quarta-feira, 13 de maio de 2020

Silas Malafaia, 1º cavaleiro do apocalipse brasileiro

Silas Malafaia, 1o cavaleiro do apocalipse brasileiro

Fábio Py

Bem-vindos/as ao fim do mundo (Karne Krua)

Neste texto, destaco a atuação de um dos principais agentes da base bolsonarista, o pastor Silas Malafaia, responsável por mobilizar parte do setor cristão conservador e fundamentalista. Diante do crescimento exponencial de mortes e de restrições à liberdade das pessoas, Malafaia se estabelece como um dos maiores articuladores do apocalipse ampliado com a gestão de Bolsonaro. Associar a gestão Bolsonaro ao apocalipse não é um exagero retórico. O teólogo Carlos Mesters (2013) foi quem destacou a possibilidade de vivências apocalípticas em momentos de destruições, tragédias e morte, contextos pródigos de figuras “cavalares” repletas de discursos de ódios. A análise de Mesters (2013) é interessante porque, neste momento “apocalítico”, milhares de cristãos estão hoje lendo e relendo o último livro da Bíblia para se inspirar nos tempos da pandemia do coronavírus, o Covid-19. 
O contexto apocalítico é ainda mais trágico no Brasil diante da gestão Bolsonaro, que utiliza técnicas cristofascistas para ampliar o autoritarismo, ao desrespeitar as instituições democráticas como o Parlamento e o Judiciário. O faz ao se associar a grandes lideranças evangélicas como Silas Malafaia, que se coloca como figura-chave da articulação, propaganda e produção intelectual religiosa de Bolsonaro. Por sua postura, que amplifica o caráter cristofascista do governo, Malafaia merece ser reconhecido como o primeiro cavaleiro do apocalipse brasileiro. Tal título se deve à incansável atuação do evangelista na execução de uma mensagem que se baseia na interpretação literal dos textos bíblicos, resultando em uma teologia autoritária, sedenta do sangue dos pobres, dos velhos e dos doentes. Assim, primeiro, falaremos sobre Malafaia e sua associação ao “cristofascismo brasileiro”.  
Malafaia: agente e cavaleiro do cristofascismo brasileiro 
O cristofascismo brasileiro (Py, 2019; 2020) é uma agenda do Estado brasileiro cerceador, a qual utiliza a linguagem cristã como metodologia para legitimar e ampliar a truculência na repressão aos pobres, negros, índios e heterodoxos. Mesmo não ocupando um cargo oficial no governo Bolsonaro, Silas Malafaia, como evangelista, atua como ponte teológica entre o governo cristofascista e os cristãos por meio dos vídeos e mensagens, a partir das quais justifica a política em termos teológicos e bíblicos. Portanto, sua função é estratégica. 
O cristofascismo no Brasil (Py, 2020 e 2019) precisa de figuras como Malafaia, para auxiliar na tecedura da teologia política opressiva pautada no “ódio à pluralidade democrática”, como destacou o filósofo Rancieré (2014). Destaco que o cristofascismo brasileiro (Py, 2020) é composto por técnicas governamentais de promoção da discriminação, do ódio aos setores heterodoxos, baseado no fundamentalismo cristão. Este cristofascismo, que no apocalipse do coronavírus no Brasil, foi somado à característica antidemocrática do economicismo como justificativa para a “política da morte”, termo cunhado pelo filósofo Mbembe (2014). Nessa política da morte, Malafaia se promove como cavaleiro do estado de sitio embasado biblicamente sua política cujos alvos são os pobres, os mais velhos, os diabéticos e os hipertensos. 
Esse cristofascismo se relaciona com o trabalho de Dorothee Sölle (1970), que usou o termo ao reconhecer que o nazismo era fundamentado tanto por integrantes do partido nazi, que frequentavam igrejas cristãs, quanto ao se utilizar das relações e das terminologias cristãs para sua composição – tal como hoje se faz a teologia política do bolsonarismo. Hitler utilizava jargões cristãos como chaves de seus discursos como o próprio “Conheceis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8,32), e “criou Deus, o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher criou” - para defender a família tradicional cristã alemã. O führer fez conferências em reuniões cristãs (luteranas, católicas e confessantes) e tinha lideranças cristãs no seu governo desenvolvendo o “cristianismo positivo”.
O cristofascismo brasileiro também se vincula ao legado de Walter Benjamin (1940). O filósofo escreve que o fascismo não seria um estágio da civilização, mas estaria contido na própria civilização liberal-burguesa, que produziria “estados de exceção” internamente às gestões. Portanto, a cúpula do governo cristofascista brasileiro se desenha a partir do clima apocalítico da tragédia da doença para aprofundar o ultraliberalismo em medidas pouco humanitárias em favor do setor empresarial, focando na manutenção das empresas, da produção e do capital. Neste enredo, Malafaia tem a função de munir a “guerra dos deuses” na sociedade brasileira por meio da teologia pentecostal incrementando os argumentos de Bolsonaro em prol da política da “permissão das mortes”. Vejamos quatro momentos em que o evangelista fundamenta e/ou desenvolve a política bolsonarista de ódio. 
Primeiro momento
Foto 1

Antes do apocalipse do Covid-19, o cavaleiro participou do evento The Send, ocorrido no sábado, dia 8 de fevereiro, no Estádio “Mané Garrincha”, em Brasília (figura 1). O evento foi um marco para os jovens evangélicos e os projetos missionários no Brasil fundamentalista, contando com várias personalidades cristãs. Quem também falou no evento, no mesmo estádio, foi Bolsonaro. O evangelista/cavaleiro defendeu que os jovens deveriam se manter firmes à convicção cristã, a partir de três textos: o primeiro foi de Romanos 12,2 “não vos conformeis com esse mundo mais transformai-vos pela renovação do vosso entendimento”; o segundo de Mateus 5,16 “Assim resplandeça vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifique a nosso pai que estas nos céus”; e o terceiro de Filipenses 2, 15 “para que sejais irrepreensíveis filhos de Deus, inculpáveis no meio de uma geração corrupta e perversa na quarta entre eles”. A partir deles, voltou-se à questão do testemunho dos jovens. 
Ao pregar sobre os três textos, reproduzo trechos de seu discurso. No início, apresenta os casos de “jovens muçulmanos, que vão para as universidades, na Europa. Passam lá entre cinco a dez anos e quando voltam para suas nações, voltam mulçumanos, nada muda a crença e os valores deles”. Em tom de acusação, diz: “jovens evangélicos (...) estão indo para as universidades, três meses depois de ouvir professor humanista, ateísta e esquerdopata, voltam contaminados, duvidando de crenças, valores, de Deus, chamando o pastor de fascista e homofóbico”. Dessa forma, transforma o ingresso à universidade e o acesso à pluralidade de ideias numa “guerra cultural”, uma “guerra bíblica” (Py, 2020; Lowy, 2000). Incita que os referenciais de laicidade e de secularização das geografias do Oriente sejam seguidos pelos jovens brasileiros. Com isso, reduz as diferentes pluralidades de crenças dos muçulmanos. Tudo para fundamentar sua “guerra bíblica” contra as universidades brasileiras, docentes e pesquisadores. Coloca-os todos no jargão talibã brasileiro: “humanista, ateísta, e esquerdopata”.   
Ironicamente, segue elogiando os muçulmanos (por ele idealizados como extremistas). Textualmente, afirma: “não abrem mão uma vírgula dos seus princípios”, ao inverso do que acontece “com os jovens evangélicos que vão para a universidade”. O cavaleiro de Bolsonaro ardilosamente tece uma versão da vida de “nós” versus “eles”; “bem” versus “mal”. Nesta operação de inspiração fundamentalista, Malafaia enclausura toda a mensagem da Bíblia, dos Evangelhos e de milhares de textos, em uma. Traça uma operação que simplifica a mensagem cristã, em cima do que chama “verdade bíblica” – ou seja, o que interessa a ele. Opera isso em torno da perigosa dicotomia do “nós” (jovens evangélicos) e o “mundo” - todo o resto de pessoas, os gentios, perdidos. Com sua palavra na formação dos jovens, trama uma complicada “guerra bíblica” entre os evangélicos e o restante da sociedade.    
Segundo momento
Foto 2

 No segundo momento de ação como cavaleiro do apocalipse, já se percebia o alastramento da doença no Brasil, que assistiu perplexo o presidente defender em cadeia nacional o isolamento vertical para o país. Diante da polêmica, Malafaia tratou de defender o presidente ao gravar o vídeo “Concordo com Bolsonaro! O que é pior: coronavírus ou caos social?”, no dia 25 de março (https://www.youtube.com/watch?v=lJX3MTNEZE0). Na gravação, o cavaleiro indicou a quarentena vertical (isto é, para os mais velhos), fundamentando sua posição ao afirmar que na Itália, que até o dia 17 de março tinha registrado milhares de mortes, “somente” haviam falecido cinco homens abaixo dos 50 anos, os quais, segundo Malafaia, tinham doenças anteriores. Tecia, assim, seu apoio a necropolítica de Bolsonaro lembrando que a Itália “é o país na Europa com mais idosos, e o segundo maior do mundo”.
Segue dizendo que existem mais mortos no mundo por fome, por tuberculose, que de coronavírus. Malafaia, cavaleiro do apocalipse cristofascista, fala em tom de alarde do Brasil em que “90% da população ganha aí perto é.... quatro salários mínimos. Não tem dinheiro reserva, nem alimento estocado. Eu fico indignado com esses políticos!”. Mostra com isso que, ao contrário de suas palavras, não está preocupado com a população pobre, mas, com os grandes empresários, prioridades da gestão Bolsonaro que mantêm o patrimônio intacto. Deixa com isso a população pobre e trabalhadora à mercê dos empregos, nem que isso custe a morte supostamente dos mais velhos.          
Portanto, ao fim do vídeo, como fiel cavaleiro de Bolsonaro, retira a reponsabilidade do Executivo ao frisar: “estamos numa escolha de Sofia: o que é pior, coronavírus ou caso social? Eu garanto que é caos social. Vai morrer gente, vai... lamentamos profundamente. Meu desejo é que ninguém morra, mas só um dado para vocês, a gripe influenza, no Brasil, em 2009, matou mais de 2 mil pessoas e mais de 58 mil ficaram infectados (...) a minha oração é que Deus guarde pessoas idosas, as pessoas que têm deficiência em seu organismo e que são vulneráveis a isso”. Assim, o pastor segue a linha de ‘permissão de mortes’, contudo, deixa nas entrelinhas que as mortes são inevitáveis para o país seguir (Mbembe, 2014).  
Terceiro momento
No terceiro momento, destaco como ele, no meio do apocalipse da pandemia, desenvolve uma leitura bíblica Para isso, o vídeo “Decida! Em tempo de coronavírus, medo ou coragem?” do dia 17 de abril, quando retoma algumas reflexões que já vinha desenvolvendo entre março e abril. Abre a mensagem dizendo que “o medo tem o poder de inibir seu potencial, travar o presente, e estragar o futuro. A coragem, não é ausência de medo. O corajoso resiste ao medo, controla o medo”. Nos dias de hoje apela a dicotomia “coragem” / “medo” quando a doença se alastra no país. Fundamenta com o texto de Josué: “Deus vai dar um conselho para ele quando ele estava tremendamente apavorado (...) Deus dá uma palavra para ele, Josué capitulo 1, três vezes (...) Josué: Sê forte e corajoso (...) isto é, controle o medo, domine o medo, não fique desanimado”. Ora, no meio do aumento do número de mortes, Malafaia fala de coragem contra o medo. Quase sugerindo que as pessoas enfrentem a epidemia e não deixem de trabalhar. 
Na sequência, afirma “que a mente resolve acreditar no que repetidamente é informado. Então se você só está alimentando sua mente com desgraça, com morte, com tudo que é ruim, a sua mente vai decidir ter medo”. Força uma linha, sugerindo que o medo é uma questão de opção, quando a pessoa opta em assistir “coisas ruins”. Para isso, sinaliza “para você a colocar coisas boas diante dos seus olhos (...) Veja coisas boas, ouça coisas boas (...) Porque o sábio Salomão diz uma coisa interessante: se te mostrareis frouxo no dia da angústia, a sua força será pequena”. Diante da situação trágica que o país passa, diz que cada uma deve fazer opção por coisas boas, pois assim não será “frouxo no dia da angústia”. O cavaleiro de Bolsonaro assume seu discurso: “Coragem! Vem tempo melhores para você, para sua casa, para o Brasil! No nome de Jesus, um abraço a todos.
Quarto momento
            O cavaleiro do apocalipse cristofascistas, em praticamente todas as pautas, concordou com Bolsonaro. Todavia, na crise política que ocasionou a demissão de Moro, não. A divergência não se referiu às denúncias do ex-ministro da Justiça, mas ao momento em que ocorreu a demissão, no contexto de pandemia. Na sequência, produziu vários vídeos, um a cada acontecimento que afligia a presidência: sobre Moro, sobre a Globo, sobre o STF. Contudo, gostaria de destacar o vídeo do dia três de abril, produzido após o segundo ato em favor Bolsonaro contra o STF e o Congresso, no próprio domingo, dia três (figura 3, 4, e 5), com o título Vergonha! O jornalismo inescrupuloso da Globo Lixo”. Nele, afirma que a Globo pratica um jornalismo politizado contra o presidente. Irascível, diz: “É uma vergonha! Esse jornalismo inescrupuloso e parcial. Quer dizer que a manifestação de hoje, domingo dia 03 é antidemocrática?! É antidemocrática porque rejeita o STF, porque rejeita o Moro?! Só seria democrática se a manifestação fosse para bater, malhar e ser contra o presidente?”. Malafaia, defende a manifestação, mesmo no momento controverso como da pandemia, onde o presidente falou ao lado da filha (fotos 3, 4 e 5), e lotado de faixas contra o STF, contra Rodrigo Maia e pedindo a intervenção militar.  


Foto 3


Foto 4

Foto 5

O cavaleiro de Bolsonaro desconsidera que a manifestação é antidemocrática porque tem cartazes, falas contra os demais poderes que, conjuntamente, mantêm a democracia brasileira. Além disso, acrescenta-se que, na manifestação, um jornalista foi atacado pelos manifestantes. Sobre isso, ameniza com as seguintes palavras: “Botar um monte de ministro do STF para falar porque jornalista foi agredido?”. Desta forma, Malafaia apoia a limitação da liberdade de imprensa, algo que, diante do que vem ocorrendo com o presidente, é aceitável. Fala abertamente que “não concordo com jornalista ser agredido não! Mas a paciência do povo está esgotada! Com o jornalismo parcial, da imprensa brasileira”. Portanto, defende a violência contra a liberdade de expressão, indo absolutamente na mesma linha de Bolsonaro. Ou seja, contra os divergentes, a violência é caminho. Mesmo sendo pastor, assume a radicalização como tática, bem como o “processo de linchamento moral dos divergentes”. Tal como agora, os setores bolsonaristas produzem ira contra seu ex-super ministro Sergio Moro. Portanto, o ódio é a amálgama que dá sentido à gestão cristofascistas brasileira de Bolsonaro, que é envelopado com seu pastor carregado por ódio.   
O fim, porvir...
Além do ódio e das violências que salpicam no discurso conta os diferentes, Malafaia, com a Bíblia na mão, busca consolar a base social cristã imaginando um futuro diante do presente pandêmico. Assim, na mensagem do dia 28 de abril de 2020, (https://www.youtube.com/watch?v=BV3zicvmSJ4) fez a oração com sua mulher: “escuta nosso clamor, nosso pai, (...) Jeová fará, o senhor da saúde, esteja na sua vida, na sua casa, nós repreendemos o mal, as enfermidades, sê curado agora! (...) Viveremos dias de prosperidade após esses, eu creio! Sejam envergonhados profetas do caos! O Brasil é do Senhor Jesus!”. É que diante do horror dos “últimos dias”, Malafaia, de forma semelhante aos apocalipses, trata a esperança de um novo tempo, de novos dias. Utiliza o mesmo recurso dos judeus e cristãos do primeiro século, imaginando a vida além das guerras e mortes ante o Império Romano. Eles pensaram em novos dias, de “novo céu e novas terras”, diante da fome e das guerras. Agora, é uma pena que nem em algo tão simbólico e singelo, Silas Malafaia não abra mão da lógica mercadológica. Repete a ladainha da prosperidade. Sim, é uma forma dele, e do secto, buscarem manter a lógica que causou a pandemia. Não codificaram que a lógica mudou, e que as relações religiosas devem ser revistas. Faço voto de que as igrejas digam menos de prosperidade e falem mais da vida em abundância que se tem ao repartir o pão com irmãos e irmãs.

Bibliografia:
BENJAMIN, Walter. “Teses sobre o conceito de história”, 1940.
LOWY, Michael. A guerra dos deuses, Petrópolis: Vozes 2000.
MBEMBE, A. Crítica da razão negra. São Paulo: Antigona, 2014.
MESTERS, C. A esperança de um povo que luta. São Paulo: Paulus, 2013.
PY, Fábio. A cristologia cristofascista de Jair Bolsonaro, São Paulo: Carta Maior, 2019. Acessado em: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-cristologia-cristofascista-de-jair-bolsonaro/.
PY, Fábio. Cristofascismo de Bolsonaro em 7atos. São Paulo: The Intercept, 2020. Acessado em: https://theintercept.com/2020/05/01/cristofascismo-bolsonaro-pascoa/.

RANCIERÉ, Jacques. Ódio a democracia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.

SOLLE, Dorothee. Beyond Mere Obedience: Reflections on a Christian Ethic for the Future, Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1970.

sábado, 9 de maio de 2020

Lançamento: O Brasil-Nação como ideologia - Fabrício Maciel


* O autor Fabrício Maciel lança a segunda edição de “O Brasil-Nação como ideologia: a construção retórica e sociopolítica da identidade nacional”, obra que analisa a identidade nacional brasileira. Fabrício, professor de Teoria Sociológica da UFF-Campos, mestre em Políticas Sociais, doutor em Ciências Sociais e pós-doutor em Sociologia, trata na obra sobre o mito da brasilidade e a percepção de que este foi construído através da articulação ideológica de elementos de nosso imaginário, como Deus, a política, o povo e a natureza.
Em entrevista ao Blog Autografia, o autor conta sobre sua longa trajetória acadêmica, sempre atrelada aos temas políticos: “Fiz a graduação em Ciências Sociais na UENF, em Campos dos Goytacazes, minha terra natal. Minha pesquisa de monografia, orientada pelo Prof. Jessé Souza, foi sobre a identidade nacional brasileira. Este livro que agora republicamos é uma versão bastante modificada e atualizada deste trabalho, com prefácio de Jessé e também de Edson Farias, da UnB”.


Fabrício conta também que o tema do livro, a brasilidade, nunca perde sua relevância e atualidade, sendo sempre necessário o seu debate: “É dividido em cinco capítulos cronologicamente estruturados, nos quais procuro reconstruir criticamente o pensamento de alguns dos principais intérpretes e críticos do mito brasileiro. Nesta edição, como complemento, apresento um posfácio no qual analiso, a partir da discussão do livro, como e por que recentemente nós substituímos um cenário político definido pelo slogan ‘Brasil, um país de todos’ para o slogan ‘O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos’”.  


O autor explica que a obra procura, também, ser uma alternativa ao público que deseja compreender o Brasil através de uma outra perspectiva, além dos clichês das discussões políticas polarizadas: “Fico muito contente e otimista com a reedição do livro e com a qualidade do trabalho de vocês na Autografia. Acho que o livro tem tudo para ter uma recepção pelo público ainda melhor do que a da primeira edição, especialmente por conta do contexto político atual”.


“Este livro se apresenta como um convite para uma leitura agradável e ao mesmo tempo crítica sobre o Brasil. É um livro que procura reconstruir claramente a trajetória das ideias sobre o significado da identidade nacional de maneira didática e compreensível para qualquer pessoa que deseje ler. Além disso, o mais importante é que o livro é um convite para uma reflexão que procure ir além da conjuntura atual”, finaliza. 


* Retirado de http://blog.autografia.com.br/professor-de-teoria-sociologica-lanca-obra-sobre-identidade-nacional-brasileira/


quinta-feira, 7 de maio de 2020

O que fazemos com esses números?*


E eis que me peguei recorrendo ao meu fiel amigo, o dicionário Houaiss, ansioso ao perceber-me incapaz de definir o que vem a ser um “número”. Aquilo que é óbvio costuma esconder inúmeras (perdão pelo trocadilho) armadilhas, pois revela apenas parte(s) de si, deixando o que é crucial, muitas vezes, devidamente escondido ou – se preferir – subtraído da fachada. Houaiss rapidamente revelou que minha dúvida sobre o significado da palavra não era vã: dezenas são as acepções do substantivo masculino “número”. A primeira delas, no entanto, parece ser a mais usual: “soma de todas as unidades, dos elementos de uma série, conjunto etc”. Para quem, tal como eu, possui conhecimentos limitados da Matemática, essa primeira acepção parece promissora, mas quando cruzamos a matemática básica com nossas curiosidades sócio-antropológicas, a primeira acepção do Houaiss começa a mostrar suas insuficiências. A beleza numérica está em sua capacidade de abstração, pois o número 1 pode ser usado tanto para representar a quantidade de sacos de cimento para uma determinada tarefa quanto a quantidade de filhos que uma pessoa teve. Em termos matemáticos, o número é perfeito, mas em termos antropológicos, filosóficos e éticos, a situação pode ser diferente. Pois, nesse caso, a igualdade da expressão numérica nem sempre se revela. Seguindo na pesquisa etimológica, encontrei no verbo “numerar” alguma luz para as questões que me afligiam: “pôr números em” algo, ou “dispor em ordem numérica”. Os números e a numeração, nesse sentido, podem ser pensados como meios de classificação e ordenamento do mundo. São instrumentos para racionalizar o universo, tornar as medidas possíveis e realizar a quantificação daquilo que, de outro modo, pareceria mera desordem. Os números podem, assim, trazer a ordem e afastar o caos. Ao mesmo tempo, os números podem ser formas rápidas e reduzidas de quantificar o caos ordenado: são as cifras exorbitantes, os números estarrecedores etc. Os números existem e são neutros, quem os transforma em agentes sociais, com capacidades benéficas ou cruéis, são os humanos. Comecei a pensar sobre o tema quando a contagem oficial, deveras subnotificada, de mortos por Covid-19 no Brasil ultrapassou o número 5.000. Cinco mil. O número em si diz pouco e muito ao mesmo tempo. Pois, quando falamos de 5.000 kg de arroz estamos falando de algo que difere de 5.000 kg de ouro, do mesmo jeito que difere do que entendemos e valoramos como 5.000 pessoas. Os números não são culpados, mas aqueles que os distorcem ou subjugam são. Quando pensamos que agora já temos mais de seis mil mortos por Covid-19, devemos lembrar que esses números estão ligados a pessoas que faziam parte de inúmeras famílias que permanecem vivas e despedaçadas. Essas famílias, que compõem um número de pessoas que sou incapaz de calcular, possuem histórias, sonhos, projetos, afetos, trabalhos e muitas outras coisas que dificilmente alguém conseguiria traduzir em números. São famílias que perderam partes de si: pais, irmãos, avós, tios, tias, mães, irmãs, avôs, maridos, esposas, filhos, filhas etc. As estatísticas do Ministério da Saúde não quantificam as dores das perdas, do mesmo modo que não quantificam a quantidade de erros que proporcionaram a propagação do vírus e o aumento vertiginoso do número de mortes. Sabíamos desde o início que o vírus se propagaria, que sua taxa de letalidade não ceifaria mais que 10% dos contaminados e que as mortes seriam inevitáveis. Todavia, medidas não foram tomadas para reduzir a contaminação e, assim, o número de vítimas:  pois o impacto seria menor se os 10% de mortos fossem em um universo de dez mil e não de cem mil contaminados – número que tende apenas a crescer. Entre números, erros e argumentações néscias, o Governo Federal apresentou uma proposta de auxílio de R$200 para os trabalhadores informais e a Câmara dos Deputados impôs um auxílio de R$600, o que levou multidões de pessoas a agências bancárias, em filas desumanas que não obedeceram o halo social de 1,5m e que multiplicaram as probabilidades de contágio entre seus componentes, os bancários e todos os agentes envolvidos no processo. R$600 foi o valor ofertado para saciar as necessidades básicas de cerca de 45 milhões de pessoas que foram chamadas de “invisíveis” em um país onde o salário “mínimo” é de R$1.045. São muitos números, todos eles abstratos, mas capazes de despertar reflexões – também elas abstratas – sobre questões muito concretas de nossas falhas humanas. Enquanto os números aumentam e se sobrepõem para tentar ordenar e expressar a realidade que vivemos, deveríamos tentar utilizá-los para preservar vidas; pois um discurso “patriótico” que apenas considera bandeira e hinos, esquecendo-se da etimologia que liga “patriótico” a “compatrício” – enfatizando que o sentimento mor está relacionado à solidariedade entre as pessoas de uma mesma nação -, é algo que, se fosse traduzido em números, encontraria o valor zero. O que faz uma pátria são seus membros e não podemos dar de ombros quando perdemos um compatrício por falhas de nossa gestão; tampouco podemos desconsiderar que o eleito para guiar a nação expressou desprezo diante da morte de milhares de brasileiros e brasileiras.  Não há número que expresse a dor de quem perdeu entes queridos nessa pandemia; tampouco existem números capazes de expressar o absurdo de palavras proferidas pelo presidente diante do número que contabilizava os mortos pela doença.

Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.

* Artigo publicado originalmente no site do Jornal Folha da Manhã, em 03 de Maio de 2020 - https://www.folha1.com.br/_conteudo/2020/05/artigos/1261005-carlos-valpassos-o-que-fazemos-com-esses-numeros.html

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Em tempos de pandemia



Em tempos de pandemia
                                                                                                                                 Renata Saul
            Professora e socióloga.

Meu primeiro contato com os textos de Hannah Arendt[1] foi na disciplina de História a partir do livro Origens do totalitarismo. Fiquei impactada. Mas na correria da graduação, das aulas (como arrimo de família, já lecionava na rede municipal) na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em uma comunidade cheia de problemas, a vida foi seguindo. Verdade é que, desde a escola, estudar sobre os horrores do nazismo deixou marcas. Meu bisavô paterno também veio para cá fugindo de todo aquele mal.

Mas nós, brasileiros, também temos nosso quinhão de maldade para com a humanidade: genocídio dos povos indígenas, a escravidão que estruturou a desigualdade extrema deste país, o grande número de crimes de gênero (femínicidios e todo tipo de violência contra a comunidade LGBTQI+)[2], as perseguições religiosas com o povo preto. Como eu disse, temos o nosso quinhão.

Seguindo rumo ao término da graduação, Arendt entra de novo em cena: Entre o passado e o futuro é o livro da vez. Não teve jeito. É preciso atentar para o que ela diz. O momento histórico em que eu estava lendo Arendt é muito bom: democratização das Universidades, debate acirrado sobre cotas, descoberta do Pré-Sal. Há desigualdade, há tantas pautas ainda em debate. Há debate, há espaços de fala e cada vez mais eles aumentam: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente quer a vida para qualquer parte”[3]. Meu cenário acadêmico é a UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense), construída em cima de um lixão, olhando para os condomínios fechados que se erguem à sua frente e de costas para a favela. Queremos mais. Queremos mais acesso. Queremos escola pública de qualidade, mais empregos, queremos um Brasil que estava parado. E a fome e a sede são de tudo. Arendt aparecia para mim no combate dessa banalidade do mal[4] cotidiana, cruel, invisibilizando o outro. Mostrando que os discursos democratizantes corriam risco, mas nem em sonho eu poderia imaginar que sorrateiramente e, mais adiante, teríamos aqui o nosso Eichamman[5], mas não como um alto funcionário e soldado servil do Holocausto. O Eichmman aqui tem sede de mais, quer vingança, porque foi calado, ridicularizado, silenciado. O Eichmman aqui dá voz a todos que diziam que o politicamente correto é chato, ele não quer repensar nossa linguagem falada, porque repensar as linguagens caracteriza em mudança de pensamento: Ah!!! Pensar é exaustivo, empatia é chato, e as coisas são assim e não devem mudar.  Por qual motivo o status quo estaria feliz em cair do pedestal? Mas esse ódio está ali, sorrateiro, espreitando e a gente ouve uns murmúrios: Agora gato e cachorro tem carro; Não pode nem dar um empurrãozinho em mulher, que ameaçam com Maria da Penha; Universidade gasta muito o dinheiro público; Aeroporto agora parece rodoviária; Direitos humanos é coisa de bandido. E quem trouxe tanta desgraça para esse país?  A esquerda, claro! E quem são os líderes de esquerda? Esses políticos que enfrentaram todo um sistema para que houvesse eleições, liberdade de imprensa, de pensamento... Como eles fizeram isso? Assaltando bancos, sequestrando, fazendo passeatas, enfrentando a polícia... Ah, é? Bandidos, só pode. Quem enfrenta a polícia é bandido.

E dessa forma, no nosso país de democracia recente e de subalternidade e desigualdade por tradição, vai surgindo algumas narrativas que incutem a ideia de que a esquerda é o mal da humanidade, a perversão dos valores morais, o atraso, o comunismo, da perseguição implacável ao cristianismo. A bandeira vermelha comunista que representa o sangue dos trabalhadores que, ao longo da história, lutou por melhores condições de existência, parece que só clama por uma guerra civil onde quer que passe. A União Soviética não existe mais, o muro de Berlim foi derrubado em 1989, Cuba passeia pelo mundo levando seu conhecimento médico às nações que precisam, mas o mote de acabar com o comunismo ainda é bradado em alto e bom som.

Em 2016, temos um golpe na democracia brasileira, a presidenta Dilma é retirada do cargo sem crime de responsabilidade algum, mas as elites do país inflam a sociedade e financiam o golpe: temos enfim um sacrifício de purificação política: a corrupção e o mal que assola este país tem uma sigla conhecida - PT (Partido do Trabalhadores) -, e a política, campo das relações de poder, torna-se campo de torcida de futebol, com várias faltas favorecendo o status quo e nocauteando o trabalhador que assume o campo que não é o seu e ajuda a efetuar gols contra seu próprio time. As notícias falsas são um componente eficaz na goleada que o trabalhador toma.

Nesse cenário político, nosso Eichmman cresce dando voz a tantos horrores que estavam enterrados: ele abre a caixa de Pandora e de lá saem o ódio como categoria política, o deboche, a mentira, a ignorância, mas o que não sabíamos é que esses componentes estavam à espreita em nossa casa, no vizinho ao lado e, de forma muito semelhante ao que Arendt narra de acordo com o Holocausto, matar vira a lei. Aqui neste momento não, mas a banalização da falas de ódio e de violência extremada como política de segurança vão tornando a morte, movimento natural da caminhada humana como processo biológico, possibilidade de política pública de combate a violência: milícia, ok; sucateamento do SUS, ok, sucateamento das escolas públicas, ok...

Mas 2020 pegou o mundo de surpresa. O mundo todo. A Covid-19, pandemia resultante da mutação de um vírus da gripe que assolou a China, a Itália, a Espanha, e a OMS orienta o isolamento como estratégia de controle, uma vez que ainda não há medicação para conter o vírus. Vírus este que possui alto grau de letalidade.

Hoje, 05 de maio de 2020, a China conseguiu conter o avanço do vírus com quase cinco mil mortes. Os Estados Unidos[6] está com algo em torno de 71 mil mortes e o presidente do Brasil, que venceu uma eleição pautada na política da ignorância, violência não nos desaponta, apesar das sub-notificações dos casos, estamos na casa das 7 mil mortes[7] e com incentivos do presidente a burlar o isolamento social. Seus seguidores estão por toda parte, agredindo médicos, insultando professores, ameaçando funcionários: a economia é mais importante que a vida, que a saúde e Arendt é atual: o mal é banal. Minimizam as falas do presidente como se fossem algo típico das pessoas de fala simples, Ele é do povo; É bronco, fala como uma pessoa comum... Ocorre-me que já tivemos um presidente do povo, homem simples, que com intuito de menosprezá-lo, chamaram-no de “presidente analfabeto”, pois não tinha diplomas acadêmicos. Não me ocorre que este presidente minimizou a fome ou a morte das pessoas.

O mal é banal. Mas o mal também é a raiz dos interesses de uma gente que não vai baixar o padrão de vida para proteger a vida dos que limpam suas casas, educam seus filhos, cuidam do seu idosos. Que morra o lumpemproletariado. Que morra o idoso que recebe aposentadoria, depois de anos de serviços prestados, que morram as crianças que, ao crescerem, acabam por ausência de estrutura escolar, de segurança, de transporte, de alimentação e de saúde, tendo só como meio de sustento servir à classe que está acima, tal como no filme O Poço. É esperar o resto como caridade e não a partilha como justiça social. O mal é banal e racional, porque aquele que o propaga sabe o que quer. É ausência de reflexividade, porque os que permitem sua propagação, mas de fato não querem ser objeto, olham para cima, na organização de extrema desigualdade querendo ser como eles e não melhor do que eles, já nos avisou Paulo Freire.

Em termos políticos, carecemos hoje de liderança com propostas claras e assertivas para enfrentar os desafios que desde o golpe nos tomaram. A pandemia nos faz ter ainda mais pressa.

O cenário é crítico e qualquer que seja a tomada de decisão será determinante ou para dar raízes mais fortes ao mal ou para uma virada histórica.



[1] Hannah Arendt (1906-1975) filósofa política  alemã de origem judaica,  estudou profundamente os regimes autoritários, em especial, o nazismo Cobriu jornalisticamente  o julgamento de Adolf Eichmann, alto oficial alemão do Terceiro Heich, para o jornal New Yorker.   Arendt propõe uma profunda discussão sobre o pensamento autoritátro, para que ele não se repita.. Com suas contribuições para a ciência polituca,  ocupa  um papel central nos debates contemporâneos.

[2] As pessoas costumam usar LGBTQ + para significar todas as comunidades incluídas no "LGBTTTQQIAA" (LGBTQQICAPF2K+ é a sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis, Queer, Questionando, Intersexo, Curioso, Assexuais, Pan e Polissexuais, Amigos e Familiares, Two-spirit e Kink. . Para melhor entendimento, sugiro este link : https://razoesparaacreditar.com/significado-lgbtqqicapf2k/


[3]  Comida (canção gravada pela banda nacional Titãs).
[4] O problema do mal atravessa toda a reflexão da obra arendtiana e não tem relação com o aspecto religioso. Na obra de Arendt, o mal tem raízes históricas e racionais, como se pode observar nos argumentos políticos, econômicos, tal como nos regimes totalitários ( em especial o nazismo), na escravidão. Arendt pontua que nem mesmo as teorias e categorias científicas, econômicas e políticas tradicionais se mostraram suficientes para captar e explicar o nazismo. A busca por tais explicações se faz necessária para que tal horror não venha a ser repetido na história da humanidade.
[5]  Eichmann foi designado pelo SS-Obergruppenführer (general/tenente-generalReinhard Heydrich para gerir a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio das zonas ocupadas pelos alemães no Leste Europeu durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1960, foi capturado na Argentina pela Mossad, o serviço secreto de Israel. Após um julgamento de grande publicidade em Israel, foi considerado culpado por crimes de guerra e enforcado em 1962. https://pt.wikipedia.org/wiki/Adolf_Eichmann. Consultado e extraído em 05/05/2020.
[7] Dado extraído do site do Governo Federal em 05/05/20- https://covid.saude.gov.br/

terça-feira, 5 de maio de 2020

Lançamento: Ellen Wood: O resgate da Classe e a Luta pela Democracia

Lançamento de "Ellen Wood: O Resgate da Classe e a Luta Pela Democracia" 



Eis que o camarada Jefferson F do Nascimento, que já colaborou com este blog aqui, nos brinda em plena pandemia lançando seu livro sobre a grande teórica marxista Ellen Wood!



Se sua questão é dúvida sobre o que ler nesses tempos bicudos, certamente abaixo há um release detalhado e praticamente irresistível convidando a conhecer este trabalho importante do Jefferson.

Boa leitura! Prestigie! 




Trabalhadores, Política de Classe e Democracia: os limites da conciliação de classes e as armadilhas da representatividade


O livro Ellen Wood: O resgate da Classe e a Luta pela Democracia, do sociólogo e cientista político Jefferson Ferreira do Nascimento, pretende esclarecer a proposição de uma Democracia Substantiva elaborada pela historiadora Ellen Meiksins Wood, que não pode ser confundida com a tese da “democracia como valor universal” que ganhou precedência no Brasil no ocaso da Ditadura Militar, a partir de intelectuais como Carlos Nelson Coutinho. Ellen Wood, socialista radical, marxista declarada e crítica à socialdemocracia, concebe como arma para enfrentar a dominação capitalista por meio de uma democracia de facto, que garantiria a liberdade de livre associação, a isegoria e a autodeterminação dos produtores sobre a produção. O que Wood propõe é o poder para o demos, o poder efetivo para o povo, o que depende de uma organização consciente de classe.
Diferente, portanto, de uma defesa incondicional de um governo representativo como ideal de regime político e de sociabilidade, Ellen Wood propõe uma análise que identifica historicamente como o Liberalismo operou de modo a identificar democracia e governo representativo ao mesmo tempo em que o capitalismo promove a separação entre o econômico e o político. Isto é, do mesmo modo em que o capitalismo separa os produtores dos meios de produção, os poderes políticos intocados na propriedade privada dos meios de produção não estão submetidos à deliberação da democracia liberal-representativa.


Como marxista e proponente do Marxismo Político, junto a Robert Brenner, a autora defende que a saída para o falseamento provocado pela identificação liberal entre democracia e governo representativo é o conteúdo de classe na luta política. A luta de classes, dissimulada ou aberta, é uma constante em toda e qualquer forma de sociedade em que os produtores estão apartados dos meios de produção. Logo, qualquer proposição política que ignore que as relações de produções dispõem os indivíduos em situação de classe, favorece a continuidade e o aprofundamento da exploração do homem pelo homem.


O desafio para tal é que formações conscientes de classes não acontecem, para Ellen Wood, como resultado de uma diretriz partidária ou de intelectuais. A classe social, para Ellen Wood, é explicada de modo mais coerente pelo historiador marxista Edward Palmer Thompson. O que significa que a formação consciente de classe é um processo que depende da experiência para a identificação consciente dos indivíduos como membros de uma classe e não um mero reflexo da situação de classe, que é determinada pelas relações de produção. Eis, o desafio!


O livro, portanto, não apresenta uma inovação teórica e nem uma proposição original sobre a política nos dias atuais. Ao contrário, convida o leitor para conhecer uma das principais vozes a enfrentar o que Eric Hobsbawm chamou de “recessão do marxismo”. Ellen Wood se destacou ao resistir a essa recessão, criticando o pós-marxismo e enfrentando academicamente as tendências pós-modernas. Com a “recessão marxista”, as teorias fragmentárias de análise da realidade social ganharam precedência. Ellen Wood foi voz dissonante a esse processo e reagiu. Elaborou críticas a certas apropriações dos textos marxianos e argumenta porque a teoria de Karl Marx tem muito a nos dizer sobre a luta política atual. Não sem reconhecer os desafios a serem enfrentados para tal empreendimento. Assim, o livro discute o conceito de classe no marxismo e a proposta de E.P. Thompson, defendida por Ellen Wood. Apresenta dados biográficos e contextuais da autora, bem como apresenta limites e avanços teóricos na obra de Ellen Meiksins Wood.


Ellen Meiksins nasceu em Nova York, no ano de 1942. Filha de Gregory e Bella, imigrantes letões e militantes do Bund – partido socialista judeu na Letônia –, que saíram da Letônia em um período conturbado: o país passou pela ditadura liderada por Karlis Ulmanis, pela invasão soviética e pela invasão nazista. Processos políticos conturbados, sobretudo para a população judaica que assistiu a ascensão do fascismo neste período.

A família Meiksins mudou de Nova York para a Califórnia, onde Ellen realizou sua formação acadêmica em unidades da Universidade da Califórnia (UCLA). Ellen Meiksins concluiu o Bacharelado em Línguas Eslavas, no ano de 1962, em Berkeley. Em 1970, concluiu o PhD em Ciência Política, em Los Angeles.


A partir de 1967, Ellen e seu cônjuge e coautor em algumas publicações, Neal Wood, também cientista político, foram lecionar na Universidade de York, em Toronto, no Canadá.


Ellen Meiksins Wood, além de docente na Universidade de York, foi editora da revista marxista britânica, New Left Review, e da revista marxista estadunidense, Monthly Review, bem como participou do conselho editorial da Socialist Register e da Against the Current. A historiadora e cientista política, autora de vários livros e artigos, ganhou maior notoriedade a partir do lançamento do livro The Retreat from Class (cuja tradução para o espanhol foi intitulada ¿Una Política sin Clases?), em 1986, que lhe rendeu o Prêmio Memorial Isaac Deutscher, em 1988. Anos depois, foi convidada para a Sociedade Real do Canadá, o que reafirma a sua relevância acadêmica.


Ellen Wood ficou mais conhecida no Brasil a partir do lançamento de seu livro A Democracia Contra o Capitalismo. Neste livro, Wood apresenta de modo sistematizado sua agenda de pesquisa até ali, esclarecendo o conceito de democracia substantiva e o necessário conteúdo de classe para a política.Vítima de um câncer, Ellen Meiksins Wood morreu em 2016. Seu adoecimento interrompeu uma obra ainda em produção. Muitos dos limites apresentados no livro apresentado neste release podem ser decorrentes dessa interrupção, pois sabemos que, ao menos, um projeto não foi concluído. A autora desejava elaborar uma trilogia sobre a história do pensamento político. No entanto, apenas dois livros desse projeto foram publicados: Citizens to Lord e Liberty and Property.

Ellen Wood: O resgate da Classe e a Luta pela Democracia foi escrito por Jefferson Ferreira do Nascimento, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA). Como parte do processo constitutivo do livro, foi apresentado no 41.° Encontro Anual da ANPOCS (2017) o paper A redefinição do conceito e do papel político da Classe Social e a questão da Democracia em Ellen M. Wood”, onde as primeiras reflexões sobre o tema foram divulgadas. Além desse paper, o artigo “’É preciso dar um passo atrás, para avançar dois’: Ellen Wood e o retorno à teoria política contra a armadilha das análises fragmentárias” compôs o dossiê “Estado e Política no Capitalismo Moderno”, da Revista Debates (UFRGS). E, por fim, o artigo “O contexto social da obra de Ellen Meiksins Wood e a busca por sistematizar uma teoria de classes” compôs o dossiê “Contextualismo Social”, da Revista Tempo da Ciência (UNIOESTE).


Sobre o autor:


Jefferson Ferreira do Nascimento é professor no Instituto Federal de São Paulo – Campus Sertãozinho. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGPol) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É pesquisador no Núcleo de Estudos de Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA), coordenado pela Dra. Maria do Socorro Sousa Braga. Possui Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Especialização em História, Cultura e Sociedade pelo Centro Universitário Barão de Mauá e Graduação em Ciências Sociais (com as seguintes habilitações: Licenciado em Ciências Sociais, Bacharel em Sociologia e Ciência Política) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente, se dedica a estudos sobre teoria política, sistema partidário e política comparada.