Prezad@s,
Disponibilizo o link onde se encontra o conteúdo programático e os textos da disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", criação do prof. Luis Felipe Miguel que será ministrada neste 1º semestre de 2018 na Universidade de Brasília (UnB).
Eis o link para acessar o material:
https://m.box.com/shared_item/https%3A%2F%2Fapp.box.com%2Fs%2Fbm0d52sjav3e975hmz0sifjktrsz4too
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
domingo, 25 de fevereiro de 2018
Golpe e autonomia universitária
Golpe e autonomia universitária
Por Paulo Sérgio
Ribeiro
Luís Felipe Miguel é um cientista
político que dispensa apresentações. Seus escritos são hoje referência em
cursos de graduação e pós-graduação em ciências sociais. Professor e pesquisador
da Universidade de Brasília (UnB), Miguel oferece neste semestre uma disciplina
optativa – “Tópicos Especiais em Ciência Política 4: O golpe de 2016 e a
democracia”. Como o próprio disse, trata-se de um ato “corriqueiro” que não deveria causar frenesi. Contudo, um alvoroço tomou conta de sua rotina
profissional desde que jornais de grande circulação conferiram à sua disciplina
um injustificado caráter polêmico e o Ministro da Educação, Mendonça Filho, declarou
que encaminharia uma consulta aos órgãos de controle do Poder Executivo Federal
a respeito da sua “legalidade”. Eu bem poderia encurtar esse texto afirmando o
óbvio: questionar a vinculação à lei do ato de lecionar sobre o “golpe de 2016”
é tão esdrúxulo quanto questionar um seminário dedicado ao “golpe de 1964” ou aos
demais processos de ruptura institucional que dão relevo à república brasileira.
Não obstante, dimensionar o desvio ético de Mendonça Filho exige-nos mais do
que isso, considerando a sequência de violações à autonomia universitária iniciada
num governo ilegítimo do qual o ministro nada mais é que uma caricatura.
A condução coercitiva do reitor, da
vice-reitora e demais funcionários da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) em mais uma ação espetaculosa da Polícia Federal (PF), intitulada
acintosamente “Esperança Equilibrista”;
o suicídio de Luis Carlos Cancellier, então reitor da Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), que sofrera uma prisão arbitrária da PF na operação “Ouvidos
Moucos”; a intimação do médico Elisaldo Carlini, professor da Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP), especializado em pesquisas sobre entorpecentes,
para depor na polícia de São Paulo em inquérito no qual é acusado, pasmem, de “apologia
ao crime” são sintomas da perda de centralidade da questão democrática. A
autonomia universitária é uma orientação normativa ausente de sentido quando um
regime democrático se fragiliza. Ora, assim como a autoridade política se
exerce sob a delegação temporária do governados, estes mantêm-se soberanos se,
e somente se, forem capazes de confrontar toda e qualquer autoridade que, incapaz
de justificar racionalmente os seus atos, recorra à força e à submissão.
A censura às ciências sinaliza a
percepção da universidade como um perigo subversivo ao regime de força
instalado no país, privando-nos daquilo que é o sal da terra do mundo
intelectual: o dissenso. Não que a universidade fosse imune ao autoritarismo
como um modus vivendi dos brasileiros quando
ainda vivíamos sob a ilusão de que a redemocratização passaria dos 30... A
estrutura organizacional da universidade confirma a olhos vistos como a demarcação
de áreas de conhecimento pressupõe a naturalização da hierarquia social dos seus
objetos, uma espécie de luta de classes sublimada no tocante à distribuição de
recursos para o trabalho científico. Contudo, a universidade talvez seja a
única instituição na modernidade cuja razão de ser encontra-se na vitalidade de sua crítica
interna. Herdeira do ideário iluminista, as universidades são o lugar em que teorias
aparentemente sólidas se pulverizam à medida que um novo patamar da “maioridade”
da qual nos falava Kant é alcançado, isto é, quando se renova a capacidade dos
indivíduos pensarem por si mesmos, sem deferência a quaisquer argumentos de
autoridade, redefinindo assim as fronteiras do conhecimento.
A docência e a pesquisa científicas
– seguindo uma lógica que independe da tutela do Estado e da religião – relacionam-se
com as práticas sociais extramuros da universidade, devolvendo um sentido à
interrogação que tais práticas nos suscitam. Nada mais salutar, portanto, do
que uma disciplina que promova a reflexão criteriosa sobre um fato que afeta a todos os brasileiros e os vincula ao mundo: a diluição do pacto social ratificado na
Constituição Federal de 1988 ou, dito com todas as letras, o golpe parlamentar
de 2016. Daria muito gosto estar matriculado numa disciplina como a ministrada
por Luís Felipe Miguel. Seria instigante acompanhar o passo a passo desse
debate na UnB o qual, talvez, tenha por pano de fundo um acerto de contas com certas expectativas no interior da ciência política que relativizaram a coexistência problemática da democracia e do capitalismo na "Nova República", sacrificando, pois, o nosso intelecto com a crença resignada de que “se as instituições funcionam, está tudo bem”.
Sim, elas “funcionam” e não, não
estamos nada bem.
Nota de apoio ao Prof. Luis Felipe Miguel - DCP/UFF
A Ciência Política da Universidade Federal Fluminense, através do seu Departamento (GCP) e Programa de Pós-Graduação (PPGCP), vem manifestar pleno apoio ao Professor Luís Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UNB), pelas agressões sofridas ao seu direito legítimo de ministrar a disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia", no 1o semestre letivo de 2018, na UNB.
Assim sendo, o Departamento de Ciência Política e o Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFF, também repudiam enfaticamente os ataques sofridos pelo Professor Luís Felipe que ferem intensamente à liberdade de cátedra e o Estado de Direito, este já gravemente atropelado desde o ano de 2016!
Docentes e discentes da Ciência Política, e demais apoiadores!
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Pausa tática
Prezad@s,
Comunico ao público leitor/seguidor deste blog, provavelmente dois ou três leitores, que este que vos escreve fará uma pausa nas colaborações com a imprensa regional.
Como quase tudo que tenho publicado é produto direto de minha relação com o jornal Folha da Manhã, este blog ficará sob a batuta de meu amigo-irmão de longa data, o Paulo Sérgio Ribeiro. Neste sentido, tenho certeza que tod@s estarão em excelentes mãos.
A razão para a pausa é simples: há outras demandas profissionais de curto prazo que me exigem plena atenção neste momento. Concluída a tarefa, volto para as colaborações regulares com fôlego renovado.
Hasta la victoria siempre!
George Gomes Coutinho
PS: Após postar percebi que o título original, "Pausa estratégica", estava errado. A pausa aqui é meramente tática. Não é estratégica. Conforme Clausewitz no clássico "Da Guerra", a estratégia refere-se ao objetivo maior, final e muitas vezes de longo prazo. Falamos do sentido quase ontológico da ação e da existência aqui. A tática é obrigatoriamente de curtíssimo prazo, circunstancial e dialoga com as contingências que obrigam a flexibilidade para que se possa atingir o objetivo maior.
PS: Após postar percebi que o título original, "Pausa estratégica", estava errado. A pausa aqui é meramente tática. Não é estratégica. Conforme Clausewitz no clássico "Da Guerra", a estratégia refere-se ao objetivo maior, final e muitas vezes de longo prazo. Falamos do sentido quase ontológico da ação e da existência aqui. A tática é obrigatoriamente de curtíssimo prazo, circunstancial e dialoga com as contingências que obrigam a flexibilidade para que se possa atingir o objetivo maior.
Intervenção para quem precisa
Intervenção para quem precisa*
George
Gomes Coutinho **
Os dias imediatamente após as
comemorações carnavalescas trouxeram para a população brasileira em geral, e a
fluminense em particular, o inusitado. No dia 16/02 o anúncio intempestivo de
uma Intervenção Federal pegou muita gente de calças curtas. Desconfio que até
mesmo os policy makers fluminenses se viram em igual condição.
Afinal, que cazzo quer o Governo
Federal na atual conjuntura? A medida foi recebida com críticas e ceticismo por
uma enorme gama de pesquisadores. Cabe ressaltar o ineditismo da situação:
nunca antes na História do Brasil redemocratizado assistimos algo assim. Não se
trata, portanto, de medida insignificante.
É dotada de inegável excepcionalidade e implica o reconhecimento de que algo
vai muito mal com as nossas instituições, a despeito da cantilena que apregoa o
oposto desde 2016. Isso não desconsiderando a medida ser respaldada pela
Constituição Federal de 1988. Para além disso, por qual razão seria o Rio o
objeto da Intervenção? Justamente o estado da federação que não se encontra na
pior situação em termos de violência urbana, não obstante a reconhecida
tragicidade de sua condição estrutural.
Ainda, cabe perguntarmos se era
esse o encaminhamento mais adequado, afinal a intervenção retira a autonomia
decisória do estado no que tange a segurança pública. Isso é grave. Está se
afirmando que o estado tornou-se incapaz de gerir este setor. Mas, seria só
esse? É falta de expertise mesmo? A segurança pública é o maior e mais grave
problema do Rio de Janeiro nesse momento? Oras, e as outras áreas fundamentais
de atendimento da população? O problema é de gestão ou seriam opções suicidas
de contigenciamento orçamentário que provocaram o atual cenário? No rastro das
perguntas inconvenientes: como estabelecem um prazo, um limite temporal para a
intervenção, sem terem delimitado objetivos claros?
Muitas dúvidas diante de tema tão
espinhoso. E uma única certeza para o momento. A mudança de pauta na opinião
pública. A segurança pública do Rio tornou-se, mais uma vez, o “assunto do
momento” em ano eleitoral. Conseguiram o intento após a Reforma Previdenciária
ter subido no telhado. A jogada é maquiavélica se foi para mera mudança de
direcionamento dos holofotes.
* Texto publicado em 24 de fevereiro de 2018 no jornal Folha da Manhã de Campos dos Goytacazes, RJ.
** Professor de Ciência Política no
Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Nota de repúdio à violência contra a liberdade de cátedra
A Diretoria da ABCP vem manifestar a sua profunda preocupação com o intenção do ministro da Educação, Mendonça Filho, veiculada por diversos sites de notícias na quarta feira, dia 21 de fevereiro, de acionar os órgãos de controle para analisar a legalidade de uma disciplina a ser lecionada no Instituto de Ciência Politica da Universidade de Brasília (IPOL-UNB), cujo conteúdo refere-se à análise da democracia brasileira contemporânea, abrangendo o período que antecede a deposição da ex-presidente Dilma Roussef até os dias atuais.
A Diretoria da ABCP entende que a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 206, II, garante aos docentes e discentes o pleno exercício da liberdade de ensinar e aprender, assim como faculta às Universidades brasileiras autonomia pedagógica. Ressalte-se ainda que a disciplina questionada pelo MEC é uma cadeira optativa de ementário livre, sendo facultado aos docentes montar o programa com o intuito de apresentar pesquisas recentes e debater temas da atualidade. A rigor, nenhum aluno ou aluna do curso de graduação em Ciência Política da UNB é obrigado a cursá-la. Por outro lado, proibir a realização da disciplina impediria os discentes que assim o desejassem de cursá-la, o que fere, por suposto, o princípio da liberdade de aprender.
Diante disto, consideramos que, se a intenção manifesta do Ministro de fato se concretizar, a autonomia pedagógica das universidades brasileiras estará ameaçada, assim como os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição Federal. O ato não poderá ser avaliado de outra forma, senão como censura, característico de regimes de exceção.
Fonte: Associação Brasileira de Ciência Política.
Acessível em:
https://cienciapolitica.org.br/noticias/2018/02/nota-repudio-violencia-contra-liberdade-catedra
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO: FATOS, DÚVIDAS E QUESTÕES
INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO: FATOS, DÚVIDAS E
QUESTÕES*
José Luis Vianna da Cruz**
Fatos
O
Governo Federal intervém, apoiado na Constituição, na Área de Segurança do
Estado do Rio, até 31 de dezembro deste ano, por suposta perda de controle do
governo estadual sobre a violência. Um General vai comandar as ações das
Polícias Militar e Civil, dos presídios, da área de inteligência, dos
bombeiros. Vai reportar diretamente ao Presidente da República.
Com
a intervenção, fica proibido alterar a Constituição. A Reforma da Previdência,
considerada “questão de honra” para o Governo, as elites, a grande mídia, o Judiciário,
o MP e o Mercado, não poderá ser realizada nesse período, pois implica em
mudanças na Constituição, como bem lembra a reportagem da BBC sobre o assunto (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43088935).
Dúvidas,
questões e apreensões
O
Exército já está, desde o ano passado, autorizado por Decreto do Presidente, a
atuar na segurança do Rio de Janeiro. Sua atuação não resolveu nada.
O
Rio não é o único nem o pior estado do país na questão da violência. Segundo o
11º Anuário de Segurança Púbica, do Forum de Segurança Pública, divulgado no
site da revista EXAME, em 4 de novembro de 2017, o Rio é o 10º colocado em
crimes violentos do Brasil (https://exame.abril.com.br/brasil/os-estados-mais-violentos-do-brasil-3/).
A
presença de tropas, somente, não resolve a questão estrutural da violência, de
forma profunda e por um longo prazo. Ocupação permanente? Como bem lembrou o
sociólogo Renato Lima, do Fórum de Segurança Pública, com a proibição de mexer
na Constituição provocada pela Intervenção, não será possível enfrentar as
questões estruturais e as mudanças que podem garantir uma melhoria profunda e
de longo prazo, tais como a natureza, as estruturas e as funções das polícias,
dentre outras questões de fundo. Que efetividade é possível alcançar com esta
medida?
Se
vai ser feito “mais do mesmo”,o que já demonstrou não ser eficaz; se isso vai
ser feito no décimo estado em gravidade da violência, qual a perspectiva de
solução?
A
Intervenção militar não foi precedida de nenhum estudo, estratégia, proposta ou
projeto de enfrentamento da questão da violência. Se ela está em níveis
insuportáveis em todo o país não seria um caso de ataca-la com políticas
públicas, e não com violência?
Não
podendo mexer na Constituição, até o final do ano, para que serve a
intervenção? Especula-se que seria para encontrar uma desculpa para o Congresso
e o Governo Temer escaparem da realização da Reforma da Previdência, cuja
rejeição pode ameaçar as eleições dos membros do Congresso e do Governo.
Como
ficam as eleições?Analisando-se politicamente, com tanta água a rolar por
debaixo da ponte após a intervenção, quem pode garantir que serão realizadas?
Lembremos que o Exército vai atuar também na questão dos imigrantes
venezuelanos. Será um ensaio para um projeto de um golpe
civil-jurídico-político-militar? Se a conjuntura caminhar para uma reação ativa
da sociedade, dos movimentos e organizações populares, contra o Governo e suas
medidas antidemocráticas e antipopulares, e as pesquisas mostrarem que os
candidatos dos golpistas tendem a não se eleger e os candidatos contrários a
esse Estado de Exceção e a favor do retorno e ampliação dos direitos e da
democracia, tendem a ser bem votados em número e representatividade, para o
Congresso e o Executivo, vai haver eleições em 2018? Será isso o que explica, em última instância, a Intervenção?
* Artigo publicado originalmente no jornal Terceira Via em 18 de fevereiro de 2018. O texto foi cedido gentilmente pelo autor para ser republicado por nós aqui no Autopoiese e Virtu.
** Cientista Social, Doutor em Planejamento Urbano e Regional.
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