terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Meritocracia e Igualdade


Meritocracia e Igualdade*

O Professor Marcus Cardoso perguntou aos seus estudantes se eles acreditavam na meritocracia – ideologia segundo a qual, resumidamente, o sucesso de um sujeito seria decorrente de suas qualidades e esforços. Os estudantes pareceram de acordo com a interpretação meritocrática do mundo, afinal, cresceram ouvindo que “Deus ajuda quem cedo madruga” e coisas do tipo. A partir da premissa de uma igualdade entre todos, foi proposto um desafio inusitado: o professor colocou em cima de sua mesa uma lixeira e pediu para que cada estudante fizesse uma bolinha de papel. Quem acertasse a bolinha dentro da lixeira ganharia um ponto na média do curso. Rapidamente os estudantes se deram conta de que aqueles que estavam sentados nas cadeiras do fundo tinham menos chances de acertar a lixeira do que aqueles que estavam sentados no início das filas – que atingiam o alvo apenas esticando os braços. Para surpresa de todos, um aluno, sentado no fundo da sala, conseguiu acertar a lixeira. De maneira súbita, o professor revelou sua metáfora para a vida social: “temos um Sílvio Santos entre nós!”.
A ideologia meritocrática ajuda a encobrir as desigualdades marcantes de nossa estrutura social. Acreditar que o sucesso depende do esforço individual sem considerar que as condições de competição são extremamente díspares é uma forma de perpetuar a segregação e a desigualdade. Existem os casos de pessoas que superaram todas as dificuldades e “venceram na vida”. São casos, mas não configuram uma realidade estrutural.
Imagine, então, uma situação hipotética. Joãozinho tem dez anos, mora em uma favela e estuda em uma escola pública que não abriu suas portas hoje porque houve um tiroteio entre traficantes. Enzo também tem dez anos, mora em uma área nobre da cidade e estuda em uma escola de renome, cuja mensalidade custa R$4.200 – mais do que a renda da família de João. O que os dois meninos têm em comum? Ambos querem ser médicos. Se a ideologia meritocrática estiver correta, ambos possuem as mesmas chances, pois precisam apenas empenhar-se. Se fosse um jogo e estivesse valendo dinheiro, em quem o leitor depositaria suas apostas?

Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.


*Publicado na Página 04 do Jornal Folha da Manhã de 03 de Março de 2018

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Carta a Oscar Grau




Carta a Oscar Grau*

Prezado Senhor Oscar Grau, diretor executivo do Barcelona Futebol Clube, venho, por meio deste, iniciar as tratativas sobre minha contratação para solucionar os problemas apresentados ao clube após a contusão do Suárez. Sou brasileiro e, como o senhor bem deve saber, por aqui estamos em uma nova etapa política, econômica e, sobretudo, discursiva/narrativa. Inspirado pelo momento ímpar que vivemos, decidi me apresentar para atuar ao lado de Messi e demais atletas. Tenho um curriculum invejável, com mais de dois mil gols marcados – isso sem contar aqueles que fiz no Fifa (jogo desde 1994!) e no Pes. Infelizmente perdi as gravações do gol 2000, um momento único na história do futebol nacional onde milhares de torcedores foram à loucura nas arquibancadas do monumental estádio do Folha Seca. De lá pra cá, perdi a conta, pois parei de me preocupar com as estatísticas e as análises técnicas – assim como aconteceu com o restante do meu país. Todavia, do mesmo modo que no Brasil a economia vai de vento em popa, o desemprego foi aniquilado e a ciência avança como nunca - graças à vontade do Design Inteligente de Deus -, meu futebol está cada vez mais afiado. No ano passado fui cotado para liderar o ataque do Flamengo, mas as negociações não avançaram. Fui vítima de sabotagem, sabe como é, né? Com um clube vermelho, as ideologias esquerdistas impediram meus ataques pela direita. Ficaram com o vice do Mundial – Deus castiga! Parte da mídia esquerdista pode tentar boicotar minha contratação, alegando que não há registro de minha atuação em grandes times e que minha idade está avançada. Vou dizer a verdade: não jogo em time petista, então meu futebol evoluiu individualmente, iluminado por minha fé e pela minha galhardia. A idade? Ah, quem está envelhecendo neste corpo sou eu e posso garantir que estou a cada dia mais virtuoso. Posso conversar com o Messi para que ele não se sinta ameaçado e meu salário não precisa ser maior que o dele, podemos começar com igualdade salarial para expressar minha humildade. Quando não fizer gols, farei arminha com a mão e a torcida entrará em êxtase! Se o time perder, a gente diz que é herança do Suárez! Meu agente entrará em contato. Abraço! #muitomaisqueumjogador #brasildistopico

Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.

Publicado no Jornal Folha da Manhã em 01 de Fevereiro de 2020

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

1 Berto Gessinger


1 Berto Gessinger*

“Não quero te vender o meu ponto de vista”. “Não foi assim que eu sonhei a nossa vida”. “Envelheci dez anos ou mais nesse último mês”. “Falta pão, o pão nosso de cada dia. Sobra pão, o pão que o diabo amassou”. “Tantas pessoas paradas na esquina, fingindo pena. Criança pequena cheirando cola, beijando a sola dos sapatos”. “Hoje o céu está pesado, vem chegando temporal. Nuvens negras do passado, delirante flor do mal”. “Já não há mais diferença entre a raiva e a razão”. “Se eu pudesse, ao menos te contar o que se enxerga lá do alto”. “Não vejo nada (o que eu vejo não me agrada)”. “Na vitória do mais forte, na derrota dos iguais. A violência travestida faz seu trottoir”. “Forças ocultas tomam de assalto ouvintes incautos”. “Afinal de contas, o que nos trouxe até aqui? Medo ou coragem?”. “O medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia”. “A propaganda é a arma do negócio”. “O fogo ilumina muito, por muito pouco tempo”. “E o fascismo é fascinante e deixa gente ignorante fascinada”. “Como um barco perde o rumo, como uma árvore no outono perde a cor”. “Nau à deriva”. “O que não dá pra evitar e não se pode escolher”. “Todo mundo é moderno como um relógio antigo”. “Cabeça pra usar boné e professar a fé de quem patrocina”. “Me espanta é que tanta gente sinta (se é que sente) a mesma indiferença”. “Pois nada faz sentido”. “Nossa cidade é muito grande e tão pequena, tão distante do horizonte do país”. “Aonde leva essa loucura? Qual é a lógica do sistema?”. “Há mais de mil destinos em cada esquina”. “O preço que se paga às vezes é alto demais”. “Cantava viva à liberdade”, “E eu começo a achar normal que algum boçal atire bombas na embaixada”. “Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão “. “Peixe fora d`água, borboletas no aquário”. “Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem”. “Estamos sós e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar”. “Tudo se divide, todos se separam”. “Não tenho medo de perder a guerra, pois no fim da guerra todos perdem”. “Eu só tô começando e já cheguei ao fim”. – Há artistas que já disseram tanto que nem precisam mais se pronunciar.

Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.

* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 27 de Outubro de 2018

domingo, 26 de janeiro de 2020

Da Janela de Isabel

Da janela de Isabel*

As chuvas desta semana trouxeram inúmeros transtornos para o Estado do Rio de Janeiro. Como é de costume, as questões ambientais costumam afetar de maneira desigual diferentes estratos da população – os transtornos causados por um mesmo índice pluviométrico são maiores nas periferias das cidades que nas áreas nobres. A questão é que,nas periferias, os problemas ambientais costumam ser adicionados a diversos problemas sociais. Como se não bastasse a precariedade das redes de esgoto, a falta de calçamento, a poluição de córregos, a coleta de lixo deficitária, o transporte público sucateado e outras coisas mais, ainda podem surgir questões de outra ordem. Explicarei. Com o advento das redes sociais, ficou muito simples acompanhar, mesmo que a distância, questões decotidianos diversos. Durante os últimos dias, tenho acompanhado as postagens – de textos e vídeos – de uma de minhas melhores alunas, Isabel, moradora da periferia de São Gonçalo. A princípio, suas postagens estavam tratando dos problemas causados pelas chuvas na região. Da janela de Isabel, era possível ver a chuva cair e alagar o Salgueiro. Na quinta-feira, o cenário, que já estava suficientemente complicado, recebeu um ingrediente a mais: uma operação policial para “combater o tráfico de drogas”. Eis que os vídeos de Isabel passaram a expor um helicóptero sobrevoando as casas. Os inúmeros tiros disparados marcavam as imagens e despertavam a angústia de quem se dava conta de que não era possível ter qualquer previsibilidade sobre o destino dos projéteis: uma barbárie sanguinolenta fantasiada de “combate à criminalidade”. Uma política pública de segurança que despreza a segurança de trabalhadores, trabalhadoras, jovens e crianças, é uma falácia que exibe o desprezo do Estado brasileiro em relação à vida das parcelas mais pobres. Nada disso é novidade, é apenas a conhecida política de extermínio que já ceifou a vida de inúmeros inocentes, promovendo um sadismo classista de Estado. A janela de Isabel não tem vista para o mar, mas tem uma vista privilegiada do que é o Estado brasileiro e do que é o Estado de exceção que vivemos.


Carlos Valpassos
Antropólogo – Universidade Federal Fluminense.

*Texto publicado no Jornal Folha da Manhã em 18 de Janeiro de 2020.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A auditoria do BNDES e a insuficiência dos dados perante o apego à opinião


A auditoria do BNDES e a insuficiência dos dados perante o apego à opinião

Jefferson Ferreira do Nascimento *

Um dos pilares da campanha eleitoral foi o discurso de combate à corrupção. Desde 2014, com a crescente exposição midiática da Operação Lava Jato, o tema passou ao principal problema do país na visão dos eleitores. Em 2013, apenas 10% dos entrevistados pelo Latinobarômetro[[i]] viam a corrupção como o principal problema do país, o percentual saltou para 31% em 2017. E é em consonância com este diagnóstico que ganha precedência uma suposta “Caixa Preta do BNDES” que poderia ser, na visão dos difusores, um escândalo à altura (para alguns, até maior) daquele identificado pela Operação Lava Jato.

Apesar das negativas de presidentes anteriores do BNDES, dentre eles dois claramente não alinhados ao PT, Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira (ambos, na gestão Temer) e dos documentos oficiais da instituição, uma das promessas de campanha do atual presidente era abrir a “Caixa Preta do BNDES”. Apesar disto, o primeiro presidente do BNDES de sua gestão, Joaquim Levy, tal como os antecessores, afirmava não haver indícios para tal operação. O que contribuiu para a sua substituição por Gustavo Montezano. É na gestão de Montezano que a consultoria avançou e divulgou os resultados: não havia indícios de irregularidades. A consultoria contratada foi o escritório Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, com sede em Nova Iorque. A empresa estadunidense subcontratou o escritório Levy & Salomão Advogados, sediado em São Paulo. Foram gastos R$ 48 milhões de reais e a operação tornou-se alvo da OAB por fornecer acesso a dados estratégicos do BNDES e de empresas brasileiras para o escritório estrangeiro. Apesar do resultado da auditoria contratada pelo governo atual, chama a atenção a reação de seguidores do presidente. No geral, esses comentários sustentam os seguintes argumentos:

1)    "Caixa preta foram os bilhões investidos nos países amigos”;
2)    “Se tivesse calotes o prejuízo ficaria para os cidadãos brasileiros”;
3)    “Dinheiro emprestado para ditaduras de esquerda e o Brasil continua sem...” (apontam algum problema: saneamento, segurança, saúde, educação, etc.);
4)    “É manipulação da esquerda...” (dos socialistas, dos petistas, dos comunistas e toda ordem de termos que julgam ser sinônimos);
5)    “Muito dinheiro para artistas e campeões nacionais...”;

Comecemos pelo último item. Entre 2009 e 2014, 134 jatinhos da Embraer foram financiados pelo BNDES. Todos esses empréstimos foram para empresas, Luciano Huck obteve o empréstimo pela Brisair, empresa que é sócio. Além dele, a empresa de João Dória, de Michel Klein (das Casas Bahia), empresas da família Moreira Sales e empresas de táxi aéreo obtiveram o empréstimo. Isto é, ainda que não seja absurda a crítica, a linha de crédito é para empresas e para aquisição exclusivamente da Embraer. Logo, Huck não obteve por ser artista, mas por ser empresário. Essa afirmação parte do desconhecimento do funcionamento do banco ou, em hipótese pior, da confusão com a demonizada Lei Rouanet. Bem como ignora que o intuito era o apoio à Embraer, até ali empresa exclusivamente brasileira.

O item 4 que afirma ser uma manipulação da esquerda esbarra no óbvio: a auditoria estadunidense foi contratada pelo governo atual e a divulgação do resultado foi feita por Gustavo Montezano. A ironia contida neste caso é que, ao reafirmar a existência de uma “caixa-preta” no BNDES, os apoiadores do presidente estão indiretamente afirmando: (1) a incompetência do governo até para contratar os seus prestadores de serviço; e/ou (2) que o governo está cometendo um crime ao acobertar atos ilícitos.

Os demais itens responderei utilizando um esclarecimento público feito pelo próprio BNDES[[ii]].

Item 3: "É justo apoiar projetos lá fora quando falta tudo aqui?
O objetivo do apoio do BNDES às exportações brasileiras é o mesmo de qualquer outra operação que o Banco realiza: gerar emprego e renda no Brasil. Quando financia as exportações de uma empresa brasileira de engenharia para obras no exterior, o BNDES exige que todos os bens e serviços apoiados sejam de origem brasileira.
Por isso, além dos projetos de engenharia, produtos como materiais de segurança, dutos, máquinas e equipamentos usados nas obras são produzidos e comprados no Brasil. Se o financiamento não for do BNDES, a empreiteira fica livre para comprar capacetes, uniformes e outros bens de outros países, como a China ou outro lugar perto da obra
[...] o BNDES financiou apenas 9% das exportações brasileiras de bens e serviços de engenharia (nos outros 91% dos casos, o financiamento veio de outras fontes). Ainda assim, os 9% de projetos que contaram com apoio do BNDES geraram em média 19 vezes mais exportações de bens brasileiros do que os projetos feitos sem o apoio do Banco."

Item 2: Informação 2: Quando o empréstimo não é pago ao BNDES?
"[...] financiamentos à exportação costumam ser cobertos pelo Seguro de Crédito à Exportação (SCE), um dos mecanismos de garantia e mitigação do risco de crédito usado pelo BNDES — e também por outros bancos, públicos e privados — em operações de financiamento a vendas externas de bens e serviços brasileiros."

Item 1: "o BNDES não envia dinheiro a outros países. Quando você ouve falar que o Banco apoia uma obra no exterior, saiba que o BNDES não financia todo o empreendimento, mas apenas a parte de bens e serviços brasileiros que são exportados para uso naquela obra [...] o BNDES desembolsa recursos no Brasil, em Reais, à empresa brasileira exportadora à medida que as exportações são realizadas e comprovadas. Quem paga o financiamento ao BNDES, com juros, em dólar ou euro, é o país ou empresa que importa os bens e serviços do Brasil. Assim, é falso dizer que há envio de dinheiro do BNDES para o exterior. Pelo contrário: o financiamento à exportação gera entrada de recursos no Brasil, contribuindo para melhorar o desempenho do balanço de pagamentos externos do nosso país."

Em complemento, ao item 1, caso fosse verdadeira a ideia de que o país emprestou para governos, a tese do favorecimento às “ditaduras amigas”, aos “governos socialistas” não se sustenta. Veja a tabela abaixo:

Países que receberam bens e serviços exportados por empresas brasileiras financiadas pelo BNDES, entre 1998 e 2018[[iii]]
Posição
País
Valores em bilhões de US$
1.°
Estados Unidos
17,784
2.°
Argentina
3,490
3.°
Angola
3,397
4.°
Venezuela
2,223
5.°
Holanda
1,468
6°
Rep. Dominicana
1,443
7.°
Equador
0,914
8.°
Cuba
0,882
9.°
Peru
0,645
10.°
Reino Unido
0,644

Cumpre reiterar que o BNDES empresta em reais para consumo de matéria-prima, mão-de-obra e serviços no Brasil e o uso do valor transformado em dólares para divulgação é para facilitar o cálculo e a soma ao longo da série devido a depreciação do real face à inflação e às variações do dólar. Além disso, a modalidade de fomento à exportação de bens e serviços é apenas 2% do total de empréstimos liberados pelo BNDES. O restante é para empreendimentos realizados aqui ou para empresa de atuação local, como é o caso – pasmem – da Havan, de Luciano Hang.

Mas, voltando aos dados da tabela, repare: se considerarmos os países que tiveram governos de esquerda ou centro-esquerda em algum momento nessa série de 1998-2018, teríamos Argentina, Angola, Venezuela, Equador, República Dominicana, Cuba e Peru. Todos os empréstimos somados para bens e serviços exportados para esses países totalizariam US$ 12,994 bilhões, isto é, apenas 73% do que foi destinado aos Estados Unidos e isso se fizermos a suposição de que todos os empréstimos para esses países ocorreram apenas em seus governos de esquerda ou centro-esquerda e durante os governos do PT (2003-2016). Veja, ainda que tivesse ocorrido empréstimos a governos, o maior destinatário de recursos do BNDES é a maior potência capitalista: os EUA. Se ampliarmos os dados para os 20 países que mais receberam recursos, do 11.° ao 20.°, só Paraguai (US$ 0,211 bilhões), Chile (US$ 0,479 bilhões) e França (US$ 0,331 bilhões) tiveram algum governo de esquerda ou centro-esquerda no período 1998-2018. Isto é, incluindo esses países, o total seria US$ 14,015 bilhões, ainda menor do que apenas os empréstimos para exportação para os EUA. Novamente, supondo que todo o montante aos três países foi destinado apenas durante governos de esquerda! Do 11.° ao 20.°, os demais são: Polônia, Espanha, Itália, Canadá, Ilhas Cayman, Irlanda e México (que só elegeu um presidente de esquerda em 2019). Esses 08 países se juntam aos Estados Unidos, Holanda e Reino Unido, totalizando 11 países onde a associação de governo ideologicamente amigo soaria absurda, contra 09 em que tais ilações poderiam ser forçosamente elaboradas.[[iv]]

Logo, posto que esses dados já eram públicos, se vê que a tal auditoria só serviria se ela confirmasse a opinião corrente entre os apoiadores do presidente. Se irregularidades fossem encontradas, teríamos o poder do viés de confirmação. Como isso não ocorreu, os dados têm pouco valor perante à opinião cristalizada e reafirmada em círculos de amigos, grupos de WhatsApp, canais de YouTube. A tal “bolha” encoraja a defesa da opinião, mesmo que ela não resista a mais trivial análise de dados.

Diante de tal panorama, é muito difícil que esse texto supere o apego à opinião diante do encorajamento, até por parte de autoridades constituídas, para a reprodução de desinformação em detrimento de dados. Mas, para quem ainda tiver vontade de entender, esse texto indica os links de onde as informações foram retiradas, vá às fontes e indique-as, assim será mais fácil entender o resultado da auditoria. Entretanto, não se iluda, estamos em tempo de crença na terra plana, no crescimento de movimentos antivacina, numa época em que boatos decidiram eleições e crenças pessoais, como a campanha pela abstinência, podem ser tornar política pública para combater DSTs e gestação precoce (como se tal campanha já não fosse feita na maioria das famílias e nas igrejas).

* Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFSCar e professor no IFSP, Campus Sertãozinho. Membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA). Email para contato: jefferson.nascimento@ifsp.edu.br




[i] Pesquisa anual de opinião pública feita em 18 países da América Latina. Ver: http://www.latinobarometro.org/lat.jsp
[iv] Ver link acima[iii].