quarta-feira, 8 de julho de 2026

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado - José Luis Vianna da Cruz

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Preâmbulo curto

Eu e o prof. José Luis conversamos antes dele gentilmente aceitar a republicação do texto aqui no blog. Ele topou a republicação sob uma única condição: que o texto fosse dedicado "(...) a todos e todas que lutaram e continuam lutando para romper as barreiras que impedem o pleno desenvolvimento da cidade."

Assim está feito. Teje dedicado!

 

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado**

José Luis Vianna da Cruz***


Grande parte das nossas elites políticas, econômicas e sociais cultiva um conjunto de práticas predatórias, contra o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de Campos, com influências igualmente negativas sobre o desenvolvimento regional. São práticas herdeiras da tradição colonialista, de senhor de escravos, de uma pretensa aristocracia sucroalcooleira e de donos de latifúndios, patrimonialistas. Exercidas com mandonismo, autoritarismo, clientelismo, racismo, patriarcalismo, discriminação, segregação e violência contra a população trabalhadora, empobrecida e exercendo atividades precarizadas.


Quais as evidências dessas características? Em que elas impedem o desenvolvimento de Campos e da região? Baseio-me nas pesquisas e produções acadêmicas e na militância dos movimentos e coletivos libertários, além do conhecimento como campista militante social. Falo do que está na boca do povo, como na canção de Chico Buarque e Milton Nascimento:


“O que será, que será…
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que andam falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados…”


A existência de inúmeros quilombos e “bairros negros”, em favelas e bairros de baixa renda, segregados em relação à existência e à qualidade da infraestrutura, ao acesso e à mobilidade, à integração na cidade. A segregação de favelas e bairros pobres urbanos, onde a maioria é preta.


A predominância, nos lugarejos, vilas e áreas urbanas rurais, do abandono dos serviços urbanos, particularmente do esgotamento sanitário e do atendimento à saúde e, principalmente, das vias e do transporte coletivo, na frequência, qualidade e acesso. Essas localidades são ilhas de vida saudável, respiram natureza, conservam as relações de vizinhança, amizade, solidariedade e apoio mútuo entre seus moradores, têm história e cultura de modos de vida, que tendem a desaparecer, pela total irresponsabilidade dos poderes públicos.


A precariedade dos vínculos trabalhistas nas atividades tradicionais, desde o trabalho na área rural até o trabalho no comércio. É amplamente sabido que muitas lojas de comércio não assinam carteira, ou mesmo quando assinam, a remuneração vem somente das comissões das vendas. As jornadas de trabalho chegam a mais de 10 horas por dia. É comum comerciantes que sonegam os impostos municipais e se utilizam da proximidade com políticos para terem suas dívidas postergadas, anuladas ou ignoradas. A assinatura da carteira de trabalho e o respeito aos direitos trabalhistas da(o)s trabalhadora(e)s doméstica(o)s são majoritariamente ignorados pelas famílias e o tratamento dado a ela(e)s mantém resquícios da crueldade e violação dos direitos herdados da sociedade escravocrata.


A prática das monoculturas que geram monolitismo nas estruturas de poder, empresariais, nas instituições públicas e privadas; ou seja, no conjunto da vida social, impede a valorização, a reprodução e o fortalecimento da economia popular e da diversificação produtiva, tanto na produção como no comércio e serviços. Isso se expressa na substituição da monocultura da cana pela do petróleo e gás e, agora, pela da infraestrutura de armazenagem, transporte e circulação de mercadorias internas e de commodities do extrativismo, via condomínios logísticos, porto e vias. Também nos oligopólios dos atacarejos e varejos, com os megaempreendimentos sufocando os médios e pequenos de capitais locais, gerando falências, desemprego e aprofundamento da precarização. Isso explica o apartheid urbano expresso numa cidade (re)partida entre condomínios horizontais de renda média e alta, fechados, murados, segregados e o resto da cidade. E ainda querem atrair monoculturas do agronegócio, datacenters, fazendas de energia eólica e outras atividades profundamente predatórias do meio ambiente e da vida social, cujo nível de automação não gera empregos e desemprega, como explicarei adiante. O mesmo acontece com as expressões culturais da periferia, marginalizadas e, muitas vezes, hostilizadas pelos Poderes Públicos.

Fazem isso através de estratégias econômicas, sociais, políticas e militaristas: impedem a agricultura familiar, a agricultura dos pequenos produtores tradicionais e a dos assentados, agroecológica e orgânica, que fortalece a natureza, o ambiente, a saúde, o trabalho, a distribuição de renda, a diversificação e, por consequência, o verdadeiro desenvolvimento, diversificado, democrático, inclusivo, distributivo e saudável. Destroem e inibem as economias tradicionais, de pequeno e médio porte, produzindo desemprego e favorecendo o subemprego e a total informalidade e abandono dos trabalhadores.

O que chamam de desenvolvimento é um balcão de negócios privados, visando beneficiar-se financeiramente da implantação de mega empresas nos segmentos imobiliário, de atacado e varejo, de educação, de hospedagem, dentre outros; tendo o cuidado de bloquear quaisquer iniciativas econômicas, sociais, culturais e políticas que possam ameaçar o monopólio do poder, o controle dos territórios, da força de trabalho; isto é, bloquear as energias e iniciativas que possam “abrir”, romper e superar essa herança perversa.

Nisso consiste o trabalho mais profundo, dramático e leviano, contra o bem-estar social. Por meios coercitivos, repressivos e, muitas vezes, violentos, reprimem e oprimem qualquer possibilidade de reação a esse padrão de condução do poder na sociedade campista: controlam o poder na gestão das escolas e dos equipamentos de assistência social e serviços públicos; controlam a liderança política nas favelas e bairros mais pobres, onde se encontra a maioria do eleitorado, obrigada a conviver com o poder e controle dos traficantes, nessas favelas e bairros pobres. Quando promovem políticas sociais, como a da habitação popular, misturam populações de bairros controlados por facções rivais, aprisionando e submetendo a população às leis dos conflitos entre poderes institucionais, formais e os do crime organizado. Grande parte da população está aprisionada em suas residências, tolhida e controlada no direito de morar, conviver e de ir e vir na cidade. Não encontram abrigo no Poder Público local, omisso, indiferente e verdadeiramente hostil às vozes populares.
Para mim, a expressão mais revoltante dessa prática é o Campo de Concentração chamado Tapera III, à margem da BR-101, no meio do nada, uma das formas mais violentas de confinar a população pobre, expulsa da Favela Margem da Linha e jogada numa área vulnerável ao controle do crime organizado, sem nenhum serviço urbano digno, submetida à total insegurança, ao transporte absolutamente precário e à morte frequente de seus moradores, pelo tráfego da BR-101. Digna de um projeto nazista, que submete os moradores à tortura e privação diárias dos mais elementares direitos humanos. Uma monstruosidade.


O que faz do nosso município – e da região – um território marcado pela predominância do legado da sociabilidade e do poder vigentes na escravatura, no Império e no pior da República, que se instalou nesse país e, muito forte e profundamente, por aqui. A parte dominante dessa elite embrulha tudo isso com o invólucro do conservadorismo direitista, falsamente moralizador, de braços dados com segmentos inimigos da democracia e do desenvolvimento. Porque não ama nossa cidade e nossa região, porque não ama nossa gente.
Como diz o ditado, que muitos atribuem a Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”. As investigações da Polícia Federal parecem confirmar o ditado.

Da nossa parte, continuamos firmes na luta para superar radicalmente essa história nefasta imposta por uma parcela da elite dominante campista e regional, porque amamos essa terra e a nossa gente.


* Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3APaisagens_de_Campos_dos_Goytacazes_RJ_6.jpg?utm_source=chatgpt.com, acesso em 05 de julho de 2026.

*** A primeira versão deste texto/manifesto foi publicada no blog do professor Marcos Pedlowski em 28 de junho de 2026 e pode ser acessada aqui: https://blogdopedlowski.com/2026/06/28/o-desenvolvimento-sequestrado-como-as-elites-mantem-campos-prisioneira-de-seu-passado/ 

*José Luis Vianna da Cruz é professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, possui graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS, 1978), Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 1990), e Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 2003).

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Não existe lado bom na derrota de ontem

 Por Jefferson Nascimento*

Fonte: Andersen/AFP


É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim. - Contardo Calligaris

 

Em 2014, Anna Luisa, minha filha mais velha – então com quatro anos –, chorou pela lesão de Neymar como se já entendesse profundamente de futebol ou como se dele fosse familiar. Uma criança sentiu as dores do então jovem e promissor atleta. Ontem, aos cinco anos, meu filho mais novo, Gael, chorou pela derrota do Brasil. Na terça passada, ao fazer um gol na aula de futebol, comemorou como Haaland – que ele vê em vídeos ou em jogos que assistimos. Seu palpite era 3x1 para o Brasil, com gols de Vini Jr., Neymar e Marquinhos (não nesta ordem exatamente) e Haaland faria o gol de honra. Porém, Erling Braut Haaland, que o inspirou na terça, o frustrou no domingo.

Essas reações precoces me fizeram pensar, inclusive, sobre minha culpa nisso tudo. Devo ao meu pai o gosto pelo futebol. Porém, minha primeira grande experiência com a Seleção Brasileira foi aos dez anos, na Copa de 1994. Não tenho a menor lembrança da Copa de 1990, quando eu tinha seis anos. Anna, hoje com dezesseis anos, desiludida com Neymar (e alegando ser team Bruna Marquezine), lembra do choro, detalha o local em que estávamos e algumas das pessoas presentes. Não sei se o Gael também se lembrará daqui há alguns anos; mas algo começou a me incomodar nessa “ditadura” da positividade estúpida.

Esse papo pueril de que se aprende nas derrotas desconsidera inúmeros fatores. Pessoas humildes aprendem sempre, inclusive nas vitórias, quando é possível valorizar os sacrifícios empreendidos na preparação. Indivíduos arrogantes não aprendem nunca: acreditam vencer apenas pelos próprios méritos e perder pela incompetência ou conspiração alheia. Isso é, fatos e situações não ensinam nada; pessoas podem aprender e/ou ensinar ao refletir sobre fatos e situações. Para ser menos teórico, se as derrotas ensinassem, não estaríamos perdendo desde a Copa de 2006.

Outro papo que rola por aí é: “ao menos, terminou a geração Neymar, o neymarzismo ou afins”. Será?!

Óbvio que não. Neymar é um sintoma e não a causa desse estado de coisas. Isso não quer dizer que ele próprio seja apenas vítima. É óbvio que ele possui capacidade de agência e é responsável pelas escolhas. Mas aquilo que irrita alguns na chamada “Era Neymar” não termina com a aposentadoria do jogador. Neymar foi uma referência de gerações diferentes. É o sonho de reencarnação de marmanjos infantilizados; mas, acima de tudo, foi ídolo pelo seu talento, fez fama e é um dos poucos jogadores dessa seleção que estão na ponta da língua das crianças, a despeito da menor conexão com o povo brasileiro do que gerações anteriores.

As crianças, majoritariamente, não entendem a perversidade das bets que ele divulga, nem mensuram a gravidade dos atos de intimidade do jogador. As crianças consomem imagens de gols, jogadas e imagens fabricadas pelo marketing. Se jogam bola, muitas delas querem ser Neymar, porque o atleta tornou-se ídolo e até herói para jovens adultos e adolescentes que propagam testemunhos sobre ele. Portanto, a "Era Neymar" não acabará enquanto existirem fãs contando sobre seus êxitos, reproduzindo visões idealizadas ou fabricando memórias alteradas pelo afeto e o passar dos anos.

Também dizem que a derrota teria seu lado bom por encerrar “uma geração de perdedores”, que seria encabeçada por Casemiro, Marquinhos, Danilo, Alisson e Alex Sandro, etc. Ora, de quais perdedores vocês falam?

São todos eles vitoriosos nos parâmetros de sucesso estabelecidos pelo futebol produto-mercadoria global. Todos chegaram a grandes clubes europeus, venceram nestes clubes, são milionários e famosos, apesar de não terem sido campeões mundiais pela seleção. E mais do que vencer e enriquecer, eles são testemunhas, canais de um milagre que excita a racionalidade neoliberal: sobreviveram e venceram em um modelo de futebol que tritura pessoas para torná-las mercadoria, como repete com lucidez Fernando Diniz. Para esses vencedores que, em tese, reforçam a narrativa meritocrática, até pastores e religiões on demand são criados para fazer caber o camelo no buraco da agulha. Vieram, viram e venceram... tornando-se parte da ínfima minoria de atletas multimilionários.

Sua desconexão com o povo brasileiro é menos incapacidade pessoal do que sinal dos tempos. Danilo e Alex Sandro não foram Cafu e Roberto Carlos, Jorginho e Branco e, provavelmente, os laterais deste novo ciclo também não serão. O camisa 10 criativo, de quem sentimos falta, tem pouca chance de aparecer na próxima convocação de Ancelotti. O centroavante habilidoso e letal – feito Careca, Ronaldo e Romário – talvez esteja sendo convencido a ser um ponta de pé trocado por algum empresário, olheiro ou técnico de base. A lógica do nosso futebol deixou de ser o jogo espontâneo e passou a ser modulado para formar mercadorias demandadas pelo mercado europeu. Nossa identidade, o jeito brasileiro de jogar futebol, foi substituída pela linha de montagem em boa parte das categorias de base. E, de novo, o encantamento gerado por Neymar testemunha a escolha do Santos F.C. em resistir por um tempo a essa lógica fabril na base. Até que os ditames mercadológicos também invadiram o CT Rei Pelé após o falecimento do lendário Zito, o "gerente da Vila".

Por isso, senhoras e senhores, os atletas acusados de serem perdedores não venceram uma Copa do Mundo, mas conquistaram todo o resto e conquistaram aquilo que sonham os pais, mães e responsáveis que educam nossas crianças, que pagam escolinhas de futebol, que investem em campeonatos, materiais esportivos (em alguns casos, personal trainer, coach, nutricionista, suplementos) e toda uma indústria por trás dessa intensificação da mercadorização do futebol. Em verdade, eles não são perdedores; são membros do grupo de referência que povoa o sonho dos adultos e que servem de parâmetro para a socialização das crianças. São cases de sucesso que deveriam balizar nosso mindset... e nós somos os propagadores dessa profissão de fé!

Certa vez, li um texto de Contardo Caligaris, cuja seguinte passagem me marcou: “[...] seja qual for a qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro[i]. Em tempo algum, aprendemos apenas na escola. Nos dias atuais, os espaços de socialização são ainda mais numerosos: redes sociais e influencers se somam à TV, ao cinema e aos esportes. Se somam e os modificam profundamente, além dos antigos paparazzi, páginas de fofoca, agora temos influencers de tudo quanto é coisa e assistimos a uma redessocialização do jornalismo esportivo.

Com isso, as cifras da venda de um jovem talento e o seu salário recebem mais destaque do que os vínculos que ele construiu com a comunidade (imaginada) de seu clube. Esses veículos se ocupam mais de explorar quanto ganham os atletas Fulano e Beltrano, e quanto são glamourosas as vidas do atleta Ciclano e de outros em Paris, Barcelona, Madrid, Londres ou outra metrópole europeia. E acaba sendo essa promessa de futuro que consumimos e transmitimos às nossas crianças.

O fato é que toda escola, como dizia Calligaris, é chata ou insuficiente para quem parou de sonhar. Porque ela deixa de ser um espaço vivo e passa a ser um mero degrau para alcançar o cifrão ou se tornar celebridade. E o que fazemos ao criar nossos jovens? Reforçamos esses aspectos materiais em detrimento dos elementos afetivos que estreitam nossos laços comunitários. Se fazemos isso, de onde vem a surpresa quando um jovem talento do nosso clube de coração prefere sair antes dos 20 anos para o Oriente Médio, a Rússia, a Ucrânia ou algum clube europeu de pouca expressão? Por que fingimos incômodo com a divulgação das bets ou se o agente é o figurão que abastece a Premier League ou um rapper estadunidense? Afinal,

Em princípio, os jovens interpretam o desejo (inconsciente) dos pais e herdam os sonhos reprimidos atrás das vidas (fracassadas ou bem-sucedidas, tanto faz) dos adultos. Aquela fala chata dos pais, que evocam as renúncias que foram necessárias para conseguir criar os filhos, aponta o caminho de aventuras menos sacrificadas. Há uma guitarra empoeirada no sótão do comerciante ou do profissional cujo filho quer ser roqueiro. O que mudou? [...] É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e a uma cerveja com os amigos. É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. [i]

 

Se as nossas renúncias narradas e os objetivos (alcançados ou não) são só econômicos. Se as vitórias ou derrotas esportivas dos clubes e seleções devem ser encaradas como algo de menor impacto coletivo e identitário, face à supervalorização da culpa ou do mérito individual... como esperar o ídolo que veste, de fato, a camisa e que seja identificado com essa comunidade? A conta não fecha...

De certo modo, é preciso admitir como adultos que, independentemente da visão política, da relação com a seleção e o debate sobre o patriotismo, não há nada de bom na derrota da seleção brasileira. Ela não nos aproxima da vitória nem enterra nossos fantasmas da vida social. Porque parte desses fantasmas não advém desses jogadores, mas da estrutura que produz o futebol tal como ele é comercializado atualmente.

Fingir e repetir essa positividade tóxica favorece a propagação desse ideal atomizado da vida, desse individualismo desenfreado. O futebol pode ser ópio e será um tanto mais alucinógeno se a mensagem continuar a ser essa de ídolos que se sobrepõem aos laços comunitários representados pelos clubes e aos laços nacionais emulados pelas seleções. Porque o barato desse tipo de narcótico é entorpecer o indivíduo, retirando dele a capacidade de refletir sobre a realidade e nela intervir. O futebol pode ser diferente se nos devolver o sentido coletivo da vida.

Essa triste derrota só nos devolveu mais cedo para a dura realidade brasileira e inventar possíveis benefícios apenas infantiliza e/ou nos torna cínicos. Admitir a dureza da derrota, especialmente para nossas crianças, não nos torna menos racionais, menos intelectuais ou mais alienados. Admitir e assimilar a dureza da derrota nos devolvem a oportunidade de refletir sobre os laços comunitários e ajudam a mostrar que, apesar da importância do dinheiro na sociedade capitalista, há muito mais pelo que lutar.


* Jefferson Nascimento é doutor em Ciência Política, professor do IFSP e autor do livro "Na Grande Área do poder: o futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002)", publicado pela Editora Ludopédio.

sábado, 16 de maio de 2026

JORNADA ÁLVARO VIEIRA PINTO - Filósofo campista, pensador brasileiro

 


JORNADA ÁLVARO VIEIRA PINTO
Filósofo campista, pensador brasileiro

📍 Campos dos Goytacazes – RJ

📅 19/05/2026
🏛️ UFF – Auditório XV de Novembro
🕗 Das 8:30h às 21h

“Três cidades, três momentos, um pensamento em construção.
Filosofia e desenvolvimento nacional.

A Jornada AVP refaz o itinerário que marcou sua vida e obra: da origem à maturidade, da formação à ideia de desenvolvimento.”


PROGRAMAÇÃO

9h – ABERTURA

Apresentação do evento – proposta e expectativas

Participantes: organizadores e convidados/as.


9:30h – MESA 1

A Campos do início do século XX – sua importância da República Velha ao Estado Novo

Palestrante: Márcia Carneiro (UFF)

Mediação: Andréa Paiva (UFF)


INTERVALO DE ALMOÇO


14:00h – MESA 2

Álvaro Vieira Pinto – aspectos de sua filosofia

Palestrantes:

  • André Vinícius Dias Senra (IFRJ)
  • Leonardo Maia Bastos Machado (UFRJ)

Mediação: Giovane do Nascimento (UENF)


16:30h – MESA 3

Campos, Rio de Janeiro, Brasil: a questão do desenvolvimento

Palestrantes:

  • Daniel Kosinski (UERJ)
  • Roberto Cezar Rosendo (UFF)

Mediação: George Coutinho (UFF)


INFORMAÇÕES TÉCNICAS

ORGANIZAÇÃO

  • André Vinícius Dias Senra (IFRJ)
  • Leonardo Maia Bastos Machado (UFRJ)

APOIO

Universidade Federal Fluminense – Campos dos Goytacazes


COMISSÃO CIENTÍFICA

Além dos organizadores e demais palestrantes:

  • Andréa Paiva (UFF – Campos)
  • Douglas Gonçalves (UENF)
  • George Coutinho (UFF – Campos)
  • Giovane do Nascimento (UENF)
  • Zamara Araújo (UESB)

APOIO À ORGANIZAÇÃO (MONITORES)

  • Arllete da Silva Neta (UFF)
  • Beatriz Rodrigues (UFF)
  • Hugo Emerick (UFF/UENF)
  • Inara Ribeiro (UFF)
  • Karen Luiza Carvalho (UFF)
  • Raquel Caldonho (UFF)
  • Victoria Frazão (UFF)

DADOS DOS PALESTRANTES

ANDRÉ VINÍCIUS DIAS SENRA

Professor de Filosofia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Docente associado aos programas de pós-graduação MNPEF e PROF-FILO. Desenvolve pesquisas nas áreas de fenomenologia, filosofia da técnica e pensamento crítico brasileiro.


LEONARDO MAIA BASTOS MACHADO

Professor de Filosofia, Psicanálise e Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Pós-Doutor pela Université Paris VIII. Editor convidado do APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação.


ROBERTO CEZAR ROSENDO

Pós-Doutor em Estudos Estratégicos e Relações Internacionais (INEST/UFF) e Doutor em Economia (UFF). Professor do Departamento de Economia e do Mestrado em Planejamento, Desenvolvimento e Políticas (UFF – Campos).


DANIEL KOSINSKI

Professor na Faculdade de Ciências Econômicas e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (UERJ).


MÁRCIA CARNEIRO

Doutora em História Social. Professora Associada do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional. Docente no PPGADP e no PROFHISTÓRIA (UFF).


“PENSAR O BRASIL É TRANSFORMÁ-LO.”

Serão concedidos certificados às pessoas que estiverem presentes em pelo menos duas mesas.

quarta-feira, 11 de março de 2026

“Por que misturar futebol e política?”


 

Misturar (M) pressupõe elementos distintos (A e B). O conceito de distinção pressupõe a existência de alguma separação material ou conceitual. Se algo nunca esteve separado (A e B), sem partes independentes, não se pode misturar (M) o que quer que seja.

Futebol e política nunca estiveram separados. No máximo, é possível identificar locais, como a Inglaterra, onde o futebol se desenvolveu independentemente do Estado. Mas jamais da política em sentido lato. Nos anos 1880, no Norte e no Centro inglês predominavam clubes de industriais, da pequena burguesia e de operários, que remuneravam os melhores atletas e treinadores. A prática foi contestada após as conquistas da FA Cup pelo operário Blackburn Olympic (1883)[i] e seu rival, Blackburn Rovers (1884)[ii]. Os clubes aristocráticos do Sul tentaram proibir a remuneração; em resposta, os clubes do Norte ameaçaram criar uma liga independente, culminando na profissionalização (1885). O futebol, embora independente do Estado, refletia as lutas de classes que protagonizavam a política britânica no século XIX. Também no futebol britânico, foi a classe operária a principal agente de transformação.

Esse desenvolvimento político do futebol – de certo modo – autônomo em relação ao Estado não é a regra. Em diversos países, a política do (no e sobre o) futebol influencia e é influenciada pelas instituições do Estado. Seria possível citar diversos exemplos, desde as interferências do nazismo nos clubes alemães, do fascismo italiano, do franquismo, até as eleições de dirigentes e ex-atletas para cargos legislativos e executivos em democracias liberais mundo afora. Na Argentina e no Brasil, a relação entre política e futebol se desenvolve em múltiplas esferas com repercussões sobre o Estado. Reconstruindo essa articulação, a Editora Ludopédio lançará, em maio, o livro Na grande área do poder – O futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002).

O livro resulta das pesquisas de doutorado realizadas por Jefferson Nascimento, professor do Instituto Federal de São Paulo, e mostra que tais relações não podem ser reduzidas a episódios de apropriação das entidades do futebol por regimes autoritários. Ao contrário, representantes de clubes, federações, associações e confederações de futebol se articulam para interferir na política institucional-estatal. São interesses organizados do alto escalão do futebol encontrando interesses de partidos e autoridades estatais.

Embora o marco inicial seja 1930, o livro resgata episódios importantes anteriores. Do mesmo modo, no posfácio há reflexões sobre ocorrências após 2002. A ênfase, contudo, começa na década de 1930, quando tais relações deixam de ser episódicas, e termina com análises sobre como a neoliberalização dos Estados argentino e brasileiro se refletiu no futebol profissional.

O livro pode contribuir com o público interessado em futebol e/ou política, jornalistas, acadêmicos e pesquisadores. Pode fornecer insights também para quem queira compreender as relações entre entidades do futebol e os entes subnacionais do Estado (municípios e unidades federativas). Mas, acima de tudo, demonstra que não dá para olhar para essa poderosa manifestação da cultura popular meramente como pão e circo, muito menos ignorar os efeitos concretos da política do (no e sobre o) futebol na vida da classe trabalhadora.


PRÉ-VENDA


Até dia 10 de abril, o livro pode ser adquirido junto ao curso “Futebol e política na Argentina e no Brasil: o jogo por trás do jogo” (online), a ser ministrado ministrado nos dias 11, 18 e 25 de abril. Esta opção conta com a política de valores reduzidos (50% no preço do curso) para negros, negras, indígenas e quilombolas, pessoas com deficiência, estudantes e docentes da Educação Básica. Abaixo, os preços do curso junto ao livro:

·        Integral:  R$ 370,00 (4x R$ 92,50);

·        Valor reduzido (50%) = R$ 220,00 (4x R$ 55,00);

Informações e compra neste link. 


É possível adquirir apenas o livro em pré-venda na Editora Ludopédio. Os valores promocionais são:

·        1º lote: até 31/03 R$ 69,90 (Compre aqui)

·        2º lote: até 30/04 R$ 79,90

·        3º lote: até 31/05 R$ 84,90

·        A partir de junho R$ 94,90

Para mais informações, sobre datas, horários, opção de compra do curso sem o livro, parcelamento etc., acesse os links indicados anteriormente.


* Este texto foi publicado originalmente no dia 11 de março de 2026 como Nota Cultural da LCB.



[i] O Blackburn Olympic, clube da classe trabalhadora, durou 11 anos (1878-1889). Segundo Miguel Stédile (2013, p.17), o time campeão em 1883 era “[...] formado por tecelões e mineiros, além de um encanador e um operador de fundição de ferro”. Apesar do título de 1883, ficou difícil concorrer na cidade com o Blackburn Rovers por público e patrocínio. A pá de cal veio quando o Campeonato Inglês (The Football League, 1888) permitiu apenas um clube por cidade e o escolhido foi o Rovers. No ano seguinte, endividado, o Olympic dispensou os jogadores profissionais. Ver mais em: STÉDILE, Miguel (2013). Clubes de futebol operário como espaço de autonomia e dominação. Espaço Plural, nº 29, p. 15-44.

[ii] Os Rovers foram fundados por estudantes da escola particular Shrewsbury School e se desenvolveu como principal representante de Blackburn, polo industrial têxtil, possuindo identidade industrial e contratando operários das fábricas locais e jogadores escoceses.

sábado, 21 de junho de 2025

Não se pode comprar a Glória Eterna

 



Não se pode comprar a glória eterna*



Criaram uma narrativa para fazer parecer que o futebol europeu é, naturalmente, superior ao sul-americano. No entanto, nas décadas de 1980 e 1990, o futebol inglês era sinônimo de jogo feio. Os campeonatos alemão e francês tinham menos qualidade do que o glorioso Campeonato Carioca. O Campeonato Espanhol era menos competitivo que o Mineiro, com apenas duas forças dominantes. Já o Campeonato Italiano se salvava graças aos jogadores latinos: Maradona, Zico, Careca, Francescoli.

De lá pra cá, eles puderam comprar e aprender um pouquinho com os melhores sul-americanos para construir a “Champions League” como o verdadeiro campeonato dos melhores do mundo. Pode ser. Mas os europeus desdenham da Copa do Mundo de Clubes e do antigo Mundial (Intercontinental) por puro eurocentrismo que, no fim das contas, é o “recibo” da história. Deve ser muito aterrorizante — mas não é nenhuma surpresa — imaginar que esse investimento feito na América Latina (nos jogadores e nas técnicas que levaram daqui para lá) esteja agora ameaçado por um outro campeonato que, remotamente, pode revelar que os produtos embalados com fita de ouro (também levada daqui) não são tão bons quanto o mundo pensava. Em outras áreas da economia, eles já teriam mobilizado a elite vira-lata, as baionetas e o Fundo Monetário Internacional para sufocar qualquer ameaça.

Felizmente — eu acho — no futebol isso não será possível. Resta continuar mobilizando os vira-latas (aliás, que adjetivo horrível! Os verdadeiros vira-latas não merecem isso) e tentar desdenhar dos times sul-americanos e da Copa do Mundo de Clubes. No fim das contas, provavelmente, eles vão ganhar. A FIFA, que organiza a competição, não é menos eurocentrica. Mas ela apostou que faria dinheiro e, no fim, a superioridade europeia sairia intacta. É mais uma forma de explorar o futebol sul-americano. No fim, é o jogador daqui que acaba jogando quase 100 partidas por ano — quase o dobro dos colegas que estão na Europa. Por isso mesmo, acho essa competição uma porcaria. Preferia que o Flamengo se concentrasse no Brasileirão e na Libertadores (que é mil vezes mais charmosa do que a Champions League — a começar pelo nome da competição, que fica entalado na garganta dos europeus). Mas agora, diante da soberba eurocêntrica, quero mais é que o Flamengo humilhe os times do Velho Continente. É um ato revolucionário.


* Roberto Moll

Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Em memória do prof. Roberto Kant de Lima

*


Nota de pesar do Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança /UFF **


É com imensa tristeza que informamos o falecimento do Prof. Roberto Kant de Lima, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Institutos de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC/UFF) e professor permanente do PPGJS/UFF. Kant foi pioneiro nos estudos e pesquisas que aproximaram a Antropologia e o Direito no Brasil e formou gerações de profissionais, dedicando sua carreira à construção institucional da Antropologia na Universidade Federal Fluminense, desde quando se tornou professor da mesma, no ano de 1976. Professor titular aposentado do Departamento de Antropologia e professor aposentado adjunto do Departamento de Segurança Pública, professor emérito da UFF e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Roberto Kant se destacou, no início de sua trajetória profissional, pelos estudos sobre comunidades tradicionais. 

Dedicou-se, especialmente, em uma etnografia de fôlego, aos pescadores artesanais de Itaipú, em Niterói-RJ, trabalho pioneiro que abriu portas para as investigações de novas gerações de pesquisadores sobre a atividade pesqueira e os conflitos sociais no litoral fluminense. A partir da década de 80, Kant de Lima, sobretudo após a circulação e reconhecimento de sua tese de doutorado defendida na Havard University e posteriormente publicada como livro, “A Polícia da Cidade do Rio de Janeiro: seus dilemas e paradoxos”, inaugurou um olhar original e etnográfico, sobre as instituições de Segurança Pública e Justiça Criminal no Brasil. Este esforço é atestado pelas criações capitaneadas por ele nas últimas décadas, como o curso de graduação em Segurança Pública na UFF, o Tecnólogo em Segurança Pública e Social (Consórcio CEDERJ/CECIERJ/UFF) e, mais recentemente, o Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança na área da Antropologia na CAPES, no qual figurou não apenas como professor e orientador, mas, também, como grande incentivador. 

Desde 2009 coordenou o INCT-InEAC/UFF com maestria e sensibilidade além de sua singular capacidade de agregar pessoas com os mais diferentes estilos no âmbito desta distinta e reconhecida pesquisa nacional e internacional. 

Prof. Roberto Kant de Lima deixará saudades entre seus colegas, amigos, estudantes e familiares que tiveram a oportunidade e o prazer de conviver e aprender com ele. Temos a certeza que seu legado intelectual e sua personalidade inconfundível ainda seguirão nos inspirando a seguir em frente. Como gostava de dizer: “Para Cima e Para o Alto!” Kant sempre presente!

* Foto acervo.

** Nota redigida pelo professor José Colaço Dias Neto em nome do PPGJS/UFF. Colaço é coordenador do PPGJS e foi orientando do professor Kant no doutorado em Antropologia da UFF. Simplesmente Zé, como carinhosamente chamamos, também é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

sábado, 10 de maio de 2025

(Ainda) Sobre Lula em Campos: notas sobre o ódio político - versão estendida

 

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(Ainda) Sobre Lula em Campos: notas sobre o ódio político - versão estendida **

George Gomes Coutinho***

A visita do presidente Lula em Campos no último mês de abril produziu reverberações de diferentes naturezas. Há questões que atingem diretamente os atores do sistema político, com ênfase nas estrelas regionais, e boas notícias para o ensino público. Também a cidade foi citada positivamente na mídia nacional. Afinal, não obstante o momento sombrio que meus colegas enfrentam nos EUA, que seguem na direção do abismo da desdemocratização, a educação persiste, na média, como pauta celebrada pela população.

É importante notar que a inauguração dos prédios da Universidade Federal Fluminense não foi uma festa académica. A disputada inauguração dos prédios foi uma festa popular comemorada por milhares de pessoas no campus da UFF e nos arredores. Foi uma celebração multipartidária e democrática, com tonalidade majoritariamente progressista dada pela militância e pelos representantes de movimentos sociais. Mas, ali também estavam pessoas do staff da prefeitura, colegas e estudantes do IFF, vi amig@s da UENF, cidadãos e cidadãs comuns, ex-alun@s, tod@s prestigiando o momento histórico para a região.

Destoou a vaia, que não ocorreu em uníssono, no momento do discurso do prefeito Wladimir Garotinho. Vale dizer que o próprio Lula saiu em defesa do prefeito que, quando ainda deputado federal, protagonizou a articulação pelas verbas que permitiram a finalização dos dois prédios de sete andares que agora constituem a paisagem da avenida XV de Novembro. Ainda, no conteúdo do discurso de Wladimir, não foi detectado trecho que justificasse o constrangimento. Foi vaia autoritária com o objetivo de impedir a continuidade do discurso. Se eu reconheço que o prefeito por vezes voluntariamente macula o próprio currículo, como no veto ao projeto “Por uma infância sem racismo”, e também demonstra insistência em lamentáveis investimentos de networking político cortejando quadros extremistas na direita, em seu discurso na ocasião não havia conteúdo a ser combatido. Não que o poder local não precise da construção de um vigoroso, propositivo e popular movimento de oposição. Precisa muitíssimo. A questão é que este movimento precisará demonstrar que sabe fazer algo além de vaiar. Mas, ressalto, para além da vaia, não soube de ofensas ou ameaças à integridade física do prefeito. Algo que decorreu no outro lado do espectro político.

A visita do presidente atraiu outros setores que se mobilizaram. Forças da direita distribuiíram ofensas que foram ostentadas em pichações nos muros nos arredores do novo campus da UFF. Junto a esta ação, alguns militantes foram para a rua da UFF no 14 de abril último, um punhado de poucos indivíduos, tentar coagir as pessoas filmando sem autorização, ofendendo, provocando, xingando. Cheguei cedo e vi um rapaz enrolado em uma bandeira do Brasil, até então estava solitário, se protegendo amuado atrás de policiais militares, tal como criança medrosa agarrada na saia da mamãe. A ele se juntaram depois outros poucos. Poucos e ruidosos.

Um carro emparelhou com a comitiva presidencial, antes de Lula chegar ao campus, para ofender o presidente.

Em dado momento, enquanto o evento ocorria, um mototaxista atropelou uma pessoa forçando passagem em via urbana interditada por conta da cerimônia. A rua não estava interditada para ele pessoalmente. Era para todos. A questão é que este em particular talvez se julgasse além da lei e das regras.

Eu mesmo, ao final de tudo quando ia embora, ao entregar uns trocados para o flanelinha que guardava meu carro, fui chamado de “petista ladrão!”. Foi mais um valente mototaxista que, demonstrando em sequência sua incontestável coragem, se evadiu em alta velocidade. Não tive tempo para nenhuma reação.

Antes de prosseguir, gostaria de salientar que em visitas de chefes de governo a crítica é parte do cenário democrático. Grupos, movimentos, setores e até indivíduos aproveitam o momento para tentar abrir canais de diálogo, apresentam demandas, chamam a atenção para suas causas, protestam. É do jogo. Mas, o que vimos foi hooliganismo.

O hooliganismo se move com o objetivo final de eliminação do outro, tal como é no futebol, espaço onde os hooligans foram criados. A violência, simbólica ou até mesmo física, é mobilizada como recurso. No caso da visita de Lula estes indivíduos não apresentaram demandas. Fizeram uso político da violência. O curioso é que eram populares. Não sei quem foram os pichadores. Mas, vi as pessoas que ali estavam ofendendo e xingando no dia da inauguração dos prédios da UFF. Eram homens comuns. Os pobres de direita, como classificou o sociólogo Jessé Souza.

Eu consigo compreender pragmaticamente o que chamo de sócios majoritários e sócios minoritários da extrema-direita. Defendem o que Bruno Wanderley Reis, colega da área de ciência política da UFMG, já chamou de “agenda anti-regulatória”[1]. É o movimento de “passar a boiada”, que consiste em retirar as proteções institucionais e jurídicas que tentam diminuir os impactos de relações constituídas por assimetrias. O objetivo é que o mais forte, enfim, possa predar o mais fraco sem que ninguém tenha onde e a quem recorrer. Vale expulsar indígenas de suas terras, legalizar a grilagem, demitir quem quiser sem que ninguém encha o saco, manter o país como um paraíso fiscal para o andar de cima, extorquir, poder exercer diferentes formas de sadismo com empregados... Tudo isso é o que une parte do capital financeiro, sindicatos patronais identificáveis na cidade e no campo, madames, etc..

Mas, e os populares que vi desferindo impropérios e rangendo os dentes para pessoas que jamais viram antes? Ação coletiva dá trabalho, consome tempo e energia, e eles bancaram os custos. É preciso deixar o conforto do lar. Precisa de investimento libidinal! Não era um protesto com pauta econômica, anti-inflacionária, contra a carestia de gêneros alimentícios. Era ódio. Algo na fantasia desses indivíduos parece sugerir que a eliminação de sua nêmesis, Lula e arredores, vale muito a pena. Talvez, para ser até pudico, uma transformação estrutural, seja lá o que for, poderia advir. Não sei o que imaginam. Paolo Demuru, pesquisador italiano que atua no campo da semiótica, nos lembra do quanto narrativas delirantes, como as teorias da conspiração[2], e discursos de ódio podem funcionar como um remendo, um band-aid perverso, para vidas que se consideram irrelevantes, ressentidas, impotentes diante da brutalidade inerente ao nosso modo de viver nesta etapa do capitalismo. Freud e Reich há mais ou menos um século viram sinais parecidos na ascensão do nazifascismo, onde detectaram ali uma tentativa fajuta de encantamento e empoderamento em um cotidiano duro e sem compaixão. De todo modo o ódio que foi expresso aqui em Campos no abril último, é o que, no limite, implicaria a destruição do objeto. Ódio é afeto, tanto quanto o amor, mobilizador, poderoso e mortífero.

O que se depreende da experiência é que se confirma, mais uma vez, a persistência de uma base popular radicalizada relevante pela direita. A matéria-prima deste setor, distante socialmente dos sócios majoritários e sócios minoritários do bolsonarismo e arredores, é o mal-estar capturado por narrativas que se retroalimentam exaustivamente no ecossistema de informação vampirizado pelas big techs. Nesta seara os algoritmos, em nada neutros, ajudam a repetir conteúdos que reforçam o sintoma. O que gerou as cenas de destruição do 08 de janeiro circula entre nós em tonalidades vívidas. Por tudo isso, sim, sem anistia! E, além de palavras de ordem, o mal-estar desses setores precisa ser processado em respostas efetivas e pacíficas no campo democrático. A democracia precisa recuperar a musculatura desidratada por décadas de discursos e práticas de austeridade.


* Disponível em: https://www.uff.br/15-04-2025/presidente-lula-inaugura-nova-sede-da-uff-em-campos-dos-goytacazes/, acesso em 10 de maio de 2025.

** A primeira versão, encurtada, foi publicada na página 4 do jornal Folha da Manhã em Campos dos Goytacazes, RJ. A primeira versão foi editada pelo próprio autor para caber na formatação do jornal. Aqui no blog, que pôde ir além das 70 linhas delimitadas pelo editor do jornal, se apresenta versão um pouco maior e levemente modificada do texto original.

*** Professor da área de Ciência Política na UFF, campus de Campos dos Goytacazes, RJ.

[1] Em entrevista para o Canal Meio disponível aqui: https://www.youtube.com/live/U9SIS8cbt8c?si=nvX2MAbPgydnmqil, acesso em 04 de maio de 2025.

[2] Recomendo efusivamente o “Políticas do encanto: extrema direita e fantasias de conspiração”, opúsculo lançado por Demuru no ano passado pela editora Elefante.