-feira, 31 de outubro de 2023

Reminiscências do trabalho etnográfico

 Reminiscências do trabalho etnográfico

Carlos Abraão Moura Valpassos




Capa do Livro  "Argonautas do Pacífico Ocidental", de Malinowski, na edição brasileira feita pela Editora Ubu - a edição mais bonita já publicada.


Em algum momento no meio da crise sanitária de covid-19, assisti uma palestra online do Roberto DaMatta. Nela, aquele senhor, já na casa dos seus 80 anos, exumava suas experiências de trabalho de campo entre populações indígenas brasileiras. Até aí tudo caminhava como mais uma palestra sobre Antropologia, mas, em determinado momento, ele indagou a si mesmo e também à platéia: como ele, um então jovem na casa dos 20 e poucos anos, poderia lidar com as experiências humanas sendo ele mesmo uma pessoa ainda tão inexperiente? Ele não havia sofrido, ainda, a perda de um filho, nem a perda de sua esposa, mas teria contato com pessoas que tinham sido atravessadas por tais experiências e, por isso, teria que lidar com aquelas histórias. 


Não recordo de nada do que foi dito depois. A única coisa que ficou em mim foi esse trecho. E mesmo com todas as discussões já apresentadas sobre o trabalho de campo em Antropologia, aquela breve reflexão ficou impregnada em mim desde então. Sempre apostei na comunicação como atributo capaz de permitir a compreensão de experiências que não vivemos e de culturas onde não fomos criados. Todavia, a questão ali me parecia, e ainda me parece, ir além disso. Pois há uma diferença entre a história ouvida e a história vivida - e por mais que tentemos aproximá-las, elas não são exatamente a mesma coisa. Há algo na experiência que a torna especial - a sociologia pragmatista que o diga. 


Hoje, dia 31 de outubro de 2023, acordei com essas questões em mente, pois deveria dar uma aula sobre Bronislaw Malinowski, mas tive que cancelar o encontro em "virtude" de uma gripe que me levou não apenas o ânimo, mas também a voz. E sempre que me preparo para discutir Malinowski, me dou conta de como aquele polonês e seus "Argonautas do Pacífico" atravessaram a vida de gerações e gerações de antropólogos, direta ou indiretamente, ao longo do século XX e do século XXI. Foi assim, e não num delírio febril, que recordei da palestra de Roberto DaMatta. E foi assim que, mais uma vez, comecei a me questionar sobre a maturidade que possuía para lidar com as histórias sobre abortos que ouvi e com as quais tive que lidar há cerca de 15 anos atrás. Histórias que ainda me acompanham - e me surpreendem. Histórias que não geraram apenas uma tese, mas que também me transfomaram: enquanto pessoa e enquanto pesquisador, se é que podemos realizar tal separação.


Enquanto tudo isso se misturava nos primeiros minutos desta manhã, levei meu filho, agora com 17 anos, para a escola. Quando ele desceu do carro, adolescente cabeludo ávido por se afastar de sua figura paterna, reparei o óbvio: ele cresceu e não é mais o menino que peguei na escola naquela manhã de março de 2020, quando as aulas foram ministradas presencialmente pela última vez daquele ano. Além do Theo, muita coisa mudou nesses quase quatro anos. Arrisco dizer que o mundo hoje é outro, que mantém os mesmos problemas, certamente agravados, mas que incorporou outros mais. Além disso, os "micromundos" do cotidiano de cada um também foram alterados. Casais se separaram, familiares morreram, doenças vieram. As mudanças da vida, sempre presentes, parecem ser destacadas por esse hiato pandêmico.


E foi nesse mergulho comparativo entre passado e presente que o trabalho de campo novamente me pegou. Lembrei de Sêo Antônio, um senhor de Ponta Grossa dos Fidalgos que, lá no início dos anos 2000, era apontado como o homem mais velho do arraial. As idades variavam, mas sempre impressionavam: alguns falavam em 107 anos, mas havia certo consenso de que ele tinha 112. "Você tem que conhecer ele!". E lá fui eu, com meus 20 e poucos, sem filho e sem perdas, conhecer aquele senhor que, mais que uma outra pessoa, constituía-se como um outro mundo e como o representante de outros tempos. Eu esperava uma conferência sobre muitas histórias do passado, mas aconteceu algo diferente. Sêo Antonio tinha dificuldades para ver e ouvir, mas estava bastante lúcido. Ele acendeu um cachimbo e, com certa dificuldade, começou a falar do quanto estava triste e de como gostaria de morrer logo, pois se sentia sozinho: seus pais, sua esposa, seus irmãos e seus amigos haviam, todos, morrido. Ele era cuidado pela filha caçula, que na época já tinha mais de 70, e não ficava "sozinho" - mas ele se sentia assim. Eu, aos 20 e poucos, esperava encontrar alguém feliz por ter passado dos 100, mas encontrei alguém cansado. O mundo sem os pais, sem os irmãos, sem a esposa e sem os amigos, enfim, sem os pares etários, não era um mundo que fazia muito sentido - e aquilo me atordoou.


Pouco tempo depois compartilhei a experiência com meu orientador, Arno Vogel, que, com seus 50 e poucos à época, destacou a alteridade daquele encontro. O que Sêo Antônio falava fazia sentido, mas era estranho - e era estranho porque nós não tínhamos como dar conta daquele tipo de experiência. Arno, todavia, já tinha vivido mais e conseguiu ponderar sobre as dificuldades de chegar a uma idade tão avançada - e sobre o impacto da perda dos pares.


Alguns anos depois eu iria ao funeral de Sêo Antônio - um evento que parou Ponta Grossa dos Fidalgos, onde "todo mundo é primo" e, portanto, onde todo mundo tinha algum parentesco com Sêo Antônio. O evento deve estar registrado em alguma caderneta de campo, mas o que ficou registrado na memória foi aquela conversa em que ele lamentava as ausências e manifestava o desejo de reencontrar com os seus. Eu, sempre meio descrente, pensava que, não havendo além, não haveria reencontro e portanto era melhor ficar onde se estava, por via das dúvidas. Hoje, tantos anos depois, num mundo que não é o mundo em que sempre lutei para viver, exumar essas memórias é inquietante. Mesmo na ausência de um além e na impossibilidade dos reencontros, o mundo transformado, dilapidado e destituído do que antes o tornava encantador, ainda é um mundo capaz de despertar o fascínio e a alegria necessários para nele permanecer?


As pesquisas de Mirian Goldenberg sobre a "Bela Velhice", em que ela busca compreender o processo de envelhecimento privilegiando as narrativas de pessoas com mais de 90 anos, parecem destacar que encanto e alegria constituem o combustível dessas pessoas que avançam no tempo, apesar do tempo. As redes de relações mostram-se fundamentais para que as pessoas permaneçam ativas. Os afetos, todavia, não são necessariamente aqueles provenientes dos grupos familiares: a base das sociabilidades parece vir das amizades, muitas delas também longevas. E o mundo, assim, constitui-se não apenas como o mundo material, mas sobretudo como o mundo das relações - relações que se alteram e que se desfazem, mas também se perpetuam ou se renovam.


Ainda muito jovem para entender as angústias epistemológicas de Roberto DaMatta e os lamentos da solidão de Sêo Antônio, mas já não tão jovem como há 20 anos atrás, continuo me impressionando com os desdobramentos reflexivos promovidos pelas experiências de trabalho de campo, alicerce desse "ofício contemplativo", como diria Arno em suas aulas, que é a Antropologia. Malinowski não teve uma vida muito longa, mas deixou dádivas que 101 anos depois nos permitem pensar sobre as sociedades - e sobre a vida. 


Ps.: Gosto de pensar que Sêo Antônio está rodeado pelos seus entes queridos, às margens da Lagoa Feia.


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

O genocídio palestino e nós: da má consciência à coragem moral


O genocídio palestino e nós: da má consciência à coragem moral

Paulo Sérgio Ribeiro

Em 2021, sobrevivíamos ao terceiro ano da Era Bolsonaro sob a ameaça permanente de uma pandemia ou, precisamente, aos crimes contra a humanidade perpetrados pela extrema direita então no poder. Os efeitos deletérios dessa crise ainda se fazem sentir em diferentes domínios da vida brasileira e revelaram ao mundo toda a brutalidade da frente neocolonial avalizada pelo Governo Bolsonaro sobre os nossos povos indígenas. Naquele momento, não hesitamos em seguir o argumento (ver Genocídio, por quê?) que imputava aos próceres daquele governo o genocídio indígena.

Iniciada a discussão, propus a um competente (e amigo) antropólogo que lhe desse continuidade com todo o repertório que, supunha eu, a antropologia brasileira dispõe sobre a questão indígena, mas ele declinou. A seu ver, a tarefa requereria um olhar mais experimentado do que as escolhas profissionais que fez permitiria ter e, em nome da honestidade intelectual, optou por deixar o assunto a quem lhe oferecesse uma dedicação à altura das exigências que o “fazer carreira” nas ciências sociais pressupõe (ou impõe).

Sejamos justos: mesmo uma opinião com rudimentos sociológicos pede um ponto de vista menos voluntarista sobre a agenda pública do momento, pois é inevitável confirmar o que Bourdieu certa vez sentenciou: a opinião pública “não existe”. Ora, se não podemos mesmo ter opinião sobre todo e qualquer assunto, não é tão óbvio assim que precisemos ser passivos à articulação dos interesses materiais e ideais que nos afetem como partícipes da história do tempo presente e, deste modo, gostaria de esboçar esta reflexão a partir da fatídica constatação de que somos testemunhas de outro genocídio, o dos palestinos sitiados em Gaza, elegendo a ética da Modernidade como posição irredutível.

Aos não “iniciados”: do que se trata a “ética da Modernidade”? Partindo aqui muito ligeiramente da abordagem de Habermas, poderíamos delinear essa ética pelo caráter responsivo que os “tempos modernos” exigem de cada um de nós perante a História, uma vez que a ruptura promovida pela era moderna é justamente a impossibilidade de fundamentarmos em outras épocas que não seja a atual uma orientação normativa para as nossas vidas, já que embarcamos, ao menos desde as grandes navegações no século XVI, em um processo de mudança social cujo moto contínuo é a sempre renovada expectativa do “novo”, abrindo, pois, todas as comportas da subjetividade humana.  

Contudo, essa viagem sem volta dos homens e mulheres modernos não é um vale-tudo: viver em um regime de historicidade em que não há mais uma fonte de sentido unitária para quaisquer preceitos e regras, tal como a religião um dia prometeu ser de maneira inconteste, fez com que ganhássemos um bônus e pagássemos um tributo, respectivamente, a autonomia do pensamento como o lócus do direito à crítica em um mundo onde não há um recôndito sequer da realidade que não possa ser posto em questão em um debate reconhecido por todos; e a vacuidade da condição moderna onde, não raro, vemos a nós mesmos “à deriva” com essa ausência de um elemento unificador das múltiplas filiações valorativas a que estamos sujeitos desde então.

Copo metade cheio, metade vazio, eis que somos instados a fazer escolhas e estas, para retomar o fio da discussão, têm uma inegável dimensão ética, sobretudo para quem não se vê obrigado a abrir mão do potencial crítico da Modernidade para adotar posturas dúbias como, por exemplo, a de quem presume (simulando até um certo charminho crítico) que todos os discursos sobre as relações entre o Estado de Israel e o povo palestino em Gaza e na Cisjordânia são verossímeis por terem igual pretensão de validade e, logo, caberia a quem está longe das chamas e dos destroços nada além do que isenção de ânimo. Afinal de contas, já temos problemas de sobra no Brasil para nos ater à geografia do Oriente Médio. Ademais, alguém de boa-fé poderia complementar: como não subestimar a complexidade daquele conflito sem se deixar levar pela propaganda de guerra de Israel nem pela retórica do Hamas?  

Eis uma resposta: ainda que nós, cientistas sociais, não deixemos de explorar todos os recursos semânticos possíveis da língua, materna ou não, em que desenvolvemos a nossa ciência para sermos eficazes na comunicação dos seus resultados perante nossos pares ou, em alguns casos, para sermos “lembrados” pelo mercado editorial, nem por isso a busca da verdade se deixa sacrificar pelo mero uso da retórica. Noutros termos, a verdade de uma proposição sobre a questão palestina não se confunde com um conjunto de crenças de um determinado público como a audiência cativa das mídias corporativas que se copiam no dito mundo ocidental retroalimentando o seu público com toda sorte de preconceitos sobre o mundo árabe e muçulmano.

A verdade, apreciável à luz de fatos históricos suficientemente documentados, ainda importa. Afirmar isso nos dias que correm não é só uma veleidade iluminista, mas sobretudo um ato de coragem moral. Não haveria exemplo mais bem acabado do que seja essa coragem do que o de Norman Finkelstein, cientista político estadunidense e judeu antissionista que, diante de uma ruidosa plateia alemã em 2008, desnudou as inversões ideológicas de alguns estudantes ali presentes sobre a opressão racista do Estado de Israel nos territórios palestinos ocupados:


Ser oriundo de uma tradição como o judaísmo e não ser cúmplice da sua distorção sob a forma de um verdadeiro apartheid do povo palestino mantido sem disfarce algum na expansão territorial de Israel com o advento do seu Estado étnico (1948) talvez seja a mais solitária das missões que um intelectual público possa vir a se comprometer. Mas para Finkelstein a condição moderna ainda traduz uma promessa de emancipação que valha a pena insistir ao aderir à solidariedade e ao internacionalismo quando defronta-se com a circunstância igualmente solitária dos povos – indígenas, no Brasil; palestinos em Gaza e na Cisjordânia – que vivem os horrores do imperialismo e do colonialismo no século XXI.

Guerra, terror e ultraje seletivo


Fonte: Aljazeera.

Guerra, terror e ultraje seletivo*

*Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.

Salem Nasser**

Imagine. Imagine que 2,5 milhões de judeus vivem há 17 anos numa prisão a céu aberto e que seu carcereiro decide sobre o que entra e o que sai, energia, comida, remédios… Imagine que famílias judias são cotidianamente expulsas de suas casas, suas e de seus antepassados, de sua terra por gerações, para dar moradia a não-judeus vindos do mundo inteiro. Imagine que judeus vivem cercados de muros e cercas e não podem andar pelas mesmas ruas que são livres apenas para não-judeus.

Imagine que os judeus têm a sua a identidade nacional, a sua própria existência enquanto povo, negada. Imagine que alguém, um ministro, por exemplo, diga que os judeus são animais a serem eliminados. Imagine que o carcereiro anuncia, e logo cumpre, que cortará o acesso à água, à luz, à comida, dos judeus. E imagine que aqueles 2,5 milhões de judeus, na sua prisão, são alvo, por dias seguidos, das armas mais inteligentes e mortais do mundo, e por bombas de fósforo branco e que, por exemplo, só na primeira noite de bombardeios, 140 crianças morrem….

Agora, imagine que os judeus são palestinos. Você acordou, finalmente, agora? Se não acordou, vou dar uma dica: você precisa imaginar que o palestino é um ser humano como o judeu; e você precisa imaginar que, assim como os judeus e todos os demais seres humanos, os palestinos podem ser civis. Crianças tendem a ser civis.

O jornal Folha de S. Paulo passou a chamar o Hamas de grupo terrorista porque “Segundo o Manual da Redação, a palavra terrorista deve ser usada para qualificar quem “pratica violência indiscriminada contra não combatentes a fim de disseminar pânico e intimidar adversários””.

Não li versões recentes do Manual da Redação da Folha, mas lembro com saudades de uma propaganda, histórica, que o jornal veiculou e que terminava com uma belíssima frase: “é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade!”.

A Folha parece não querer se dar ao trabalho nem mesmo de dizer a verdade. Ela reporta o que o Hamas usou como justificativa para o ataque, mas não nos conta que é verdade o que o grupo disse. A verdade pode não justificar os atos, mas não deixa de ser verdade. Reporta o que Benjamin Netanyahu disse, mas apenas a parte que interessa a Benjamin Netanyahu.

A Folha pode chamar o Hamas de grupo terrorista para se manter fiel ao seu Manual, mas, para manter-se fiel ao mesmo Manual, precisaria se referir a Israel como um Estado terrorista e aos seus governantes como terroristas, de acordo com a sua própria definição.

Não discutirei o conceito técnico de terrorismo, que não existe, mas direi algo sobre o uso retórico da palavra.

Antes, no entanto, digo que existem tratados internacionais que estabelecem o Direito internacional humanitário – o que se pode e o que não se pode fazer na guerra –, que definem o crime de genocídio, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade, entre estes o crime de apartheid.

Se alguém se der ao trabalho de ler, verá que, tecnicamente, Israel viola todas as normas possíveis do Direito humanitário e verá que os governantes e militares israelenses são criminosos de guerra e culpados de crimes contra a humanidade, inclusive aquele de apartheid. Não chego ainda a dizer que sejam culpados do crime de genocídio porque não tenho certeza de que a limpeza étnica de um povo sobretudo pela expulsão do território equivale, exatamente, à tentativa de operar a “destruição, total ou parcial, de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

Assim, se a Folha faz questão de abarcar, no modo como se refere ao Hamas, o que percebe como violações do Direito humanitário ou como crimes de guerra ou, ainda, crimes contra a humanidade, eu recorreria a outra terminologia que não a de terrorista.

Mas, para fazer bom jornalismo, precisaria se referir, ao menos, do mesmo modo a Israel, suas autoridades e seus militares.

Bom jornalismo? Não quero ensinar a missa ao vigário, mas a Folha deve saber, não pode não saber, que quando se refere ao Hamas como grupo terrorista, nada mais do que diga ou reporte interessa ou fará qualquer diferença! Assim que diz “grupo terrorista” ela tira qualquer razão aos palestinos e permite tudo a Israel. Todos os crimes são permitidos contra o terrorista! Esse é o poder retórico da palavra.

Se isso não consta do seu Manual da Redação, recomendo fortemente a sua reciclagem.

**Salem Nasser é professor da Faculdade de Direito da FGV-SP.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

A demissão de Marcelle Decothé: não foi racismo reverso! A função exige cálculo político.

Fonte: Thiago Amparo, perfil na rede social X (Twitter)

 
Por Jefferson Nascimento*

Algumas reações contrárias à demissão da assessora-chefe do Ministério da Igualdade Racial seguiram a avaliação de que "pessoas negras nunca têm uma segunda chance". Infelizmente, a avaliação está historicamente correta, mas parece inadequada para o caso. Esse caso é sobre pré-requisitos básicos para uma assessora-chefe de Ministério: capacidade de realizar cálculo político e agir adequadamente no exercício de função.

Para começar, um erro de avaliação da equipe ministerial, fragilizando a posição da ministra Anielle Franco, que poderia defendê-la. A equipe do Ministério da Igualdade Racial foi à São Paulo de jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). Sabe quem também usou o jatinho da FAB? Fufuca, Ministro dos Esportes, aquele do Centrão, bolsonarista até outro dia que assumiu no lugar de Ana Moser. No entanto, o Ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, e seus assessores foram em voo comercial. Não há ilícito na decisão da equipe de Anielle e Marcelle, mas evidencia - no mínimo - uma ingenuidade política ao acreditar que a mídia pouparia o governo, tendo usado essa crítica reiteradas vezes para o governo Bolsonaro. Mais ingênuo ainda seria esperar que a parcimônia dispensada à Fufuca se estenderia a elas. Silvio Almeida compreendeu bem os riscos. É possível argumentar que o uso dessa vez é amparado por um dos três critérios (missão institucional) e que nem de longe se equivale aos abusos de outrora. Porém, os membros do governo Lula devem ser bem céticos em vez de esperar essa isenção de empresas jornalísticas cuja agenda política já ficou clara diversas vezes. Era, portanto, esperado que Anielle Franco fosse objetiva ao explicar a missão institucional previamente e determinasse que todas as servidoras evitassem vídeos/stories em clima de festa com cânticos de torcida dentro do avião - e ela mesmo não fizesse. Esses deslizes abriram margens para explorações indevidas do fato.

Para piorar, o Protocolo poderia ter sido assinado em Brasília ou na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no Rio de Janeiro em evento anterior à final. O jogo poderia ser usado para exibir faixas, vídeo institucional no telão do estádio, anúncios e/ou camisas para publicizar a parceria. Consta que a iniciativa de assinar o documento no Morumbi foi sugerida pelo próprio Ministério da Igualdade Racial. Há aí, talvez, um desconhecimento por parte da equipe: uma das formas de sedução usadas pela CBF para aumentar seu capital político após a proibição de doações de campanha é justamente dar convites, cargos, camisas e comendas. Do mais singelo ingresso para um jogo, chefia de delegações em jogos e competições até cargos remunerados serviram para alimentar sua bancada no Congresso e têm aproximado a CBF dos últimos governos. 

Além dessa exposição e fragilidade da equipe ministerial, a demissão de Marcelle Decothé ocorreu após uma sucessão de erros que podem ter custos políticos consideráveis dificultando ações da própria pasta e contrariam o manual de conduta de servidores. A seguir o elenco de problemas:

1) O primeiro story é uma foto de outras servidoras do Ministério com camisas da seleção brasileira. A legenda ironiza dizendo que, em "30 segundos com a CBF", as colegas teriam se tornado "patriotas" e, por isso, seriam (ou poderiam ser) canceladas. Ora, não sejamos ingênuos sabemos que patriota é um eufemismo recente para bolsonarista, principalmente quando associado à camisa da seleção brasileira. Porém, essa ironia ocorreu durante a viagem para uma missão do governo justamente junto à CBF. Como construir pontes e relações políticas ironizando a outra entidade? É claro que a CBF tem um histórico que merece atenção e crítica, mas também é preciso ser justo: Ednaldo Rodrigues tem sido um presidente com ações de combate ao racismo. Que tais ações não caracterizam um ativismo, concordamos. Mas, como servidoras do Ministério da Igualdade Racial podem se dar ao luxo de atacar uma entidade que, mal ou bem, começou a tratar do tema? Inclusive, na contramão do que faz a Federação Internacional de Futebol (FIFA). O evento em questão, aliás, ocorreu no Morumbi, dentre outros motivos, pela preferência da equipe do ministério assinar o Protocolo no jogo da final da Copa do Brasil em uma aproximação maior que o necessário para ações desse tipo. O fato é que a brincadeira mirou as colegas e a crítica ao bolsonarismo, mas acertou a entidade cuja parceria para o Protocolo era a razão da viagem.

2) Há um story que critica a entrada no estádio dentro de uma viatura da Polícia Federal (PF). Uma crítica que não é possível afirmar se foi endereçada à força de segurança ou à situação. O fato é que Marcelle poderia abrir mão dessas facilidades e pegar a fila como os torcedores comuns. Ao não fazer isso, sugere que não estava incomodada com a facilidade e queria, na verdade, fazer outro tipo de crítica. De todo modo, sem contexto, pareceu uma crítica aleatória e gratuita a uma força cujas relações com a esquerda não são e não tendem a ser fáceis, mesmo na gestão Flávio Dino.

3) A crítica aos torcedores do São Paulo Futebol Clube demonstra dois problemas. (1) Hipocrisia ao procurar a diversidade nos camarotes destinados às celebridades e autoridades. De fato, os preços da final impôs uma maior elitização no geral, mas não seria no camarote que ela encontraria a diversidade em jogo algum e em qualquer estádio brasileiro. Ela poderia ir ao encontro do povo nas arquibancadas, sobretudo no anel superior ao sol de quase 40 graus. E ela não foi, não é? (2) Revela também desconhecimento ao reforçar estereótipos antigos (torcedor são-paulino elitizado) e ignora o esforço de setores importantes da torcida (vide Bonde do Che) na defesa de pautas de esquerda, no ativismo em defesa de causas populares e combate ao racismo. Fruto de hipocrisia e desconhecimento, a crítica configura ainda um erro político gravíssimo: foram grupos dessa torcida que fizeram o presidente Júlio Casares não receber Bolsonaro com status de autoridade, quando este foi levado ao Morumbi por Tarcísio e Ricardo Nunes. Sequer aquela foto típica em que algum diretor presenteia o convidado com a camisa ocorreu. Bolsonaro não ficou no camarote da diretoria e ainda foi hostilizado por torcedores. Faz sentido interditar o diálogo com essa torcida? Até porque o mesmo jamais ocorreu no Flamengo, com Landim, onde Bolsonaro era presença constante em jogos e até levantando taças nos títulos recentes. E mais: qual contribuição esse ataque trará para a construção de um futebol brasileiro mais popular? No fim, foi só ataque incompatível com a natureza da presença de Marcelle no Morumbi.

4) Para completar a falta de cálculo político há um story atacando os descendentes de europeus e paulistas. O São Paulo sequer nasceu como clube de comunidade de imigrantes. Mas, isso seria exigir que ela se interessasse pela história do clube. Porém, a questão central é que politicamente a declaração é desastrosa para o governo. Governo no qual Marcelle Decothé é servidora. O cerne não debater se faz ou não sentido defender "o legado dos imigrantes europeus" e sequer tratar de alguma afinidade com imaginário do bandeirantismo. A questão apenas é: qual a razão e a utilidade política para tais críticas e ataques sem contexto?

5) Marcelle ainda fez críticas ao Flamengo: "diretoria fascista" e atletas xingados com palavrões (p** no koo/c*). O desabafo seria comum se partisse de torcedores na arquibancada visitante do Morumbi. Porém, é adequado quando expresso por uma assessora ministerial em serviço? Quem são esses atletas assim xingados? Seriam apenas os atletas paulistas, descendentes de europeus e brancos que merecem esse termo "p** no koo/c*"? Pela tietagem, sabemos que Gerson não está dentre esses criticados, mas e Wesley, Gabigol, Bruno Henrique e Victor Hugo? Pergunto para entender se nesse momento também a assessora se preocupava com a questão racial ou se ela só importava na avaliação de Marcelle sobre a torcida rival elitizada com a qual compartilhava o camarote.

É possível ainda ressaltar o silêncio de Marcelle e toda a equipe do Ministério quando a Polícia Militar usou a força para dispersar torcedores pobres que foram ao estádio depois do jogo homenagear os jogadores. Esses torcedores não eram os torcedores do camarote, não puderem ver o jogo in loco como Marcelle, Anielle e Fufuca. Esses torcedores apenas poderiam ver seus ídolos pelas grades do portão de saída do estádio. Não é honesto afirmar omissão ou má vontade da equipe do Ministério da Igualdade Racial, o histórico de militância de Anielle e Marcelle (e não do ministro dos Esportes) confirmam o real engajamento delas com a luta antirracista. Porém, demonstra o simples, elas não viram. Não viram porque não estavam próximo dali, não viram porque entraram, assistiram o jogo e saíram como autoridades que são. Não viram, como não poderiam ver alguma diversidade (ainda que pequena pelos preços da final) desde o camarote das autoridades. Daí o cuidado com as armadilhas e seduções do poder, que podem distanciar as pessoas de suas bases.

Infelizmente, é verdade histórica que pessoas negras não recebem o benefício da dúvida - sobretudo mulheres negras - e quase nunca contam com uma segunda chance na nossa sociedade e isso tem a ver com a dinâmica do poder. Entretanto, neste caso, cabe a reflexão diante da sucessão de postagens irônicas e agressivas: não se deve esperar cálculo político de uma assessora-chefe? Existiria objetivamente uma extensão de dano político para justificar ou não a demissão de Marcelle Decothé? É claro que é uma estupidez o argumento de um racismo reverso mobilizado por alguns. Não é esse o cerne da questão e, sim, o fato de que a principal assessora de um ministério precisa agir politicamente, principalmente em missões institucionais.

*Jefferson Nascimento é cientista político, professor do IFSP-Campus Sertãozinho, membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos.

terça-feira, 25 de julho de 2023

No Pasarán! Eleições Espanholas de 2023 - André Kaysel

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No Pasarán! Eleições Espanholas de 2023**

André Kaysel***

Em que pese ter sido o mais votado, o direitista Partido Popular (PP) muito dificilmente governará a Espanha. A legenda liderada pelo galego Alberto Nuñez Feijó obteve 136 cadeiras no parlamento espanhol (33% dos votos), contra 122 do Partido Socialista Obrero Español (PSOE), do atual Presidente (Primeiro-Ministro), Pedro Sãnchez, com mais de 31%.

Para formar governo, uma coalizão necessita de 176 deputados, 50% mais 1 dos 350 acentos da Câmara. O problema para o PP é que seus sócios da extrema-direita, o Vox de Santiago Abascal - muito próximo de Bolsonaro - obtiveram 33 cadeiras, 19 a menos do que nas eleições de 2019. Já a plataforma de esquerda Sumar, da atual Vice-Presidenta Yolanda Díaz, que engloba a antiga Unidas-PODEMOS, obteve 31 cadeiras, praticamente impatando com a ultra-direita em percentual de votos, cerca de 12% cada.

Pois bem, o bloco da direita obteve 169 acentos, enquanto a esquerda alcançou 153, portanto, nenhum dos dois conseguirá sozinho formar governo.

E as 28 cadeiras restantes? A maioria pertencem a partidos regionais e nacionalistas, sobretudo no País Basco e na Catalunha. Alguns estão mais à direita, como o PNV e Junts, outros mais à esquerda, como Eh Bildu e ERC. Porém, nenhum partido nacionalista basco ou catalão irá formar um governo com PP e Vox, representantes do nacionalismo castelhano, monárquico, católico e neofranquista.

Assim, a tarefa de Feijó é como a quadratura do círculo. Sua única chance seria que essas forças minoritárias se abstivessem na votação da investidura, permitindo que ele formasse um governo de minoria, o que é pouco provável.

Assim, Sánchez, embora tenha ficado em 2o. lugar, tem mais chance de chegar a um acordo com Sumar e os nacionalistas bascos e catalães e continuar no Palácio de La Moncloa. Outra possibilidade bem plausível é de um bloqueio total, que obrigue à convocação de novas eleições em breve.

Seja como for, a vitória do PP parece ter sido uma vitória de Pirro, sobretudo pela derrota de seus aliados de extrema-direita, com os quais pretendiam formar o governo mais reacionário da Espanha desde a redemocratização no final dos anos 1970. Como bem disse Yolanda Díaz em seu discurso, a Espanha e a Europa irão dormir mais tranquilas. Pelo menos dessa vez, valeu pelo voto o lema da Passionaria Dolores Ibarruy: "! No Pasarán!".

* Massacre in Korea, Pablo Picasso. Disponível em: https://fineartamerica.com/featured/massacre-in-korea-by-pablo-picasso-1951-pablo-picasso.html, acesso em 25 de julho de 2023.

** Publicado originalmente no perfil de Facebook do prof. André Kaysel em 24 de julho de 2023. Reproduzimos aqui com a autorização do autor.

*** André Kaysel é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Kaysel é atualmente diretor do CEMARX, o Centro de Estudos Marxistas da Unicamp, e autor, dentre outros trabalhos, de "Entre a nação e a revolução: marxismo e nacionalismo no Peru e no Brasil (1928-1964)" publicado pela Alameda Editorial.

domingo, 2 de julho de 2023

Mídia brasileira: tragédia e farsa em um blockbuster hollywoodiano

 Por Jefferson Nascimento*

              (Foto: Shutterstock)

Hoje, 02 de julho, uma das manchetes em destaque no portal Globo.com recebeu o título “Com intensa agenda internacional, Lula recupera espaço do país na política externa, mas patina sobre a guerra na Ucrânia, avaliam especialistas”[i]. Essa matéria não é isolada, chama a atenção o ativismo da imprensa nacional em relação ao conflito na Ucrânia com um viés convergente com a posição dos Estados Unidos. Ao ler a matéria, qual não é a surpresa: apenas um dos especialistas falou sobre a guerra, o ex-diplomata Paulo Roberto de Almeida, que se tornou diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri) no governo Temer e foi exonerado no governo Bolsonaro.  Almeida, em entrevista ao canal MyNews em 2021, comentou a demissão de Ernesto Araújo e justificou o anonimato dos diplomatas na carta de repúdio à Araújo pelo risco de represálias que atrapalhariam a carreira no Itamaraty, ilustrando com exemplos pessoais: teria sido censurado em “governos tucanos” e colocado nas “escadas e corredores nos tempos lulo-petistas”. O mesmo diplomata, apesar de ter sido demitido na gestão Bolsonaro e ter se tornado crítico à Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho, participou de eventos do Brasil Paralelo, como o Webinário 2018 Brasil e é autor do livro O Homem que pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos[ii]. Como se vê, uma escolha a dedo para manter o viés pró-Estados Unidos. O ex-diplomata faz afirmações como: “O que Lula está fazendo é absolutamente inócuo, ninguém apoiou esse clube da paz [...]” e “A gente vê o antiamericanismo da velha esquerda [...]”. Pela volta do tema à tona, resgato um texto de minha autoria publicado no Jornal A Vanguarda. O texto resgata fatos e reflete sobre causas do conflito, saindo desse simplismo de forjar um único agressor para encaixar na máxima reverberada por Almeida de que “quando você tem um agressor, o dever de todos os estados membros é vir em socorro e apoio à parte agredida”.[iii] Segue o texto.

Uma polêmica tomou conta dos noticiários: a posição de Lula em afirmar que a Rússia não era a única responsável pelo conflito. O foco foi a frase: “Decisão da guerra foi tomada por dois países”. Não pretendo defender Lula. Meu ponto é direto: problematizar a militância da imprensa na posição pró-EUA omitindo fatos e acontecimentos indispensáveis para compreensão do conflito. O ápice foi um veículo de comunicação dar status de escândalo a uma fake news iniciada por um secretário do governo estadual paulista afirmando que a estatal ucraniana Antonov, mesmo em crise financeira, faria investimentos de US$ 50 bilhões no estado de São Paulo, cancelados após a posição de Lula sobre a guerra. A empresa desmentiu e negou ter representantes no Brasil. A emissora se defendeu dizendo que era necessário “apurar”, pois “a reunião existiu”. Ora, não sei o que é mais grave: um secretário de governo mentir ou ser incapaz de checar com uma empresa a identidade de seus representantes. Sobre a reincidente emissora, não é preciso novos comentários.

Essa militância obstinada nega fatos que ultrapassam e antecedem qualquer fala de Lula ou posição do Ministério das Relações Exteriores. Sendo direto: afirmar que EUA e União Europeia, por meio da OTAN, e a Ucrânia têm parcela de responsabilidade na guerra não retira a responsabilidade russa e nem torna Putin um herói. Diferente de filmes e novelas, a realidade é multifacetada.

Esse adendo fiz em fevereiro de 2022 no texto “Rússia, Ucrânia e OTAN: a história sempre importa”[iv]. O texto sintetiza fatos públicos não sendo um “furo”. Na apresentação afirmei: “Elencar os fatos recentes decisivos para esse conflito não é o mesmo que identificar um ‘mocinho’ nesse trágico evento” e concluí:

[...] ainda que o imperialismo russo mova Putin a reconhecer a soberania das províncias rebeldes pró-Rússia e a avançar militarmente sobre o vizinho, não se pode ocultar que o outro imperialismo avançou militarmente ali e progride em todo mundo, seja pela força das armas ou pela desestabilização interna de países considerados estratégicos. A condenação à invasão russa na Ucrânia não pode ser feita sem considerar a ação da outra potência que, vez ou outra, culmina num humorista ou num boçal submisso na presidência dessas áreas de interesse.

Veja que depois de fevereiro de 2022 sanções, envios de armas e outras ações envolveram ainda mais a OTAN, EUA e a UE. A Primeira Guerra Mundial já mostrou que não se resolve um conflito complexo escolhendo bodes expiatórios. Ademais, a reunião com o ministro russo Sergey Lavrov terminou com o Brasil defendendo o fim imediato da guerra e a Rússia pedindo um acordo que "resolva de forma duradoura o conflito". Posições diferentes, não é?

É preciso reconhecer que a polêmica é facilitada pela comunicação catastrófica do governo brasileiro. Em diversos momentos, Lula e os ministros falam sem uma articulação com a equipe de comunicação caindo em armadilhas, muitas vezes, por falta de clareza e objetividade.

No entanto, a posição dura dos EUA não é gratuita. Desde a Lava Jato, o Brasil foi colocado novamente numa posição frágil submisso aos interesses de Washington. A posição de Biden em reconhecer Lula desde o primeiro momento também não viria de graça. Cabe ao Brasil comunicar melhor suas posições. O chanceler Mauro Vieira faz, Lula insiste em falar dentro e fora do país como se estivesse em 2003.

A conjuntura mudou e vários países passaram por desestabilização política desde fora, sob formas diversas de golpes (lawfare, revoluções coloridas, revoltas supostamente populares e outros) e em seus lugares governos alinhados aos interesses estadunidenses, destacados pela fragilidade ou autoritarismo, tocaram um processo antipolítico, antipovo, antinacional sob a aparência da representatividade exaltada na democracia liberal. Prática que deu notoriedade a figuras reles como Juán Guaidó na Venezuela e influenciou manifestações até em Cuba em 2021. Retomo outra passagem de 2022:

Zelensky também negociou com Trump quando o ex-presidente dos EUA queria a investigação de Hunter Biden e sua empresa Burisma, sediada na Ucrânia. A investigação ganhou oposição do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Segunda consta, Alexander Vindman, membro do conselho especialista em Ucrânia, teria alertado para o risco de a investigação ser considerada “jogada partidária”. Vindman justificou “Sou patriota, é meu dever sagrado e minha honra defender o país”.

É isso mesmo: um membro do Conselho de Segurança, nomeado por Trump, não considerou adequada essa investigação para “defender o país”. Afinal, de Obama à Trump, passando por McCain e Biden, a Ucrânia é um projeto de Estado e o apoio dos Estados Unidos à chamada Revolução Maidan não é um empenho no combate à corrupção e muito menos uma ode à soberania nacional. O ano era 2014 e esse apoio não estava fora do contexto da Primavera Árabe e nem das think tanks que se projetaram no Brasil durante e após as Jornadas de Julho.

Após a desestabilização política, o roteiro incluiu líderes que desacreditassem as chamadas instituições democráticas e as colocasse à serviço do entreguismo e do ataque ao povo e seus direitos – Zelensky, Bolsonaro e projetos malsucedidos como Guaidó e Sérgio Moro se encontram nesse pastelão. A degeneração do caráter representativo para uma explícita concertação para o lobby de interesses alheios aos populares têm sido o mote desde a Primavera Árabe.  É nesse contexto e desse lugar que a imprensa brasileira faz essa celeuma sobre declarações que destaquem o caráter multifacetado da guerra em vez de uma farsa hollywoodiana com vilões e mocinhos.


* Jefferson Nascimento é Doutor em Ciência Política, Professor do IFSP - Campus Sertãozinho, membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA).

[ii] Roberto Campos, que era apelidado de Bob Fields pelo seu norteamericanismo, foi se alinhando ao neoliberalismo ao longo dos anos 1970 e 1980, inclusive defendendo entusiasticamente as políticas de Margareth Thatcher. O livro de Almeida é uma ode a Campos, que foi ministro do Planejamento na gestão Castelo Branco, durante a Ditadura Militar, e cujo neto é o atual presidente do Banco Central, nomeado na gestão Bolsonaro. O próprio Almeida ingressou no Itamaraty durante a Ditadura, em 1977.

[iii] As frases atribuídas à Paulo Roberto de Almeida constam na matéria do Globo.com citada no início do parágrafo e acessível pelo link disponível na primeira nota.

sábado, 1 de julho de 2023

Uma milonga para Helinho Coelho - George Coutinho

 

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Uma milonga para Helinho Coelho**

George Gomes Coutinho***

Conheci Helinho quando eu tinha 19 anos. Eu fui seu aluno. Ele tentou me convencer das virtudes de Gramsci na época. Não curti. Achei Gramsci moderado demais e eu estava mais sintonizado com a nitroglicerina de gente como Bakunin.

Muitos anos se passaram e Gramsci estava lá muito presente em minha tese. Helinho venceu.

Entre graduação e tese nos encontramos em diferentes ocasiões. No antigo Terapia´s Bar, ainda perto do Liceu, quando um intrépido e troncudo Helinho (sim, ele era forte) chega pilotando uma Caloi 10 tão magrinha que desafiava a física newtoniana. Papo vai, papo vem.. política, música, cultura e um engradado de cerveja são consumidos.. E lá se foi ele na mesma Caloi 10 em que tinha chegado.

Teve aquele dia improvável também. Em coordenada não rastreável por GPS, alguma coisa ali esquecida “nos fundos de Chapéu de Sol”, o reencontro. Era um trailer, ou o que restava de um, com pessoas reunidas ouvindo o violão dele.. Na mesa um scotch circulava generosamente. Eu, pato novo naquela lagoa, fiquei ali curtindo o papo, a viola e o céu estrelado só na cervejinha. Saí meio trôpego com o céu escuro. Mas, pelo que vi, Helinho estava com pique para amanhecer ali com seu repertório.

Ainda Helinho era macho pra caralho. Em 2018, quando a UFF Campos foi violada por um juiz eleitoral e seus brutamontes, ocasião em que a porta do DACOM foi arrombada para apreenderem, vejam só, um punhado de panfletos que deitavam inertes no fundo de um armário trancado dos estudantes, Helinho peitou defendendo a instituição. Foi ameaçado de prisão. Eu sei que não foi a primeira vez e pode nem ter sido a última.

Helinho era muita coisa. Músico, professor, político (foi vereador na cidade), advogado, historiador, poeta, agitador cultural.... e, como se não bastasse, gente boa! Como era gente boa!

Nos esbarramos uns 10 dias atrás em uma calçada da Pelinca. Estava especialmente elegante! “Tá mal intencionado hein?”, assim eu disse. Ele deu aquele sorriso meio maroto que todos nós curtíamos.

Rest in Power Helinho. Você dizia: “Essa cana, é sacana!”, em uma crítica à brutalidade de nosso canavial. Por sua saída tão abrupta eu digo que por vezes a vida também é sacana meu camarada....

* Helinho em 2018 em sala de aula da UFF-Campos, instituição pela qual se aposentou em dezembro de 2022. Foto de Johnatan França de Assis.

** Hélio Coelho, ou simplesmente Helinho como era carinhosamente conhecido, foi uma das figuras mais ativas da vida intelectual campista nos últimos 50 anos. Ele foi advogado, historiador prático, escritor, violonista, cantor, poeta, analista político e agitador cultural. Foi vereador e Presidente da Câmara Municipal durante a Ditadura e um dos líderes do Movimento pelas Liberdades Democráticas. Também foi membro da Academia Campista de Letras, associação que presidiu neste século XXI. O querido Helinho nos deixou na última quinta-feira aos 75 anos.

*** Professor da área de ciência política no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.