Vamos nós pessoal! 7ª Rodada do projeto Voyeur Político! A
saga continua tentando entender as eleições de 2022.
Nosso próximo encontro será no dia 03/10, segunda-feira, 19
horas. Justamente o dia seguinte ao primeiro turno!
Não tenho dúvida de que muita gente gostaria de fechar os
olhos hoje e abrir na próxima segunda no horário de nosso papo....
Estaremos lá no futuro com dois grandes convidados:
Jefferson Nascimento, professor do IFSP, campus Sertãozinho, e o
jornalista/advogado Ricardo André Vasconcelos.
Jefferson é prata da casa e atua comigo e com outros amigos
no projeto Autopoiese e Virtu. Também já esteve na estreia do projeto Voyeur no
ano passado. Desta vez esse moço reaparece diferente: agora ele vem com o
título de doutorado debaixo do braço após defesa de um grande trabalho no PPGCP
da UFScar.
Ricardo André Vasconcelos dispensa apresentações aos
leitores do jornalismo político regional. Vasconcelos é experiente operário da
comunicação, com currículo que vai desde a editoria da Folha da Manhã, além de
outros jornais e TV´s no Norte Fluminense, até a carreira de “blogueiro sujo”, sendo
este que vos escreve companheiro de trincheiras na imundície. Ricardo acresceu
ao currículo sua formação em direito.
O papo de segunda vai discutir os resultados, apontar
vencedores, perdedores e imaginar futuros possíveis.
A pré-inscrição para o papo pode ser feita aqui: https://forms.gle/16b8eay4TtcU2cXw5.
Voyeur Político é Projeto de Extensão sediado no
Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos coordenado por mim, George
Coutinho (COC/UFF).
O DataFolha dá 48% dos votos válidos para Lula. O IPEC (antigo Ibope) dá 51%. As duas principais empresas da área, portanto, colocam o segundo turno na faixa do "empate técnico".
Resultados diferentes existem para todos os gostos. Notórios caça-níqueis fabricam resultados com Bolsonaro bem à frente. Empresas com menos experiência, como PoderData ou Quaest, dão Lula com dianteira menor.
DataFolha e IPEC, porém, continuam sendo, na média, os mais confiáveis.
É preciso levar em conta, porém, que as sondagens de opinião (ou, ainda mais, de intenção de voto) não vivem um bom momento.
Mudanças nos fluxos de comunicação, com as novas mídias, tornaram menos confiável a construção de amostras estratificadas baseadas nas clivagens sociais tradicionais.
As redes de fake news, usando instrumentos de comunicação instantânea, permitem viradas de última hora.
Em suma, surpresas nunca estão descartadas.
Por outro lado, o voto da maior parte dos eleitores já parece cristalizado.
Fatos que teriam potencial para mexer na votação - Auxílio Brasil, comícios do 7 de setembro, escândalo dos 51 imóveis - mostraram impacto quase nulo.
O fanatismo cego da base bolsonarista, de um lado, e a consciência da necessidade de retirá-lo do poder, do outro, definem a grande maioria dos votos.
Quase não há indecisos. As pesquisas mostram pouca evolução de uma semana a outra. Mesmo os candidatos nanicos (Ciro, Tebet) se movem só na margem de erro.
Nisso, Lula decidiu jogar parado.
A campanha petista é morna e despolitizada. Evita confrontos e tem como principais objetivos reduzir resistências em alguns bolsões do eleitorado (evangélicos) e reforçar apoio de outros (mulheres).
É difícil imaginar que isso possa mudar agora na reta final.
Uma vitória no primeiro turno depende da mobilização da militância em favor do voto útil.
Vencer já em 2 de outubro dá força ao futuro governo Lula, interrompe a escalada da violência política e desidrata o golpismo de Bolsonaro.
* Arte digital "Lula Livre" de Lucas Vieira. Disponível em: https://www.artmajeur.com/pt/lucasdeo-vieira/artworks/10993456/lula-livre. Acesso em 16 de setembro de 2022.
** Publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Luis Felipe no dia 16 de setembro de 2022. Reproduzimos aqui com a autorização do autor.
*** Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autor de "Democracia e representação: territórios em disputa" (Editora Unesp, 2014), "Dominação e resistência" (Boitempo, 2018), dentre outros. Lançou no primeiro semestre deste ano o seu "Democracia na periferia capitalista" pela Autêntica Editora.
Simone Tebet, senadora federal (MDB-MS) e candidata
a Presidente da República, ganhou projeção nacional por sua atuação na CPI da
Pandemia (2021) e, recentemente, no debate dos presidenciáveis transmitido pela
TV Bandeirantes. Sua assertividade na interlocução com Bolsonaro (sem, claro, abrir
mão do roteiro lavajatista contra Lula) a sagrou como a “vitoriosa” do dia tanto
para observadores especializados do processo eleitoral quanto para pessoas
comuns que, estoicamente, se dispuseram a assistir àquele telecatch com réplicas e tréplicas cronometradas e tempo algum para
expor proposições racionais sobre assuntos de interesse nacional.
Parte do êxito da sua performance foi atribuído à
sua postura altiva no primeiro embate da corrida presidencial na tevê aberta.
No Brasil de Bolsonaro, mais do que nunca, eleições majoritárias e proporcionais
reservam às mulheres candidatas testes sucessivos de resiliência ao
compeli-las, em algum momento, a assumir o custo de agirem (ou, pior, de enxergarem a si mesmas) como “homens do sexo feminino” para terem vez e voz
diante dos padrões de representação coletiva em sua intersecção com o machismo.
Se assim o é, o entusiasmo de alguns(mas) com a
prócer da “terceira via” deve ser avaliado como sintoma de um mal-estar produzido
pela sub-representação da população feminina nos poderes executivo e
legislativo. Ora, não seria para menos: em 133 anos de história republicana,
tivemos apenas uma mulher eleita Presidente da República, Dilma Rousseff, cujo
segundo mandato fora interrompido por um golpe parlamentar em 2016. No
Congresso Nacional, por sua vez, a representatividade feminina apresenta um
quadro não menos desfavorável: das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, apenas
77 são ocupadas por mulheres (15%) e das 81 cadeiras do Senado Federal, apenas
12 mulheres a preenchem (14%)[1].
Aliás, nunca é demais lembrar que a proporção da população feminina (51,8%) se
mantém superior à masculina (48,2%) no país, conforme a Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua)[2].
Igualdade de gênero e representação política, pois,
vieram à baila neste início da campanha e não há por que ignorarmos as
virtualidades de sua tematização para uma sociedade civil fraturada pelo bolsonarismo, esse conjunto de valores e
práticas autoritários que encontra na masculinidade hegemônica seu elemento
catalizador. Contudo, para quem vislumbre um dia viver numa democracia
substantiva, explorar a chave analítica da igualdade
impõe cautela diante dos pretensos ares feministas bafejados por Tebet. Duas
frases ditas por ela no debate da Bandeirantes[3]
são relevadoras de uma inflexão que, à primeira vista, soaria familiar na boca
de qualquer mulher progressista:
“Por que tanta raiva das mulheres?(pergunta
para Bolsonaro)”
e
“O candidato Bolsonaro defendeu um
assassino de mulheres (Cecy Cunha). Ameaça jornalistas. Comete misoginia.”
Se perscrutarmos nossa democracia parlamentar assim
estabelecida sem tomar, em absoluto, por critério de verdade que Tebet sabe, como
qualquer outra mulher, as agruras de sua
condição humana em um mundo sexista, poderemos considerar que os vínculos de
solidariedade entre aquela notável da política tradicional e suas congêneres – não
proprietárias de terras em território indígena e não herdeiras de um capital
político passado de pai para filha[4]
– carecem de uma adesão coerente a uma pauta que possamos identificar como própria
ao campo democrático e popular. Em seu lugar, deparamos tão somente com o
artifício do purplewashing: uma estratégia
discursiva, tão bem descrita por pensadoras feministas, que nada mais é do que tomar
de empréstimo a questão da igualdade de gênero para defender as hierarquias
sociais perante qualquer avanço igualitário na partilha do poder e na
distribuição de riquezas.
Ora, bastaria uma simples consulta ao sítio oficial
do Senado Federal, mais precisamente ao perfil
da ilustre senadora, para confirmarmos que, em 11 de julho de 2017, ela disse “sim”
à Reforma Trabalhista do governo ilegítimo de Michel Temer. Essa reforma, entre
outros retrocessos, instituiu um afrouxamento das garantias de proteção às
trabalhadoras gestantes em locais insalubres. Para quem tiver tempo e
curiosidade, recomendamos ler as notas
taquigráficas do Senado Federal, especialmente a justificativa de Tebet para
o seu voto favorável a uma medida tão danosa para a saúde das mulheres sob uma
legislação trabalhista eminentemente patronal. Outro exemplo não menos digno de
nota foi seu voto favorável ao impeachment
sem fundamento legal da Presidenta Dilma Rousseff:
Diante de tantos elementos desabonadores de quem se chegou
a creditar um “fato novo” nas eleições de 2022, por que o blefe feminista de uma
típica porta-voz do liberalismo conservador colou?
Porque recorrer à política da identidade serve a qualquer um(a), mas comprometer-se
com o universalismo enquanto valor
político de uma esquerda que não teme dizer seu nome – parafraseando aqui o
título de um livro provocador de Vladimir Safatle[5]
– não é mesmo para todo mundo.
Afirmar, como Safatle o faz, que o igualitarismo é o
horizonte de realização inegociável da esquerda a respeito da luta contra a
desigualdade econômica e, não menos, da abordagem dispensada às demandas por
reconhecimento social de minorias não é relegar as últimas ao segundo plano, mas
admitir que uma política que tenha por eixo a afirmação da diferença como o sucedâneo
dos conflitos de classe omite que o desiderato histórico de homens e mulheres
dispostos à crítica do poder é reconstruir formas de vida que correspondam a uma “universalidade
verdadeiramente existente na vida social”[6]
sem, entretanto, confundir tal desejo emancipador com a suposição de que a
sociedade seja“composta de grupos distintos muito organizados do ponto de vista
identitário”[7]. Do
contrário, o campo das diferenças poderá ser pautado por gente como Tebet qual
fosse a voz uníssona das mulheres brasileiras e não uma ruralista cuja origem,
interesse e visão de mundo são localizados na fração mais retrógrada da nossa classe
dominante: o patronato representado por latifundiários, fazendeiros, pecuaristas,
exploradores de indústria extrativista que, hoje, promovem uma frente
neocolonial no hiterland brasileiro.
[1]Agência Brasil.
Com pouca representatividade política, mulheres ainda buscam direitos. Edição
de 09/03/2021. Disponível aqui.
[2]IBGE Educa.
Quantidade de homens e mulheres. Disponível aqui.
[3]O Tempo. Tebet no debate da Band: cinco frases que resumem
a participação da candidata. Edição de 29/08/2022. Disponível aqui.
[4]AgênciaPública. Fazendeira e ruralista, Simone
Tebet perde aliados no MS ao se afastar do bolsonarismo. Edição de 05/07/2022.
Disponível aqui.
[5] SAFATLE, Vladimir. A
esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2012.
O vigor desses pesquisadores cola-se à força de suas IES como lideranças no campo, desde nas agências de pesquisa às revistas e sociedades científicas nacionais e internacionais.
Posto que, em cada cientista, todo o grupo ao qual ele pertence se afirma (em verdade, toda uma instituição), ao grupo interessa garantir as condições objetivas para que tais colegas sejam hiper-produtivos, de modo a se reproduzir nos postos de poder e prestígio e, por conseguinte, a instituição mantém sua hegemonia no campo. Eis que ela protege efetivamente seu quadro, por exemplo, ao não expor seus "campeões" a uma carga horária em sala de aula excessiva, por exemplo, e lhes garantir o apoio técnico.
As instituições mais sólidas enfrentam com bem menos perdas quaisquer retrocessos no sistema científico nacional. Um K anteriormente acumulado que segue seu curso "natural", a cada vez maior concentração de riqueza. Os recursos se multiplicam, daqueles que sempre o tiveram. Definitivamente, esqueçam a meritocracia, o que não implica que tod@s não trabalhem muito, eu disse to@ds (os de IES mais pobres trabalham ainda mais ...).
Os centros de excelência emergentes hão de existir, mas, tal como diria Bourdieu, levam para isso três gerações, até que a quarta possa usufruir de qualquer acúmulo.
Assim como se diz que ninguém quer abrir mão de privilégios, é importante afirmar que a ciência nacional está longe de equiparar suas instituições. As desigualdades regionais são gritantes.
O indivíduo pode dar a sorte (?) de ser capturado por um centro/rede de produção científica altamente competitivo (e se manter nele, o que significa que não "dorme no ponto"), mas, desde aí, as oportunidades todas lhe estão dadas "de bandeja". São quadros excelentes, porém, qualquer comparação é injusta. Uns trabalham no primeiro mundo e outros no terceiro.
Não se resolve uma abismal desigualdade com a lógica individualista. Não se engane quem se pensa gênio: "uma andorinha não faz verão".
PS: nem toco aqui no assunto de que há os que não se submetem ao ritmo de trabalho anunciado acima. Isso é papo para outra postagem. Mas, antecipo que, nas instituições periféricas, essa escolha sobrecarrega demasiadamente o pequeno percentual que luta para as portas da Casa não fecharem.
* The Myth Of Sisyphus, pintura de Nicci Bedson. Disponível aqui: https://pixels.com/featured/the-myth-of-sisyphus-nicci-bedson.html, acesso em 28 de agosto de 2022.
** Texto publicado originalmente no perfil do Facebook da autora: https://www.facebook.com/adelia.miglievich. Reproduzimos aqui com a autorização de Adelia;
*** Adelia Maria Miglievich Ribeiro é professora associada no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo, UFES. É autora, além de dezenas de artigos publicados no Brasil e no exterior, do livro "Heloisa Alberto Torres e Marina de Vasconcelos: pioneiras na formação das ciências sociais no Rio Janeiro" lançado pela Edufrj em 2015.
Vamos nós bater um papo sobre a mais recente tradução que Fernanda
Alcântara (UFJF)fez da sofisticada
socióloga Harriet Martineau (1802-1876). Trata-se do livro “Sociedade na
América: Volume I – Política”.
Fernanda é uma das maiores divulgadoras e tradutoras do
trabalho de Harriet Martineau no Atlântico Sul. O livro, fresquinho e recém
lançado por ela em sua editora (detalhes aqui: https://fernandahcalcantara.blogspot.com/2021/06/livros-publicados-e-formas-de-aquisicao.html),
se apresenta como uma análise crítica e imanente da sociedade estadunidense e
faz parte da Coleção Martineau dirigida pela Fernanda.
O que podemos esperar de nosso encontro na terça? Impressões
sobre uma análise não apologética dos EUA tendo por recorte, neste volume, a
vida política do país d`Os Federalistas.
O saudoso Carlos Nelson Coutinho falava em processo de
“americanalhização” do Brasil. Vai que Martineau, com suas ironias e
perspicácia, nos leve para um caminho terapêutico que nos cure dessa doença?
Agosto é um mês e tanto em nossa história política. Muitos personagens brasileiros relevantes tiveram encontros marcantes com o destino neste mês de dar arrepios.
Há os imponderáveis na política. O não previsto, o inusitado, o remotamente imaginado tem poder para virar conjunturas políticas do avesso. Justamente... agosto é o mês dos imponderáveis.
Com tudo isso, ou a despeito disso, vamos corajosamente fazer a 6ª Rodada do Voyeur Político no finzinho do mês, dia 30/08, uma terça-feira, 9 A.M. de Brasília. As inscrições para acompanhar o papo ao vivo podem ser feitas aqui: https://forms.gle/tSonCnjHjqmB6UE68
Neste episódio do Voyeur, que ocorrerá restando pouco mais de um mês para o primeiro turno das eleições, vamos de algo com tonalidade mais sociológica. Os problemas do momento são muitos... e a sociologia pode nos ajudar a compreendermos alguns dos desafios da eleições nessa altura do campeonato. Receberemos Luciane Silva (UENF) e Fabrício Maciel (UFF/UENF/Friedrich-Schiller-Universität).
Luciane é socióloga de mão cheia e também profundamente engajada em nossa vida política. Com carreira e vida entre dois Rios, o Grande do Sul e o de Janeiro, atualmente é chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado, o LESCE, na UENF. Em 2021 lançou o seu “Funk para além da festa: disputas simbólicas e práticas culturais no Rio de Janeiro” pela Ciclo Contínuo Editorial.
Já Maciel é prata da casa. Docente na UFF-Campos da área de sociologia e campista, ele igualmente senta praça no PPGSP/UENF. Neste momento Fabrício é também professor visitante na Friedrich-Schiller-Universität em Jena, Alemanha, de onde participará de nosso papo. Neste ano, dentre outras intervenções, ele publicou com grande elenco o livro “A ficção meritocrática: executivos brasileiros e novo capitalismo” pela Eduenf.
Esperamos vcs em 30/08/2022.. quem viver, verá!
Voyeur Político é projeto de Extensão coordenado pelo professor George Coutinho (COC/UFF-Campos) e sediado no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.