Misturar (M)
pressupõe elementos distintos (A e B). O conceito de distinção
pressupõe a existência de alguma separação material ou conceitual. Se
algo nunca esteve separado (A e B), sem partes independentes, não se pode
misturar (M) o que quer que seja.
Futebol e
política nunca estiveram separados. No máximo, é possível identificar locais,
como a Inglaterra, onde o futebol se desenvolveu independentemente do Estado.
Mas jamais da política em sentido lato. Nos anos 1880, no Norte e no
Centro inglês predominavam clubes de industriais, da pequena burguesia e de
operários, que remuneravam os melhores atletas e treinadores. A prática foi
contestada após as conquistas da FA Cup pelo operário Blackburn Olympic
(1883)[i]
e seu rival, Blackburn Rovers (1884)[ii].
Os clubes aristocráticos do Sul tentaram proibir a remuneração; em resposta, os
clubes do Norte ameaçaram criar uma liga independente, culminando na
profissionalização (1885). O futebol, embora independente do Estado, refletia
as lutas de classes que protagonizavam a política britânica no século XIX.
Também no futebol britânico, foi a classe operária a principal agente de
transformação.
Esse desenvolvimento político do futebol – de certo modo – autônomo em relação ao Estado não é a regra. Em diversos países, a política do (no e sobre o) futebol influencia e é influenciada pelas instituições do Estado. Seria possível citar diversos exemplos, desde as interferências do nazismo nos clubes alemães, do fascismo italiano, do franquismo, até as eleições de dirigentes e ex-atletas para cargos legislativos e executivos em democracias liberais mundo afora. Na Argentina e no Brasil, a relação entre política e futebol se desenvolve em múltiplas esferas com repercussões sobre o Estado. Reconstruindo essa articulação, a Editora Ludopédio lançará, em maio, o livro Na grande área do poder – O futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002).
O livro
resulta das pesquisas de doutorado realizadas por Jefferson Nascimento,
professor do Instituto Federal de São Paulo, e mostra que tais relações não
podem ser reduzidas a episódios de apropriação das entidades do futebol por
regimes autoritários. Ao contrário, representantes de clubes, federações,
associações e confederações de futebol se articulam para interferir na política
institucional-estatal. São interesses organizados do alto escalão do futebol
encontrando interesses de partidos e autoridades estatais.
Embora o marco
inicial seja 1930, o livro resgata episódios importantes anteriores. Do mesmo
modo, no posfácio há reflexões sobre ocorrências após 2002. A ênfase, contudo,
começa na década de 1930, quando tais relações deixam de ser episódicas, e
termina com análises sobre como a neoliberalização dos Estados argentino e
brasileiro se refletiu no futebol profissional.
O livro pode
contribuir com o público interessado em futebol e/ou política, jornalistas,
acadêmicos e pesquisadores. Pode fornecer insights também para quem queira
compreender as relações entre entidades do futebol e os entes subnacionais do
Estado (municípios e unidades federativas). Mas, acima de tudo, demonstra que
não dá para olhar para essa poderosa manifestação da cultura popular meramente
como pão e circo, muito menos ignorar os efeitos concretos da política do (no e
sobre o) futebol na vida da classe trabalhadora.
PRÉ-VENDA
Até dia 10 de abril, o livro pode ser adquirido junto ao curso “Futebol e política na Argentina e no Brasil: o jogo por trás do jogo” (online), a ser ministrado ministrado nos dias 11, 18 e 25 de abril. Esta opção conta com a política de valores reduzidos (50% no preço do curso) para negros, negras, indígenas e quilombolas, pessoas com deficiência, estudantes e docentes da Educação Básica. Abaixo, os preços do curso junto ao livro:
· Integral: R$ 370,00 (4x R$ 92,50);
· Valor reduzido (50%) = R$ 220,00 (4x R$ 55,00);
É possível adquirir apenas o livro em pré-venda na Editora Ludopédio. Os valores promocionais são:
· 1º lote: até 31/03 R$ 69,90 (Compre aqui)
· 2º lote: até 30/04 R$ 79,90
· 3º lote: até 31/05 R$ 84,90
· A partir de junho R$ 94,90
Para mais
informações, sobre datas, horários, opção de compra do curso sem o livro,
parcelamento etc., acesse os links indicados
anteriormente.
* Este texto foi publicado originalmente no dia 11 de março de 2026 como Nota Cultural da LCB.
[i]
O Blackburn Olympic, clube da classe trabalhadora, durou 11 anos (1878-1889). Segundo
Miguel Stédile (2013, p.17), o time campeão em 1883 era “[...] formado por
tecelões e mineiros, além de um encanador e um operador de fundição de ferro”. Apesar
do título de 1883, ficou difícil concorrer na cidade com o Blackburn Rovers por
público e patrocínio. A pá de cal veio quando o Campeonato Inglês (The
Football League, 1888) permitiu apenas um clube por cidade e o escolhido
foi o Rovers. No ano seguinte, endividado, o Olympic dispensou os jogadores
profissionais. Ver mais em: STÉDILE, Miguel (2013). Clubes de futebol
operário como espaço de autonomia e dominação. Espaço Plural, nº 29, p. 15-44.
[ii]
Os Rovers foram fundados por estudantes da escola particular Shrewsbury
School e se desenvolveu como principal representante de Blackburn, polo industrial
têxtil, possuindo identidade industrial e contratando operários das fábricas
locais e jogadores escoceses.


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