quinta-feira, 24 de maio de 2018
sexta-feira, 20 de abril de 2018
ICArabe - Nota de repúdio às declarações da senadora Ana Amélia sobre os árabes
O Instituto da Cultura Árabe repudia veementemente a declaração da senadora Ana Amélia (PP-RS) em sessão do Senado transmitida pela TV que, ao criticar um depoimento da senadora Gleisi Hoffmann sobre o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva à rede de televisão Al Jazeera, relacionou a emissora a grupos terroristas.
A Al Jazeera é um dos grupos de comunicação mais respeitados do planeta. Além de praticar um jornalismo que serve de referência, entrevista e promove reportagens com líderes, artistas, intelectuais e ativistas que se identificam com a luta em defesa dos direitos humanos, respeitando a diversidade de opiniões.
Relacionar uma emissora de TV do mundo árabe a grupos terroristas, além de demonstração de desconhecimento em relação aos países árabes, é prática explícita de preconceito racial e islamofobia. A Constituição brasileira é clara quanto aos delitos de racismo e discriminação a quaisquer formas de sistemas religiosos e profissões de fé. Partindo de uma senadora da República, constitui-se em um constrangimento ainda maior para nossa a sociedade.
O Brasil historicamente é destino de imigrantes de diversas partes do mundo, entre eles, os árabes. Os imigrantes sempre viram no país um local acolhedor para recomeçarem suas vidas. Seu legado está presente em todas as áreas do conhecimento e na construção do próprio país.
Temos certeza de que a sociedade brasileira em geral não aceita e não compactua com atos dessa natureza, que incitam crimes de ódio, abrindo-se as portas à barbárie.
O ICArabe, organização autônoma, laica, de caráter científico e cultural, trabalha desde sua concepção para desconstruir esses estereótipos, via promoção e divulgação da rica cultura árabe. Valorizamos o caminho da harmonia entre as comunidades e entre os povos e o respeito às diferenças. Acreditamos que a integração entre as culturas e o diálogo são essenciais, assim como o respeito aos direitos humanos de todas as pessoas, brasileiras ou não.
O incentivo a práticas preconceituosas, de qualquer natureza, e a difusão do discurso do ódio constituem atos hediondos e instrumentos de fragmentação e de segregação de um povo conhecido em todo mundo por sua união e amabilidade nas relações com todas as etnias de sua constituição.
Diretoria do Instituto da Cultura Árabe
Fonte: ICArabe.
Acesso: http://www.icarabe.org/node/3344
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Tempos sombrios

Por Paulo Sérgio Ribeiro
Há momentos em que se faz necessário não subestimar o quão
deprimente pode ser o cenário de uma época.
Comecemos por um dado anedótico: a senadora Ana Amélia (PP-RS) se contrapôs à recente entrevista da também senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) à TV Al Jazeera[1] - na qual denunciava a ilegalidade da prisão do ex-Presidente Lula e o alinhamento do golpe de Estado em curso no Brasil com o interesse nacional estadunidense - e, pasme, confessou-se preocupada com a possibilidade de sua colega parlamentar ter feito uma “exortação” ao Estado Islâmico para “vir ao Brasil proteger o PT”.
Comecemos por um dado anedótico: a senadora Ana Amélia (PP-RS) se contrapôs à recente entrevista da também senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) à TV Al Jazeera[1] - na qual denunciava a ilegalidade da prisão do ex-Presidente Lula e o alinhamento do golpe de Estado em curso no Brasil com o interesse nacional estadunidense - e, pasme, confessou-se preocupada com a possibilidade de sua colega parlamentar ter feito uma “exortação” ao Estado Islâmico para “vir ao Brasil proteger o PT”.
Pouparei o leitor de objeções factuais à capacidade de uma
parlamentar brasileira influenciar uma organização terrorista no Oriente Médio.
Supô-lo seria um exercício de credulidade que beira ao ridículo. Todavia, não
entendo que a senadora Ana Amélia seja uma estúpida, ainda que xenófoba.
Capitalizar politicamente a ignorância tornou-se um recurso de poder de
primeira grandeza, na medida em que nunca gerou tantos dividendos eleitorais
estimular a regressão dos costumes daqueles que, ironicamente, rechaçam a
política profissional. Um verdadeiro círculo vicioso.
Romper com tais vicissitudes nos leva a indagar por que a luta
política parece ter perdido o seu potencial pedagógico se nunca tivemos à mão
tantos meios favoráveis ao monitoramento reflexivo da vida social. Ora, alguém
indagaria, por que ser demasiado pessimista se a Internet nos faculta tais
“meios” diante dos falsos consensos fabricados na imprensa tradicional? Hoje,
somos capazes de acessar um sem número de informações minimamente confiáveis e
compará-las para obter, por exemplo, um olhar mais arejado sobre o mundo árabe
do que a Ana Amélia.
Em tese, essa ponderação estaria correta; porém, a vida em rede
difundida globalmente em nada assegura o reconhecimento da alteridade de um
indivíduo, grupo ou nação como elemento constitutivo de uma experiência em
comum. Este não reconhecimento assume a forma de uma comunicação hiperativa no
tempo intemporal da Internet que, paradoxalmente, amplia a distância entre o eu
a sua própria subjetividade. Construí-la requer tempo e este não se confunde
com o frenesi dos cliques em busca da validação de um discurso autorreferente.
Tanto na Internet quanto no bar da esquina, o galope acelerado da
barbárie é protagonizado pelo "cidadão de bem" cuja segurança
emocional é tributária da mediana mediocridade da “nobreza togada”. Este estamento – desembargadores, juízes, mas também procuradores e delegados federais – serve de suporte a idealização
de uma ordem política em que conflitos distributivos sejam suprimidos ao invés de administrados articulando-se interesse público com o pensamento estratégico sobre o desenvolvimento, isto é, sobre a ampliação possível de nossa capacidade de iniciativa na história mundial.
Longe estamos da autodeterminação enquanto povo-nação. No lugar dela, temos as cruzadas moralistas contra a corrupção assumidas pelo Poder Judiciário que configuram não apenas o expediente usual das corporações em disputa pela apropriação do excedente no Estado – a corrupção sistêmica que ninguém vê –, mas uma censura a toda e qualquer perspectiva que evidencie uma conexão de sentido entre a adesão aos valores tradicionais da classe média e a tentação das soluções autoritárias. Intelligentsia para quê, não é mesmo?
Longe estamos da autodeterminação enquanto povo-nação. No lugar dela, temos as cruzadas moralistas contra a corrupção assumidas pelo Poder Judiciário que configuram não apenas o expediente usual das corporações em disputa pela apropriação do excedente no Estado – a corrupção sistêmica que ninguém vê –, mas uma censura a toda e qualquer perspectiva que evidencie uma conexão de sentido entre a adesão aos valores tradicionais da classe média e a tentação das soluções autoritárias. Intelligentsia para quê, não é mesmo?
O apelo a uma autoridade forte que nos redima do caos republicano jaz um afeto primário – o ódio – socialmente
referenciado – ódio contra os pobres – que, para ser saciado, demanda a
inversão simbólica da relação de dominação: em um país no qual seis pessoas
detêm a riqueza equivalente a das 100 milhões mais pobres[2], quem, sob o pavor-pânico de ser confundido com um daqueles milhões subalternizados, é adestrado para subir com êxito os degraus da hierarquia social converte-se facilmente em
opressor, e o ressentimento quanto à altura (e agruras) daqueles degraus transmuta-se em agressividade autoritária contra
qualquer um que – através da ciência, das artes ou do ativismo identitário – revele os limites de classe da sua vida pusilânime.
Diante deste cenário, há de se perguntar se a ideia de nação ainda
terá um lugar de pertinência entre nós ou se o Brasil se reduzirá a campo de pastagem
para um povo-massa destituído de uma agenda que lhe renove a
ideia de igualdade.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
quinta-feira, 12 de abril de 2018
UENF 25 Anos: Conferência de Emir Sader
Professor da Uerj aborda dia 16 “A crise hegemônica no Brasil contemporâneo”
Como parte das programações pelos 25 anos da UENF, o professor Emir Sader, da Uerj, ministra em em 16/04/18, no Centro de Convenções da UENF, a Conferência “A crise hegemônica no Brasil contemporâneo”. Antes da Conferência, o reitor da UENF, Luís Passoni, será agraciado com a Outorga da Medalha Tiradentes, pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Os eventos terão início às 18h, com entrada aberta a toda a comunidade.
Graduado em Filosofia, mestre em Filosofia Política e doutor em Ciência Política pela USP, Emir Sader atuou como professor da mesma universidade nas áreas de Filosofia e Ciência Política. Foi pesquisador do Centro de Estudos Socioeconômicos da Universidade do Chile e professor de Política da Unicamp. Atualmente, atua como diretor do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Uerj, onde é professor de Sociologia. Atua também como secretário executivo do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.
Emir Sader possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Estado e Governo. Colabora com publicações nacionais e estrangeiras, sendo membro do conselho editorial do periódico inglês New Left Review e um dos organizadores do Fórum Social Mundial. De 1997 a 1999, foi presidente da Associação Latinoamericana de Sociologia (ALAS).
Dentre mais de 30 livros escritos, Emir Sader é autor de “10 Anos de Governos Pós-neoliberais no Brasil – Lula e Dilma”, “Século XX, uma biografia não autorizada“, “A transição no Brasil: da ditadura à democracia?”, “Da independência à redemocratização“, “O mundo depois da queda” e “Vozes do Século“.
Fonte: ASCOM/UENF.
Acesso: http://www.uenf.br/dic/ascom/2018/04/05/informativo-da-uenf-06-04-18/
domingo, 8 de abril de 2018
Do cerco à prisão: a resiliência de um líder democrata

Por Paulo Sérgio
Ribeiro
07 de abril de 2018 não cabe nas
monótonas folhas do calendário, bem como não cabe neste texto uma síntese dos
significados que poderíamos atribuir a ele. Nesse dia, assistimos à mobilização
popular no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo/SP, iniciada com a
decretação da prisão do ex-Presidente Lula, que ali se reunira com dirigentes do PT, lideranças de outros partidos do campo progressista (PSOL,
PCdoB entre outros), entidades sindicais e movimentos sociais de expressão
nacional, como o MST, devolvendo-nos a imagem da política como uma pulsão de
vida que ainda habita em nosso agir.
A criminalização da maior
liderança nacional depois de Vargas parecia chegar ao seu clímax e a narrativa
que lhe servia de moldura encontrava finalmente o seu epílogo. Mas (sempre há um “mas”...)
faltava combinar os detalhes desse roteiro punitivista com quem não tem outra
vocação além do protagonismo na luta política: Lula. Posso imaginar a tensão
que se acumulava sobre os seus ombros e o seu grupo de apoio para uma tomada
de decisão cujas ponderações táticas mesclavam-se com o clamor pela resistência
ao arbítrio. Ora, por que não resistir diante de uma orquestração de atores institucionais
cuja competência para dizer o direito divorciou-se dos valores morais
universalmente aceitos em torno da garantia de ampla defesa? Por que acatar uma
prisão que se sabe ilegal?
Eu, sentado aqui no conforto do
meu lar, batucando esse teclado, não me atreveria a julgar o posicionamento de
Lula, pois a resposta que teve de dar àquelas questões cruciais foi
o mais solitário dos atos, ainda que cercado por tantos colaboradores
experientes. Provavelmente, para além do risco de invalidar tentativas futuras
de recorrer da decisão, pesou-lhe o custo humano da desobediência civil em face
de uma direita autorizada a tudo pelos “odiadores da política”, este poço sem
fundo de ressentimentos em estado de prontidão para abater o “inimigo público”
da vez.
Porém, dimensionando aquilo que confere
à política o seu pão de cada dia – a luta simbólica – a prisão de Lula foi como
“ele” quis. A exposição da capacidade de sacrifício de um senhor quase septuagenário foi
a deixa que os seus algozes não esperavam conceder. A comunicação emotiva de
Lula aliada à postura conciliatória com a qual conduziu os seus governos de
inclusão ratifica a sua liderança carismática e, considerando a resistência em
São Bernardo do Campo como um dos eventos mais dramáticos da república brasileira
pós-1988, garante-lhe a posteridade – essa versão secularizada do sonho de
imortalidade que os gregos antigos nos legaram. “Eu não sou mais um ser humano,
eu sou uma ideia” – frase proferida por Lula em seu discurso antes de anunciar que iria se entregar à Polícia Federal e que resume à perfeição o alcance de sua presença no imaginário social.
Lula é um preso político. Estará
o campo progressista à altura desse desafio? Haverá consensos mínimos para um
debate programático que contrarie, parcialmente que seja, a sentença
weberiana de que é improvável um líder carismático transferir a
lealdade dos seus liderados a um sucessor? Nesse cenário de crise institucional,
as esquerdas têm a chance de se reinventarem não sem antes correrem o
risco de devorar a si mesmas.
Os dados estão lançados.
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