quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Show - The Daytrippers - Beatles Rock Band - 11º Encontro de Motociclistas de São Fidélis - 23/09/2016

Prezad@s,
No dia 23/09, uma sexta-feira, a banda The Daytrippers fará sua estréia no 11º Encontro de Motociclistas de São Fidélis.

A banda é composta por este que vos escreve (guitarra/voz), Bruno Cartaxo Gastrol (guitarra solo),Sérgio Gomes (baixo/voz) e Emil Mansur (bateria). Trata-se de um repertório constituído por canções dos Beatles em uma leitura menos ortodoxa.

Também advirto que não se trata de um repertório com os lugares comuns que vocês estão acostumados... Nada contra obviamente, mas, não tocaremos Help, Twist and Shout e congêneres.. Contudo, prometemos mostrar versões que irão divertir vocês.
Quem for de São Fidélis ou estiver de passagem por lá na ocasião, sintam-se convidad@s. Está no pacote de promessas fazer uma apresentação memorável após alguns meses de ensaio. 



:)

domingo, 11 de setembro de 2016

A estranha pauta do Movimento Escola Sem Partido

A estranha pauta do Movimento Escola Sem Partido *

George Gomes Coutinho **

A democracia nas sociedades complexas necessita ser polifônica. É um critério para sua sobrevivência e o caminho oposto flerta com soluções autoritárias. Há um conjunto de vozes diversas em nossa sociedade, com reivindicações de diferentes naturezas e o puro e simples aniquilamento artificial da circulação de discursos e demandas simplesmente não combina com a própria democracia. Como já alertou Alexis de Tocqueville (1805-1859), se as democracias modernas tendem a derivar em verdadeiras “tiranias da maioria”, as minorias devem ser resguardadas inclusive no direito de circulação de suas narrativas.

Não obstante esses pressupostos, causa espécie a notoriedade alcançada pelo Movimento Escola Sem Partido, doravante MESP. Não se trata de simplesmente coibir os seus idealizadores de proporem qualquer coisa, vide as linhas no parágrafo anterior. As idéias e proposições surgem, sejam estas grandiosas ou medíocres a despeito do espectro político. Mas, o que choca é quanto o gesto de levantar uma lebre esquálida dessas, cujo idealizador do movimento se trata de um pai que ficou indignado com uma analogia feita por uma professora entre Ernesto Guevara e Francisco de Assis, tenha conquistado editoriais, circulado em redes sociais e estabelecido movimentos na direção oposta.

Ao acompanhar a divulgação dos dados da educação brasileira alcançados em 2015 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o famoso Ideb, a situação é muito mais preocupante do que qualquer entusiasta ou opositor do MESP tem contemplado. Em mais uma ocasião nenhuma das metas do Ideb foram alcançadas. Dentre os projetos de lei que tive acesso e afinados com as diretrizes do MESP, no caso o PL 7180/2014 do deputado Erivelton Santana (PEN/BA), não consta uma vírgula sobre questões de infra-estrutura escolar, estímulo para a qualificação continuada dos professores, planos de carreira e salários, etc.. Nem a merenda escolar, questão básica no ensino público, é mencionada. Nada. Apenas fala em “convicções” da família. O debate soa como engodo e desperdício de energia que encobre questões mais graves. E talvez seja mais um sintoma da pequenez de nossa opinião pública contemporânea.


* Texto publicado no Jornal Folha da Manhã em 10 de setembro de 2016. Na versão impressa o título original foi "A estranha pauta do MESP".

**Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 4 de setembro de 2016

31 de agosto de 2016: o dia que não terminou

31 de agosto de 2016: o dia que não terminou*

George Gomes Coutinho **

Há datações que se tornam paradigmáticas na história humana. Elas não indicam que há um congelamento da dinâmica da sociedade, algo que qualquer observador poderia atestar sem dificuldade. Contudo, determinadas datas adquirem grande relevância por redundarem em grandes conseqüências nas relações, pactos e interpretações que um Estado-Nação, constituído por seus agentes, constrói sobre si. Neste raciocínio, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, por exemplo, elegeu 1968 como marco para ilustrar um destes momentos fortemente simbólicos e paradigmáticos em uma de suas obras. O livro de Ventura, lançado em 1988, trazia o subtítulo “o ano que não terminou” que tomei de empréstimo para esta reflexão.  A sensação de algo inacabado, uma gestalt histórica aberta, paira igualmente sobre o 31 de agosto de 2016.

Ao término da votação no Senado Federal do processo que culminou no impedimento de Dilma Roussef, é pouco provável que observadores mais atentos tenham acreditado que qualquer coisa tenha efetivamente se encerrado. Mesmo para os entusiastas de curtíssimo prazo cabe traçar como alerta um paralelo didático com processo análogo sofrido por Fernando Collor em 1992. O movimento Fora Collor, que contou com ampla adesão de diversos setores da sociedade e angariou o apoio de grupos de quase todo espectro político, foi bem sucedido inclusive pela ampla faixa de consenso obtido. O processo Collor visto em retrospectiva se mostrou eivado de falhas legais e de manobras políticas nos bastidores que fariam corar até o mais cínico observador da política contemporânea.  Todavia, havia o forte consenso.

No caso Dilma, as controvérsias surgiram em tempo real, não necessitando sequer do olhar retrospectivo. Primeiramente, o forte consenso na própria sociedade não foi construído. Ou seja, o questionamento ruidoso prosseguiu durante o desenrolar dos acontecimentos e prosseguirá como um eco a ressoar nos próximos tempos até pela quantidade de contradições que cercaram o processo. O dissenso envolveu pelejas discursivas nas searas do sistema político, do sistema jurídico, na área econômica e até mesmo, pasmem, no rol dos debates morais. 31 de agosto de 2016 não findou na última quarta-feira. Apenas iniciou uma nova e imprevisível fase.

* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 03 de setembro de 2016


** Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 28 de agosto de 2016

A Ciência Política como termômetro da conjuntura

A Ciência Política como termômetro da conjuntura* 

George Gomes Coutinho **

A Ciência Política brasileira completa neste ano de 2016 uma data histórica: o aniversário de 50 anos de criação do primeiro curso de mestrado da área na Universidade Federal de Minas Gerais. Para a ainda atualmente pequena comunidade de cientistas políticos brasileiros, o marco de 1966 indica tanto a autonomização da área de conhecimento disciplinar quanto um passo decisivo na direção da formação profissional dos seus adeptos.

Nestes 50 anos a Ciência Política tem se apresentado no cenário acadêmico, junto de suas outras co-irmãs das humanidades, como uma observadora socialmente interessada, atenta e indiscutivelmente sensível da conjuntura política. São observados em seu movimento pendular o cenário das instituições, eleições, os agentes coletivos e individuais, as regras do jogo e outras temáticas em um continuum de acumulação de conhecimento. Justamente por esta relação íntima com o fenômeno do poder, dada a especificidade desta área de conhecimento, a produção de nossa Ciência Política poderia ser acolhida pelo observador externo, ou, em outros termos, pela sociedade como um todo, como um verdadeiro termômetro das tendências da política nacional.


Neste momento há um direcionamento na agenda de pesquisas e debates na nossa Ciência Política demarcado pelo retorno das preocupações com soluções autoritárias de diversas origens e, em anexo, certa inquietação com a saúde de nosso sistema democrático. Os ventos pós-junho de 2013 continuam a soprar. Não obstante a desconcertante resiliência das oligarquias, a atenção da área migra para as mudanças circunstanciais no perfil do legislativo brasileiro, onde ocorre uma guinada francamente reacionária. Cabe compreender este movimento. Dentre temas emergentes, o judiciário como agente político cotidiano capaz de descalibrar o sistema de forças do sistema político igualmente se apresenta. Ainda, dentre as novidades, o olhar atento sobre a atuação da grande mídia como outro agente político relevante ganha a complexidade da atuação difusa de grupos nas redes sociais deflagrando ações coletivas. Caminhamos, assim, com permanências. E novas nem sempre boas.

* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 28 de agosto de 2016

** Professor de sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 21 de agosto de 2016

Reacionários aqui e alhures

Reacionários aqui e alhures *

George Gomes Coutinho **

O diagnóstico contemporâneo de que vivemos em uma sociedade que atravessa uma profunda transição já foi apresentado alhures, em diversas línguas e tradições das humanidades. Porém, em outra e longínqua conjuntura, talvez ninguém como o comunista sardo Antonio Gramsci (1891-1937) tenha obtido uma das formulações mais precisas e dramáticas sobre as épocas de interregno: momentos onde o novo ainda não nasceu e o velho se recusa a morrer.

As sociedades, no Brasil e no mundo, nestes primeiros 16 anos de século XXI lidam com um fluxo de circulação de informações que não encontra paralelo na trajetória humana. Neste âmbito, a circulação livre de capitais, sonho dourado de rentistas e especuladores em geral, convive com a circulação de pessoas, algo menos desejado pelos setores mais conservadores e recalcitrantes. Modos de viver surgem, alguns realmente novos e outros que já não são mais asfixiados nos calabouços dos espaços públicos,  o que implica novas formas de amar, sentir e experimentar a produção cultural e as relações afetivas. A sociedade deste início de século XXI é plural, complexa e necessita da busca por formas de convivência que consigam dar conta, de forma pacífica e democrática, desta rica diversidade humana.

Contudo, o que há de novidade em nossos tempos convive com o que se recusa a morrer.
 
Os agrupamentos que se “recusam a morrer” simbolicamente neste momento buscam na nostalgia, ou na invenção de um passado mítico pouco crível, forças para a reação. Por isso o termo “reacionário” nos auxilia a compreender as tentativas desesperadas e artificiais da aniquilação da diversidade nascente e da plêiade de direitos conquistados por diversos agrupamentos sociais. Sejam os eleitores brancos, cristãos e redneck de Trump, os simpatizantes da extrema-direita européia e as viúvas da ditadura civil-militar brasileira. Todos estes agrupamentos reacionários apresentam em sua pauta a interpretação passadista, vide o “fazer a América grande de novo”, como mote para flertar com soluções totalitárias e autoritárias de maneira geral. O grande problema é que a História, aquela senhora invisível a nos assombrar, sempre lembra que o reacionarismo convive de braços dados com seu co-irmão: o fascismo.


* Texto publicado no jornal Folha da Manhã em 20 de agosto de 2016

** Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 14 de agosto de 2016

O grande condomínio olímpico

O grande condomínio olímpico *

George Gomes Coutinho  **

No último ano Christian Dunker, professor titular em Psicanálise e Psicopatologia da USP, trouxe ao mundo a obra “Mal-estar, sofrimento e sintoma”, publicado pela Boitempo Editoral. O livro, extremamente ambicioso e potente em termos de correlações entre a teoria social e a psicanálise, apresenta como um dos seus grandes argumentos para interpretar o Brasil contemporâneo uma nova patologia social: a sociedade condominial.

Para Dunker, a sociedade condominial se caracteriza na prática como aquela dotada da criação de espaços artificiais privatizados e por vezes assépticos onde o controle repressivo, a homogeneização estética e social e a sociabilidade neurótica se encontram de mãos dadas. Encerrados em verdadeiras cidadelas adultos são infantilizados com a promessa, certamente impossível de se realizar, da supressão da complexidade diante do inevitável encontro com outro, o alter. O outro, em última instância, é todo aquele que não se enquadra nos parâmetros tradicionais e/ou desejáveis e nos lembra que neste universo não iremos conviver somente de forma entediante e previsível entre “meus iguais”. Este outro, ainda, traria o comportamento indesejável ou a crueza do real em sociedades que são, quer se goste ou não, plurais, complexas e, especialmente em nosso caso, francamente desiguais.  Nestes termos, shopping centers e condomínios são expressões de um mesmo fenômeno social.

Não é por acaso que o complexo olímpico carioca tem sido igualmente comparado a um shopping ou a um condomínio e seu funcionamento é análogo. Francamente repressivo, inclusive na batalha quase sem tréguas à liberdade de expressão e excludente quanto a todos “os não iguais” e sem o convite. Trata-se de uma grande área VIP. O objetivo é isolar o indesejável, o real, o imprevisível, como se assim fosse realizável. O grupo gestor local, o Comitê Rio 2016, se apresenta como o “síndico” ávido por considerar de forma autocrática o que pode ou não pode ser feito. Neste sentido, as manifestações visuais e pacíficas contra o governo interino foram inconstitucionalmente desbaratadas enquanto expressão do “real” não convidado. Afinal, o que é a Constituição de 1988 frente às leis soberanas e neuróticas de um condomínio?

* Texto publicado no Jornal Folha da Manhã em 13 de agosto de 2016


** Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

domingo, 7 de agosto de 2016

Contra o argumento ad hominem

Contra o argumento ad hominem*

George Gomes Coutinho **

Dentre os sintomas identificáveis no Brasil contemporâneo politicamente polarizado se apresenta de forma constrangedora um inegável empobrecimento discursivo expresso em nossa opinião pública.  Deste grave problema podemos identificar déficits cuja parte da responsabilidade cabe aos grupos formuladores, aqueles que usualmente apresentam as grandes sínteses e propostas coletivas. Políticos tradicionais, intelectuais profissionais ou não e ativistas dos movimentos coletivos talvez se vejam fragilizados na sua posição de formuladores. Há razões múltiplas. Seja pela incapacidade de criação de idéias e projetos realmente inovadores e convincentes ou os outros tantos que sofreram e sofrem arranhões em sua credibilidade e, por fim, há também os que encontram entraves derivados da dificuldade de transpor as barreiras de comunicação que possam atingir corações e mentes neste momento de crise política. 

As conseqüências deste vazio são diversas e o aparecimento de proposições requentadas, simplórias e pouco críveis é somente uma delas. Mas, irei me ater a que considero como uma das conseqüências mais insidiosas e destrutivas: a larga utilização do argumento ad hominem como arma política.

Ad hominem, termo oriundo do latim utilizado para caracterizar argumentos falaciosos e/ou ilógicos, significa “ao homem” ou “à pessoa”. Em outros termos, diante do interlocutor não são discutidas as propostas e projetos de sociedade em pauta. De forma pouco nobre, o objetivo é destruir a pessoa. Abandona-se o debate saudável e plural de idéias que leva água ao moinho de qualquer sociedade democrática em prol da eliminação moral. Não por acaso, a despeito do posicionamento político, a prática do que os adeptos chamam de “escracho” em lugares públicos, sendo praças, aeroportos ou restaurantes os locais de preferência para o uso deste expediente, guarda afinidades com o linchamento. Como forma de justiçamento, seria linchamento simbólico portanto.  A indignação, justa em determinadas ocasiões, se mostra com a máscara anônima do ódio em meio ao grupo. Por tudo isso, o argumento ad hominem é somente a expressão violenta e anti-democrática da incapacidade de construir consensos.


* Texto publicado no Jornal Folha da Manha de Campos dos Goytacazes em 06 de agosto de 2016

** Professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes