| Fonte: Andersen/AFP |
É preciso
sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um
tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que
é ruim. - Contardo Calligaris
Em 2014, Anna Luisa, minha filha mais velha –
então com quatro anos –, chorou pela lesão de Neymar como se já entendesse profundamente
de futebol ou como se dele fosse familiar. Uma criança sentiu as dores do então
jovem e promissor atleta. Ontem, aos cinco anos, meu filho mais novo, Gael, chorou
pela derrota do Brasil. Na terça passada, ao fazer um gol na aula de futebol,
comemorou como Haaland – que ele vê em vídeos ou em jogos que assistimos. Seu
palpite era 3x1 para o Brasil, com gols de Vini Jr., Neymar e Marquinhos (não
nesta ordem exatamente) e Haaland faria o gol de honra. Porém, Erling Braut
Haaland, que o inspirou na terça, o frustrou no domingo.
Essas reações precoces me fizeram
pensar, inclusive, sobre minha culpa nisso tudo. Devo ao meu pai o gosto pelo
futebol. Porém, minha primeira grande experiência com a Seleção Brasileira foi
aos dez anos, na Copa de 1994. Não tenho a menor lembrança da Copa de 1990, quando
eu tinha seis anos. Anna, hoje com dezesseis anos, desiludida com Neymar (e alegando ser team Bruna Marquezine), lembra do choro, detalha o local em que estávamos e algumas das pessoas presentes. Não sei se o Gael também se lembrará daqui há alguns anos; mas algo
começou a me incomodar nessa “ditadura” da positividade estúpida.
Esse papo pueril de que se
aprende nas derrotas desconsidera inúmeros fatores. Pessoas humildes aprendem
sempre, inclusive nas vitórias, quando é possível valorizar os sacrifícios
empreendidos na preparação. Indivíduos arrogantes não aprendem nunca: acreditam
vencer apenas pelos próprios méritos e perder pela incompetência ou conspiração
alheia. Isso é, fatos e situações não ensinam nada; pessoas podem aprender e/ou
ensinar ao refletir sobre fatos e situações. Para ser menos teórico, se as
derrotas ensinassem, não estaríamos perdendo desde a Copa de 2006.
Outro papo que rola por aí é: “ao
menos, terminou a geração Neymar, o neymarzismo ou afins”. Será?!
Óbvio que não. Neymar é um sintoma
e não a causa desse estado de coisas. Isso não quer dizer que ele próprio seja
apenas vítima. É óbvio que ele possui capacidade de agência e é responsável pelas
escolhas. Mas aquilo que irrita alguns na chamada “Era Neymar” não termina com
a aposentadoria do jogador. Neymar foi uma referência de gerações diferentes. É
o sonho de reencarnação de marmanjos infantilizados; mas, acima de tudo, foi
ídolo pelo seu talento, fez fama e é um dos poucos jogadores dessa seleção que estão
na ponta da língua das crianças, a despeito da menor conexão com o povo
brasileiro do que gerações anteriores.
As crianças, majoritariamente,
não entendem a perversidade das bets que ele divulga, nem mensuram a
gravidade dos atos de intimidade do jogador. As crianças consomem imagens de
gols, jogadas e imagens fabricadas pelo marketing. Se jogam bola, muitas delas
querem ser Neymar, porque o atleta tornou-se ídolo e até herói para jovens
adultos e adolescentes que propagam testemunhos sobre ele. Portanto, a "Era
Neymar" não acabará enquanto existirem fãs contando sobre seus êxitos, reproduzindo
visões idealizadas ou fabricando memórias alteradas pelo afeto e o passar dos anos.
Também dizem que a derrota teria
seu lado bom por encerrar “uma geração de perdedores”, que seria encabeçada por
Casemiro, Marquinhos, Danilo, Alisson e Alex Sandro, etc. Ora, de quais perdedores vocês falam?
São todos eles vitoriosos nos parâmetros
de sucesso estabelecidos pelo futebol produto-mercadoria global. Todos chegaram
a grandes clubes europeus, venceram nestes clubes, são milionários e famosos,
apesar de não terem sido campeões mundiais pela seleção. E mais do que vencer e
enriquecer, eles são testemunhas, canais de um milagre que excita a
racionalidade neoliberal: sobreviveram e venceram em um modelo de futebol que tritura
pessoas para torná-las mercadoria, como repete com lucidez Fernando Diniz. Para
esses vencedores que, em tese, reforçam a narrativa meritocrática, até pastores
e religiões on demand são criados para fazer caber o camelo no buraco da
agulha. Vieram, viram e venceram... tornando-se parte da ínfima minoria de
atletas multimilionários.
Sua desconexão com o povo
brasileiro é menos incapacidade pessoal do que sinal dos tempos. Danilo e Alex
Sandro não foram Cafu e Roberto Carlos, Jorginho e Branco e, provavelmente, os laterais deste novo ciclo também não serão. O camisa 10 criativo, de quem sentimos falta, tem pouca chance de
aparecer na próxima convocação de Ancelotti. O centroavante habilidoso e letal
– feito Careca, Ronaldo e Romário – talvez esteja sendo convencido a ser um
ponta de pé trocado por algum empresário, olheiro ou técnico de base. A lógica do nosso futebol deixou de ser o jogo espontâneo e passou a ser
modulado para formar mercadorias demandadas pelo mercado europeu. Nossa
identidade, o jeito brasileiro de jogar futebol, foi substituída pela linha de
montagem em boa parte das categorias de base. E, de novo, o encantamento gerado
por Neymar testemunha a escolha do Santos F.C. em resistir por um tempo a essa
lógica fabril na base. Até que os ditames mercadológicos também invadiram o CT Rei Pelé após o falecimento do lendário Zito, o "gerente da Vila".
Por isso, senhoras e senhores, os
atletas acusados de serem perdedores não venceram uma Copa do Mundo, mas
conquistaram todo o resto e conquistaram aquilo que sonham os pais, mães e
responsáveis que educam nossas crianças, que pagam escolinhas de futebol, que
investem em campeonatos, materiais esportivos (em alguns casos, personal
trainer, coach, nutricionista, suplementos) e toda uma indústria
por trás dessa intensificação da mercadorização do futebol. Em verdade, eles
não são perdedores; são membros do grupo de referência que povoa o sonho dos
adultos e que servem de parâmetro para a socialização das crianças. São cases
de sucesso que deveriam balizar nosso mindset... e nós somos os
propagadores dessa profissão de fé!
Certa vez, li um texto de Contardo
Caligaris, cuja seguinte passagem me marcou: “[...] seja qual for a
qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo
uma promessa de futuro”[i].
Em tempo algum, aprendemos apenas na escola. Nos dias atuais, os espaços de socialização
são ainda mais numerosos: redes sociais e influencers se somam à TV, ao cinema
e aos esportes. Se somam e os modificam profundamente, além dos antigos paparazzi,
páginas de fofoca, agora temos influencers de tudo quanto é coisa e assistimos a uma redessocialização
do jornalismo esportivo.
Com isso, as cifras da venda de um jovem talento e o seu salário recebem
mais destaque do que os vínculos que ele construiu com a comunidade (imaginada)
de seu clube. Esses veículos se ocupam mais de explorar quanto ganham os
atletas Fulano e Beltrano, e quanto são glamourosas as vidas do atleta Ciclano
e de outros em Paris, Barcelona, Madrid, Londres ou outra metrópole europeia.
E acaba sendo essa promessa de futuro que consumimos e transmitimos às nossas
crianças.
O fato é que toda escola, como
dizia Calligaris, é chata ou insuficiente para quem parou de sonhar. Porque ela
deixa de ser um espaço vivo e passa a ser um mero degrau para alcançar o cifrão
ou se tornar celebridade. E o que fazemos ao criar nossos jovens? Reforçamos
esses aspectos materiais em detrimento dos elementos afetivos que estreitam
nossos laços comunitários. Se fazemos isso, de onde vem a surpresa quando um jovem
talento do nosso clube de coração prefere sair antes dos 20 anos para o Oriente
Médio, a Rússia, a Ucrânia ou algum clube europeu de pouca expressão? Por que fingimos
incômodo com a divulgação das bets ou se o agente é o figurão que abastece a Premier League ou um
rapper estadunidense? Afinal,
Em princípio, os jovens interpretam o desejo (inconsciente) dos pais e
herdam os sonhos reprimidos atrás das vidas (fracassadas ou bem-sucedidas,
tanto faz) dos adultos. Aquela fala chata dos pais, que evocam as renúncias que
foram necessárias para conseguir criar os filhos, aponta o caminho de aventuras
menos sacrificadas. Há uma guitarra empoeirada no sótão do comerciante ou do
profissional cujo filho quer ser roqueiro. O que mudou? [...] É possível que,
por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua
função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de
vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples
entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas
e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem,
enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e a uma cerveja
com os amigos. É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não
saibam mais sonhar muito além de seu nariz.
Se as nossas renúncias narradas e
os objetivos (alcançados ou não) são só econômicos. Se as vitórias ou derrotas esportivas
dos clubes e seleções devem ser encaradas como algo de menor impacto coletivo e
identitário, face à supervalorização da culpa ou do mérito individual... como
esperar o ídolo que veste, de fato, a camisa e que seja identificado com essa
comunidade? A conta não fecha...
De certo modo, é preciso admitir
como adultos que, independentemente da visão política, da relação com a seleção
e o debate sobre o patriotismo, não há nada de bom na derrota da seleção
brasileira. Ela não nos aproxima da vitória nem enterra nossos fantasmas da
vida social. Porque parte desses fantasmas não advém desses jogadores, mas da
estrutura que produz o futebol tal como ele é comercializado atualmente.
Fingir e repetir essa
positividade tóxica favorece a propagação desse ideal atomizado da vida, desse
individualismo desenfreado. O futebol pode ser ópio e será um tanto mais
alucinógeno se a mensagem continuar a ser essa de ídolos que se sobrepõem aos
laços comunitários representados pelos clubes e aos laços nacionais emulados
pelas seleções. Porque o barato desse tipo de narcótico é entorpecer o
indivíduo, retirando dele a capacidade de refletir sobre a realidade e nela intervir.
O futebol pode ser diferente se nos devolver o sentido coletivo da vida.
Essa triste derrota só nos devolveu mais
cedo para a dura realidade brasileira e inventar possíveis benefícios apenas infantiliza
e/ou nos torna cínicos. Admitir a dureza da derrota, especialmente para nossas
crianças, não nos torna menos racionais, menos intelectuais ou mais alienados.
Admitir e assimilar a dureza da derrota nos devolvem a oportunidade de refletir
sobre os laços comunitários e ajudam a mostrar que, apesar da importância do dinheiro
na sociedade capitalista, há muito mais pelo que lutar.



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