Preâmbulo curto
Eu e o prof. José Luis conversamos antes dele
gentilmente aceitar a republicação do texto aqui no blog. Ele topou a
republicação sob uma única condição: que o texto fosse dedicado "(...) a
todos e todas que lutaram e continuam lutando para romper as barreiras que
impedem o pleno desenvolvimento da cidade."
Assim está feito. Teje dedicado!
O desenvolvimento sequestrado:
como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado**
José Luis Vianna da Cruz***
Grande parte das nossas elites políticas, econômicas e sociais cultiva um conjunto de práticas predatórias, contra o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de Campos, com influências igualmente negativas sobre o desenvolvimento regional. São práticas herdeiras da tradição colonialista, de senhor de escravos, de uma pretensa aristocracia sucroalcooleira e de donos de latifúndios, patrimonialistas. Exercidas com mandonismo, autoritarismo, clientelismo, racismo, patriarcalismo, discriminação, segregação e violência contra a população trabalhadora, empobrecida e exercendo atividades precarizadas.
Quais as evidências dessas características? Em que elas impedem o
desenvolvimento de Campos e da região? Baseio-me nas pesquisas e produções
acadêmicas e na militância dos movimentos e coletivos libertários, além do
conhecimento como campista militante social. Falo do que está na boca do povo,
como na canção de Chico Buarque e Milton Nascimento:
“O que será, que será…
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que andam falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados…”
A existência de inúmeros quilombos e “bairros negros”, em favelas e bairros de
baixa renda, segregados em relação à existência e à qualidade da
infraestrutura, ao acesso e à mobilidade, à integração na cidade. A segregação
de favelas e bairros pobres urbanos, onde a maioria é preta.
A predominância, nos lugarejos, vilas e áreas urbanas rurais, do abandono dos
serviços urbanos, particularmente do esgotamento sanitário e do atendimento à
saúde e, principalmente, das vias e do transporte coletivo, na frequência,
qualidade e acesso. Essas localidades são ilhas de vida saudável, respiram
natureza, conservam as relações de vizinhança, amizade, solidariedade e apoio
mútuo entre seus moradores, têm história e cultura de modos de vida, que tendem
a desaparecer, pela total irresponsabilidade dos poderes públicos.
A precariedade dos vínculos trabalhistas nas atividades tradicionais, desde o
trabalho na área rural até o trabalho no comércio. É amplamente sabido que
muitas lojas de comércio não assinam carteira, ou mesmo quando assinam, a
remuneração vem somente das comissões das vendas. As jornadas de trabalho
chegam a mais de 10 horas por dia. É comum comerciantes que sonegam os impostos
municipais e se utilizam da proximidade com políticos para terem suas dívidas
postergadas, anuladas ou ignoradas. A assinatura da carteira de trabalho e o
respeito aos direitos trabalhistas da(o)s trabalhadora(e)s doméstica(o)s são
majoritariamente ignorados pelas famílias e o tratamento dado a ela(e)s mantém
resquícios da crueldade e violação dos direitos herdados da sociedade escravocrata.
A prática das monoculturas que geram monolitismo nas estruturas de poder,
empresariais, nas instituições públicas e privadas; ou seja, no conjunto da
vida social, impede a valorização, a reprodução e o fortalecimento da economia
popular e da diversificação produtiva, tanto na produção como no comércio e
serviços. Isso se expressa na substituição da monocultura da cana pela do
petróleo e gás e, agora, pela da infraestrutura de armazenagem, transporte e
circulação de mercadorias internas e de commodities do extrativismo, via
condomínios logísticos, porto e vias. Também nos oligopólios dos atacarejos e
varejos, com os megaempreendimentos sufocando os médios e pequenos de capitais
locais, gerando falências, desemprego e aprofundamento da precarização. Isso
explica o apartheid urbano expresso numa cidade (re)partida entre condomínios
horizontais de renda média e alta, fechados, murados, segregados e o resto da
cidade. E ainda querem atrair monoculturas do agronegócio, datacenters,
fazendas de energia eólica e outras atividades profundamente predatórias do
meio ambiente e da vida social, cujo nível de automação não gera empregos e
desemprega, como explicarei adiante. O mesmo acontece com as expressões
culturais da periferia, marginalizadas e, muitas vezes, hostilizadas pelos
Poderes Públicos.
Fazem isso através de
estratégias econômicas, sociais, políticas e militaristas: impedem a
agricultura familiar, a agricultura dos pequenos produtores tradicionais e a
dos assentados, agroecológica e orgânica, que fortalece a natureza, o ambiente,
a saúde, o trabalho, a distribuição de renda, a diversificação e, por
consequência, o verdadeiro desenvolvimento, diversificado, democrático,
inclusivo, distributivo e saudável. Destroem e inibem as economias
tradicionais, de pequeno e médio porte, produzindo desemprego e favorecendo o
subemprego e a total informalidade e abandono dos trabalhadores.
O que chamam de
desenvolvimento é um balcão de negócios privados, visando beneficiar-se
financeiramente da implantação de mega empresas nos segmentos imobiliário, de
atacado e varejo, de educação, de hospedagem, dentre outros; tendo o cuidado de
bloquear quaisquer iniciativas econômicas, sociais, culturais e políticas que
possam ameaçar o monopólio do poder, o controle dos territórios, da força de
trabalho; isto é, bloquear as energias e iniciativas que possam “abrir”, romper
e superar essa herança perversa.
Nisso consiste o
trabalho mais profundo, dramático e leviano, contra o bem-estar social. Por
meios coercitivos, repressivos e, muitas vezes, violentos, reprimem e oprimem
qualquer possibilidade de reação a esse padrão de condução do poder na
sociedade campista: controlam o poder na gestão das escolas e dos equipamentos
de assistência social e serviços públicos; controlam a liderança política nas
favelas e bairros mais pobres, onde se encontra a maioria do eleitorado,
obrigada a conviver com o poder e controle dos traficantes, nessas favelas e
bairros pobres. Quando promovem políticas sociais, como a da habitação popular,
misturam populações de bairros controlados por facções rivais, aprisionando e
submetendo a população às leis dos conflitos entre poderes institucionais,
formais e os do crime organizado. Grande parte da população está aprisionada em
suas residências, tolhida e controlada no direito de morar, conviver e de ir e
vir na cidade. Não encontram abrigo no Poder Público local, omisso, indiferente
e verdadeiramente hostil às vozes populares.
Para mim, a expressão mais revoltante dessa prática é o Campo de Concentração
chamado Tapera III, à margem da BR-101, no meio do nada, uma das formas mais
violentas de confinar a população pobre, expulsa da Favela Margem da Linha e
jogada numa área vulnerável ao controle do crime organizado, sem nenhum serviço
urbano digno, submetida à total insegurança, ao transporte absolutamente
precário e à morte frequente de seus moradores, pelo tráfego da BR-101. Digna
de um projeto nazista, que submete os moradores à tortura e privação diárias
dos mais elementares direitos humanos. Uma monstruosidade.
O que faz do nosso município – e da região – um território marcado pela
predominância do legado da sociabilidade e do poder vigentes na escravatura, no
Império e no pior da República, que se instalou nesse país e, muito forte e
profundamente, por aqui. A parte dominante dessa elite embrulha tudo isso com o
invólucro do conservadorismo direitista, falsamente moralizador, de braços
dados com segmentos inimigos da democracia e do desenvolvimento. Porque não ama
nossa cidade e nossa região, porque não ama nossa gente.
Como diz o ditado, que muitos atribuem a Abraham Lincoln: “você pode enganar
algumas pessoas o tempo todo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas não pode
enganar todas as pessoas o tempo todo”. As investigações da Polícia Federal
parecem confirmar o ditado.
Da nossa parte,
continuamos firmes na luta para superar radicalmente essa história nefasta
imposta por uma parcela da elite dominante campista e regional, porque amamos
essa terra e a nossa gente.
* Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3APaisagens_de_Campos_dos_Goytacazes_RJ_6.jpg?utm_source=chatgpt.com, acesso em 05 de julho de 2026.
*** A primeira versão deste texto/manifesto foi publicada no blog do professor Marcos Pedlowski em 28 de junho de 2026 e pode ser acessada aqui: https://blogdopedlowski.com/2026/06/28/o-desenvolvimento-sequestrado-como-as-elites-mantem-campos-prisioneira-de-seu-passado/
*José Luis Vianna da Cruz é
professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, possui graduação em
Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS, 1978), Mestrado
em Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
(IPPUR, 1990), e Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 2003).




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