Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Maravilhos@s vagabund@s...

Carlos Abraão Moura Valpassos*

 

Há pouco tempo, lá no ano de 2019, parte da população brasileira adotou uma postura ácida em relação a intelectuais e artistas. Não faltavam dedos erguidos para indicar que os membros das classes artísticas e intelectuais eram vagabundos, mamadores da lei Rouanet, pessoas “sem carteira de trabalho” ou qualquer coisa equivalente. 


Não deveria precisar dizer, mas, nos dias de hoje, como nem o óbvio é poupado das distorções, é bom deixar claro: era o primeiro ano de governo de Bolsonaro. Naquele ínterim, havia um frenesi da direita brasileira e um derramamento de ódio contra tudo e contra todos – mas sobretudo contra intelectuais e artistas. Todavia, a terra redonda gira, e em 2020 veio a pandemia de Covid-19, obrigando as pessoas a ficarem reclusas em suas casas. Foram dias, semanas e meses de isolamento. Não demorou para que os vagabundos mostrassem seu valor: apresentações de lives, entrevistas e outras formas variadas encontradas pela criatividade. O mundo acadêmico, em um momento em que os dados sobre a pandemia eram abafados ou distorcidos, tomou para si a tarefa de alertar sobre os riscos envolvidos, indicando desde o potencial de letalidade até os efeitos econômicos e sociais. Entre erros e acertos, podemos hoje afirmar que os alertas mais sérios sobre a pandemia, no Brasil, vieram das universidades. Nenhum cientista classificou a Covid-19 como “gripezinha” e logo no início foram apresentadas análises sobre a possibilidade de a condução das políticas de combate à pandemia adotadas, orientadas pelo planalto, levarem a uma hecatombe. Oficialmente, passamos dos 650 mil mortos. Isso em uma oficialidade que não reflete a realidade, pois essa, por sua vez, indica números muito mais elevados. 


Voltemos, agora, aos nossos valiosos vagabundos. Eles (e elas! – perdoem este ser alfabetizado nos anos de 1980) foram malditos em 2019, seguraram a peteca e salvaram a lavoura quando a situação ficou sombria em 2020, sofreram com as limitações de suas atividades em 2020-2021, e agora, em 2022, ano de eleição, voltam a ser chamados de malditos vagabundos mamadores da lei Rouanet. “Joga pedra na Geni!”. No ano de eleição presidencial, o bolsonarismo precisa criar fantasmas que desviem a atenção de seus próprios demônios. Artistas e intelectuais são ótimos fantasmas. É uma estratégia política. No entanto, 2022 surge como o ano da recuperação das atividades e da economia. E esses artistas e intelectuais, sem suas carteiras de trabalho assinadas, podem ser menosprezados e vilipendiados. E é aqui que precisamos pensar na contribuição econômica dessas pessoas, mesmo que de modo simples e rápido, mas sempre refletindo o mundo fático.


Imagine o Rio de Janeiro sem aqueles vagabundos carnavalescos para organizar os desfiles e as apresentações de carnaval. Você não terá trabalho para imaginar isso, basta lembrar o que aconteceu em 2021. Sem carnaval, as atividades turísticas desabam. Não há ocupação hoteleira satisfatória, os bares não ficam lotados, os táxis e ubers se movimentam em escala tímida, os vendedores ambulantes ficam sem público, as lojas vendem menos. “Malditos vagabundos que atraem milhões de pessoas para a baderna na cidade do Rio de Janeiro” - e movimentam a cidade e sua economia. 


A vida não é feita só de carnaval. E o setor turístico, super mal aproveitado no Brasil, desperdiça seu potencial quando não investe na arte e na intelectualidade. As pessoas, quando vão ao Rio de Janeiro, querem ver a praia de Ipanema, não por ela ser mais bonita que as praias da Barra, mas porque já ouviram falar, na voz de Tom Jobim, de uma tal Garota de Ipanema. Elas vão à cidade de São Paulo e querem tomar um chopp na esquina da Ipiranga com a Avenida São João, para ver se alguma coisa acontece no coração, tal como cantou Caetano. E os exemplos não param.


Em 2018, o Brasil recebeu 6,62 milhões de turistas estrangeiros. Em 2019, os Estados Unidos receberam cerca de 80 milhões de turistas estrangeiros, que geraram cerca de 179... bilhões de dólares em receitas em bens e serviços (Dados U.S. Travel Association, mencionados pela Bloomberg). O que gera tal diferença? Pode-se argumentar que a diferença de desenvolvimento econômico entre os países – e isto estará correto. Entretanto, há outras questões que acentuam a disparidade. Eu destacaria uma questão muito simples: as histórias. Os vagabundos americanos possuem maior poder para divulgar suas histórias: livros, filmes, músicas, esportes etc. As pessoas querem estar nos palcos onde aconteceram grandes histórias, elas querem pisar naquele solo e respirar aquele ar. E sem esses vagabundos, as histórias não são contadas, elas não são registradas. Sem histórias, pode até haver turismo, mas não do mesmo modo e tampouco na mesma intensidade. Histórias filmadas, fotografadas, escritas ou cantadas fascinam e atraem pessoas. Pessoas movimentam cidades e economias. Isso gera renda, trabalho e possibilidades. 


Quando não valorizamos artistas e intelectuais, fazemos com que o Mississipi, um rio que nunca vimos, pareça mais poético e atraente do que o Paraíba do Sul, que nos fornece a água de cada dia. É preciso frisar a importância desses vagabundos e vagabundas que tornam os palcos de suas vidas atraentes para outras pessoas, que nos fazem desejar passar uma tarde em Itapuã ou ir ao Maracanã num domingo para ver o Flamengo jogar (mesmo na fase atual). 

 

Professor de Teoria Antropológica 

Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense






quarta-feira, 6 de abril de 2022

Carlos Lessa e os intelectuais públicos - Milton Lahuerta


*


Carlos Lessa e os intelectuais públicos!**

Milton Lahuerta***

Em meados de 1976, tive uma oportunidade de trabalho que mudou minha vida. À época, com 22 anos, eu cursava o 3o ano de Ciências Sociais na FFLHC-USP, militava no MDB e no PCB, e vivia atormentado por trabalhar numa empresa multinacional holandesa, a Philips. 

Por uma colega que também fazia Ciências Sociais, a Sarah Yakhni, fiquei sabendo que estava em curso um processo de seleção de estagiários para trabalhar num projeto de pesquisa sobre "Estrutura e gênese  da Administração Pública Paulista", junto à Diretoria de Pesquisa de uma instituição que havia sido recém criada: a FUNDAP (Fundação para o Desenvolvimento Administrativo). 

Fiz a entrevista de seleção com Rui Fontana Lopes, que me explicou o que seria o projeto e me informou que a equipe da Diretoria de Pesquisa era composta por Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (Diretor), Paulo Davidoff Cruz e ele próprio (um pouco depois seria incorporada à equipe como técnica Ieda Marques Britto), e que seria complementada por mais quatro estagiários, dos quais só faltava selecionar um. Acabei sendo o escolhido, para minha alegria e profundo desgosto de minha família, pois em casa eu era o único com trabalho fixo numa "boa empresa".

A mudança significou uma redução de 75% do meu salário e nunca esqueci o que meu pai, que sempre respeitou muito minhas escolhas, me disse, meio consternado por estar questionando minha opção: "você tem certeza do que está fazendo? Todo mundo anda pra frente, você vai andar pra trás?".

De fato, trocar um salário de 3.000,00 cruzeiros, com carteira assinada, refeitório e assistência médica, numa empresa multinacional, por um estágio, pelo qual receberia 600,00 cruzeiros, a ele e a meus amigos, parecia uma atitude insensata e, eu mesmo, confesso que vacilei!

E foi com essa dúvida que iniciei minha primeira experiência de pesquisa, integrando uma equipe que, além dos citados acima, passou a ser composta por quatro estagiári@s, que trabalhavam quatro horas por dia, em duplas, num edifício na Av. São Luís, no centro de São Paulo, onde ficava guardado o arquivo da Assessoria Técnica Legislativa (ATL), reunindo todas as leis e decretos do Estado de São Paulo, desde 1890, nos quais resgatávamos as informações sobre a criação, extinção, fusão, desmembramento de todos os órgãos da Administração Pública Paulista. A equipe de estagiários era composta por Eliane Pérola Maizel (CS-USP), Lizete Prata  (CS-UNICAMP), Milton Lahuerta (CS-USP) e Olivier Udry (AP-FGV), substituído por Mário Mazzilli (CS-USP).

Durante um ano cumprimos uma rotina rigorosa de trabalho de pesquisa, definindo a maneira de coletar as informações e padronizá-las, escrevendo textos sobre o evolver da Administração Pública Paulista, coordenados por Rui Fontana Lopes, que, ainda que fosse recém formado pela GV e tivesse a nossa idade, tinha muitas qualidades intelectuais e grande experiência como pesquisador. Para que o trabalho pudesse ser realizado, além das reuniões com Belluzzo, Paulo Davidoff e Rui, tínhamos encontros quinzenais com consultores, primeiramente, com a finalidade de ajustar o desenho do projeto e depois para acompanhar o seu desenvolvimento. Dentre os consultores, brilhava justamente o economista Carlos Lessa, à época com menos de 40 anos, que juntamente com Belluzzo, João Manoel Cardoso de Mello, Maria da Conceição Tavares, Frederico Mazzucchelli, Liana Aureliano, compunha o Depto de Economia da UNICAMP, que tivera importante papel na criação da FUNDAP. 

As participações de Lessa como consultor da equipe traziam uma lufada de bom humor, energia e esperança para tod@s nós, pois nele não havia nenhum resquício de tecnocratismo e/ou de uma visão burocrática sobre o estado e sobre o trabalho a ser realizado. Suas intervenções, além de tratarem dos desafios próprios da pesquisa, do Estado, da economia, da Administração Pública, falavam da vida, da literatura, da cultura brasileira e universal. Eram recorrentes suas citações de  Sartre e Hemingway, sempre exercitando a ironia, a verve crítica e a imaginação criadora, e sempre nos desafiando a pensar para além dos escaninhos burocráticos. Assim como eram recorrentes suas colocações acerca da necessidade de um projeto nacional e democrático de desenvolvimento para o Brasil. 

Nesse sentido, Lessa, além de nos inspirar a pesquisar, estimulou em cada um de nós a necessidade de se pensar não só como profissional, como técnico, mas principalmente como intelectual. Naquele projeto, sua presença foi fundamental não só para que a equipe se constituísse com organicidade e a pesquisa pudesse ser concluída e publicada como livro, "Perfil da Administração Pública Paulista", mas, principalmente, para que aquel@s jovens estagiári@s, que participavam do empreendimento, pudessem apurar o rigor intelectual e o compromisso público com a democracia e com o desenvolvimento. Para mim, particularmente, conviver com ele nesse período foi decisivo também para definir o meu perfil intelectual e para me dar a certeza de que, contrariando meu pai, eu não estava "andando pra trás!".


* Foto de Victor Vogel. Disponível em: https://www.vitorvogel.com.br/retratos?lightbox=imagepbm, acesso em 06 de abril de 2022.

** Texto publicado originalmente no perfil do Facebook do prof. Milton Lahuerta (https://www.facebook.com/milton.lahuerta). Reproduzimos aqui com a autorização do autor. O professor Lahuerta compartilhou essa memória "(...) quando do passamento de Carlos Lessa em 2020".


*** Milton Lahuerta é professor de Teoria Política na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, Campus de Araraquara. É autor de inúmeros artigos, capítulos de livros e coletâneas nas áreas de pensamento social brasileiro, sociologia dos intelectuais e teoria política. Publicou, em 2014, o seu "Elitismo, autonomia, populismo - Os intelectuais na transição dos anos 1940" pela editora Andreato.