sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A auditoria do BNDES e a insuficiência dos dados perante o apego à opinião


A auditoria do BNDES e a insuficiência dos dados perante o apego à opinião

Jefferson Ferreira do Nascimento *

Um dos pilares da campanha eleitoral foi o discurso de combate à corrupção. Desde 2014, com a crescente exposição midiática da Operação Lava Jato, o tema passou ao principal problema do país na visão dos eleitores. Em 2013, apenas 10% dos entrevistados pelo Latinobarômetro[[i]] viam a corrupção como o principal problema do país, o percentual saltou para 31% em 2017. E é em consonância com este diagnóstico que ganha precedência uma suposta “Caixa Preta do BNDES” que poderia ser, na visão dos difusores, um escândalo à altura (para alguns, até maior) daquele identificado pela Operação Lava Jato.

Apesar das negativas de presidentes anteriores do BNDES, dentre eles dois claramente não alinhados ao PT, Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira (ambos, na gestão Temer) e dos documentos oficiais da instituição, uma das promessas de campanha do atual presidente era abrir a “Caixa Preta do BNDES”. Apesar disto, o primeiro presidente do BNDES de sua gestão, Joaquim Levy, tal como os antecessores, afirmava não haver indícios para tal operação. O que contribuiu para a sua substituição por Gustavo Montezano. É na gestão de Montezano que a consultoria avançou e divulgou os resultados: não havia indícios de irregularidades. A consultoria contratada foi o escritório Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, com sede em Nova Iorque. A empresa estadunidense subcontratou o escritório Levy & Salomão Advogados, sediado em São Paulo. Foram gastos R$ 48 milhões de reais e a operação tornou-se alvo da OAB por fornecer acesso a dados estratégicos do BNDES e de empresas brasileiras para o escritório estrangeiro. Apesar do resultado da auditoria contratada pelo governo atual, chama a atenção a reação de seguidores do presidente. No geral, esses comentários sustentam os seguintes argumentos:

1)    "Caixa preta foram os bilhões investidos nos países amigos”;
2)    “Se tivesse calotes o prejuízo ficaria para os cidadãos brasileiros”;
3)    “Dinheiro emprestado para ditaduras de esquerda e o Brasil continua sem...” (apontam algum problema: saneamento, segurança, saúde, educação, etc.);
4)    “É manipulação da esquerda...” (dos socialistas, dos petistas, dos comunistas e toda ordem de termos que julgam ser sinônimos);
5)    “Muito dinheiro para artistas e campeões nacionais...”;

Comecemos pelo último item. Entre 2009 e 2014, 134 jatinhos da Embraer foram financiados pelo BNDES. Todos esses empréstimos foram para empresas, Luciano Huck obteve o empréstimo pela Brisair, empresa que é sócio. Além dele, a empresa de João Dória, de Michel Klein (das Casas Bahia), empresas da família Moreira Sales e empresas de táxi aéreo obtiveram o empréstimo. Isto é, ainda que não seja absurda a crítica, a linha de crédito é para empresas e para aquisição exclusivamente da Embraer. Logo, Huck não obteve por ser artista, mas por ser empresário. Essa afirmação parte do desconhecimento do funcionamento do banco ou, em hipótese pior, da confusão com a demonizada Lei Rouanet. Bem como ignora que o intuito era o apoio à Embraer, até ali empresa exclusivamente brasileira.

O item 4 que afirma ser uma manipulação da esquerda esbarra no óbvio: a auditoria estadunidense foi contratada pelo governo atual e a divulgação do resultado foi feita por Gustavo Montezano. A ironia contida neste caso é que, ao reafirmar a existência de uma “caixa-preta” no BNDES, os apoiadores do presidente estão indiretamente afirmando: (1) a incompetência do governo até para contratar os seus prestadores de serviço; e/ou (2) que o governo está cometendo um crime ao acobertar atos ilícitos.

Os demais itens responderei utilizando um esclarecimento público feito pelo próprio BNDES[[ii]].

Item 3: "É justo apoiar projetos lá fora quando falta tudo aqui?
O objetivo do apoio do BNDES às exportações brasileiras é o mesmo de qualquer outra operação que o Banco realiza: gerar emprego e renda no Brasil. Quando financia as exportações de uma empresa brasileira de engenharia para obras no exterior, o BNDES exige que todos os bens e serviços apoiados sejam de origem brasileira.
Por isso, além dos projetos de engenharia, produtos como materiais de segurança, dutos, máquinas e equipamentos usados nas obras são produzidos e comprados no Brasil. Se o financiamento não for do BNDES, a empreiteira fica livre para comprar capacetes, uniformes e outros bens de outros países, como a China ou outro lugar perto da obra
[...] o BNDES financiou apenas 9% das exportações brasileiras de bens e serviços de engenharia (nos outros 91% dos casos, o financiamento veio de outras fontes). Ainda assim, os 9% de projetos que contaram com apoio do BNDES geraram em média 19 vezes mais exportações de bens brasileiros do que os projetos feitos sem o apoio do Banco."

Item 2: Informação 2: Quando o empréstimo não é pago ao BNDES?
"[...] financiamentos à exportação costumam ser cobertos pelo Seguro de Crédito à Exportação (SCE), um dos mecanismos de garantia e mitigação do risco de crédito usado pelo BNDES — e também por outros bancos, públicos e privados — em operações de financiamento a vendas externas de bens e serviços brasileiros."

Item 1: "o BNDES não envia dinheiro a outros países. Quando você ouve falar que o Banco apoia uma obra no exterior, saiba que o BNDES não financia todo o empreendimento, mas apenas a parte de bens e serviços brasileiros que são exportados para uso naquela obra [...] o BNDES desembolsa recursos no Brasil, em Reais, à empresa brasileira exportadora à medida que as exportações são realizadas e comprovadas. Quem paga o financiamento ao BNDES, com juros, em dólar ou euro, é o país ou empresa que importa os bens e serviços do Brasil. Assim, é falso dizer que há envio de dinheiro do BNDES para o exterior. Pelo contrário: o financiamento à exportação gera entrada de recursos no Brasil, contribuindo para melhorar o desempenho do balanço de pagamentos externos do nosso país."

Em complemento, ao item 1, caso fosse verdadeira a ideia de que o país emprestou para governos, a tese do favorecimento às “ditaduras amigas”, aos “governos socialistas” não se sustenta. Veja a tabela abaixo:

Países que receberam bens e serviços exportados por empresas brasileiras financiadas pelo BNDES, entre 1998 e 2018[[iii]]
Posição
País
Valores em bilhões de US$
1.°
Estados Unidos
17,784
2.°
Argentina
3,490
3.°
Angola
3,397
4.°
Venezuela
2,223
5.°
Holanda
1,468
6°
Rep. Dominicana
1,443
7.°
Equador
0,914
8.°
Cuba
0,882
9.°
Peru
0,645
10.°
Reino Unido
0,644

Cumpre reiterar que o BNDES empresta em reais para consumo de matéria-prima, mão-de-obra e serviços no Brasil e o uso do valor transformado em dólares para divulgação é para facilitar o cálculo e a soma ao longo da série devido a depreciação do real face à inflação e às variações do dólar. Além disso, a modalidade de fomento à exportação de bens e serviços é apenas 2% do total de empréstimos liberados pelo BNDES. O restante é para empreendimentos realizados aqui ou para empresa de atuação local, como é o caso – pasmem – da Havan, de Luciano Hang.

Mas, voltando aos dados da tabela, repare: se considerarmos os países que tiveram governos de esquerda ou centro-esquerda em algum momento nessa série de 1998-2018, teríamos Argentina, Angola, Venezuela, Equador, República Dominicana, Cuba e Peru. Todos os empréstimos somados para bens e serviços exportados para esses países totalizariam US$ 12,994 bilhões, isto é, apenas 73% do que foi destinado aos Estados Unidos e isso se fizermos a suposição de que todos os empréstimos para esses países ocorreram apenas em seus governos de esquerda ou centro-esquerda e durante os governos do PT (2003-2016). Veja, ainda que tivesse ocorrido empréstimos a governos, o maior destinatário de recursos do BNDES é a maior potência capitalista: os EUA. Se ampliarmos os dados para os 20 países que mais receberam recursos, do 11.° ao 20.°, só Paraguai (US$ 0,211 bilhões), Chile (US$ 0,479 bilhões) e França (US$ 0,331 bilhões) tiveram algum governo de esquerda ou centro-esquerda no período 1998-2018. Isto é, incluindo esses países, o total seria US$ 14,015 bilhões, ainda menor do que apenas os empréstimos para exportação para os EUA. Novamente, supondo que todo o montante aos três países foi destinado apenas durante governos de esquerda! Do 11.° ao 20.°, os demais são: Polônia, Espanha, Itália, Canadá, Ilhas Cayman, Irlanda e México (que só elegeu um presidente de esquerda em 2019). Esses 08 países se juntam aos Estados Unidos, Holanda e Reino Unido, totalizando 11 países onde a associação de governo ideologicamente amigo soaria absurda, contra 09 em que tais ilações poderiam ser forçosamente elaboradas.[[iv]]

Logo, posto que esses dados já eram públicos, se vê que a tal auditoria só serviria se ela confirmasse a opinião corrente entre os apoiadores do presidente. Se irregularidades fossem encontradas, teríamos o poder do viés de confirmação. Como isso não ocorreu, os dados têm pouco valor perante à opinião cristalizada e reafirmada em círculos de amigos, grupos de WhatsApp, canais de YouTube. A tal “bolha” encoraja a defesa da opinião, mesmo que ela não resista a mais trivial análise de dados.

Diante de tal panorama, é muito difícil que esse texto supere o apego à opinião diante do encorajamento, até por parte de autoridades constituídas, para a reprodução de desinformação em detrimento de dados. Mas, para quem ainda tiver vontade de entender, esse texto indica os links de onde as informações foram retiradas, vá às fontes e indique-as, assim será mais fácil entender o resultado da auditoria. Entretanto, não se iluda, estamos em tempo de crença na terra plana, no crescimento de movimentos antivacina, numa época em que boatos decidiram eleições e crenças pessoais, como a campanha pela abstinência, podem ser tornar política pública para combater DSTs e gestação precoce (como se tal campanha já não fosse feita na maioria das famílias e nas igrejas).

* Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFSCar e professor no IFSP, Campus Sertãozinho. Membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA). Email para contato: jefferson.nascimento@ifsp.edu.br




[i] Pesquisa anual de opinião pública feita em 18 países da América Latina. Ver: http://www.latinobarometro.org/lat.jsp
[iv] Ver link acima[iii].

Call for papers: The University as a Social and Public ‘Good’, The University of Birmingham, 25th March 2020


The University as a Social and Public ‘Good’: Creating an Anchor out of Community Engaged Research

Call for Papers and Presentations

Hornton Grange, The University of Birmingham, Wednesday 25th March 2020, 9.30am-5.00pm


“Universities have an irreplaceable and unique role in helping their host communities thrive – and their own success is bound up with the success of the places that gave birth to them” Lord Kerslake (Chair of UPP Foundation Civic University Commission, 2019).

The concept of the ‘Civic University’ and the current debate on the social and public good of universities creates an opportunity to strengthen links between universities and their communities. This one day conference explores different ways of developing a renewed civic nexus with universities and communities that have not traditionally engaged with the HE sector.  The event is funded by UKRI and co-designed by community researchers who are part of USE-IT! Community Research social interest company, which builds on the ERDF funded project USE-IT! (www.useituia.co.uk). USE-IT! aims to link local residents to large-scale urban transformations and is scalable and transferable to other urban contexts.   

The University Partnerships Programme (UPP) Foundation report: Truly Civic: Strengthening the Connection between Universities and their Places (2019), makes no direct reference to community research, community engagement  or ‘mechanisms’ to deliver greater collaboration in the research or policy production process.  The conference will therefore provide a platform to explore i) how communities can engage with the HE sector and universities in co-designing research or setting the research and policy agenda in a way that values diverse knowledge bases; and ii) mechanisms that can bridge the gap between HE institutions and communities in order to open up new avenues to enhance the civic contribution of universities.

The conference will feature invited plenaries, academic, community and practitioner panels and a poster display of co-designed and community-engaged research.  The conference will seek to examine the value of a variety of models and mechanisms that universities and HE partners have used to reach out to communities in order to co-design or validate research and include communities and resident experts in the research process. Contributions from a range of disciplinary backgrounds and positions are encouraged including: academics, doctoral researchers, policy makers, practitioner/community researcher that have engaged with universities and the HE sector in projects that have a wider benefit to the community. We are particularly interested in papers that focus on the following thematic areas:


1)      Institutional and strategic contexts for conducting community-engaged research and developing universities as a social and public ‘good’:

•       The opportunities and challenges of creating future civic universities
•       How civic university agreements can be realised and supported
•       Cultural and organisational issues experienced by universities and communities in research co-production.

2)      Understanding experiences of research co-production to advance practice and outcomes:

•       Models of engagement in research co-production and how success is measured
•       Research co-production, policy engagement and impact
•       The role of out-reach work and the development of community or urban hubs in the creation of future civic universities
•       Lessons in supporting social enterprises for civic engagement
•       New mechanisms of community engagement on university campuses
•       Models of success in the support and progression of community researchers or resident experts.

3)      Innovative and critical academic perspectives on research co-production and the role of civic universities:

•       Epistemology, ontology and methodology in community engaged research: working with diverse knowledge bases
•       Advancing theoretical perspectives on community engaged research and notion  of the civic university
•       Ethical concerns  in the co-production of research.

Abstracts for paper proposals or presentations (250 words max) should be emailed to Aleksandra Kazlowska (A.Kazlowska@bham.ac.uk) by 12th February 2020. You will also need to submit a biographic note(s) (150 words per author).

Decisions on paper / presentation acceptance will be communicated by email by 19th February 2020.

To register for the event (as presenter or attendee) please book your place at:

This event is supported by UKRI and UIA and is FREE. We will provide refreshments on the day so please inform us of any dietary requirements you may have.  When booking please ensure that you can attend or nominate someone to attend on the day so that we do not waste food and resources. Many thanks.


Contacts for more details:
Aleksandra Kazlowska A.Kazlowska@bham.ac.uk
Lisa Goodson l.j.goodson@bham.ac.uk; 0121 414 4993
Peter Lee p.w.lee@bham.ac.uk, 0121 414 3645

sábado, 18 de janeiro de 2020

Divulgação - 2ª Semana da Visibilidade Trans de Campos dos Goytacazes

Este evento, a Semana da Visibilidades Trans de Campos dos Goytacazes, surge na perspectiva de promover o debate de forma qualificada sobre as demandas que cercam a população Trans e travesti, para que o conhecimento e a informação sejam compartilhados em nossa cidade e, deste modo, a ignorância fique cada vez mais distante da nossa realidade.
A Semana acontecerá especificamente no Museu Histórico de Campos (situado na Praça Santíssimo Salvador, 40 - Centro, Campos dos Goytacazes) conta com 3 dias de atividades, que tem início no dia 29 de janeiro, no qual é comemorado O Dia Nacional da Visibilidade Trans e tem o término no dia 31 de janeiro.

Esta edição tem como tema: “Discutindo o CIStema” pois o que está em disputa é colocar a cisgeneridade como categoria analítica para pensar em como o fato dela ser estabelecida como norma coloca a população TT’s (Travestis e Transexuais) em lugar de outridade.
Nossa programação contará com quatro mesas de debate ocorrendo nos três dias de evento, organizados da seguinte maneira:
29/01 (Quarta-feira) - 18 hrs ás 22 hrs - Porque somos somente 0,1% nas universidades federais?
Debatedores:
* Nathan Dória - Homem trans, formando em Geografia pela UFF - Campos e membro da
comissão organizadora da II Semana da Visibilidade Trans
* Erickah Gomez - Mulher trans, Pedagoga e educadora social.
* Laura Assis - Mulher trans, professora de educação infantil na rede municipal de  São João da Barra.
30/01 (Quinta-feira) - 18 hrs ás 22 hrs - Não somos doença!: O Sistema Único de Saúde e o atendimento às pessoas trans
Debatedores:
* Márcia Brasil - Coordenadora técnica Ambulatorial de Unidade de Atenção especializada do Processo Transexualizador do Estado do Rio de Janeiro e assistente social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atuando no Hospital Universitário Pedro Ernesto
* Thárcilo Hentzy - Homem trans, estudante de Psicologia da UFRJ e membro da comissão organizadora da II Semana da Visibilidade Trans
- pendente –
31/01 (Sexta-feira)  - 18 hrs ás 22 hrs - Estratégias de sobrevivências nos dias atuais.
Debatedores:
* Andréa Silva - Membro do Mães pela diversidade
* Indianare Siqueira - Puta-ativista, transvestigênere, fundadora da Casa Nem e do projeto Prepara Nem
* Ernane Alexandre - Superintendência de políticas LGBT RJ - Programa Rio sem Homofobia
* Thiago Miranda - Subsecretário de Promoção e garantia dos Direitos Humanos - Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos - SEDSDH
* Marcelo Vicente - Homem trans, negro e artista.
A Organização da II Semana da Visibilidade Trans conta com a sua presença para fazermos um evento cheio de importantes trocas e debates capazes de reverter em melhorias para a nossa sociedade.
Fonte: Coletivo Trans Goytacá.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O blog em versão 2.0 para 2020


Prezadxs Leitorxs,

Como vão vocês?

Por aqui estamos passando por um período de novidades. Por isso esse editorial de refundação do Autopoiese e Virtu.

Como “os de casa” já sabem, este blog teve seu início no longínquo ano de 2015 tendo este que vos escreve dado o start nas postagens trazendo crônicas, notícias acadêmicas, resenhas sobre material que encontramos por aí pela rede, etc..

Em 2017 o blog passa por uma primeira “repaginada” incorporando as colaborações de Paulo Sérgio Ribeiro, sociólogo, mestre em políticas sociais pela UENF e atualmente trabalhando no setor técnico administrativo da Universidade Federal de Viçosa.

Em 2018 Márcio Malta, o famoso “Nico”, atualmente no INEST-UFF, passa a compor as fileiras do blog unindo o improvável: os cartuns de seu lado cartunista e as análises do cientista político. Também neste ano o blog passa a ser projeto de extensão universitária do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos dos Goytacazes.

No final de 2019 resolvemos ocupar, resistir e produzir nas redes sociais. O blog passa a ter perfil próprio tanto no Facebook (https://facebook.com/autopoiese.virtu.7) quanto no Twitter (https://twitter.com/autopoiesevirtu).

E agora em 2020 temos enquanto “móveis e utensílios” ou na equipe de colaboradores permanentes do blog o sr. Carlos Abraão Moura Valpassos. Abraão, como é conhecido entre nós, é professor da área de antropologia no Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos, colaborador regular do jornal A Folha da Manhã e autor, dentre outras incursões, de “Abortos: dramas sociais e histórias sobre eles”, lançado em 2018 pela Garamond.

Em pleno janeiro de 2020 antevejo que teremos um ano especialmente longo e por vezes disruptivo. 

Por isso o blog certamente pode ter mudanças, inserções de novxs colegas, colaborações avulsas, etc..

Mas, prosseguimos tendo o mesmo direcionamento que animou a primeira postagem lá atrás em 2015: fazer reflexões sobre a conjuntura utilizando a lente fornecida pela grande área de humanidades. Sem dúvida alguma penso que essa é das maiores contribuições que nós podemos tentar para além dos muros da Universidade. Não é a única. Mas, é especialmente importante.

Enfim, agradeço em nome dos colegas pela companhia dxs leitorxs.... Pedimos que continuem conosco e, claro, também ficaremos felizes se nos seguirem nas redes sociais do blog. Tudo o que tivermos de novidade aqui irá reverberar por lá.

Abraços e que venha 2020!

George Gomes Coutinho

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Greta Thunberg e a consciência social do nosso tempo


Greta Thunberg e a consciência social do nosso tempo

Paulo Sérgio Ribeiro

Iniciando os trabalhos em 2020, penso ser oportuno falarmos de Greta Thunberg, particularmente das tentativas de desqualificar sua intervenção na agenda ambiental.

Desde que recusou-se a frequentar a escola às sextas-feiras na longínqua Estocolmo para sentar-se diante do Parlamento à espera de medidas concretas contra o aquecimento global, tal iniciativa ganhou simpatia e adesão de outros jovens suecos e, doravante, repercussão em todas as latitudes do globo. De um protesto inusitado e inicialmente solitário, tomou vulto uma ação coletiva que conferiu a uma ainda adolescente – Greta completou 17 anos em janeiro deste ano - um assento em encontros relevantes tais como a Conferência do Clima da ONU e o Fórum Econômico de Davos e, não menos, notoriedade para uma indicação ao Nobel da Paz em 2019.

Contudo, o eixo de sua vida pública, por revelar os desdobramentos imprevisíveis e manifestamente catastróficos da relação entre sociedade e natureza que negligenciamos sob os princípios do desempenho, no plano individual, e do produtivismo, no plano societário, tem causado reações agressivas da extrema-direita que, atualmente, ganha proeminência no mainstream político da Europa e alhures.

Há duas razões, congruentes ente si, para o incômodo que Greta provoca em líderes ultraconservadores – Donald Trump, entre outros -, bem como para a perplexidade que seu ativismo desperta em cidadãos comuns: a) a possibilidade de delimitar um lugar não subalterno ao jovem na luta política; e b) o mal-estar que a questão ambiental suscita em nossa consciência diante da perspectiva de futuro que cultivamos no Ocidente.

No tocante ao item “a”, podemos dizer que, ao seu modo e circunstância, Greta filia-se a uma corrente de pensamento que encontra na rebeldia de jovens de classe média e alta sua expressão política e na revolução cultural experimentada nos anos 1950 e 1960 sua primeira feição paradigmática. Naquele cenário de época, rebelar-se contra as normas de conduta, longe de ser uma frivolidade juvenil, confirmava um sintoma da crise derradeira dos valores tradicionais e, tão logo, assumiria ares de ameaça real a uma ordem sócio-política cujos fundamentos jamais teriam na lealdade a gerações passadas um critério de legitimação.

Ora, alguém indagaria, então Greta Thunberg seria uma versão rediviva dos hippies ou beatniks? Seguramente, não. Todavia, como eles, Greta escancara uma obviedade: pôr em dúvida crenças arraigadas sobre as formas de agir no mundo será sempre um risco intolerável em dada estrutura de poder, pois esta assim se institui e perdura no tempo quando uma visão de mundo orienta os atos humanos sem a consciência dos seus agentes.

Em quaisquer épocas, é plausível supor, indivíduos ou grupos considerados “desviantes” são, no melhor dos casos, punidos socialmente com toda sorte de estigmatização. Aos olhos vigilantes de quem fala (ou é feito de ventríloquo...) em nome do status quo, a solidariedade social dependeria, pois, do controle estrito de quem “ouse” pensar para além do consentido.

Ora, por que imputar à Greta a alcunha de “pirralha”, se ela prova sua maioridade ao valer-se do próprio intelecto para julgar um fato sem concessões à autoridade do instituído?

Qual fato? A destruição irreversível do meio ambiente donde a vida humana retira sua condição de existência. Aqui, tocamos no item “b” que elencamos. Se, de um lado, temos uma perspectiva de futuro que toca o âmago da Modernidade, por outro, deparamos com a necessidade de matizá-la diante das contradições do capitalismo que se avolumam no tempo presente.

A perspectiva de futuro à qual aludimos é, sobremaneira, uma perspectiva utópica. Foi Jürgen Habermas quem magistralmente delineou a indistinção entre tempo histórico e utopia como traço exemplar da modernidade[1]. Para o filósofo alemão, o que nos singulariza como homens e mulheres modernos(as) é sermos partícipes de uma cultura que destronou a ideia cristã de um novo tempo como a “eternidade vindoura” para substituí-la por um horizonte de valores que encontra em nossa própria época uma configuração do futuro.

Noutros termos, a atualidade condensaria expectativas de mudança que não mais extraem de outras épocas as orientações normativas para prognósticos sobre problemas mundiais. “Abandonada a si mesma”, diz Habermas, a modernidade implica que enfrentar dilemas contemporâneos torna-se uma verdadeira “fuga para a frente” na qual eventuais virtualidades de uma tradição só ganhariam pertinência se justificadas por formas de pensar em permanente revisão. Esboçar projetos e programas, pois, traduzir-se-ia em disputar uma ideia de futuro.

Não obstante, as “energias utópicas” - que, há menos de um século, ainda comprometiam a luta política com a ideia de que poderíamos mobilizar recursos do próprio processo histórico no e pelo qual se vislumbrava estabelecer uma direção consciente - parecem ter chegado ao fim.

Tal sensação de esvaziamento da modernidade como experiência de significado também é debatida por Paulo Arantes. Em “O novo tempo do mundo”[2], o filósofo brasileiro desnuda o cenário da falência da sociedade do trabalho ao dimensionar a insegurança (não apenas econômica, mas, sobretudo, ontológica) que acomete populações inteiras, uma vez que estão condenadas a um estado de espera justamente porque não há mais uma grande narrativa histórica que sirva de lastro a uma grande expectativa. No lugar desta, vigora um encurtamento do futuro como promessa realizável. Nas palavras de Arantes:


Não basta anunciar que o futuro não é mais o mesmo, que ele perdeu seu caráter de evidência progressista. Foi-se o horizonte do não experimentado. Com isso o próprio campo de ação vai se encolhendo[3].


Ora, a sociedade de risco produzida pelo tempo intemporal da acumulação capitalista que coabita com uma espécie de tempo morto, isto é, o horizonte de expectativas frustradas de quem está coagido estruturalmente a esperar por nada ou, se muito, por um ganha-pão é, também, uma época de insurgência, pois, se o futuro figura como uma zona de incerteza, o impulso para a superação não será hipotecado para quando já estivermos mortos.

Parafraseando Arantes, Greta Thunberg e seus pares aceitaram o desafio de reencontrar o “futuro perdido” na justa medida em que a crise ecológica não os convida a adiar a tarefa. Apocalípticos? Não, apenas realistas.


[1] HABERMAS, Jürgen. A nova intransparência: a crise do Estado de bem-estar social e o esgotamento das energias utópicas. Novos Estudos CEBRAP, nº 18, set. 1987, pp. 103-114.
[2] ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.
[3] Op. cit., p.96.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Chamada artigos Revista Planície Científica - UFF/Campos

Prezadxs,

A Revista Planície Científica, periódico aberto para publicar trabalhos de graduandxs das Ciências Sociais e adjacências, está recebendo artigos para seu terceiro número.

A revista aceita artigos, ensaios, resenhas, resumos de monografia, relatos de pesquisa, contos, crônicas, poesias e entrevistas. Todas as normas estão disponíveis no link: 


Por fim, a revista é pilotada por Jacqueline Deolindo, Gisele Almeida, ambas professoras da UFF-Campos e pelxs graduandxs na instituição.

Divulguem, prestigiem e colaborem!

domingo, 5 de janeiro de 2020

Olhando a partir da planície: eleições 2020


Olhando a partir da planície: eleições 2020[1]

George Gomes Coutinho

O ano de 2020 será marcado no calendário político brasileiro pelas eleições municipais. Em um cenário ainda de alta polarização política nas redes sociais e fora delas, 2020 talvez repita parte da temperatura das eleições de 2018 em disputas locais, o que não quer dizer que necessariamente as suas dinâmicas e os resultados das eleições gerais serão mimetizados localmente.

Um país da extensão e da complexidade do Brasil apresenta configurações e alianças políticas locais que podem, em muitos casos, ser até mesmo contraditórias diante dos direcionamentos e opções adotadas nas eleições majoritárias de 2018.

Com tudo isso, as eleições de 2020 são importantes também por duas questões: 1) pode assumir localmente caráter plebiscitário de aprovação ou rejeição das inovações políticas adotadas no âmbito federal e nos estados onde houve a vitória eleitoral em 2018 de candidatos “novatos” para os respectivos executivos; 2) funciona como continuação do processo de implementação gradual e teste das inovações preconizadas pela Reforma Eleitoral de 2017, vide, por exemplo, a coligação partidária para os legislativos ser vedada já a partir deste ano.

Relacionada ao ponto 1 que mencionei acima, há a particularidade do estado do Rio de Janeiro onde governador e presidente, ambos novatos enquanto mandatários no executivo e unidos no início de 2019,  encontrarem-se neste momento em posição de conflito em virtude das particularidades geradas pelas investigações acerca do assassinato de Marielle Franco. Há uma relação tumultuada e por vezes agressiva entre os mandatários do governo federal e do executivo fluminense, isso a despeito de Bolsonaro e Witzel compartilharem de uma mesma base social, eleitoral e mesmos valores, símbolos, etc..

A aproximação de candidatos fluminenses para executivo ou legislativo de Witzel ou de Bolsonaro pode ser um ponto a dividir o eleitorado mais conservador no espectro político.

Feitas estas observações generalistas, vamos a alguns pontos específicos sobre Campos.

Conforme já disse em outro momento, Campos lida com o ingrediente da possibilidade de uma votação decisiva no Supremo Tribunal Federal neste ano acerca da distribuição dos royalties de petróleo. A hipótese da redução do repasse de royalties, dado o orçamento da prefeitura ser profundamente dependente destes recursos, é um problema político-administrativo de alta complexidade, para além da obviedade do estrago na economia local. Em virtude da profunda relevância do tema, a diminuição do repasse dos royalties, caso assim seja o resultado do entendimento do STF, certamente será tema de debate e “munição” política a ser utilizada na concorrência dos adversários em disputa. Mas, “tudo o mais constante”, ou seja, com o STF mantendo as regras tal como se encontram em vigor hoje, o tema não chegará “quente” ao segundo semestre. De todo modo, na hipótese de um resultado pró-redistribuição no STF, na disputa a diminuição de recursos será utilizada fartamente enquanto recurso político, de forma justa ou não.

Um ponto também a destacar é a possibilidade das eleições campistas demarcarem a consolidação da renovação geracional de candidatos a disputarem o executivo local. Caso se confirme, teremos desta vez quatro candidatos jovens detentores de um capital político familiar pregresso[2], incluindo evidentemente o próprio prefeito Rafael Diniz. De alguma maneira aqui teríamos uma renovação contraditória, tal como vimos em nível federal na Câmara dos Deputados: sem dúvida uma geração mais jovem dotada de um capital familiar herdado.

Neste cenário de “renovação contraditória”, se é viável a utilização deste guarda-chuva pouco preciso que chamam de “nova política”  pela questão etária e cosmética, a manutenção do capital familiar por vezes obriga relações permanecerem aliados ancestrais, quase pré-diluvianos.

Com tudo isso não implica, evidentemente, que a geração “Muda Campos” estará alijada de disputar o executivo. Mas, esta tem sido parcialmente substituída em termos geracionais neste pleito.

Quanto ao atual prefeito, Rafael Diniz terá um teste eleitoral duríssimo em outubro. Desta vez é vidraça e não mais pedra e lidará com uma opinião pública que o elegeu com farta dose de expectativas em um surpreendente primeiro turno nas últimas eleições municipais. Neste momento Diniz terá de lidar com esta mesma opinião pública impaciente, crítica, onde o prefeito precisará defender uma gestão que nem sempre trouxe boas notícias orçamentárias e implementou medidas impopulares em um contexto nacional recessivo que em nada o ajuda.




[1] Uma primeira versão das reflexões deste pequeno texto surgiu a partir das questões apresentadas pelo jornalista Aldir Sales do jornal A Folha da Manhã. A matéria em questão encontra-se disponível aqui: http://www.folha1.com.br/_conteudo/2020/01/politica/1256471-um-2020-que-iniciou-bem-antes.html
[2] Wladimir Garotinho, herdeiro da família Garotinho; Caio Vianna, filho de Arnaldo Vianna, ex-prefeito da cidade; Rodrigo Bacellar, filho do conhecido político e ex-sindicalista Marcos Bacellar e, por fim, Rafael Diniz, herdeiro tanto de Sérgio Diniz, seu pai, quanto de Zezé Barbosa, seu avô.