quarta-feira, 11 de março de 2026

“Por que misturar futebol e política?”


 

Misturar (M) pressupõe elementos distintos (A e B). O conceito de distinção pressupõe a existência de alguma separação material ou conceitual. Se algo nunca esteve separado (A e B), sem partes independentes, não se pode misturar (M) o que quer que seja.

Futebol e política nunca estiveram separados. No máximo, é possível identificar locais, como a Inglaterra, onde o futebol se desenvolveu independentemente do Estado. Mas jamais da política em sentido lato. Nos anos 1880, no Norte e no Centro inglês predominavam clubes de industriais, da pequena burguesia e de operários, que remuneravam os melhores atletas e treinadores. A prática foi contestada após as conquistas da FA Cup pelo operário Blackburn Olympic (1883)[i] e seu rival, Blackburn Rovers (1884)[ii]. Os clubes aristocráticos do Sul tentaram proibir a remuneração; em resposta, os clubes do Norte ameaçaram criar uma liga independente, culminando na profissionalização (1885). O futebol, embora independente do Estado, refletia as lutas de classes que protagonizavam a política britânica no século XIX. Também no futebol britânico, foi a classe operária a principal agente de transformação.

Esse desenvolvimento político do futebol – de certo modo – autônomo em relação ao Estado não é a regra. Em diversos países, a política do (no e sobre o) futebol influencia e é influenciada pelas instituições do Estado. Seria possível citar diversos exemplos, desde as interferências do nazismo nos clubes alemães, do fascismo italiano, do franquismo, até as eleições de dirigentes e ex-atletas para cargos legislativos e executivos em democracias liberais mundo afora. Na Argentina e no Brasil, a relação entre política e futebol se desenvolve em múltiplas esferas com repercussões sobre o Estado. Reconstruindo essa articulação, a Editora Ludopédio lançará, em maio, o livro Na grande área do poder – O futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002).

O livro resulta das pesquisas de doutorado realizadas por Jefferson Nascimento, professor do Instituto Federal de São Paulo, e mostra que tais relações não podem ser reduzidas a episódios de apropriação das entidades do futebol por regimes autoritários. Ao contrário, representantes de clubes, federações, associações e confederações de futebol se articulam para interferir na política institucional-estatal. São interesses organizados do alto escalão do futebol encontrando interesses de partidos e autoridades estatais.

Embora o marco inicial seja 1930, o livro resgata episódios importantes anteriores. Do mesmo modo, no posfácio há reflexões sobre ocorrências após 2002. A ênfase, contudo, começa na década de 1930, quando tais relações deixam de ser episódicas, e termina com análises sobre como a neoliberalização dos Estados argentino e brasileiro se refletiu no futebol profissional.

O livro pode contribuir com o público interessado em futebol e/ou política, jornalistas, acadêmicos e pesquisadores. Pode fornecer insights também para quem queira compreender as relações entre entidades do futebol e os entes subnacionais do Estado (municípios e unidades federativas). Mas, acima de tudo, demonstra que não dá para olhar para essa poderosa manifestação da cultura popular meramente como pão e circo, muito menos ignorar os efeitos concretos da política do (no e sobre o) futebol na vida da classe trabalhadora.


PRÉ-VENDA


Até dia 10 de abril, o livro pode ser adquirido junto ao curso “Futebol e política na Argentina e no Brasil: o jogo por trás do jogo” (online), a ser ministrado ministrado nos dias 11, 18 e 25 de abril. Esta opção conta com a política de valores reduzidos (50% no preço do curso) para negros, negras, indígenas e quilombolas, pessoas com deficiência, estudantes e docentes da Educação Básica. Abaixo, os preços do curso junto ao livro:

·        Integral:  R$ 370,00 (4x R$ 92,50);

·        Valor reduzido (50%) = R$ 220,00 (4x R$ 55,00);

Informações e compra neste link. 


É possível adquirir apenas o livro em pré-venda na Editora Ludopédio. Os valores promocionais são:

·        1º lote: até 31/03 R$ 69,90 (Compre aqui)

·        2º lote: até 30/04 R$ 79,90

·        3º lote: até 31/05 R$ 84,90

·        A partir de junho R$ 94,90

Para mais informações, sobre datas, horários, opção de compra do curso sem o livro, parcelamento etc., acesse os links indicados anteriormente.


* Este texto foi publicado originalmente no dia 11 de março de 2026 como Nota Cultural da LCB.



[i] O Blackburn Olympic, clube da classe trabalhadora, durou 11 anos (1878-1889). Segundo Miguel Stédile (2013, p.17), o time campeão em 1883 era “[...] formado por tecelões e mineiros, além de um encanador e um operador de fundição de ferro”. Apesar do título de 1883, ficou difícil concorrer na cidade com o Blackburn Rovers por público e patrocínio. A pá de cal veio quando o Campeonato Inglês (The Football League, 1888) permitiu apenas um clube por cidade e o escolhido foi o Rovers. No ano seguinte, endividado, o Olympic dispensou os jogadores profissionais. Ver mais em: STÉDILE, Miguel (2013). Clubes de futebol operário como espaço de autonomia e dominação. Espaço Plural, nº 29, p. 15-44.

[ii] Os Rovers foram fundados por estudantes da escola particular Shrewsbury School e se desenvolveu como principal representante de Blackburn, polo industrial têxtil, possuindo identidade industrial e contratando operários das fábricas locais e jogadores escoceses.

sábado, 21 de junho de 2025

Não se pode comprar a Glória Eterna

 



Não se pode comprar a glória eterna*



Criaram uma narrativa para fazer parecer que o futebol europeu é, naturalmente, superior ao sul-americano. No entanto, nas décadas de 1980 e 1990, o futebol inglês era sinônimo de jogo feio. Os campeonatos alemão e francês tinham menos qualidade do que o glorioso Campeonato Carioca. O Campeonato Espanhol era menos competitivo que o Mineiro, com apenas duas forças dominantes. Já o Campeonato Italiano se salvava graças aos jogadores latinos: Maradona, Zico, Careca, Francescoli.

De lá pra cá, eles puderam comprar e aprender um pouquinho com os melhores sul-americanos para construir a “Champions League” como o verdadeiro campeonato dos melhores do mundo. Pode ser. Mas os europeus desdenham da Copa do Mundo de Clubes e do antigo Mundial (Intercontinental) por puro eurocentrismo que, no fim das contas, é o “recibo” da história. Deve ser muito aterrorizante — mas não é nenhuma surpresa — imaginar que esse investimento feito na América Latina (nos jogadores e nas técnicas que levaram daqui para lá) esteja agora ameaçado por um outro campeonato que, remotamente, pode revelar que os produtos embalados com fita de ouro (também levada daqui) não são tão bons quanto o mundo pensava. Em outras áreas da economia, eles já teriam mobilizado a elite vira-lata, as baionetas e o Fundo Monetário Internacional para sufocar qualquer ameaça.

Felizmente — eu acho — no futebol isso não será possível. Resta continuar mobilizando os vira-latas (aliás, que adjetivo horrível! Os verdadeiros vira-latas não merecem isso) e tentar desdenhar dos times sul-americanos e da Copa do Mundo de Clubes. No fim das contas, provavelmente, eles vão ganhar. A FIFA, que organiza a competição, não é menos eurocentrica. Mas ela apostou que faria dinheiro e, no fim, a superioridade europeia sairia intacta. É mais uma forma de explorar o futebol sul-americano. No fim, é o jogador daqui que acaba jogando quase 100 partidas por ano — quase o dobro dos colegas que estão na Europa. Por isso mesmo, acho essa competição uma porcaria. Preferia que o Flamengo se concentrasse no Brasileirão e na Libertadores (que é mil vezes mais charmosa do que a Champions League — a começar pelo nome da competição, que fica entalado na garganta dos europeus). Mas agora, diante da soberba eurocêntrica, quero mais é que o Flamengo humilhe os times do Velho Continente. É um ato revolucionário.


* Roberto Moll

Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Em memória do prof. Roberto Kant de Lima

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Nota de pesar do Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança /UFF **


É com imensa tristeza que informamos o falecimento do Prof. Roberto Kant de Lima, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Institutos de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC/UFF) e professor permanente do PPGJS/UFF. Kant foi pioneiro nos estudos e pesquisas que aproximaram a Antropologia e o Direito no Brasil e formou gerações de profissionais, dedicando sua carreira à construção institucional da Antropologia na Universidade Federal Fluminense, desde quando se tornou professor da mesma, no ano de 1976. Professor titular aposentado do Departamento de Antropologia e professor aposentado adjunto do Departamento de Segurança Pública, professor emérito da UFF e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Roberto Kant se destacou, no início de sua trajetória profissional, pelos estudos sobre comunidades tradicionais. 

Dedicou-se, especialmente, em uma etnografia de fôlego, aos pescadores artesanais de Itaipú, em Niterói-RJ, trabalho pioneiro que abriu portas para as investigações de novas gerações de pesquisadores sobre a atividade pesqueira e os conflitos sociais no litoral fluminense. A partir da década de 80, Kant de Lima, sobretudo após a circulação e reconhecimento de sua tese de doutorado defendida na Havard University e posteriormente publicada como livro, “A Polícia da Cidade do Rio de Janeiro: seus dilemas e paradoxos”, inaugurou um olhar original e etnográfico, sobre as instituições de Segurança Pública e Justiça Criminal no Brasil. Este esforço é atestado pelas criações capitaneadas por ele nas últimas décadas, como o curso de graduação em Segurança Pública na UFF, o Tecnólogo em Segurança Pública e Social (Consórcio CEDERJ/CECIERJ/UFF) e, mais recentemente, o Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança na área da Antropologia na CAPES, no qual figurou não apenas como professor e orientador, mas, também, como grande incentivador. 

Desde 2009 coordenou o INCT-InEAC/UFF com maestria e sensibilidade além de sua singular capacidade de agregar pessoas com os mais diferentes estilos no âmbito desta distinta e reconhecida pesquisa nacional e internacional. 

Prof. Roberto Kant de Lima deixará saudades entre seus colegas, amigos, estudantes e familiares que tiveram a oportunidade e o prazer de conviver e aprender com ele. Temos a certeza que seu legado intelectual e sua personalidade inconfundível ainda seguirão nos inspirando a seguir em frente. Como gostava de dizer: “Para Cima e Para o Alto!” Kant sempre presente!

* Foto acervo.

** Nota redigida pelo professor José Colaço Dias Neto em nome do PPGJS/UFF. Colaço é coordenador do PPGJS e foi orientando do professor Kant no doutorado em Antropologia da UFF. Simplesmente Zé, como carinhosamente chamamos, também é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

sábado, 10 de maio de 2025

(Ainda) Sobre Lula em Campos: notas sobre o ódio político - versão estendida

 

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(Ainda) Sobre Lula em Campos: notas sobre o ódio político - versão estendida **

George Gomes Coutinho***

A visita do presidente Lula em Campos no último mês de abril produziu reverberações de diferentes naturezas. Há questões que atingem diretamente os atores do sistema político, com ênfase nas estrelas regionais, e boas notícias para o ensino público. Também a cidade foi citada positivamente na mídia nacional. Afinal, não obstante o momento sombrio que meus colegas enfrentam nos EUA, que seguem na direção do abismo da desdemocratização, a educação persiste, na média, como pauta celebrada pela população.

É importante notar que a inauguração dos prédios da Universidade Federal Fluminense não foi uma festa académica. A disputada inauguração dos prédios foi uma festa popular comemorada por milhares de pessoas no campus da UFF e nos arredores. Foi uma celebração multipartidária e democrática, com tonalidade majoritariamente progressista dada pela militância e pelos representantes de movimentos sociais. Mas, ali também estavam pessoas do staff da prefeitura, colegas e estudantes do IFF, vi amig@s da UENF, cidadãos e cidadãs comuns, ex-alun@s, tod@s prestigiando o momento histórico para a região.

Destoou a vaia, que não ocorreu em uníssono, no momento do discurso do prefeito Wladimir Garotinho. Vale dizer que o próprio Lula saiu em defesa do prefeito que, quando ainda deputado federal, protagonizou a articulação pelas verbas que permitiram a finalização dos dois prédios de sete andares que agora constituem a paisagem da avenida XV de Novembro. Ainda, no conteúdo do discurso de Wladimir, não foi detectado trecho que justificasse o constrangimento. Foi vaia autoritária com o objetivo de impedir a continuidade do discurso. Se eu reconheço que o prefeito por vezes voluntariamente macula o próprio currículo, como no veto ao projeto “Por uma infância sem racismo”, e também demonstra insistência em lamentáveis investimentos de networking político cortejando quadros extremistas na direita, em seu discurso na ocasião não havia conteúdo a ser combatido. Não que o poder local não precise da construção de um vigoroso, propositivo e popular movimento de oposição. Precisa muitíssimo. A questão é que este movimento precisará demonstrar que sabe fazer algo além de vaiar. Mas, ressalto, para além da vaia, não soube de ofensas ou ameaças à integridade física do prefeito. Algo que decorreu no outro lado do espectro político.

A visita do presidente atraiu outros setores que se mobilizaram. Forças da direita distribuiíram ofensas que foram ostentadas em pichações nos muros nos arredores do novo campus da UFF. Junto a esta ação, alguns militantes foram para a rua da UFF no 14 de abril último, um punhado de poucos indivíduos, tentar coagir as pessoas filmando sem autorização, ofendendo, provocando, xingando. Cheguei cedo e vi um rapaz enrolado em uma bandeira do Brasil, até então estava solitário, se protegendo amuado atrás de policiais militares, tal como criança medrosa agarrada na saia da mamãe. A ele se juntaram depois outros poucos. Poucos e ruidosos.

Um carro emparelhou com a comitiva presidencial, antes de Lula chegar ao campus, para ofender o presidente.

Em dado momento, enquanto o evento ocorria, um mototaxista atropelou uma pessoa forçando passagem em via urbana interditada por conta da cerimônia. A rua não estava interditada para ele pessoalmente. Era para todos. A questão é que este em particular talvez se julgasse além da lei e das regras.

Eu mesmo, ao final de tudo quando ia embora, ao entregar uns trocados para o flanelinha que guardava meu carro, fui chamado de “petista ladrão!”. Foi mais um valente mototaxista que, demonstrando em sequência sua incontestável coragem, se evadiu em alta velocidade. Não tive tempo para nenhuma reação.

Antes de prosseguir, gostaria de salientar que em visitas de chefes de governo a crítica é parte do cenário democrático. Grupos, movimentos, setores e até indivíduos aproveitam o momento para tentar abrir canais de diálogo, apresentam demandas, chamam a atenção para suas causas, protestam. É do jogo. Mas, o que vimos foi hooliganismo.

O hooliganismo se move com o objetivo final de eliminação do outro, tal como é no futebol, espaço onde os hooligans foram criados. A violência, simbólica ou até mesmo física, é mobilizada como recurso. No caso da visita de Lula estes indivíduos não apresentaram demandas. Fizeram uso político da violência. O curioso é que eram populares. Não sei quem foram os pichadores. Mas, vi as pessoas que ali estavam ofendendo e xingando no dia da inauguração dos prédios da UFF. Eram homens comuns. Os pobres de direita, como classificou o sociólogo Jessé Souza.

Eu consigo compreender pragmaticamente o que chamo de sócios majoritários e sócios minoritários da extrema-direita. Defendem o que Bruno Wanderley Reis, colega da área de ciência política da UFMG, já chamou de “agenda anti-regulatória”[1]. É o movimento de “passar a boiada”, que consiste em retirar as proteções institucionais e jurídicas que tentam diminuir os impactos de relações constituídas por assimetrias. O objetivo é que o mais forte, enfim, possa predar o mais fraco sem que ninguém tenha onde e a quem recorrer. Vale expulsar indígenas de suas terras, legalizar a grilagem, demitir quem quiser sem que ninguém encha o saco, manter o país como um paraíso fiscal para o andar de cima, extorquir, poder exercer diferentes formas de sadismo com empregados... Tudo isso é o que une parte do capital financeiro, sindicatos patronais identificáveis na cidade e no campo, madames, etc..

Mas, e os populares que vi desferindo impropérios e rangendo os dentes para pessoas que jamais viram antes? Ação coletiva dá trabalho, consome tempo e energia, e eles bancaram os custos. É preciso deixar o conforto do lar. Precisa de investimento libidinal! Não era um protesto com pauta econômica, anti-inflacionária, contra a carestia de gêneros alimentícios. Era ódio. Algo na fantasia desses indivíduos parece sugerir que a eliminação de sua nêmesis, Lula e arredores, vale muito a pena. Talvez, para ser até pudico, uma transformação estrutural, seja lá o que for, poderia advir. Não sei o que imaginam. Paolo Demuru, pesquisador italiano que atua no campo da semiótica, nos lembra do quanto narrativas delirantes, como as teorias da conspiração[2], e discursos de ódio podem funcionar como um remendo, um band-aid perverso, para vidas que se consideram irrelevantes, ressentidas, impotentes diante da brutalidade inerente ao nosso modo de viver nesta etapa do capitalismo. Freud e Reich há mais ou menos um século viram sinais parecidos na ascensão do nazifascismo, onde detectaram ali uma tentativa fajuta de encantamento e empoderamento em um cotidiano duro e sem compaixão. De todo modo o ódio que foi expresso aqui em Campos no abril último, é o que, no limite, implicaria a destruição do objeto. Ódio é afeto, tanto quanto o amor, mobilizador, poderoso e mortífero.

O que se depreende da experiência é que se confirma, mais uma vez, a persistência de uma base popular radicalizada relevante pela direita. A matéria-prima deste setor, distante socialmente dos sócios majoritários e sócios minoritários do bolsonarismo e arredores, é o mal-estar capturado por narrativas que se retroalimentam exaustivamente no ecossistema de informação vampirizado pelas big techs. Nesta seara os algoritmos, em nada neutros, ajudam a repetir conteúdos que reforçam o sintoma. O que gerou as cenas de destruição do 08 de janeiro circula entre nós em tonalidades vívidas. Por tudo isso, sim, sem anistia! E, além de palavras de ordem, o mal-estar desses setores precisa ser processado em respostas efetivas e pacíficas no campo democrático. A democracia precisa recuperar a musculatura desidratada por décadas de discursos e práticas de austeridade.


* Disponível em: https://www.uff.br/15-04-2025/presidente-lula-inaugura-nova-sede-da-uff-em-campos-dos-goytacazes/, acesso em 10 de maio de 2025.

** A primeira versão, encurtada, foi publicada na página 4 do jornal Folha da Manhã em Campos dos Goytacazes, RJ. A primeira versão foi editada pelo próprio autor para caber na formatação do jornal. Aqui no blog, que pôde ir além das 70 linhas delimitadas pelo editor do jornal, se apresenta versão um pouco maior e levemente modificada do texto original.

*** Professor da área de Ciência Política na UFF, campus de Campos dos Goytacazes, RJ.

[1] Em entrevista para o Canal Meio disponível aqui: https://www.youtube.com/live/U9SIS8cbt8c?si=nvX2MAbPgydnmqil, acesso em 04 de maio de 2025.

[2] Recomendo efusivamente o “Políticas do encanto: extrema direita e fantasias de conspiração”, opúsculo lançado por Demuru no ano passado pela editora Elefante.


sábado, 14 de dezembro de 2024

Wladimir e a direita autoritária - George Gomes Coutinho

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Wladimir e a direita autoritária**

George Gomes Coutinho***

Já apontei que o prefeito Wladimir Garotinho, reeleito neste 2024 com a maior votação nominal da história da cidade, não poderia ser classificado como um “palhaço macabro”, termo utilizado por Caetano Veloso para designar a extrema-direita no Brasil e no mundo. E, de fato, seu diálogo com agentes dos dois lados do espectro político, sua abertura para implementar políticas públicas mirando a efetividade e não identitarismo ideológico, sua performance pública em diversas ocasiões ignorando discursos de ódio a grupos políticos ou a setores da sociedade, tudo isso reitera: Wladimir não é um fascista. Contudo, há contradições que preciso apontar. E no período pós eleitoral o prefeito, enfim, optou por escorregar em cascas de banana que acendem sinal de alerta para quem milita no campo democrático. E, creio, cabe correção de rota enquanto há tempo.

O prefeito, quadro neste momento do PP, o Progressistas, ainda em campanha já havia exibido como sinal de prestígio tanto o apoio de Ciro Nogueira, este no mesmo partido de Wladimir, quanto o de Flávio Bolsonaro do PL. Aos mais ligeiros lembro que o PP tem ministério no Governo Lula. Então, a questão não é propriamente o PP ou o Centrão, instância política brasileira a qual nenhum presidente brasileiro pode abrir mão na atual configuração de nosso sistema. O problema são as companhias específicas que citei. Nogueira e Flávio não são nomes do campo democrático. Mesmo que Wladimir tenha, ao menos em um primeiro momento, se aproximado de ambos de forma acanhada e almejado apenas ampliar seu capital político, o gesto de proximidade já o tornou uma liderança semileal à democracia. A semilealdade democrática, descrita pelo cientista político Juan Linz em seu The Breakdown of Democratic Regimes, lançado em 1978, indica condescendência com lideranças de DNA autoritário. Ao invés de isolar, implementar um cordão sanitário, algo encontrado em lideranças democráticas mundo afora, a opção é por confraternizar com extremistas. Podemos intuir que os supracitados talvez ofertem benefícios que outros agentes ou grupos não ofertaram: portas que se abrem, contatos vantajosos com o primeiro escalão. Tudo isto podemos colocar na conta do cálculo racional frio e pragmático.

Porém a hipótese do mero cálculo anda constrangida lamentavelmente por ações do próprio Wladimir que parece querer arriscar o respeito adquirido dentro do campo democrático. Nunca é tarde para lembrar que parte de seus votos tem por origem os que viram na delegada Madeleine a representante da extrema-direita nas eleições municipais campistas. Sim, Wladimir atraiu votos tímidos ou entusiasmados do campo democrático. Por isso vamos por partes.

Recentemente uma das indiscretas postagens em rede social de Wladimir adulando o patriarca do clã Bolsonaro é motivo suficiente para questionarmos as convicções do prefeito boa praça. Todos os fatos ventilados alhures indicam Jair Bolsonaro como uma liderança francamente radioativa ao regime que deu os mandatos da carreira política de Wladimir. O passado e o presente de Jair Bolsonaro o fazem palatável apenas a assemelhados ideológicos, seja Donald Trump ou Viktor Orbán. Isso a despeito de sua popularidade doméstica. E não, aparecer na foto com um homem que instigou seus liderados com discursos de eliminação de adversários não é o mesmo que ser fotografado ao lado do Mickey em Orlando. Com tudo isso, por crimes contra o Estado de Direito, Wladimir pode ter sido registrado ao lado de um futuro criminoso condenado.

Ainda, o prefeito também achou por bem se meter na Guerra Cultural ao entrar na discussão de gênero e sexualidade nas escolas campistas a pretexto de se considerar “conservador”. O termo “conservador” vale para personagens importantes como Edmund Burke (1729-1797) ou Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofos da conservação política temerosos que eram de mudanças sociais e institucionais bruscas. O ponto é que jamais o conservadorismo destes flertou com o obscurantismo.

Falemos sobre a lei 9.531 sancionada por Wladimir e proposta na Câmara pelo vereador Anderson de Matos (Republicanos).

A discussão de gênero e sexualidade nas nossas escolas funciona analogamente como algo que ouvi há muitos anos em uma palestra proferida por um profissional da área de medicina que jamais consegui lembrar o nome: a escola é uma das maiores promotoras de saúde coletiva que podemos ter em nossa sociedade. Práticas, regras, conteúdos simples ensinados de maneira didática que impactam de maneira significativa cidadãos em toda uma vida. Sim, é na escola, em nossa sociedade, que muitos de nós ouvimos pela primeira vez, além de diversos conteúdos abstratos e formais, sobre saúde reprodutiva, tolerância, práticas esportivas como parte do desenvolvimento humano, como se alimentar bem, etc.. Escola é espaço de formação com força civilizatória. Jamais perfeita, dado que é instituição humana. Mas a contribuição da escola enquanto promotora de qualidade de vida é simplesmente inestimável.

Nestes termos, ter a escola como espaço de promoção ao respeito da diversidade sexual realmente existente e lugar de vivência e ensino da igualdade civil, política e social de gênero deveria contar com o apoio da sociedade e da classe política. Ora, é fato desconhecido a defasagem salarial de mulheres no mercado de trabalho? Igualmente é ficcional que vivemos em uma sociedade que pratica diferentes tipos de violência onde o critério para a escolha de alvos é a orientação sexual? Ainda, que na própria escola o bullying e todo tipo de linchamento tem o potencial de produzir diferentes formas de sofrimento como o cutting e, no limite, o suicídio?

A lei 9.531 sancionada por Wladimir coloca sobre os ombros dos pais a decisão de sonegar ou não os conteúdos de gênero e diversidade sexual a crianças e adolescentes. Se trata disso. É um empoderamento duvidoso das famílias em uma cruzada contra a “ideologia de gênero” (sic), um espantalho criado que segue inexistente na boca de qualquer pessoa que se interesse a estudar o assunto. Torço que o poder municipal reconsidere sua decisão e permita que nossas crianças tenham acesso respeitoso e de qualidade a estes conteúdos.  E, de forma análoga, na torcida que o prefeito se reposicione em algumas ocasiões saindo de condição de democrata semileal.

* Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-brasil-e-o-avanco-da-extrema-direita/, acesso em 14 de dezembro de 2024.

** Texto publicado na página 04 do jornal Folha da Manhã em 14 de dezembro de 2024.

*** Cientista político, sociólogo e professor no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Os toques da morte - Carlos Abraão Moura Valpassos

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Os toques da morte 


Carlos Abraão Moura Valpassos


A morte nos toca de diferentes maneiras. Há tempos atrás, um amigo médico, clínico geral, disse que lidava diariamente com a morte, que fazia o que podia pra adiá-la para seus pacientes, mas que as derrotas eram frequentes e inevitáveis. Ele estava, portanto, acostumado a lidar com a morte.


Passei dias ruminando essa história e me indagando se eu seria demasiado sensível e se de fato poderia ser possível naturalizar a morte. Agora, faltando pouco menos de uma semana para o aniversário - contradição - de morte de minha mãe, volto a pensar nisso com frequência. 


Minha mãe entrou no hospital já sem chances, com uma respiração que me soava estranha, mas que para os médicos era um sinal claro de que aqueles eram os últimos momentos. "Gasping", explicou o médico. Ele foi além. "É difícil, eu sei o que você está passando, perdi meu pai há seis meses". Olhando pra trás, percebo que tive sorte: ele me tratou com a paciência e o cuidado de quem sabia o que eu estava passando, mesmo que nem eu soubesse naquele momento, se é que sei agora, um ano depois.


Os últimos dias de minha mãe me perseguem até hoje. A vontade que ela tinha de viver era impressionante, apesar de todo o sofrimento trazido pela doença. As minhas noites ainda são interrompidas por memórias e pela imagem dela deitada no caixão, em uma foto que nunca tirei, mas que queimou minha retina.


Nos primeiros meses, as pessoas tentavam me explicar a dureza do luto. Talvez o conselho mais válido tenha sido: "isso não vai passar, vai ser pra sempre, só vai diminuir a frequência".


Quando contei para meu ex-orientador, ele colocou em termos antropológicos aquilo que eu sentia: "é a perda radical". Sim, era a ruptura de um laço fundamental.


Remoendo memórias e dúvidas sobre as diferentes experiências de morte que temos em vida, recuperei a lembrança de um médico palestino. Em meio ao genocídio imposto pelos israelenses, ele estava imerso em experiências de morte. Certamente tinha experiências incontáveis e tudo pra lidar naturalmente com esse tipo de evento. Ele, todavia, enquanto trabalhava, descobriu que um dos corpos que transportava era o de sua mãe. Ali as coisas mudaram. A calma necessária ao profissional da medicina foi substituída pela dor e o desespero do filho que perdera sua mãe. A humanidade que nos une, a todos, se apresentou expressa na dor da perda radical.


Norbert Elias, em "A solidão dos moribundos", argumentou que a morte era um problema dos vivos. Estava certo quanto a isso, mas tenho minhas dúvidas sobre a parte da "solidão dos moribundos", uma vez que eles costumam tocar seus familiares e, mesmo que estejam encerrando individualmente suas jornadas, estão deixando marcas e projetando a ideia de finitude para que seja refletida, ou ignorada, pelos que ficam. Os moribundos, nesse sentido, nos lembram de nós mesmos, do nosso futuro, das dores que sentimos pelos nossos e que, talvez, alguém sentirá por nós. 


E depois disso tudo, acredito que a questão não é simplesmente a morte. Embora qualquer morte seja capaz de converter-se em experiência, a morte das pessoas próximas, obviamente, assume um tom diferente, com potencialidades próprias. Toda morte, nesse sentido, possui o potencial de ser marcante, mas nem toda ela será. Do mesmo modo, algumas mortes não poderão ser naturalizadas, por mais intimidade que se tenha com esse tipo de evento.


- Carlos Abraão Moura Valpassos

Professor de Teoria Antropológica da Universidade Federal Fluminense

Coordenador do Atelier de Etnografias e Narrativas Antropolíticas

Pesquisador do Inct-InEAC


* Os 108 Toris do Caminho da Purificação, Morro da Vargem, Ibiraçu-ES - Acervo pessoal de George Gomes Coutinho

domingo, 24 de novembro de 2024

Reflexões partilhadas sobre o PPG em Ciências Sociais – Adelia Miglievich

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Reflexões partilhadas sobre o PPG em Ciências Sociais


Adelia Miglievich**

Há prenúncios de boas correções no sistema de avaliação da pós-graduação no Brasil.

Como sempre deveria ter sido, é a MISSÃO do Programa de Pós-Graduação que há de ser avaliada a partir do próximo quadriênio:

1) Formamos mestres e doutores em Ciências Sociais competentes?

2) Entendemos Ciências Sociais como uma área interdisciplinar (ou formamos sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, como fazem os Programas de Pós-Graduação desse modelo disciplinar)?

3) Qual a "diferença" positiva de nosso Programa de Pós-Graduação em face de dezenas de outros em Ciências Sociais no Brasil?

4) Se queremos ir além do mercado acadêmico para nossos alunos, a gente pode lhes dar base para o quê mais? Políticas públicas? Gestão não-governamental? Docência da Educação Básica? Sendo assim, nossa grade curricular está adequada?

5) Estamos efetivamente contribuindo com a graduação em CS? Em nossas aulas, orientações, PIBIC, PIBID, integração com a pós?

6) Nossos discentes estão se inserindo, ao longo do curso, na comunidade científica nacional?

7) Suas dissertações e teses estão sendo visibilizadas nos concursos de dissertações/teses?

8) Os resultados de suas pesquisas vêm sendo publicados?

9) Nosso Programa de Pós-Graduação, para além dos núcleos e grupos de pesquisa, tem atraído os pares no campo para estarem aqui conversando conosco?

10) Nossos docentes estão se prestigiando mutuamente e interagindo entre si nos bons trabalhos?

11) Nossos docentes estão colocando o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em redes nacionais e internacionais exitosas?

12) Os professores têm conseguido aliar sua produção ao perfil do Programa de Pós-Graduação que queremos ser?

13) Nossos egressos estão no mercado fazendo a diferença positiva?

14) Suas teses e dissertações viraram publicações capazes de demonstrar que o investimento neles gerou produção científica para fortalecer o campo das Ciências Sociais?

15) Vamos entender que não são mais os pesquisadores que serão avaliados daqui para a frente, mas o Programa de Pós-Graduação em sua atuação como uma entidade?

16) A comunidade externa está usufruindo de nossa produção de conhecimento?

17) Temos conseguido dar espaço para nossos estudantes e egressos vestirem com orgulho a camisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais?

 

Acabará o tempo dos "cavalos de corrida" (algo próximo de um colega com 6 artigos por ano!). Pra quê?.

 Tá na hora de entendermos que o desenvolvimento da ciência no Brasil é um trabalho intergeracional e "mutirão" de milhares de mãos.

 Intergeracional implica: acolher e abrir portas para as novas gerações e novos sujeitos epistêmicos, conforme compreendo.

Mas ... essa não é a lógica do Capital. Portanto, há ethos antípodas em disputa: cooperação versus competição.

Não tenho falsas expectativas. Até porque a política científica está contida nas macropolíticas. Quais governos virão?

 Mas, qualquer coisa no futuro vai depender de uma certa nota que teremos que conquistar até março/25, ainda nos critérios velhos de 2019, aqueles produtivistas ...

E agora?

 Ass: uma trabalhadora intelectual.

* Red and White Domes, Paul Klee. Disponível em: https://www.chrisjoneswrites.co.uk/paul-klees-tunisia-trip/, acesso em 24 de nov. de 2024.

** Adelia Maria Miglievich Ribeiro é professora associada no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo, UFES. É autora, além de dezenas de artigos publicados no Brasil e no exterior, do livro "Darcy Ribeiro, Civilization and Nation: Social Theory from Latin America" publicado pela Routledge neste 2024.